O mundo é o momento

O mundo é o momento

“O mundo é o momento”, canta Pedro Abrunhosa na música homónima de 2002. A frase, vista desde sempre como celebração da urgência da vida, tornou-se, duas décadas depois, quase num diagnóstico: tudo é imediato, instantâneo, feito para durar apenas o suficiente para ser partilhado. Vivemos num tempo em que o presente domina, o futuro encolhe e o “fim”, esse território inevitável, tornou-se algo que evitamos encarar.

Mas o fim não é apenas a última página de uma história. É transição, preparação, despedida necessária. O fim de um ciclo profissional. O fim de uma relação. O fim de uma fase de saúde plena. E porque nos habituámos à ideia de que tudo é substituível — os empregos, as carreiras, os ritmos de vida — esquecemo-nos de que há algo que nunca poderá ser trocado: nós próprios.

Na 15.ª edição da Revista Montepio, olhamos para esse território não com fatalismo, mas com lucidez. Há cumplicidades musicais que se desfazem sem ruído, deixando apenas a melodia nas memórias. Há nadadores que penduram o fato de banho porque o corpo é um cronómetro implacável. Há pilotos que fazem do Paris-Dakar a última prova porque o limite, seja ele físico ou emocional, é o mais honesto dos mestres. O que todos estes fins têm em comum? São inevitáveis. E exigem preparação.

O fim da proteção automática

Durante anos fomos educados para acreditar que a proteção viria do Estado. Mas as carreiras tornaram-se irregulares, as profissões fragmentadas, as redes de segurança mais frágeis. Para muitos, o fim da estabilidade laboral é o primeiro fim que enfrentam. O segundo surge quando percebem que, sem preparação, o futuro financeiro pode terminar antes do tempo.

A pergunta, então, deixa de ser “quando chega o fim?” e passa a ser “como me preparo para ele?”. Não como ameaça distante, mas como certeza que exige planeamento. Tal como o nadador sabe que um dia o corpo dirá basta, qualquer pessoa que trabalhe sabe que um dia a carreira terá outro ritmo, outras exigências, outros limites.

E é precisamente nesta consciência do fim que ressurge uma ideia antiga: a proteção mútua. O mutualismo sempre funcionou assim: um grupo de pessoas que reconhece a fragilidade individual e decide partilhar o risco. Não é filantropia nem Estado. É planeamento coletivo num tempo em que cada um está, paradoxalmente, mais sozinho.

Discreto, pouco falado, mas inesperadamente atual. Porque num mundo onde a incerteza se tornou o padrão, o mutualismo devolve algo raro: previsibilidade. Não elimina o fim, mas permite enfrentá-lo com dignidade.

Falar do fim é falar de responsabilidade. É escolher proteger o que virá, mesmo quando estamos no melhor do nosso presente. Se o mundo é, de facto, o momento, então a melhor resposta é garantir que esse momento não se esgota sozinho, mas que nos ampara, nos prepara, nos prolonga. Porque nada é mais urgente do que cuidar do futuro.

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