Minimalismo: a via verde para recuperar tempo e dinheiro?

Minimalismo: a via verde para recuperar tempo e dinheiro?
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se viver melhor significasse ter menos? Em vez de mais metros quadrados, mais salário ou mais objetos, há quem esteja a escolher menos: menos pressa, menos acumulação, menos ruído. O minimalismo deixou de ser apenas uma tendência estética para se tornar, para muitos, uma estratégia financeira, emocional e até profissional.

A casa de Vânia Carranca não é grande. Ainda assim, sente que tem mais espaço do que nunca. “A minha sala tem apenas um sofá, uma secretária, uma mesa e um móvel para a televisão”, conta a professora de 37 anos que, desde 2016, procura reduzir o que compra e acumula. “Em cima de cada móvel, não há mais do que quatro objetos e esses têm de ser mesmo especiais. Também me desfiz de muitos eletrodomésticos e agora, em cima da bancada da cozinha, tenho apenas a torradeira e a máquina de café.”

Nos últimos anos, Vânia também reduziu o guarda-roupa. “Atualmente, tenho 30 peças de verão e outras 30 de inverno.” Não tem dificuldade em vender ou doar aquilo que considera estar a mais. “Com o meu marido, chegámos ao ponto de, às vezes, nos desfazermos de coisas e percebemos, mais tarde, que afinal davam jeito”, reconhece. Mas desvaloriza: “Nunca foi nada de muito grave.”

Como explica Luís Martinez, professor de Marketing e Ciências do Comportamento na Nova School of Business and Economics (SBE), o minimalismo é, antes de mais, uma filosofia de redução intencional. “Ter menos, escolher melhor e focar-se no que realmente acrescenta valor”, explica o académico, que acrescenta que esta tendência tem crescido entre os consumidores urbanos e mais escolarizados. “Está associada à pressão financeira, à saturação digital e à preocupação ambiental. Mesmo sem ser um movimento massificado, é uma tendência estrutural: as pesquisas sobre decluttering [destralhar], capsule wardrobes [ter um número limitado de peças de roupa], slow living [abrandar] e frugal living [frugalismo] têm aumentado de forma constante”, afirma. “Durante períodos económicos mais incertos, o interesse em simplificar intensifica‑se.”

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De Lisboa para o Alentejo

No caso de Vânia Carranca, a opção por um estilo de vida minimalista levou-a mesmo a sair de Lisboa. Quando se mudou com o marido e a filha para o interior do Alentejo, em plena pandemia, aproveitou para se desfazer de dezenas de livros. Mas também “robôs de cozinha que não faziam sentido nenhum”, e outros tantos objetos que guardava no apartamento. “Não queria carregar aquele peso”, recorda, contando que procurava um quotidiano mais simples, longe do rebuliço e da agitação da cidade.

No Alentejo, encontrou tempo e silêncio. “Aqui não temos trânsito, hora de ponta. As deslocações são tranquilas. Tudo é mais rápido, mais simples, e isso traduz-se em mais tempo para estar com a família e para aquilo de que realmente gostamos”, refere Vânia Carranca, que se licenciou em Medicina Nuclear mas acabou a dar aulas de ioga.

“Para mim, minimalismo não é sinónimo de escassez”, sublinha. “É abdicar do excesso, daquilo que pesa, e isso acontece também nas amizades. Às vezes, temos pessoas extremamente tóxicas. Aos poucos, também me fui afastando de quem não acrescentava”, conta.

De acordo com o especialista Luís Martinez, além de permitir racionalizar o consumo, fazendo compras menos impulsivas e com foco em bens duráveis que reduzem o desperdício e permitem maior poupança, o minimalismo é também “uma estratégia de bem-estar”. “[Significa] menos desordem mental, menos pressão social e mais foco em prioridades pessoais”, afirma o professor da Nova SBE.

Diana Fontes e Sousa [na foto de abertura do artigo], presidente da Associação Slow Movement Portugal, lembra que o minimalismo surge, muitas vezes, como resposta ao cansaço emocional e ao excesso do dia a dia. “Vivemos numa cultura que valoriza sempre o ‘mais’ – fazer mais, ter mais, ser mais –, com um ritmo acelerado impactado pelo trabalho, pela tecnologia e pelo consumo. Isso faz com que muitas pessoas se sintam cansadas, tenham pouco tempo e estejam quase sempre em modo automático, longe do que realmente é importante”, afirma.

Quando se abranda, diz Diana Fontes e Sousa, e se cria “espaço para refletir e perceber o que se sente”, é mais fácil “compreender o que faz sentido e fazer escolhas alinhadas” com esse propósito. “As pessoas passam a valorizar as coisas essenciais, como as relações, o bem-estar, os momentos simples do dia a dia, em vez de estarem sempre focadas no que falta ou no próximo objetivo. Pequenas coisas, como uma refeição tranquila, uma conversa profunda, o contacto com a natureza ou simplesmente descansar, ganham mais significado”, enfatiza.

Um burnout que conduziu a uma nova vida

A presidente da Slow Movement Portugal lembra que há pessoas que repensam o seu estilo de vida depois de passarem por “momentos difíceis”, como a perda de alguém ou o aparecimento de um problema de saúde. Foi o caso de Cláudia Ganhão que, com uma vida profissional intensa, na indústria farmacêutica, e um dia a dia familiar exigente, acabou por ter um burnout. “À medida que fui recuperando, comecei a estudar e a ler sobre o minimalismo”, recorda. “Vi o documentário The Minimalists: Less is Now na Netflix [ver caixa]. Comecei a interessar-me bastante por esta filosofia de vida”, lembra, acrescentando que o minimalismo, juntamente com a terapia e a medicação, ajudou-a a recuperar.

Aos poucos, Cláudia passou a focar-se no que “realmente importa”. Queria estar mais presente na vida dos filhos e gerir o tempo de outra maneira. Passou, também, a questionar o seu trabalho, numa indústria “exigente, que paga bem e oferece várias regalias”, mas que a tinha conduzido a um processo de exaustão. “Despedi-me em setembro de 2018, depois de ter feito várias formações na área do coaching e da organização pessoal. Tinha 41 anos.”

Segura de que queria viver com menos coisas, Cláudia Ganhão começou por “destralhar o roupeiro”. “Como grande parte das mulheres, muita da minha frustração e incapacidade de gerir tudo era descarregada nas compras”, admite. Doou dezenas de peças a instituições de caridade, muitas das quais com etiqueta, e passou a consumir com critério. “Quando vejo uma peça que me interessa, para não comprar por impulso deixo passar 24 a 48 horas. Só volto à loja se perceber que é mesmo necessário”, afirma. “Adotei outra regra: quando entra um novo casaco no meu armário, há outro que tem de sair. Além de poupar muito, isto permite-me investir em artigos de maior qualidade.”

Passou, também, a ter mais tempo para si. Vai ao ginásio, lê e escreve. “Primeiro, temos que abrandar, sair do piloto automático, cuidar de nós, para depois conseguirmos fazer o resto. O minimalismo tem-me trazido mais paz de espírito e mais serenidade. Trouxe-me, também, a possibilidade de fazer escolhas mais conscientes”, diz, reconhecendo, ainda assim, que de vez em quando pensa que podia ter um salário mais elevado. “Depois, lembro-me que agora posso ir buscar os meus filhos à escola às quatro e meia, acompanhá-los nas atividades e em tudo o que é preciso.”

À medida que foi adotando um estilo de vida menos consumista, com mais tempo para ela e para a família – o marido é piloto e passa muito tempo fora de casa –, Cláudia Ganhão foi partilhando a sua experiência na Internet. “Percebi que havia muita curiosidade sobre o tema”, refere, contando que, gradualmente, começou a dar formações na área da “simplificação e da reorganização da vida na totalidade”. Criou ainda uma academia online, a A.M.E., Academia de Mulheres em Evolução. “Procuro ajudar na reorganização da vida na totalidade, na definição de prioridades, limites, objetivos, na rotina, etc.”

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O que é essencial na vida? Precisamos de ter e de comprar tantas coisas? Isso faz-nos felizes? Foi a partir de algumas destas questões que os norte-americanos Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus decidiram deixar carreiras bem-sucedidas, com salários elevados, para adotarem um estilo de vida menos consumista. No documentário The Minimalists: Less is Now, disponível na Netflix, os dois amigos contam como o minimalismo deu um novo sentido às suas vidas e explicam como se pode viver melhor, com mais sentido, acumulando e comprando menos coisas.

Mais do que uma estética de casas brancas e armários organizados, o minimalismo propõe uma pergunta desconfortável: estamos a viver para acumular ou a acumular porque não sabemos exatamente o que queremos viver? Num tempo marcado pelo excesso, seja de estímulos, de consumo e de pressa, talvez reduzir seja também uma forma de clarificar o que é realmente importante.

Mudar para uma casa com metade da área

Se, em alguns casos, o minimalismo acarreta apenas alterações na maneira como se consome, noutros leva a mudanças mais estruturais. Filipa Silva passou de um T1 com 80 metros quadrados, no centro de Lisboa, para um T0, na mesma zona, com menos de metade da área, o que a obrigou a reduzir drasticamente o número de objetos em casa. “Em vez de 20 pratos, tenho 6; em vez de não sei quantos tachos, tenho um apenas, tal como existe uma só frigideira, um fervedor”, exemplifica a psicóloga de 38 anos. “Em termos de produtos de casa e alimentação, com exceção das latas de atum, que normalmente tenho duas, tudo o resto existe apenas à unidade: um detergente da roupa, um da loiça, etc.”

Quando vai ao supermercado, a psicóloga compra apenas aquilo de que necessita para uma semana. “Cinco kiwis, cinco tangerinas, um abacaxi. Reponho, também, alguma coisa que tenha acabado, mas só se tiver mesmo acabado”, sublinha, constatando que esta alteração a obrigou a um maior planeamento e organização. “Compro o estritamente necessário, não desperdiço e poupo.”

Por viver numa casa com 35 metros quadrados, Filipa Silva teve de vender alguns móveis do antigo apartamento e contratou uma designer para que lhe fizesse um projeto que tornasse o espaço funcional. “Passei, por exemplo, a ter um sofá e uma secretária integrados no mobiliário da casa”, conta. “Creio que esta casa simbolicamente representa a experiência de que o ser humano, na verdade, só precisa mesmo do essencial.”

A mudança também lhe trouxe vantagens financeiras. Em vez de continuar a pagar 1 200 euros de renda por um apartamento remodelado, paga agora 700 euros por um empréstimo bancário. “Agora, posso usar o dinheiro que sobra noutras coisas. Além disso, passei a ter um bem próprio: uma casa nova, num prédio novo, que me permite continuar a ir a pé para o trabalho”, afirma, reconhecendo, no entanto, que esta opção é “um desafio no atual contexto de consumo”. “O minimalismo representa, sobretudo, uma forma de estar e de ser, e pode ser uma excelente oportunidade de crescimento e desenvolvimento pessoais.”

“O minimalismo é também uma estratégia de bem-estar. [Significa] menos desordem mental, menos pressão social e mais foco em prioridades pessoais”

Luís Martinez, professor de Marketing e Ciências do Comportamento na Nova SBE

Morar num barco para estar perto de quem gosta

Em algumas situações, a opção por este estilo de vida surge quase por acaso. Mircea Anghel largou uma carreira na área financeira depois de perceber que era preciso acrescentar mais um quarto em casa dos sogros, na Carrasqueira, concelho de Alcácer do Sal. “Como o terreno faz parte de uma reserva natural, não se podia construir mais. Então, resolvi procurar uma alternativa e percebi que podia ter um barco de pesca no jardim e transformá-lo numa pequena cabana”, recorda.

Como não sabia como fazê-lo, foi pedindo ajuda a pescadores, construtores navais e outras pessoas que trabalhavam com madeira, e lentamente foi-se familiarizando com o mundo da marcenaria. Em 2019, com o nascimento do segundo filho, resolveu deixar definitivamente o emprego na área financeira e mudou-se para Alcácer do Sal, onde montou o Cabana Studio. Hoje, é artesão e designer: cria móveis e outras peças a partir de madeiras antigas, algumas das quais com três mil anos. “Costumo comprar stocks de carpintarias, serrações antigas. Tenho madeiras cortadas há trinta ou quarenta anos, já muito secas. Algumas faziam parte da estacaria de Lisboa”, diz o artista de 39 anos, que nasceu na Roménia mas vive em Portugal desde a adolescência.

A propósito do tema da sustentabilidade, o professor da Nova SBE, Luís Martinez, afirma que os “consumidores preocupados com a pegada ecológica, desperdício têxtil e emissões tendem a adotar comportamentos minimalistas, mesmo que não usem o termo”. “O minimalismo, neste sentido, funciona como um estilo de vida sustentável, acessível e pragmático.”

Para Mircea Anghel, a sustentabilidade do seu trabalho está muito para lá da reutilização de matérias-primas. “O grande desafio está em conseguirmos criar algo que é amado e apreciado por um período suficientemente longo. Na sociedade de hoje, as pessoas têm muita dificuldade em manter os objetos durante muito tempo”, conclui.

Depois de alguns anos a morar a tempo inteiro no Alentejo, onde tem ganhado “anos de vida”, atualmente passa alguns dias por semana em Lisboa. Os filhos de 6, 11 e 12 anos frequentam uma escola na capital e Mircea Anghel, divorciado, quer passar tempo com eles.

“Vivemos num barco em Alcântara, o que implica uma maneira de viver própria”, relata. “A gestão da água, da eletricidade e do lixo são diferentes. É um espaço mais reduzido que impacta nos objetos à nossa volta, na quantidade de roupa que temos, naquilo que consumimos, no que temos no frigorífico e no congelador”, afirma. “Tudo tem uma escala mais pequena e isso leva-nos a um estilo mais minimalista. Acho que está a ser um exemplo fantástico de organização para os meus filhos. Estão a adorar.”

“Quando entra um novo casaco no meu armário, há outro que tem de sair. Além de poupar muito, isto permite-me investir em artigos de maior qualidade”

Cláudia Ganhão, coach e fundadora a Academia Mulheres em Evolução (AME)

Dobrar camisolas pode mudar a nossa vida?

A japonesa Marie Kondo transformou a arrumação num fenómeno global. Autora, empresária e presença constante nas redes sociais, Kondo elaborou uma filosofia que promete serenidade através do desapego: ficar apenas com aquilo que “desperta alegria” e agradecer antes de deixar partir o resto.

Com milhões de seguidores e uma estética irrepreensível, tornou a organização quase espiritual. Uma forma de reavaliar prioridades, questionar excessos e redesenhar a vida a partir do essencial. Num dos seus posts, convida os seguidores a abrandarem, a imaginarem a vida ideal e a darem pequenos passos em direção a ela.

Mas há uma questão que permanece: organizar é libertar ou é apenas tornar o caos mais apresentável? Entre o minimalismo como escolha consciente e como produto de consumo, a proposta de Marie Kondo revela uma tensão do nosso tempo: queremos menos coisas, mas continuamos a procurar métodos, guias e gurus que nos ensinam como viver melhor. Talvez o verdadeiro desafio não esteja nas gavetas, mas nas expectativas que nelas escondemos.

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