Eureka: o momento que mudou tudo

Eureka: o momento que mudou tudo
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ntre a tentativa, o erro e o acaso, quatro criadores portugueses explicam como surgem os raros instantes de inspiração que mudam uma obra ou projeto.

Em 2018, João Tordo viajava para o norte do país quando ligou o rádio e ouviu os primeiros acordes da música Eu por Engomar, na voz de Cristina Branco. Na altura, o autor estava a escrever o livro A Mulher que Correu Atrás do Vento, mas tinha ficado bloqueado.

“Ao ouvir a canção, aconteceu-me uma experiência estranha”, conta. “O livro que estava a escrever fazia sentido, mas apercebi-me [de um problema]. Estava a contar a história do ponto de vista de uma rapariga muito jovem. De repente, ficou claro que ela tinha de ser muito mais velha. A canção ajudou-me a perceber isso.”

Lançada em 2018 no álbum Branco, a música Eu por Engomar foi escrita por André Henriques e Rui Carvalho (mais conhecido por Filho da Mãe) e aborda a forma como uma mulher se adapta à passagem do tempo, ideia expressa logo no primeiro verso: “O inverno no joelho quando dobra / Estremece e anuncia esta chuva que me acorda.”

“Tem a ver com o meu joelho”, diz-nos André Henriques, a sorrir. “Tinha tido uma tendinite chata, daquelas que demoram a passar. É uma coisa que ouvimos as pessoas mais velhas dizerem: muda o tempo, sente-se nas articulações. E, de facto, nesse inverno eu senti.”

Aquilo que começou como uma observação banal acabou por provocar um curioso efeito de criatividade em cadeia. Para André Henriques, esse efeito dominó não é fácil de explicar. “Mas é sempre interessante”, admite.

“É fascinante como uma canção que surge completamente deslaçada [do tema do livro de João Tordo] informa outra pessoa, que pega nisso e tem um rasgo de criatividade e começa outra história.”

A pergunta, admite, é sempre a mesma, e talvez nunca tenha resposta definitiva. “De onde vem a inspiração? Vem de todo o lado. Pode vir de uma conversa, de um livro, de uma frase que se apanha algures num café. É sempre um mistério que vai dar esse rastilho.”

O processo é muitas vezes uma questão de disponibilidade: estar atento ao mundo e ao que nele se vai acumulando. “Há momentos em que tentamos com muita força encontrar ideias e elas não vêm. E há outros em que, de alguma forma, estamos mais despertos para receber estímulos de fora, e de repente qualquer coisa se transforma noutra e não percebemos bem porquê.” Por isso, prefere agarrar-se à máxima tantas vezes repetida por escritores e artistas: “Quando a inspiração vier, que me encontre a trabalhar.”

No caso de Eu por Engomar, e depois dessa frase mundana que anuncia a dor no joelho, começou a nascer outra história. “Comecei a pensar numa mulher mais madura, eventualmente no final de uma relação. Aquilo deixa em aberto o que aconteceu, não é definitivo.” O curioso, diz, é que muitas vezes o processo funciona assim: surge uma frase e o autor ainda não sabe exatamente o que significa. “É quase um esqueleto e temos de construir a partir daí. Depois a canção, os acordes e a melodia ajudam-nos a contar uma história que muitas vezes não sabemos onde vai dar.”

Essa primeira faísca pode surgir em qualquer lugar. No disco Passa Montanhas (2025), que André gravou com a sua banda de sempre, os Linda Martini, a canção Cão Tinhoso nasceu da leitura de O Diabo, de Gonçalo M. Tavares. Já no seu álbum a solo, Leveza (2023), encontrou material inesperado na tradução da Bíblia feita por Frederico Lourenço e no teatro de Samuel Beckett.

Mas há também momentos em que o quotidiano se infiltra nas canções de forma literal. Num episódio que hoje recorda com humor, uma letra surgiu enquanto falava ao telefone com um pedreiro que lhe ditava uma lista de materiais para construir um muro em casa.

“Ele disse-me: ‘Vais à loja e compras 12 metros quadrados de pedra, 100 tijolos de 22, cinco sacos de cimento espanhol…’”, recorda. Como tinha a guitarra ao lado, André começou a cantar esta lista na melodia que estava a trabalhar. “Aquilo encaixava perfeitamente.” A letra acabou por se tornar a canção O Muro, presente no disco Leveza.

Outras vezes, o processo é ainda mais rápido. “Estava a lavar a loiça quando me apareceu uma frase na cabeça: ‘As melhores canções de amor já foram escritas.’” Era o início da música homónima, que entraria no seu primeiro álbum a solo, Cajarana (2020), e a frase acabou por funcionar como um desbloqueador criativo. “Quando me sentei com a guitarra, vinte minutos depois a canção estava praticamente pronta.”

Há ainda um último elemento imprevisível: o momento em que a canção deixa de pertencer a quem a escreveu. “Uma música como Eu por Engomar vai encontrar outro contexto na vida de quem a ouve. Mais interessante do que saber qual era a ideia original do autor é perceber o que cada pessoa encontra nela.”

Foi exatamente isso que aconteceu com João Tordo: uma frase nascida de uma dor no joelho de um músico acabou por transformar a personagem de um romance.

A narrativa como partitura

A música e a literatura inspiram-se mutuamente. Para João Tordo, aliás, escrever um romance não é muito diferente de compor música. A narrativa, explica, organiza-se a partir de um tema que depois é explorado, transformado e desenvolvido ao longo do livro.

“Costumo dizer que a narrativa escrita é muito parecida com a narrativa musical. Por dedicação amadora à música coral, muitas vezes estudo pautas musicais. E quando leio partituras de Brahms, Beethoven ou Mozart, para mim são narrativas”, explica.

Tal como numa composição musical, o escritor começa por lançar um tema. O resto do livro é a exploração desse território. “O músico, tal como o escritor, sugere um tema e depois explora tudo o que esse tema sugere. Acho que esse é o segredo para que uma narrativa tenha profundidade.”

Tordo dá o exemplo da Quinta Sinfonia de Beethoven. “Aquela descida famosa — tan tan tan tan — é um tema muito simples. O que Beethoven faz ao longo da sinfonia é explorá-lo até à exaustão, modulando, mudando o contexto harmónico, mas regressando sempre ao mesmo ponto de partida.”

Na literatura acontece algo semelhante: quando um escritor introduz um tema, também está a lançar um determinado ritmo e um contexto narrativo. “Cada livro tem o seu próprio ritmo. A exploração desse ritmo e dessa harmonia é o que constitui a narrativa.”

Se o tema é o ponto de partida, as personagens são o verdadeiro motor da história. “Do que vou entendendo da escrita, a personagem é enredo e o enredo é personagem. As duas coisas não podem ser dissociadas.”

Muitas vezes, explica, as personagens acabam por tomar decisões inesperadas, contrariando os planos iniciais do autor. Isso aconteceu-lhe, por exemplo, com Pilar, protagonista da sua série policial. “Certa altura, a personagem fez o contrário daquilo que eu tinha planeado. E depois percebi que só faz sentido assim. Se a obrigasse a fazer aquilo que tinha pensado, a história deixava de ser verdadeira.”

Essa sensação de autonomia das personagens surge sobretudo com a experiência. “No início da carreira há muito controlo por parte do escritor. Com o tempo aprendemos a ser mais observadores. A certa altura parece que já não estamos ali a controlar tudo, a história começa a acontecer por si.”

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A disciplina da escrita

Apesar desta dimensão intuitiva, o processo de escrita é, acima de tudo, disciplinado. João Tordo escreve normalmente quatro a cinco horas por dia. Mais do que isso, diz, torna-se difícil manter a intensidade necessária. “A escrita é um processo muito exigente. É difícil escrever mais do que quatro ou cinco horas seguidas.”

Grande parte das personagens que cria nasce também da observação da vida real. “Nos meus livros quase não há nenhum personagem que não seja decalcado de alguém real. Às vezes são pessoas que conheci, outras vezes são composições a partir de várias pessoas. E muitas vezes sou eu próprio… ou partes de mim.”

Nos romances mais pessoais, a autobiografia acaba inevitavelmente por infiltrar-se na ficção. “É quase impossível não acontecer. Tudo o que vamos vivendo acaba por se transformar em matéria narrativa.” Curiosamente, os momentos de descoberta raramente surgem quando está a escrever. “Quando estamos na parte final de um romance já não há muito espaço para surpresas. Há sobretudo cansaço e vontade de fechar a narrativa.”

As ideias novas aparecem, quase sempre, durante as pausas. “É engraçado porque muitas vezes surgem quando não estamos a trabalhar. Quando paramos um ou dois meses e de repente aparece um novo tema ou uma nova abordagem.”

Por isso, durante os períodos de escrita prefere até afastar-se dos livros e livrarias. “Quando estou a escrever não me é fácil ler muito. Prefiro escrever e depois fazer coisas completamente diferentes durante o resto do dia. Assim, no dia seguinte volto à secretária com a cabeça mais fresca.”

“No início da carreira há muito controlo por parte do escritor. Com o tempo aprendemos a ser mais observadores. A certa altura parece que já não estamos ali a controlar tudo, a história começa a acontecer por si”

João Tordo, escritor

Criar com matéria viva

Na cozinha, ao contrário da música ou da literatura, nada é completamente fixo. Os ingredientes mudam todos os dias e é nessa instabilidade que nasce grande parte da criatividade, explica a chef Marlene Vieira, responsável pelos restaurantes Marlene e Zunzum, em Lisboa, e uma das cozinheiras portuguesas mais reconhecidas da sua geração.

“Achamos sempre que um prato pode estar em constante evolução”, diz. “Na música, quando se chega à combinação certa de camadas, atinge-se a perfeição. Na cozinha é diferente, porque trabalhamos com produtos vivos. Uma cenoura nunca é igual à outra. A carne não é igual. O peixe também não. Dizemos sempre que só somos cozinheiros quando conseguimos manobrar isto tudo.”

Esta variação constante obriga os cozinheiros a ajustarem as receitas continuamente. Um prato que resultou na véspera pode precisar de mais acidez, mais sal ou mais equilíbrio no dia seguinte. “O clima altera os produtos, a humidade altera os produtos. O nosso trabalho é perceber o que mudou e adaptar.”

Por isso, a ideia de repetir exatamente o mesmo prato é quase impossível. “As pessoas às vezes dizem: ‘Isto hoje não está igual ao outro dia.’ E é verdade, porque os produtos também não vêm iguais. O máximo que conseguimos é chegar muito perto.”

A criatividade na cozinha também nasce de outro lugar: a memória. Segundo Marlene Vieira, cada cozinheiro constrói o seu repertório de sabores ao longo da vida. “Eu chamo-lhes camadas de sabor. São memórias que vamos guardando: coisas que comemos na infância, experiências de trabalho, emoções.”

Essas referências formam aquilo que distingue um chef de outro. “Somos todos cozinheiros diferentes porque cada um tem experiências de vida diferentes. O paladar, o cheiro, o tato… tudo isso constrói a nossa identidade.”

No caso da chef, há um elemento que muitas vezes serve de ponto de partida para novas ideias: a textura. “Para mim é muito importante a forma como o alimento entra na boca. O primeiro impacto. O sabor vem depois.”

Hoje, muitas das criações de Marlene Vieira nascem em equipa. No restaurante Marlene, em Lisboa, os menus mudam com as estações e são elaborados em conjunto com a equipa de cozinha e pastelaria. Foi assim que surgiu uma das sobremesas do menu de inverno. A base era chocolate, mas a ideia seguinte veio do chefe de pastelaria, David Soares. “Ele disse-me: ‘Chef, gosta tanto de alho negro, porque não juntamos ao chocolate?’ Na minha cabeça aquilo não fazia sentido nenhum.”

Mesmo assim, decidiu experimentar. O resultado inicial era demasiado doce. A solução veio com outro ingrediente inesperado: chá preto dos Açores, para acrescentar amargor e equilíbrio. “Começámos a elaborar o prato a partir dessas duas ligações e depois fomos acrescentando coisas até encontrarmos harmonia. Queremos criar quase uma sinfonia no paladar.” Quando isso acontece, explica, o resultado deixa de ser apenas doce, ácido ou amargo. “Há um momento em que a única palavra que conseguimos dizer é: ‘Delicioso.’”

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Criatividade ao cronómetro

Ao contrário do que se imagina, muitas ideias surgem também em momentos de improviso. Nos restaurantes de Marlene, por exemplo, nem sempre há tempo para longos processos criativos. Às vezes é preciso reagir no momento, como quando chegam clientes com restrições alimentares inesperadas. “Acontece aparecerem veganos e termos de criar pratos ali, na hora”, refere. “Abro o frigorífico e penso: vou fazer dois ou três pratos veganos agora.”

Para Marlene Vieira, o momento de inspiração raramente surge como um relâmpago isolado. É mais frequentemente o resultado de muitas tentativas, memórias acumuladas e pequenas correções ao longo do processo.

Na cozinha, explica, a criatividade nasce muitas vezes do contacto direto com o produto: provar, ajustar, voltar a provar. “Estamos sempre à procura daquele equilíbrio em que tudo faz sentido.” Quando esse momento chega, o prato deixa de ser apenas uma soma de ingredientes e transforma-se numa experiência.

“As pessoas às vezes dizem: ‘Isto hoje não está igual ao outro dia.’ E é verdade, porque os produtos também não vêm iguais. O máximo que conseguimos é chegar muito perto”

Marlene Vieira, chef de cozinha e empresária

Combinar linguagens

Este equilíbrio entre tentativa, erro e descoberta não se limita à cozinha. Para André Carrilho, a criatividade constrói-se de forma gradual, fruto da acumulação de experiências. No entanto, o ilustrador identifica “dois ou três momentos” da carreira em que houve um salto criativo. Um deles aconteceu no início dos anos 2000, quando os computadores começaram finalmente a conseguir processar imagem a cores com facilidade. Até então, Carrilho trabalhava sobretudo a preto e branco; quando precisava de cor, recorria à pintura manual. Com a chegada de um novo computador Apple, teve de repensar o próprio estilo. “Foi uma mudança consciente. Tive de encontrar uma forma de passar de um trabalho a preto e branco para um contexto de cor, que é completamente diferente.”

Outro salto criativo aconteceu quando decidiu começar a combinar diferentes linguagens visuais no mesmo trabalho: passou a misturar desenho manual com colagem digital. Desenhava as figuras à mão, trabalhava as sombras com lápis grafite e depois acrescentava elementos fotográficos — muitas vezes tecidos ou roupa — tratados digitalmente.

“O meio digital permite juntar coisas que normalmente não estariam juntas”, explica. “Posso misturar desenho, fotografia e colagem de uma forma que seria muito difícil de fazer apenas em papel.” Foi precisamente essa técnica que utilizou numa caricatura do ator Peter O’Toole, publicada em 2003 na capa do suplemento Talk of the Town, do Independent on Sunday, o primeiro trabalho internacional da sua carreira.

Apesar da dimensão criativa do trabalho, Carrilho não acredita muito na ideia de improviso absoluto. Antes de começar um desenho, prefere ter uma ideia clara do que quer fazer. “O meu trabalho não funciona ao nível espontâneo”, afirma. “Só desenho quando já sei o que vou fazer.”

Isso não significa que o processo não traga surpresas. Mas a direção costuma estar definida desde o início, algo que também resulta da relação com clientes e publicações. “Quando estou a executar já sei o caminho. Como trabalho para clientes, não posso mudar tudo a meio do processo.”

“O meu trabalho não funciona ao nível espontâneo”, afirma. “Só desenho quando já sei o que vou fazer”

André Carrilho, ilustrador

Criar sob pressão

Alguns dos momentos mais decisivos da carreira surgiram precisamente nos trabalhos com prazos apertados. Em 2013, por exemplo, recebeu da revista Vanity Fair a encomenda de um grande painel com quarenta caricaturas. Para conseguir cumprir o prazo, teve de inventar novas formas de sistematizar o trabalho no Adobe Photoshop. “Criei automatizações, pincéis específicos, pequenas técnicas para acelerar o processo”, recorda. “Foi quase um laboratório.”

Mesmo com método e planeamento, Carrilho acredita que o erro continua a ser um dos motores fundamentais da criatividade. “O erro é fundamental. Se não errássemos, nunca aprendíamos nada.” Muitas das soluções que utiliza hoje surgiram precisamente de acidentes inesperados, como uma experiência com tinta-da-china em que adicionou água a mais e criou, sem querer, um efeito granulado. “Na altura não era aquilo que eu queria, mas percebi que podia ser interessante. Acabei por fazer um livro inteiro com esse efeito.”

O ilustrador reforça a importância da observação e da admiração pelo trabalho alheio: “Os autores de que eu mais gosto são os que, com um traço, explicam tudo. Por alguma razão, até de temperamento ou personalidade, ou de história de vida, percurso, não sou imediatista. Nunca consegui ser. Por isso é que também sou o mais feroz crítico do meu trabalho. Há pessoas que me aparecem com um tracinho e dizem: ‘Isto é que é.’ Quando olho para o trabalho de crianças, tenho uma inveja descomunal porque acho muito mais giro o que elas fazem. Já me pediram para servir de júri para trabalhos de crianças e não consigo: eu gosto de todos.”

Esta abertura ao inesperado e ao erro é parte central do seu processo criativo. Afinal, lembra, a história da arte está repleta de soluções que surgiram de pequenas imperfeições técnicas. “O Stuart Carvalhais tinha um pincel cuja ponta não ficava bem feita, ficavam uns fios soltos. A certa altura, começou a usar isso como expressão.”

Pequenos acidentes, traços soltos ou desvios técnicos transformam-se assim em caminhos inesperados de criação, tornando cada desenho único e cada momento de inspiração um verdadeiro “Eureka!”.

Hallelujah: a canção que os deuses não esqueceram

Apenas Leonard Cohen saberá quantos anos demorou a escrever a canção-oração Hallelujah, mas estima-se que o número varie entre os 5 e os 7 anos, num total de 80 a 180 versões diferentes. O processo foi longo e obsessivo: Cohen revia versos, eliminava estrofes e reescrevia linhas, à procura da combinação perfeita de música e palavra que transformasse uma ideia simples numa obra memorável. Cada alteração era mínima, mas muitas vezes era suficiente para mudar o tom e a força emocional da canção.

Durante esses anos, Hallelujah não existiu como um produto acabado. Era um verdadeiro laboratório de tentativa e erro, um espaço onde a criatividade de Cohen se confrontava com o perfeccionismo. O próprio músico contou em entrevistas que escrevia e reescrevia a canção em quartos de hotel, sozinho, até sentir que finalmente algo “encaixava”. Este é o lado mais humano do que muitas vezes se romantiza como inspiração divina: a canção só chegou à sua forma definitiva porque alguém se dedicou incansavelmente aos pormenores, até alcançar o momento de epifania que transformou dezenas de rascunhos numa obra-prima.

Quanto a Hallelujah, a canção foi finalmente lançada em 1984, no álbum Various Positions, mas não alcançou sucesso. Este chegaria apenas em 1991, após uma versão de John Cale, e sobretudo em 1994, com um arrojado arranjo de Jeff Buckley. No fim, todo o esforço valeu a pena.

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