Covid-19: como três IPSS portuguesas vivem os dias incertos da pandemia

AURPIA, UNAGUI e Santa Casa da Misericórdia da Aldeia Galega de Marceana são três dos milhares de IPSS que, em todo o país, cerraram fileiras para proteger os seus utentes contra a Covid-19. Saiba como chegaram até aqui e de que modo vivem os dias incertos.
Artigo atualizado a 04-05-2020

Evitaram o contacto dos utentes com o exterior, reforçaram as medidas de higiene, compraram equipamento de proteção e estabeleceram um plano de contingência de longo prazo para os funcionários e colaboradores. No início de março, milhares de Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) portuguesas prepararam-se para a ameaça da doença Covid-19, cujo surto afetou de modo profundo o dia a dia da sociedade.

Para perceber como a pandemia afetou o setor da Economia Social, o Ei falou com três IPSS portuguesas, todas com diferentes respostas sociais. Em comum, a AURPIA, a UNAGUI e a Santa Casa da Misericórdia da Aldeia Galega de Marceana têm ligação à Fundação Montepio: as três instituições receberam carrinhas adaptadas através do projeto Frota Solidária, financiado pela consignação do IRS que, todos os anos, os portugueses podem destinar. Saiba como pode contribuir para esta causa, sem custos para si.

Uma Frota ainda mais relevante

“Fechámos as portas do Centro de Dia muito cedo, só utentes e funcionárias puderam entrar. Mais tarde, encerrámos o espaço e a maioria dos utentes ficou com o serviço de apoio domiciliário”, explica Carla Silva, diretora técnica da AURPIA (Associação Unitária dos Reformados e Pensionistas da Amora).

Gerir uma centena de utentes à distância, em plena pandemia, não é fácil. Quando o país parou, uma das prioridades da AURPIA foi reformular o horário dos funcionários, para garantir uma resposta adequada em qualquer situação. “Duas funcionárias ficaram em casa porque são grupo de risco. Por outro lado, as 8 funcionárias da cozinha começaram a trabalhar em espelho (quatro por semana), assim como as responsáveis pela secretaria (de dois em dois dias) e as do serviço social (três colegas revezam-se a cada semana). A nível global, o atendimento familiar passou a ser feito por telefone ou email.

Outra das prioridades passou por comprar equipamento de proteção na fase inicial do surto do novo coronavírus, tarefa que se veio a revelar exigente do ponto de vista financeiro. “Pagámos preços exorbitantes pelas máscaras e desinfetantes”, garante Carla Silva. A instituição adquiriu ainda termos descartáveis e reforçou o número de refeições diárias. “Estamos a fazer 230 refeições por dia, porque temos de distribuir almoço e jantar, incluindo aos sábados, domingos e feriados. Para além do serviço de apoio domiciliário, damos resposta à cantina social”, confirma.

Além das refeições, a AURPIA apoia os seus utentes na distribuição de medicamentos e faz a ligação com o centro de saúde local. É na área da higiene que a carrinha adaptada oferecida pela Fundação Montepio, através do projeto Frota Solidária, ganha uma relevância especial. “Muitos utentes não têm condições para tomar banho em casa e têm de vir ao nosso centro. A carrinha da Frota Solidária é essencial para levar os utentes de cadeira de rodas a tomar banho, mas também para levar utentes ao hospital e centro de saúde”, continua Carla Silva. Nestes casos, garante a responsável, é transportado apenas um utente de cada vez, com uma funcionária para apoiar. “Neste momento a higienização da nossa carrinha da frota solidária, assim como as outras que possuímos, o chão é lavado com água e lixívia, os plásticos passados com toalhitas desinfectantes que adquirimos”, acrescenta.

Mas a pertinência da carrinha oferecida pela Frota Solidária vai além da área da saúde. “É uma grande mais-valia. Levamos os nossos utentes aos bancos, para levantar a reforma. A carrinha da Frota Solidária tornou-se ainda mais relevante nesta fase”, conclui.

Prioridade? Mente sã em corpo são

Prevenir é sempre melhor que remediar. Em Guimarães, a UNAGUI encerrou as atividades no princípio de março e todos os 200 utentes estão a cumprir a quarentena nas suas casas. “Os meses de março e abril têm sido complicados e muito duros para os nossos utentes, todos num quadro etário de grande risco: entre os 70 e os 90 anos”, explica o presidente da instituição, José Inácio Menezes.

Com o distanciamento social garantido, a UNAGUI colocou em prática um plano que ajuda os seus utentes a ultrapassaram os dias incertos com frescura física e mental. “O confinamento em casa e o tempo prolongado desta situação torna tudo mais difícil e penoso para as pessoas mais idosas. No entanto, temos bastantes trabalhos preparados pelos professores para que os nossos utentes possam manter alguma atividade mental e física”, garante o presidente da cooperativa social e cultural.

À espera da retoma está a carrinha solidária oferecida pelo projeto Frota Solidária. “Continuará a ter uma importância muitíssimo relevante quando voltarmos a ter uma atividade diária normal, com o transporte dos nossos utentes de casa para a UNAGUI e vice-versa”, conclui José Inácio Menezes.

Da pressão do dia a dia às saudades da família

Em Portugal, existem 6 500 entidades proprietárias de equipamentos sociais, de acordo com a Carta Social. O número é conservador e reflete, em parte, uma população envelhecida e vulnerável. Apesar de tudo, muitas IPSS foram das primeiras instituições portuguesas a reagir ao surto do novo coronavírus.

“Tivemos que ajustar tudo. O funcionamento e horários das funcionárias. Por exemplo, as funcionárias que estavam na nossa creche, que fechou, foram para o lar. E mudámos as rotinas de distribuição de utentes”, explica Carla Nunes Pereira, provedora da Santa Casa da Misericórdia da Aldeia Galega da Marceana.

Uma das principais preocupações prendeu-se com a escassez de equipamentos de proteção. “Já tínhamos algum equipamento, sobretudo máscaras, mas tivemos que adquirir mais, numa altura em que os preços triplicaram. Também comprámos viseiras a preços elevadíssimos”, confessa a responsável. Com o decorrer dos dias, a solidariedade ganhou tração. “A câmara deu-nos 30 a 40 viseiras. E já disponibilizamos máscaras a outras misericórdias que não tinham”, continuou a responsável.

Muito se passou nos últimos meses. O Estado de Emergência foi declarado pela primeira vez em 45 anos, os portugueses viram-se obrigados a permanecer em casa e a pandemia expandiu-se para todo o mundo. Segundo Carla Nunes Pereira, porém, “a pressão continua a ser igual à do primeiro dia”. Mas também existe “uma grande responsabilidade” em cuidar dos 71 utentes do lar. “Por vezes tira-nos o sono”, admite a provedora.

Na Santa Casa da Misericórdia da Aldeia Galega de Merceana, a vida não pode parar, apesar da pouca ajuda externa com que podem contar. Três vezes por semana, a instituição assegura que alguns utentes continuam a fazer diálise. Cada ida ao posto médico implica uma rotina cada vez mais pormenorizada. “Os utentes têm sempre que trocar de roupa ao reentrar no lar”, refere a responsável.

A instituição continua a garantir o apoio domiciliário de 40 utentes, além da distribuição de refeições. Todos esperam o momento em que um pouco de normalidade regresse às suas vidas. “Os nossos utentes têm muitas saudades das famílias”, desabafa, em modo de conclusão, a responsável.

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