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A (não) mudança da hora afetará a sua carteira?

Como será a nossa vida – e a nossa carteira – se deixar de haver mudança da hora? Conheça a opinião de vários especialistas.

Em 1916, a decisão de atrasar e adiantar a hora todos os anos tinha como objetivo gastar menos energia. Mais de cem anos depois, a maioria dos cidadãos europeus quer acabar com esta tradição que, dizem, altera os seus padrões de sono.

Mudança da hora: como tudo começou

Foi durante a Primeira Guerra Mundial que se introduziu o hábito de mudar a hora duas vezes por ano. Com o objetivo de poupar carvão – a chamada Hora de Verão (HdV), ou Daylight Saving Time (DST), em inglês, nasceu com essa premissa. Mais de um século depois, a medida e o seu propósito mantêm-se: maximizar a utilização da luz do dia e, assim, poupar na fatura da energia. Porém, a mudança de hora nunca foi consensual.

Abolição em 2021, mas a conta-gotas

No verão de 2018, uma consulta pública da União Europeia junto dos cidadãos concluiu que as alterações de humor e o cansaço nos dias seguintes à mudança da hora não compensam os benefícios de poupança energética. Não obstante o carácter informal da consulta, os resultados serviram de base para uma votação no Parlamento Europeu que confirmou o fim da mudança da hora nos países-membros da UE já em 2021.

Consequências imprevisíveis

Apesar da decisão, a abolição da mudança da hora na UE ainda está longe de ser uma realidade. E pode avançar apenas para alguns países, o que criaria uma disparidade temporal nunca antes vista, desregulando o mercado interno e tendo consequências ainda imprevisíveis para a nossa carteira. Um dos países que torce o nariz à medida é, precisamente, Portugal.

O que dizem os especialistas

Rui Agostinho

“Poderia ser ainda melhor se a transição em outubro (saída da hora de verão) regredisse para finais de setembro”

“A melhor solução para a hora legal do país é a que atualmente existe. Porém, poderia ser ainda melhor se a transição em outubro (saída da hora de verão) regredisse para finais de setembro, como se fazia até 1995 na Europa”, explica Rui Agostinho, diretor do Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), entidade responsável pela hora legal em Portugal e que, em agosto de 2018, a pedido do Governo, elaborou um documento que defende a manutenção da mudança de hora. Além de ser o regime que, de acordo com o astrónomo, melhor se adapta a Portugal, esta tradição traz algumas poupanças energéticas, ainda que essa já não seja a principal prioridade do sistema. “O valor de poupança é, em média, inferior a 1%”, nota Rui Agostinho.

“Hora de verão leva a poupanças energéticas substanciais em alguns contextos”

Se o valor não é alto, a verdade é que o horário de verão está em “harmonia com a política de conservação de energia dos Estados-membros da UE”. Vários estudos têm concluído que a hora de verão leva a poupanças energéticas substanciais em alguns contextos. Em 2013, um operador da rede de transporte energética italiana estimou em 90 milhões de euros a poupança dos cidadãos daquele país com a mudança da hora, o equivalente ao consumo de energia de 180 mil casas.

Ricardo Cardoso Reis

“A mudança de hora não devia ser uma decisão a nível europeu, mas sim a nível nacional”

No puzzle dos diversos fusos horários, Portugal não pode queixar-se. Ricardo Cardoso Reis, do grupo de comunicação de ciência do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) acredita que, para países a latitudes médias, como o nosso, “há um benefício em manter a mudança”. Em países a latitudes mais a norte, por outro lado, essa mudança faz pouco sentido. “Num país como a Finlândia, que no verão tem zonas com 20 horas de sol e no inverno seis horas de luz do dia, a mudança não traz benefícios. E ainda causa o transtorno associado de terem de adaptar-se a uma hora diferente a cada seis meses”, realça. Face a estas especificidades, Ricardo Cardoso Pires defende que “a mudança de hora não devia ser uma decisão a nível europeu, mas sim a nível nacional”.

Pedro Miranda

“Acabar com a oscilação entre horários tem aparentemente um impacto positivo na saúde”

Ainda que as implicações sejam limitadas a nível financeiro, é certo que as nossas rotinas mudarão caso o Executivo português siga a decisão da Comissão de abolir a mudança de hora a partir de 2021. “Acabar com a oscilação entre horários tem aparentemente um impacto positivo na saúde, mesmo que pequeno”, considera Pedro Miranda, professor catedrático de Meteorologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). “Tendo desaparecido a razão principal da introdução da mudança – a economia de energia – porquê manter um sistema de horários oscilantes?”, questiona.

O impacto da abolição da mudança de hora nas principais indústrias europeias foi considerado irrelevante ou apenas parcialmente positivo. A grande preocupação centra-se na existência de vários fusos horários dentro da UE o que, a acontecer, causará uma descoordenação que pode custar largos milhões de euros. E mesmo que para Portugal faça sentido manter o horário atual, há que ter em conta outros fatores. Atualmente, Portugal mantém uma diferença de uma hora com a maioria dos países europeus, inclusive de Espanha, uma das nossas principais parceiras comerciais. Contudo, se o nosso país continuar a mudar os ponteiros do relógio de seis em seis meses e a Europa não, a confusão aumentará, o que pode prejudicar as relações económicas. É por isso que Pedro Miranda considera a decisão do governo “pouco sensata”.

“Dessincronizar Portugal da Europa tem certamente um custo económico e social relevante”

“[A decisão] não tem fundamentação científica minimamente consensual no que se refere ao impacto na qualidade de vida das pessoas. Por outro lado, parece ignorar um facto óbvio: dessincronizar Portugal da Europa tem certamente um custo económico e social relevante. Imaginemos a confusão nos aeroportos ou na comunicação internacional em reuniões à distância com Skype”, alerta.

Com um novo fuso horário europeu, muitas das multinacionias presentes em Portugal teriam de reajustar horários e comportamentos para se alinharem No limite, a diferença horária poderia condicionar a fixação de capital estrangeiro no país, o que motivaria uma consequência negativa, e indireta, para a nossa economia.

Hora de verão ou de inverno?

Se o Governo reconsiderar a decisão e avançar para uma hora única, outra questão se levanta: qual o horário ideal? “O menos mau seria manter o nosso horário o mais próximo possível da hora solar, ou seja, manter o horário de inverno. Desta maneira, o amanhecer dos dias de inverno seria por volta das 8h, tal como acontece agora, enquanto no verão teríamos o sol a nascer ainda mais cedo, perto das 5h, e a pôr-se perto das 21h”, argumenta Ricardo Cardoso Pires.

“Manter o horário de verão seria errado a vários níveis”

O responsável do IA mantém-se em sintonia com Rui Agostinho. No relatório que o diretor do OAL escreveu a título pessoal, conclui que a manutenção da hora de inverno tem impactos negativos, mas a hora de verão teria ainda mais. “O sol nasceria entre as 7h45 e as 9h durante cinco meses do ano, de outubro a março; mas sempre depois das 8h de novembro a fevereiro, inclusive”, explica. “Manter o horário de verão seria errado a vários níveis. Para começar, ficaríamos mais desfasados da hora solar. Mas o mais grave seria o amanhecer dos dias de inverno”, concorda Ricardo Cardoso Reis.

O especialista lembra que Portugal já testou este horário entre 1992 e 1996, juntando-se ao fuso horário do resto da Europa (CET), com o sol a nascer perto das 9h. “Ou seja, à hora em que a maioria da população ativa está a acordar. Assim, dirigíamo-nos para o trabalho e para a escola ainda de noite.” Em causa estaria a produtividade da população mas também as eventuais disrupções de trânsito.

Já Pedro Miranda reconhece que “o horário de verão é mais interessante porque levantamo-nos a tempo de ir trabalhar ou estudar, e não com o sol. Ou seja, aproveitamos mal o início da manhã, mas usamos bem o fim da tarde”. Mais do que a fatura energética, esta é uma questão de rotinas. E prepare-se: qualquer que seja a decisão do Governo, o mais provável é que a sua vida mude um bocadinho – e mesmo que a carteira sobreviva intacta, a verdade é que, de uma maneira ou de outra, qualquer alteração a este status quo vai impactar indiretamente com as suas finanças.

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