“Na cultura, as mulheres influenciam-se mutuamente. É um movimento natural”

“Na cultura, as mulheres influenciam-se mutuamente. É um movimento natural”
12 minutos de leitura
Fotografias de Rodrigo Cabrita
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Encontrámo-nos com A Sul a norte, mais precisamente nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto. “Adoro o Porto, adoro o Norte”, confessou-nos antes de partirmos para hora e meia de conversa sobre música, as memórias de infância, a família, mas, sobretudo, a celebração da vida, mesmo que esta tenha como ponto de partida o seu oposto, a morte.

A Sul é Cláudia Sul, 29 anos, sonoplasta profissional e música em formação. O álbum de estreia Quer, Quer, Quer, lançado em fevereiro, é já uma das grandes surpresas de 2026, misturando vários estilos musicais e contando a história da sua família paterna a partir da casa da Vila Boa, em Viseu.

Vieste ao Porto de propósito para o festival Primavera Sound. Que artista te surpreendeu?

Vim, especificamente, para ver Gorillaz, uma das bandas que acho mais completas, tanto sonora como visualmente. Adoro o conceito de juntar uma equipa [multidisciplinar], uma pessoa de design, outra mais musical, e partir daqui para construir os personagens. Quando começaram, em 1998, ninguém estava a fazer aquilo. São inovadores.

São mesmo.

E depois têm um som muito flexível, muito plástico, que eu adoro. E ajuda-me muito [a construir a minha própria música], são uma grande referência.

O facto de agora estares em palco, a tocar a tua música, mudou a forma como vês os concertos dos outros?

Consigo abstrair-me. No concerto dos Gorillaz estava muito feliz, só a ouvi-los e a dançar. Mas sem dúvida que os concertos são sempre um momento de recolha de ideias, referências, perceber o que as pessoas estão a fazer, o que fazem entre as músicas. Ajuda-me a lidar com as fragilidades que sinto quando estou, eu própria, em concerto.

E vês como as pessoas reagem àquilo que os artistas fazem, o que funciona e o que não funciona?

Sim, e já fiz aquela coisa de puxar pelas pessoas, que é complicado. Ainda por cima, quando não se é muito conhecida, é ainda mais desafiante. Como é que eu puxo pelas pessoas se elas nem conhecem as músicas? Num concerto, já não me lembro qual, reparei que, quando o vocalista se afastava do microfone e a música continuava, o público tinha a necessidade de preencher esse silêncio de voz. E comecei a fazer o mesmo. Quando quero que as pessoas comecem a cantar, por exemplo nos momentos de letra fácil ou repetição de uma palavra, afasto-me do microfone. E as pessoas, de facto, alinham.

Estás a mexer com a cabeça das pessoas que vão só para ver, mas, muitas vezes, acabam também por cantar.

Sem dúvida. Há tanta coisa que gostava de melhorar no momento do concerto, que me motiva a tentar. Por exemplo, gostava de me ligar mais ao lado teatral da música. Porque o teatro, e os atores, têm esse lado de performance, de encarnar uma personagem. Sou uma pessoa tímida, mas sinto que há um impacto diferente quando a pessoa tem aquela postura de “eu estou aqui, esta é a minha música, esta é a minha banda, e isto é um espetáculo”. E eu ambiciono trabalhar esse lado cénico.

Depois de “Já Agora”, EP lançado em 2019, Cláudia Sul surpreendeu com um álbum conceptual, “Quer Quer Quer”. E já está a preparar outro trabalho

Ao ouvir o teu álbum, Quer Quer Quer, surpreendeu-me o facto de abraçares muitos géneros musicais: há flamenco, música ligeira portuguesa, música mais tradicional, música popular brasileira (MPB) e até jazz. É difícil perceber qual é o teu género.

O álbum foi um processo orgânico. Quando as ideias para as músicas surgem, parece que já trazem com elas um selo musical: isto vai ser assim. Por vezes, não sou eu quem decide o que vai ser. E a partir do momento em que se percebe qual é a orientação, é como se a música fosse uma entidade que já vem com a informação e só tenho de a materializar. Só nesta fase vou ver as referências. Porque é que a MPB soa a MPB? Como nos identificamos nisso? É muito giro de explorar.

Portanto, tens uma melodia na tua cabeça e procuras dar-lhe um corpo. A letra só vem depois?

Sim, sim.

Escolhes o caminho e vais inspirar-te com músicas daquele género musical. Depois vais para o piano, ou pegas numa guitarra…

Ultimamente tem sido mais piano, mas costumam ser os dois. E isso também é interessante, porque sinto que as músicas que surgem no piano e as que surgem na guitarra têm auras diferentes. Quando tenho as ideias para a melodia, já sei qual vai ser o ritmo, o que me orienta para o que vou fazer depois. Mas parte sempre mais da melodia do que propriamente das palavras.

Se for uma coisa mais jazz, vais buscar os acordes de jazz. Se for uma coisa mais MPB, vais buscar toda aquela estrutura densa, as inversões. Se for uma coisa mais ligeira, vais buscar os acordes mais tradicionais.

Acho que não é tanto no momento de composição que vou beber das referências, mas mais no momento de produção. A composição é muito orgânica e tranquila, é uma demo muito direta.

Tens formação musical ou és autodidata?

Tive educação musical no quinto ano, na escola básica [risos]. Tocava flauta.

Isso é formação musical. Tens tu e três milhões de portugueses.

[Risos]. Olha, andei num coro infantil dos 10 aos 13 anos, mas senti que não era bem aquilo, apesar de gostar muito de cantar e de ter tido sempre música em casa. O meu pai adora cantar, o meu avô tocava piano, havia sempre muita música e sempre senti que cantar era natural. Por isso, mais tarde procurei ter mais formação e tive aulas privadas de voz.

Cláudia Sul é autodidata e compõe à guitarra e ao piano. Mas o género musical das canções começa muito antes, na sua cabeça

Família, palco e memória

É raro existirem discos conceptuais em Portugal. Mas o Quer Quer Quer, além de ser um disco de conceito, baseia-se em factos reais, usando a morte para falar do seu oposto, da celebração da vida…

O ponto de partida foi ter perdido o meu avô. Tinha 24 anos e, embora conheça imensa gente que perdeu familiares bem cedo, foi a primeira vez que perdi alguém. O que é isto de um dia termos uma pessoa e depois deixar de tê-la? Foi mesmo assustador.

Mas foi algo pensado desde o início ou a dor da ausência levou-te para este caminho?

Senti que, quando pegava na guitarra e surgia alguma ideia, a minha cabeça ia para este tema. Então, comecei a ver um chamamento para focar-me a sério nele. A música Gin, por exemplo, é uma carta para o meu avô. E comecei a pensar: já que estamos assim, vou assumir que estou a falar disto e entrar a fundo no tema. Lembro-me de ter feito o desafio de fazer um disco sobre a morte, sobre o luto, e como nos afetam, como nós os processamos.

Este processo foi também uma forma de te dares permissão para chorar?

Foi mesmo uma aceitação, o momento de falar disto. Mas as músicas são sempre muito orgânicas e comunicam entre si, até porque tento não forçar nada. Se a letra não vem, tudo bem, já tenho a melodia, vou passear, vou viver. E se calhar na semana seguinte tenho a resposta para aquela frase. Confio no processo criativo e estou muito ligada à minha intuição.

É nessa altura que vais para casa dos teus avós, em Viseu?

Esse foi um grande desbloqueio que tive. Chamei-lhe residência artística, um momento criativo onde aproveitei para estar com eles. Nessa altura, o meu avô já estava muito frágil, e já não tive muitas outras oportunidades para estar com ele. Já não houve tempo de qualidade, por isso ainda bem que fui. Essa semana foi determinante para o disco soar como soou, para as frases e as letras.

Li que captaste sons da casa dos teus avós. Isso é engraçado porque juntas os teus dois universos — o profissional, como sonoplasta, e o de compositora. O que fizeste aos sons?

Queria mesmo perceber o que me remete, sonoramente, aos meus avós, o que me remete a casa, o que soa familiar. Cheguei a gravar a respiração do meu avô quando ele dormia. Que, na música, é só mais uma ambiência. Mas o facto de estar lá dá-me uma sensação de calma, não sei explicar. E a casa dos avós tinha muitos sons específicos, por exemplo aqueles relógios antigos. Interessava-me fazer essa recolha, perceber o que sonoramente me remetia à família, à memória.

Não é apenas a tua intimidade que está no disco, mas também a da tua família. Eles compreenderam e aceitaram o teu caminho criativo?

À medida que fui avançando com o processo criativo, eles foram percebendo o que eu estava a fazer. E diziam: “Que bom, estás a falar sobre amor.” Tive um grande apoio e tenho muita sorte nisso. Mas este disco não é sobre o meu avô, é sobre perder alguém. E o perder alguém deixa de ser pessoal. É uma dor coletiva. Toda a gente passa por isso. E se formos mesmo crus e sinceros, acaba por ser uma dor de todos. Portanto, não há esse lado mais negativo de expormos uma perda nossa.

O teu avô ouviu o álbum?

Não.

E a tua avó?

A minha avó ouviu, sim, e até esteve no concerto de lançamento, em Lisboa. Veio de propósito de Viseu. Aliás, estavam as minhas duas avós, a avó Rosa e a avó Acácia.

Com músicas tão pessoais, quando estás no concerto és a Cláudia ou és a performer A Sul?

Sou um misto das duas e gostava que essa junção fosse mais diluída, porque sinto que há ali uma energia diferente.

A Mallu Magalhães disse-me que evita escrever músicas tristes porque depois fica anos a cantá-las. E é engraçado como é que duas pessoas, duas artistas, conseguem ter visões tão diferentes na abordagem das músicas.

Mas, olha, admito que há algumas músicas muito complicadas de cantar, especialmente a música Vinho de Caixa. No concerto, decidi contar o contexto da música antes de a cantar. E pensei: “Não vou voltar a fazer isso num concerto.”

Foi um momento tenso?

Sim, mas sou muito apologista de não limitar o público à sua interpretação da música. Por isso, sou muito cuidadosa na forma como falo sobre elas, não quero balizar o que é a música. Uma pessoa que não conhece a minha história vai só ouvir a música. E, para ela, vai fazer sentido da forma como fizer.

As pessoas tendem a personalizar as músicas. Aliás, é assim com a arte em geral.

Uma pintura, para mim, pode ser uma coisa, e para ti pode ser outra completamente diferente. Se calhar lembra-te uma memória que tiveste há uns anos, umas férias. Para mim, se calhar não me diz nada. E isso é o bonito da arte: é para todos. E faz-nos refletir no que já passámos.

Há uma música em que cantas: “Tenho metáforas no corpo todo.” Foi uma frase que o teu avô disse e que transformaste em canção.

Foi um momento muito estranho. O meu avô disse isso muito descontraidamente, confundiu as palavras. E nós ficámos: “Epá, que lindo.” Mas também péssimo, não é? Guardei aquilo e mais tarde, quando surgiu, comecei a escrever.

As canções que tocam

O tema desta edição da Revista Montepio é “Ser Possível”. Quando é que o Quer, Quer, Quer passou de uma ideia vaga a ser, de facto, possível?

Acho que foi depois de me ter ido embora de Viseu. Lembro-me que, nessa semana, comecei a conseguir criar a tal narrativa entre os meus temas. Começou a fazer sentido.

Gostava de falar de três músicas desse álbum. A primeira é Tela, a que chamo música-fantasma, ou música-ausência, porque é muito cinematográfica, muito etérea. Como chegaste a ela?

Esse foi o sumo imediato dessa semana, na qual senti que estava a passar por um processo mágico. Estava muito inspirada e tudo corria bem. Tive as primeiras ideias para esta música no início da semana e consegui acabá-la no fim da semana. E foi mesmo assim… Uau, o que se passou aqui?

É daqueles momentos de inspiração.

Se eu senti, alguma vez na vida, aquela ideia de termos o canal aberto e deixarmos a coisa passar por nós, foi a fazer a Tela. As palavras vieram rapidamente e acho que temos de aproveitar estes momentos e levá-los a sério. Não haver interrupções. Se sentimos que estamos a ser criativos, não interrompemos. “Ah, mas tenho o jantar agora.” Se calhar o jantar não é o mais importante [risos]. Mas é engraçado porque o meu imaginário da Tela é muito o que tu disseste, a casa abandonada, as cortinas a esvoaçar. E escrevi-a no piano do meu avô. Comecei mesmo a imaginar a história a acontecer. E consegui depois fazer os outros versos. “Está junto à minha janela”… é muito visual, não é?

É muito visual, sim.

Nessa semana, levei um livro de contos de Edgar Allan Poe porque sabia que o tipo de escrita dele poderia ser uma grande referência. Ele é muito expressivo, muito cru e grotesco, e levei-o para me inspirar. E foi engraçado porque deparei-me com um conto que é sobre um pintor, quando já estava a trabalhar na Tela. Comecei a sentir ali um clique, que o conto ia dar-me as respostas. E deu. E ajudou-me a concluir a música. O universo estava todo a querer que eu fizesse isto.

A segunda música de que te quero falar é Era Farfisa que, julgo, é uma música muito antiga feita pelo teu pai. E que tem um diálogo em família no meio.

Essa conversa é verdadeira e estávamos em viagem. Tínhamos acabado de ir ao hospital ver o meu avô, e os meus pais ligaram à minha avó para dar notícias. E eu decidi gravar a conversa. Estávamos todos muito tristes, mas o meu pai teve o cuidado de a tentar fazer rir. E o disco espelha muito essa coisa de isto é mau, mas o riso ajuda-nos a lidar com as coisas, e é mesmo muito sério. E os meus pais, nessa chamada, tiveram essa sensibilidade.

Se o teu álbum fosse um filme, esta música era o trailer.

Se calhar, sim [risos]. A melodia faz parte de um instrumental do meu pai. Tínhamos acabado de digitalizar umas cassetes dele, composições antigas, e de repente passou esta música e perguntei-lhe se podia usá-la no disco. E ele ficou todo contente: “Claro que podes”. É um tipo de som muito nostálgico, e para um amador, para alguém que se calhar nunca teve formação musical, é quase requintado.

A última música é Vinho de Caixa, que fala do terço, do pão quente, de tudo isso. Porque é que são sempre estes pequenos detalhes que ficam das músicas?

Foram coisas que observei da dinâmica dos meus avós. O vinho de caixa, em si, foi muito impactante, porque o meu avô era agricultor e produzia vinho. Nessa semana, como o vi já mais debilitado, reparei que já não havia o vinho dele, mas aquelas caixas [do supermercado]. E lembro-me de ter pensado que nunca mais teríamos vinho do meu avô.

É uma coisa muito semiótica. Sabes o que se está a passar, não é preciso ninguém dizer nada.

Exato, é isso. E pronto, foi daí que surgiu a ideia dessa música, que é uma conversa entre eles os dois. Mas para mim o imaginário dessa música é a casa dos meus avós, lá em Vila Boa [Sátão, Viseu]. O meu avô pode já não estar cá, mas ainda estão a falar. Não foi nada fácil acabar esta música, teve muitas versões, mais longas ou mais curtas. Eu só sabia que queria que acabasse num lado mais dançável.

A Sul já está a preparar o próximo álbum e elegeu o piano como o principal instrumento de composição

Quem é A Sul?

Quando A Sul lançou o EP (Extended Play, um mini-álbum) Já Agora, em 2022, muitos se perguntaram como é que uma autodidata sem experiência na indústria conseguiu construir um conjunto de canções tão estruturadas. Durante um ano, o EP foi um segredo bem guardado entre melómanos: “Já ouviste isto?” Em 2023, quando recebeu o prémio Novos Talentos Fnac com a música Bleba, o segredo acabou.

“Nessa altura, recebia muitos nãos. Estava à procura de casa, estava à procura de trabalho, era tudo não, não, não. E depois ganhei esse prémio”, explica. Com a notoriedade do prémio, A Sul partiu para a composição e produção de Quer, Quer, Quer, o álbum de estreia, lançado em fevereiro de 2026.

Cláudia Sul cresceu em Loures, numa casa onde a música viajava através das composições do pai, e encontrava em casa dos avós, na aldeia de Vila Boa, Viseu, o piano que se tornou uma peça central na sua carreira. Hoje, Cláudia é sonoplasta profissional, edita diálogos para cinema e confessa adorar aquilo que a maioria dos técnicos considera a parte mais chata do trabalho: “Gosto de limpar o áudio, montar os ambientes, montar os efeitos. Adoro tudo, tudo, tudo.” São estes dois mundos — o som como ofício e a canção como necessidade — que definem A Sul antes de sequer chegar ao palco.

O concerto de apresentação do álbum aconteceu a 22 de abril na Casa Capitão, em Lisboa, uma sala de dimensão íntima que serviu que nem uma luva a um disco feito de memórias de família. Em palco estiveram Catarina Branco, Inóspita, Gonçalo Bicudo, Marta Fonseca, Pedro Almeida, Bonança, Mariana Ferreira, Francisca Sarmento e até o pai, Carmelino Sul. Sentadas na primeira fila estavam algumas avós dos músicos, incluindo as duas da intérprete principal. Em setembro, A Sul sobe ao palco do Kalorama, o primeiro grande festival de música que a recebe. Com ou sem avós, será mais uma etapa de uma carreira em ascensão.

A música como profissão

Há um momento em que uma artista no início de carreira consegue viver só da música. Já chegaste lá?

Eu gostava de manter um híbrido saudável. Gosto muito de fazer música, mas também gosto muito de fazer som. E sabe-me bem voltar ao cinema de vez em quando, até porque sinto que isso também alimenta o regresso à música. Gostava que a música fosse ainda mais sustentável, claro, e que só o facto de ter este projeto, fazer os concertos, ter as músicas, me ajudasse a estar tranquila financeiramente.

Há uma nova geração de artistas, compositores e intérpretes mulheres em Portugal, seja qual for o tipo de música. Como mulher, como vês este movimento?

É certamente motivante. Ao ver tantas mulheres que admiro, que me falam [através da música e da cultura], dá-me foco para fazer isto e ir atrás do que quero fazer. E influenciamo-nos mutuamente, há um ciclo de ida e volta. E assim se cria um movimento natural de aparecerem mais e mais mulheres a criar.

Não é só na música portuguesa. Coloco neste movimento a Taylor Swift, a Olivia Rodrigo, a Rosalia.

Acho que há uma forma diferente de olhar para a música, o que enriquece todo o panorama musical. Há uma outra sensibilidade e uma forma de lidar com a composição, especialmente nas letras. É refrescante [ouvir uma música] escrita por uma mulher. E sinto-me muito inspirada agora, por exemplo, por compositoras como a Catarina Branco. Sinto que ela está constantemente a desafiar-se, não tem medo de explorar temas mais escuros, mais complicados. E só o facto de nos darmos e de convivermos também alimenta a minha música e o que quererei fazer.

Este movimento poderá estar relacionado com o facto de vivermos hoje numa sociedade com muito mais ameaças às mulheres ao nível político, económico e social do que há 20 anos? Pode ser quase uma resposta ao que se está a passar?

Sim, certamente. A sociedade regenera-se e consegue, mesmo nas alturas mais negras, ter coisas positivas. E demonstra uma necessidade de se expressar: nós estamos aqui e queremos dizer isto. O mundo está assustador e precisamos de ter mais vozes a fazer canções. Há um movimento opressor e o facto de haver mais mulheres [a criar] faz o movimento contrário. Há um movimento expansivo da voz feminina. E isso é muito necessário.

Onde te vês nos próximos dez anos? Para onde vai a tua carreira?

Tenho já um novo álbum a cozinhar, a minha cabecinha já está no outro disco. Sinto que encontrei o que gosto de fazer e estou muito motivada a explorar estas ideias. O álbum Quer, Quer, Quer foi o luto, a morte. E agora estou numa etapa muito mais ligada aos temas do amor, desconstruir o que é o amor. Ainda por cima, hoje em dia, temos conceitos de amor muito formatados com o que conhecemos. E interessa-me também entrar por aí. Estou mais no amor, na paixão. Quero muito mergulhar nisso.

10 perguntas-relâmpago a A Sul

1. O que fazes quando uma música tua passa na rádio?

Fico contente e às vezes canto por cima. E aumento o som.

2. Qual é a tua música que o público mais gosta?

Talvez a Metáforas ou a Bleba. Acho que são as maiores.

3. Que canção compuseste em menos tempo?

Uma canção que ainda não saiu. Escrevi-a de uma rajada, numa manhã. Tinha a letra toda, tinha a música, tinha tudo. Estava ao piano, fiz uma sequência de acordes comecei a repeti-la. E as palavras começaram a vir, foi mesmo muito espontâneo. E nesse dia acabei a música.

4. Quem te deu o melhor conselho no mundo do espetáculo?

Talvez o Filipe Melo. Enviei-lhe o EP [Já Agora, de 2022] e ele deu-me um feedback muito positivo, disse que gostou muito. E comentou: “Olha, por favor, nunca comprometas a tua visão artística por ninguém. Nunca vendas a tua visão.”

5. Nas entrevistas, qual é a pergunta que mais te fazem?

Perguntam-me muito sobre a história da música Metáforas. Talvez seja essa.

6. Qual foi o primeiro álbum que compraste com o teu dinheiro?

Lembro-me de comprar o Unplugged in New York, dos Nirvana, mas não foi o primeiro. Esse não me lembro.

7. E o primeiro livro?

Foi do Miguel Torga, em segunda mão numa feira do livro.

8. Se pudesses escrever uma canção com qualquer artista do mundo, vivo ou morto, quem escolheria?

A Ella Fitzgerald. Só porque queria estar ao pé dela e gostava de pedir-lhe um autógrafo. Acho que ela ia ser bem querida.

9. E alguma canção tua que sentes que só consegues cantar com determinado estado de espírito?

Sim, há uma música que já não canto há muito tempo, que é a Caminho e Meio. Precisa de uma energia específica e não a tenho sempre.

10. Qual das suas canções representa mais a Cláudia fora dos palcos?

A Bleba espelha muito a minha personalidade.

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