A poupança é um luxo?

A poupança é um luxo?
11 minutos de leitura
Ilustração de Maria Lourenço
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oupar tornou-se um luxo para milhões de portugueses. Com salários que dificilmente cobrem as despesas essenciais e imprevistos constantes, muitas famílias vivem mês a mês no limite, sem conseguirem criar qualquer almofada financeira. Como é possível poupar quando todos os euros estão contados?

“Os meus filhos dizem-me: ‘Mãe, naquela altura eu não sabia que era pobre.’” A voz de Leonor A. [nome fictício], de 51 anos, embarga-se quando diz a palavra “pobre”. “Aquela altura” era 2012, ano em que Leonor tomou uma das decisões mais difíceis da vida: deixar o emprego como auxiliar de ação educativa para ficar em casa e ajudar os três filhos, então com 14, 10 e 6 anos, na escola. “A situação era complexa. O mais velho estava quase a chumbar e o do meio não ia às aulas”, conta-nos.

O salário de Leonor, esse, mal dava para pagar as refeições fora de casa, ama, carrinhas de apoio, ATL e outras despesas inerentes ao facto de ambos, ela e o marido, trabalhador da construção civil, passarem o dia fora de casa. Nesse ano, que também foi de crise económica em Portugal, tornaram-se oficialmente pobres. “O meu marido ganhava 860 euros e pagávamos 320 euros de renda. E ainda tínhamos de pagar água, luz, gás, alimentação, medicamentos e outras despesas”, recorda.

A prioridade de Leonor eram os filhos. “Eu não descurava a educação, a roupa, a limpeza, os sapatos, o bem-estar deles. Isso era intocável, tudo o resto era reinventado”, explica. Durante o dia, completava o rendimento familiar com a venda de comida caseira. “Ajudou um bocadinho”, conta. À noite, o facto de lidar regularmente com crianças tornava os dias menos pesados. “Havia toda uma estratégia para reinventar atividades. Fazíamos a noite do McDonald’s em casa, com hambúrgueres caseiros e brindes de origami, e a noite da pizza. Tudo caseiro e fingíamos que estávamos a comer fora de casa”, explica.

Apesar dos esforços, no final do mês não sobrava dinheiro para poupar. “Era muito complicado. Havia sempre uns sapatos, um casaco ou uma mochila que se rompia.” Quando os imprevistos ultrapassavam os 50 euros – uns óculos, uma despesa de saúde –, a solução era esperar pelo subsídio de férias ou, em último caso, recorrer a um crédito. “Não descansava até ver esse crédito encerrado. Ainda hoje, quando tenho uma conta para pagar, fico doente fisicamente”, confessa Leonor, que continua a ser uma das mais de dois milhões de pessoas que vivem em situação de pobreza ou exclusão social em Portugal – cerca de 18,6% da população em 2024.

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Poupar é cada vez mais difícil?

Quatorze anos depois, quase tudo mudou. O marido reinventou-se como cozinheiro e passou a ganhar 1090 euros. A filha do meio casou e mudou-se para Inglaterra, e os irmãos já trabalham e ajudam nas contas da casa. Mas a renda subiu dos 320 para os 700 euros. Por isso, Leonor voltou a trabalhar para ajudar a economia familiar. “Faço limpezas de manhã, mas o dinheiro vai todo para o supermercado.” Feitas as contas, a família está hoje em pior situação financeira que em 2012.

É um paradoxo que não surpreende Maria José Vicente, coordenadora nacional da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN Portugal): “O aumento dos salários não tem acompanhado o aumento do custo de vida – habitação, alimentação. Famílias com salários baixos acabam por consumir quase tudo o que recebem.” E acrescenta que a dificuldade em poupar não afeta apenas as famílias mais pobres, mas também as que, apesar de terem empregos estáveis, não conseguem juntar um fundo de emergência. “Conheço muitos portugueses com rendimentos médios ou baixos, para quem falar de poupança continua a ser desafiante. É uma possibilidade real, mas desigual.”

O desafio agrava-se nas famílias numerosas e monoparentais. É o caso de Rita F. [nome fictício], cozinheira com um salário de 925 euros, que vive num T1 no centro do Porto com as duas filhas gémeas, de 16 anos. “O final do mês? Tentamos gerir da melhor forma possível, mas é complicado poupar”, explica Rita. “As despesas não são só água, luz, gás e renda. Há alimentação, vestuário… a pessoa fica sufocada.”

O sonho de Rita é ver as filhas na universidade. “Estou a instruí-las para isso. Não sei como vai ser, porque não tenho condições para colocá-las a estudar fora, mas elas têm de sair deste cenário. Por isso, e apesar de saber que são adolescentes e têm de viver, tenho sempre uma conversa com elas sobre economia familiar.”

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O paradoxo da taxa de poupança

Com as famílias a gerirem a economia doméstica ao limite, a poupança fica cada vez mais longe. Como se explica, então, que a taxa de poupança dos portugueses esteja a subir? Em 2024, atingiu 12,5% do rendimento disponível, face a 8,9% em 2023.

A resposta é simples e incómoda: a poupança não é igual para todos. “Os dados do Banco de Portugal mostram que a maioria está concentrada nos agregados familiares com maior rendimento, que detêm mais de metade das poupanças acumuladas. Os agregados com rendimentos mais baixos não conseguem poupar nem fazer face a despesas inesperadas”, explica Maria José Vicente.

A desigualdade tem consequências em cadeia. Sem poupança, qualquer despesa inesperada pode transformar-se em dívida. E a dívida, com juros associados, reduz ainda mais o rendimento disponível, alimentando um ciclo de sobrevivência mensal difícil de interromper. “Por mais que tente levar as coisas positivamente, não deixo de viver sob stress e medo”, confessa Rita. “Podemos ter dificuldades financeiras, mas é preciso ter esperança no futuro.”

Para complicar o cenário, fatores externos tornam o horizonte ainda mais instável. A possibilidade de um conflito prolongado no Médio Oriente antecipa a pressão sobre a inflação, com a energia à cabeça, e sobre as taxas de juro do Banco Central Europeu (BCE), influenciando diretamente as prestações do crédito à habitação. “São obstáculos à poupança. Hoje, as famílias gastam mais dinheiro para assegurar as necessidades básicas, como a alimentação, luz, água, comunicações, educação, saúde e a habitação”, resume Cláudia Oliveira, diretora da Direção da Rede Mutualista do Montepio Associação Mutualista.

“Conheço muitos portugueses com rendimentos médios ou baixos, para quem falar de poupança continua a ser desafiante. É uma possibilidade real, mas desigual”

Maria José Vicente, coordenadora nacional da Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN Portugal)

Mas ainda é possível?

Perante salários que não acompanham o custo de vida e despesas fixas cada vez mais pesadas, a pergunta impõe-se: será a poupança um privilégio reservado a quem tem rendimentos mais elevados?

Cláudia Oliveira reconhece que a situação é exigente, em particular para os agregados familiares com baixos rendimentos. “O custo de vida aumentou e os salários não acompanharam essa inflação. Criar margem para poupar torna-se difícil, mas há sinais de mudança nos comportamentos: as famílias estão a melhorar os hábitos de poupança”, afirma.

Nos últimos anos, a instabilidade laboral e preocupações com a saúde levaram muitas famílias a procurarem soluções que combinem poupança e proteção. “A prioridade deixou de ser apenas a rentabilidade: é também a segurança. As soluções de poupança programada mensal com componente de proteção que a Associação Mutualista oferece funcionam como uma segurança adicional em caso de imprevisto”, explica Cláudia Oliveira. A flexibilidade destas soluções é um fator decisivo. Mesmo nas modalidades de médio e longo prazo, a possibilidade de movimentação e adaptação às necessidades familiares pesa mais do que o prazo em si. “A adesão tende a ser maior”, sublinha.

Outro elemento diferenciador é o acompanhamento personalizado. A orientação próxima ajuda as famílias que sentem que “não sobra nada” a planearem melhor e a iniciarem um processo gradual de poupança, mesmo com pequenos valores. “Poupar pouco é melhor do que não poupar. O importante é criar disciplina e manter o hábito”, afirma a responsável.

Assim, a responsável destaca o papel dos gestores mutualistas nas escolhas dos associados. “Conhecemos cada família, compreendemos a sua realidade e apresentamos soluções de poupança e proteção ajustadas”, refere. “Quando a educação financeira se traduz em acompanhamento próximo e em escolhas simples, tornar-se uma ferramenta transformadora, mesmo para quem sente que tem muito pouco espaço de manobra no final do mês.”

Mesmo pequenas poupanças podem fazer a diferença, criando uma almofada mínima de segurança e evitando recorrer ao crédito em caso de imprevistos. No entanto, a desigualdade persiste: quem tem maior rendimento consegue acumular mais rapidamente, enquanto os agregados que vivem no limite dependem de uma gestão cuidadosa e constante. São conselhos válidos, mas pressupõem que exista margem para poupar.

Poupar ou aproveitar a vida? O dilema de quem tem escolha

“Quando nos privamos de fazer muita coisa porque queremos poupar dinheiro para a reforma e com isso perdemos a oportunidade de fazer coisas diferentes com a família, para mim não faz sentido. Quando nos tornamos escravos do dinheiro, não somos felizes.” O comentário, com dois anos, é de um utilizador da rede social Reddit, numa das comunidades mais populares em Portugal, dedicada à literacia financeira.

Se a poupança é cada vez mais um luxo, não é menos verdade que, para alguns, há pequenos luxos que competem com o hábito mensal de reforçar o pecúlio financeiro. Muitos já sentiram o dilema de jantar fora com os amigos, fazer uma viagem em família ou investir numa compra mais dispendiosa, sabendo que isso pode comprometer a poupança. “É uma conversa recorrente em nossa casa”, explica Miguel Oliveira, de 46 anos. “Às vezes ganha a razão, outras o coração.”

Para este pai de três filhos, com idades entre os 3 e os 15 anos, todos os meses são incertos no orçamento familiar. “O rendimento é igual, mas as despesas não. Se uns amigos nos desafiarem a almoçar fora, por exemplo, devemos contar, pelo menos, com 80 euros de conta. E depois há as despesas que não controlamos, como as relacionadas com a saúde, o vestuário, as atividades da escola. Há dias, o meu filho perdeu o livro de História na escola. Foram 25 euros a menos para a poupança”, explica.

Mas este é um dilema bom. Pressupõe que existe margem, ainda que apertada, para decidir como distribuir o rendimento mensal. O que implica, por exemplo, poder optar entre reforçar a poupança ou acomodar uma despesa extra, sabendo que as necessidades essenciais estão asseguradas. “De qualquer modo, a poupança vem sempre em primeiro lugar porque está automatizada. Se não fosse assim, provavelmente acabávamos por gastar mais”, conclui Miguel Oliveira.

“A prioridade deixou de ser apenas a rentabilidade: é também a segurança. As soluções de poupança programada mensal com componente de proteção que a Associação Mutualista oferece funcionam como uma segurança adicional em caso de imprevisto”

Cláudia Oliveira, diretora da Direção da Rede Mutualista do Montepio Associação Mutualista

Final feliz procura-se

Leonor e Rita têm um objetivo na vida: dar aos filhos o que não tiveram. Rita, que está a terminar a licenciatura em Serviço Social, apoia-se no abono de família para constituir uma poupança mínima. “Quando entra o dinheiro do abono de família das miúdas, parte vai para uma poupança automática. Já não sai”, confessa. Mais tarde, quem sabe, poderá cumprir alguns dos sonhos que tem: ter uma casa e um negócio próprios, e as filhas formadas. “Daqui a 15 anos, quem sabe, finalmente consigo poupar mais.”

Leonor também sonha. “Consegui pôr todos a estudar. E quebrei o íman invisível que os puxava para a pobreza. Daqui a 15 anos, eu e o meu marido continuaremos aqui, mas eles não”, antecipa. Nessa altura, pensa, talvez finalmente consiga poupar. “A minha filha mais nova quer ir para a Dinamarca e o meu filho até pode ir para Espanha. Com as minhas poupanças, vamos conseguir visitar os três.”

São sonhos modestos, ditos com uma voz que ainda embarga. E é precisamente aí que reside a resposta à pergunta deste texto: a poupança é, sim, um luxo. Não porque seja supérflua, mas porque continua a ser inacessível para quem mais precisaria dela. Enquanto a riqueza acumulada continuar concentrada nos mesmos bolsos, a taxa de poupança nacional será sempre uma média que esconde duas realidades opostas: a de quem escolhe poupar e a de quem não tem essa escolha.

“Muitos associados conseguem, mesmo com valores residuais, acumular capital para terem uma almofada financeira que, em certos momentos de dificuldade, é a salvação”

João Fialho, gestor mutualista do Montepio Associação Mutualista em Évora

5 caminhos para começar a poupar

Apesar das dificuldades que muitos portugueses sentem em poupar, há estratégias e pequenos hábitos que têm permitido a algumas pessoas fazê-lo. João Fialho, gestor mutualista do Montepio Associação Mutualista em Évora, explica alguns deles.

1. Começar com qualquer valor, mesmo que baixo.
“Muitos associados do Montepio Associação Mutualista conseguem, mesmo com valores residuais, acumular capital para terem uma almofada financeira que, em certos momentos de dificuldade, é a salvação.”

2. Automatizar a poupança.
“Em muitos casos, o ‘pinga-pinga’ é a base para garantir um fundo de maneio a médio-longo prazo.”

3. Ouvir os mais velhos.
“As gerações mais velhas tendem a estar mais despertas para a necessidade de poupar, seja porque já passaram dificuldades que as sensibilizaram para isso, seja porque viveram em épocas em que a poupança era uma preocupação constante. As gerações mais novas não sentem essas necessidades e, muitas vezes, privilegiam produtos de retorno mais imediato, modernos, digitais, procurando rentabilidade superior, sem admitir que o futuro pode trazer algo inesperado.”

4. Ser paciente.
“Mesmo em cenários económicos mais complexos, o essencial é perceber que o futuro começa hoje. O caminho terá altos e baixos, mas é no presente que se prepara tanto o que se planeia como o inesperado. O pouco torna-se muito quando se juntam muitos ‘poucos’, e a sabedoria popular continua atual: ‘grão a grão, enche a galinha o papo.’”

5. Confiar no gestor mutualista.
“O nosso papel é essencial para despertar nos associados a consciência da importância de poupar. Apresentar estratégias ou pequenas dicas sobre como, e quando, poupar pode ser a chave para que muitos associados, sobretudo os que têm mais dificuldades, tenham uma ‘tábua de salvação’ quando a incerteza é a única certeza. Faz parte da missão do gestor mutualista ajudar os associados a reconhecerem necessidades que ainda não identificam, mas que existirão algures no tempo.”

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