Criatividade sem limites: quando os artistas fazem tudo

Criatividade sem limites: quando os artistas fazem tudo
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á não há uma única forma de criar. Num tempo de ferramentas acessíveis, carreiras fragmentadas e identidades em permanente construção, muitos criadores escrevem, compõem, filmam, performam, produzem. Este é o retrato dos artistas que não sabem, ou não querem, ficar num só lugar.

“Um dia tive de escolher: ou sou fotógrafa ou sou bailarina.” Olga Roriz conta que estava a começar a carreira quando colocou o seu futuro entre estas duas artes. “Eu fui o alter ego da minha mãe, que queria ser artista e a minha avó não deixou. Talvez por isso os meus pais tenham feito um esforço muito grande para eu trocar Viana do Castelo por Lisboa.”

Naquela altura, a bailarina e coreógrafa, que continua ativa aos 70 anos, era uma criativa de mão-cheia: escrevia, fotografava e tirou o curso de design de interiores. “Artista iria ser”, afirma à Revista Montepio. Ganhou a expressão corporal. “Era difícil andar na minha casa. Já não podia entrar na cozinha por causa das tinas de revelação de fotografia. Tinha um minilaboratório. Foi aí que assumi a dança”, recorda.

Há pessoas que são assim: multifacetadas, talentosas, criativas. Mulheres e homens do Renascimento que aliam a arte, o pensamento crítico, as capacidades técnicas e uma curiosidade intelectual ampla. Autênticos “bichos carpinteiros”, incapazes de ficar num só lado sem piscar o olho ao outro.

O publicitário Hugo Veiga é assim desde que se lembra. “A minha mãe diz-me que, quando tinha 4 ou 5 anos, estava sempre a criar.” Natural da Maia, Hugo foi estudar para Lisboa, integrou um grupo de atores e guionistas e trabalhou em projetos como A Revolta dos Pastéis de Nata ou Sempre em Pé. Fez teatro de improvisação, dobragens para desenhos animados e acabou por entrar no mundo das agências de publicidade, onde se tornou um dos criativos portugueses mais reconhecidos.

“Esta vertente criativa esteve sempre presente na minha vida e procurei nunca ficar preso em caixinhas”, afirma à Revista Montepio. Em 2005, trocou Lisboa por São Paulo, no Brasil, cidade onde teve a honra de fundar, em 2013, uma das agências de publicidade mais criativas do mundo: a AKQA. Nesse ano, foi considerado o melhor copywriter do mundo no Festival de Cannes, sendo responsável, entre outros trabalhos, pela icónica campanha Real Beauty, da marca Dove. “Gosto muito de publicidade, adoro criar, pensar e posicionar marcas, encontrar novos caminhos. As marcas acabam por ser uma nova plataforma para aplicar a criatividade. Adoro este tipo de desafios.”

Entretanto, na sombra, Hugo pensava em novas formas de criar. O primeiro livro, Fricções, surgiu em 2015. O alter ego musical, Gohu (Hugo ao contrário), nasceu em 2020, quando já vivia em Miami, nos Estados Unidos. “Gosto de experimentar coisas e de me colocar fora da zona de conforto, porque é aí que se aprende mais.” Hugo admite que não tem uma voz incrível — embora esteja finalmente a ter aulas de canto —, mas não pode fazer nada: as músicas continuam a aparecer-lhe na cabeça. “Tenho de fazer ajustes para, dentro das minhas limitações, conseguir passar as emoções”, confessa. “Mais do que um cantor, sou um intérprete, e isso pode ser feito de várias formas. Algumas músicas são quase um teatro cantado, mais do que algo propriamente lírico.”

No dia em que falámos, Hugo, que regressou a Portugal em 2025, tinha acabado de fazer a primeira parte da banda Táxi, no Coliseu do Porto. “Tocar em casa é um espetáculo e o pessoal aderiu”, contou emocionado.

Gohu fotografado por Rui Ribeiro no Coliseu de Lisboa. O publicitário, que regressou a Portugal em 2025, tem “bicho carpinteiro” criativo

A música como expressão final

Será a música a arte mais unificadora de todas? Para o performer Humberto, ex-jornalista, escritor e ator, a música foi uma extensão natural da sua arte. “Quando era professor no mestrado de Performance Making, no Goldsmiths College, em Londres, conheci pessoas da área da composição sonora e montei uma banda de música”, conta, com a simplicidade que marca também o relato da sua infância.

Filho de pescadores e agricultores, Humberto cresceu numa aldeia perto de Peniche, que, aliás, homenageia na música Fola. “Venho de um meio mais pequeno e nunca pensei ser possível ser artista”, recorda. Trabalhou desde os 14 anos e, na universidade, seguiu a área da comunicação. “Sempre tive uma ligação muito forte à poesia. Depois comecei a entrar mais na cena do teatro, da performance, do teatro físico, do novo circo”, explica.

Desiludido com o jornalismo, deu o salto para a área da cultura. Primeiro em Portugal, como produtor de conteúdos no Centro Cultural de Belém, e mais tarde em Londres, no Goldsmiths College, onde estudou e viria também a lecionar.

Em Londres ficou quase uma década e fez de tudo um pouco: teatro, performance site specific, escrita e música. “Montava as minhas próprias peças”, esclarece. Com o projeto The Camus Incident, no qual foi autor e encenador, foi finalista do Oxford Samuel Beckett Theatre Trust Award. Mas foi a música instrumental da Orchestra Elastique que o levou aos quatro cantos do mundo, incluindo a países como a Costa Rica e a Roménia. “Tocava quase todas as semanas na cena underground, mas também em festivais ou em sessões de cinema com música ao vivo.”

Os projetos, acredita, são uma extensão de si próprio. “Trabalhei o músculo da música ao mesmo tempo que a escrita e a performance, o trabalho com o corpo e com o espaço. Todas estas disciplinas se cruzam no meu trabalho”, refere.

Hugo, Humberto e Emmy: três faces da mesma moeda

Há uma metáfora usada por Pedro Abrunhosa que define o que é criar: “Ser músico é uma necessidade. Penso que não exista uma necessidade em ser inspetor de seguros, não é propriamente uma coisa vital para que uma pessoa, se não for aquilo, morra. Mas o artista, se não o for, definha. Não é uma opção, é um chamamento.”

Para Gohu (Hugo Veiga), Humberto ou Emmy Curl (Catarina Miranda), estar constantemente a criar é mais do que um trabalho: é uma forma de se manterem saudáveis e frescos. “Cantar é um escape criativo.” Quando está no projeto Gohu, Hugo não responde a um briefing nem pensa no target. “É apenas fazer o que me apetece”, explica, resumindo a liberdade que sente quando cria.

Do mesmo modo, Humberto vê a música e a poesia como um refúgio para o quotidiano. “Em vez de estarmos a pensar nos problemas, estamos a cantar uma música, uma canção ou melodia. Pode ser uma ferramenta de saúde mental”, afirma. Para ele, esse ato de criar é tão benéfico para quem faz como para quem ouve.

Essa necessidade vital de criar manifesta-se também em Emmy Curl, mesmo que isso implique acordar às cinco da manhã. “Às vezes acordo às cinco porque estou ansiosa que o dia comece para começar a criar coisas. Tenho ansiedade artística há uns anos, mas tenho esta ânsia de criar”, confessa. Para Emmy, o prazer não está no resultado, mas no próprio processo. “É como ser criança e brincar com as coisas. O que interessa é o processo.”

“Um dia tive de escolher: ou sou fotógrafa ou sou bailarina. Artista iria ser”

Olga Roriz, encenadora e bailarina

Por fim, a aclamação

Mas a arte de Humberto estava longe de se esgotar. Em 2014, regressa a Portugal e decide começar a escrever canções em nome próprio. “Foi uma forma de recuperar a língua portuguesa e de articular certas emoções de forma minimalista. A escrita de canções ajudou-me a voltar”, conta.

O primeiro álbum a solo, A Demolição das Casas, chegou em 2021. “Produzir canções demora tempo”, explica. Mas foi em 2025, com o lançamento de Mau Teatro, que muitos portugueses passaram a conhecer Humberto. “Queria fazer um álbum com mais vida e que chegasse a mais pessoas, tornar a poesia democrática e direta, na tradição dos compositores das décadas de 1960 e 1970”, revela.

Humberto, que já está a escrever o terceiro álbum, diz não ficar chateado por ser mais conhecido pela música do que pela performance. “Tive a sorte de fazer várias coisas, em vários locais, e de trabalhar com comunidades. O meu trabalho nunca foi para as massas, mas para fazer bom trabalho.”

Em paralelo com a promoção do novo álbum, está a trabalhar na Enciclopédia das Escadas, um projeto que conta com o apoio da Direção-Geral das Artes. “A base é a performance, mas há espaço para a escrita, a música e a instalação. É uma ação que conduz o público por vários sítios, mas também o olhar sobre problemas que surgem, desaparecem e reaparecem nestas escadas, que são um palco invertido”, conclui.

“Tive a sorte de fazer várias coisas, em vários locais, e de trabalhar com comunidades. O meu trabalho nunca foi para as massas, mas para fazer bom trabalho”

Humberto, autor, ator, performer, compositor e criativo total

Desenrascanço transmontano

A transversalidade que marca o trabalho de Emmy Curl nasceu da falta de recursos e da necessidade de autonomia. Crescer em Vila Real, no início dos anos 2000, significava estar longe dos centros criativos e sem referências próximas. “Havia muito pouca gente a fazer aquilo que eu imaginava para o meu trabalho”, afirma.

Foi assim que a compositora e intérprete aprendeu fotografia e dominou ferramentas como o Photoshop, Adobe Premiere e outros programas de edição: não para ser especialista, mas para não depender de terceiros. Mais tarde, o 3D abriu-lhe novas possibilidades de criação de universos oníricos através do VFX, visíveis desde cedo em vídeos como Senhora do Almortão, do aclamado álbum Pastoral (2024), que foi premiado com o Prémio José Afonso, em 2025.

Parte dessa postura vem da geração MySpace, que descreve como uma geração “faz-tudo”. Cresceram com ferramentas digitais ainda rudimentares e uma Internet lenta, o que obrigava à espera e à reflexão. “Enquanto a Internet não funcionava, estávamos a pensar em coisas para fazer”, explica. Esse tempo criou profundidade e moldou uma relação mais consciente com o processo criativo.

Com apenas 35 anos, Emmy Curl, ou Catarina Miranda, já viveu várias vidas criativas. Foi uma das primeiras mulheres produtoras de música em Portugal e, ao longo de dezoito anos de carreira, lançou sete álbuns. Este ano, participou no Festival da Canção, tendo a sua composição Rapsódia de Paz, chegado à final.

Enquanto tenta consolidar-se como uma das vozes mais inovadoras da música contemporânea portuguesa, Emmy Curl tenta não impor limites à imaginação. Ainda assim, reconhece que o seu processo criativo está em transformação. Durante muito tempo, fez tudo sozinha, num impulso quase instintivo, próximo da brincadeira. “O meu processo é um bocado de criança a brincar com as coisas”, admite. O que lhe interessa é o caminho, mais do que o resultado final. Ainda assim, nos últimos tempos começou a abdicar de algum controlo e a abrir espaço à cocriação, sobretudo com outros artistas ligados à Escola Normal, um projeto comunitário que fundou em 2021.

A música, tal como o resto da sua obra, organiza-se por ciclos. Emmy Curl rege-se por álbuns, cada um com uma identidade própria e um tempo de maturação distinto. ØPorto foi o disco da emergência na cidade, das manhãs e da descoberta. Pastoral resultou de quase dez anos de investigação e contemplação, um mergulho profundo no universo português pagão, nas raízes, na ancestralidade e no folclore. Cada álbum nasce de uma amálgama de referências e inspirações que se organizam em torno de um conceito central. “Vou de escada em escada consoante o projeto em que estou”, explica, anunciando já a vontade de fazer um Pastoral 2.0.

No plano musical, Emmy Curl procura agora transformar influências do jazz e cruzá-las com a música tradicional, num exercício de fusão que respeita a herança sem a cristalizar. Essa lógica de mistura estende-se também à forma como gere a sua vida artística e financeira. Antes da música ocupar o centro, começou por costurar: foi o seu primeiro emprego. Vendia quimonos online e teve um sucesso inesperado.

Com o crescimento da carreira musical tornou-se impossível conciliar as duas atividades, mas a experiência deixou-lhe uma consciência clara da necessidade de diversificar receitas. “Hoje em dia, um artista tem de ter várias fontes de rendimento”, afirma. Há anos em que vive exclusivamente da música, mas sabe que existem períodos difíceis, como os primeiros meses do ano, e aprendeu a preparar-se para eles.

Essa aprendizagem estende-se à literacia financeira, uma realidade cada vez mais presente entre músicos e artistas. A Escola Normal, que mantém espaços ativos no Porto e na Madeira, é um exemplo de gestão coletiva e compromisso comunitário. Com uma renda elevada e eventos regulares, o projeto sobrevive sem fins lucrativos, sustentado por voluntariado, residências artísticas, jam sessions e uma lógica de colaboração entre diferentes disciplinas — da música ao teatro, das artes plásticas à gastronomia. “Temos de ser peixe, ir sempre pela corrente”, afirma.

Catarina Miranda, ou Emmy Curl, habitou-se a fazer tudo sozinha. É o preço, ou o prémio, por crescer no interior português, nos anos 1990

O próximo capítulo

E no futuro, como serão os artistas? Cada vez mais especializados na sua arte principal ou verdadeiros faz-tudo, incapazes de se manterem numa única caixa? Os percursos de Humberto e Hugo Veiga apontam para uma resposta cada vez mais híbrida. Em Humberto, a música, a escrita e a performance não competem entre si: formam um contínuo onde o corpo, a voz e a presença são as ferramentas centrais. No álbum Mau Teatro, por exemplo, as canções cruzam política e emoção, partindo da ideia de que o amor também é um gesto político. Memorizar letras, cantar, estar em cena são, para ele, formas de organização interior, exercícios mentais que ajudam a habitar o mundo de um modo mais consciente.

Hugo Veiga, por sua vez, assume a criatividade como um espaço de jogo e descoberta, mais do que como uma identidade fixa. A publicidade, que paga as contas, tornou-se uma escola permanente de universos narrativos, onde cada projeto exige uma imersão total num novo mundo. A música surge, assim, como um escape absoluto, sem objetivos de mercado ou validação externa. O projeto Gohu vive dessa leveza: letras livres, por vezes absurdas, feitas para o prazer do próprio ato criativo. A maturidade trouxe-lhe também a consciência clara sobre bloqueios e descanso: afastar-se, mudar de contexto e aprender a desligar são hoje partes essenciais do processo.

Este impulso transversal não é exclusivo do contexto português. Lá fora, artistas como Rosalía cruzam tradição e experimentação, música popular e pesquisa conceptual, enquanto figuras como Björk, David Bowie ou David Byrne há muito que recusam a ideia de uma carreira linear, movendo-se entre música, cinema, performance, moda e artes visuais. O artista contemporâneo parece cada vez menos interessado em dominar um único território e mais disponível para explorar linguagens, ferramentas e formatos diversos.

Em Portugal, esta tendência ganha novos contornos. Pedro Abrunhosa prepara-se para ser escritor e produtor de um filme inspirado no universo de Inverbo, o seu mais recente álbum, prolongando a música para o campo da narrativa cinematográfica. Bárbara Bandeira, além de compositora e intérprete, soma agora a pintura ao seu percurso artístico, enquanto desenvolve a sua própria marca de roupa, afirmando uma identidade criativa que ultrapassa o palco.

Talvez o futuro da arte resida precisamente aqui: não na escolha entre especialização ou dispersão, mas na capacidade de circular entre linguagens sem perder a coerência. Fazer tudo não como acumulação, mas como um fluxo contínuo que parte da mesma origem: a vontade de criar. E adaptá-la às ferramentas, contextos e urgências de cada momento.

Veja-se, por exemplo, a música Tigela, Chocapic e Leite, de Gohu. Nela, Hugo Veiga transforma uma imagem banal da infância — o pequeno-almoço, a rotina, a memória afetiva — numa metáfora daquilo que nos nutre, inspira e mantém conectados. A obra lembra que a arte não precisa de grandiosidade para ser significativa: o ato de criar, mesmo nas pequenas coisas, mantém-se vivo e coerente, atravessando disciplinas, tempos e contextos sem perder sentido.

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