“Enquanto tiver voz e estiver bem para cantar, não deixo a música”

“Enquanto tiver voz e estiver bem para cantar, não deixo a música”
22 minutos de leitura
Fotografias de Rita Carmo e Miguel Oliveira
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Sérgio Godinho fala como escreve. Palavra cuidada, pensamento lúcido e raciocínio uns segundos à frente dos outros. O compositor, escritor, ator — e tantas outras coisas ligadas à arte — recebeu-nos em casa para uma hora de conversa sobre canções de amor. As mesmas que levou aos palcos do festival Montepio às Vezes o Amor, uns dias antes.

Em fevereiro, levou as suas canções românticas ao festival Montepio Às Vezes o Amor…

Estiveste lá?

Com muita pena minha, não estive.

Toquei no Campo Pequeno, em Lisboa, e no Coliseu do Porto, que estava à pinha. Foi brutal. No Porto, o espetáculo foi às seis da tarde, uma matiné em que se pode levar as crianças. Um grande amigo meu levou os filhos, gémeos de 10 anos e que são grandes fãs por influência dos pais. Nunca tinham ido ao Coliseu, ainda por cima.

Nunca tinha feito este espetáculo, apesar do álbum Biografias do Amor ter sido lançado, originalmente, em 2001. Porque não aconteceu antes?

As minhas canções são de um foro muito diverso. Aliás, tenho dificuldade em classificar certas canções. Rejeito o termo “intervenção”, acho que dá para tudo. É um termo oco. Intervém-se em tantos níveis.

A canção de amor também pode ser intervenção.

Sim, e a de desamor também, sendo que as duas coexistem neste espetáculo. É uma forma de estar a intervir na vida dos outros, na afetividade, na escuta do que nos toca. Há tantas canções minhas que tocam as pessoas de maneira diferente. É muito comum, quando há uma criança que nasce, relacionarem isso com a música Espalhem a Notícia, onde também há o nascimento de uma criança. Os meus géneros são muito cruzados.

Mas mesmo as suas canções de amor são muito diferentes entre elas.

Sim, sim. Por exemplo, Com Um Brilhozinho Nos Olhos é uma canção de amor, mas é diferente de outras canções de amor que falam especificamente de relações amorosas. E mesmo estas são um campo muito vasto. Deu-me muito gozo compilar estas canções para o disco [Biografias do Amor]. E agora para um novo disco, que integra mais canções [o álbum original, de 2001, foi reeditado em 2026]. Há canções que não existiam em 2001, por isso é uma atualização. De certo modo, e simbolicamente, até a capa tem uma foto atualizada, também da autoria da Rita Carmo, que é a pessoa que mais me fotografou. Deu-me um grande gozo, até porque foi uma ocasião sugerida por este festival que, ainda por cima, adota o nome de uma canção minha, Às Vezes o Amor. Nunca tinha reunido as canções de amor num espetáculo e ser só isso. Se é que se pode dizer “só” porque, lá está, é um assunto muito diversificado. Mas deu-me um grande gozo e há canções que nunca tinha cantado ao vivo.

Quais?

A canção que abre o espetáculo, Aprendi a Amar, do álbum Pré-Histórias (1972). Se cantei foi nessa altura, se bem que em 1971 não estava cá e não tinha muita prática de fazer espetáculos. Também cantei uma canção chamada Que Lástima, Querida Fátima, do álbum Aos Amores (1989). Nunca a tinha cantado ao vivo.

Essa música é muito interessante porque é um cha-cha-cha, um género musical relativamente invulgar na sua discografia.

Sim, é um ritmo mais cha-cha-cha. Aliás, eu canto isso. “Se já não queres um cha-cha-cha / eu canto o rock-rock-rock.” Apanha um bocado esse ritmo latino que é, sobretudo, a forma que encontrei para [partilhar] a essência da canção, que é inspirada numa amiga cujos amores corriam sempre mal. No campo amoroso nunca tinha grande sucesso, eles iam-se sempre embora ou havia um conflito qualquer, não sei. E ficou esta música que é o que os ingleses chamam de “cheer up song”, uma canção para levantar o ânimo de uma pessoa que se deixa ficar na infelicidade do pós-amor. É a minha forma de dizer: vá lá, deixa-te de lamentos, põe os teus olhos nesses teus olhos vermelhos e vê lá se sais dessa. [Começa a cantar]: “Está combinado, esta canção vai durar só três minutos.” Demora ligeiramente menos, mas quase que chega a três minutos, não fui completamente rigoroso [NDR: a canção dura 2’49’’].

Estava de certa forma a antecipar a lógica da música moderna: três minutos de canção para ir para o Spotify.

Não, não, essa lógica já se usava muito. Para a rádio, para os festivais da canção… esse padrão dos três minutos já tem muitos anos.

Há um verso muito forte nessa canção: “Não deixes que esse marquesinho de Sade te sufoque.” É uma aliteração. A musicalidade das palavras é algo que trabalha conscientemente quando escreve letras?

Sim, é consciente, mas também me sai. O que acontece é que, musicalmente, tem de soar ágil. Na maior parte das vezes a música é anterior à letra, por isso quando a letra começa a existir tem de se encaixar naquele ritmo. Tem de se deitar naquela cama musical. Essa agilidade nas palavras… bom, eu sou muito rítmico, naturalmente. Gosto dessa frase e da canção toda. Até porque, tecnicamente, esta é considerada uma canção menor, nunca será a canção principal de um álbum.

É um lado B.

E eu sempre gostei muito desses lados B a que, imodestamente, chamaria pérolas. Muitas vezes, o lado B é tão forte como o lado A, que foi a canção escolhida na lógica de um single. É uma coisa que foi muito glosada, o lado B de uma canção que não é tão conhecida. Mas também já me aconteceu ter canções que pensei que fossem as mais fortes de um disco e que não pegaram.

Dê-me um exemplo.

O Bacalhau Basta, que é uma canção que está no álbum De Pequenino se Torce o Destino (1976). É uma canção que tem a ver com muita coisa, mas que passou completamente despercebida.

E o contrário, já lhe aconteceu?

Olha, quando comecei a cantar O Primeiro Dia nos primeiros espetáculos, não foi aquela canção que bateu especialmente nas pessoas. Mas depois foi entrando devagar e ficou como uma das canções de referência, sem dúvida. E é uma canção de que gosto muito, sempre gostei, mas o facto de eu gostar e as pessoas gostarem são duas coisas, por vezes, diferentes. Felizmente, muitas vezes coincide. O haver um tempo de habituação, de as pessoas se habituarem à canção, é bom sinal. É sinal de que a canção não se esgota à primeira escuta.

As suas músicas ouvem-se à terceira, quinta, décima vez e há sempre ali algo que nos tinha escapado.

Pois, é o compartimento secreto. [risos].

Sérgio Godinho levou ao festival Montepio Às Vezes o Amor músicas que nunca tinha cantado ao vivo, como “Aprendi a Amar” ou “Que lástima, querida Fátima”

Sérgio e os outros

Estive a ouvir de novo a sua discografia e chamou-me a atenção o facto de existir muitas inovações de álbum para álbum. Por exemplo, no álbum Na Vida Real (1986) não há guitarras, apenas pianos e sintetizadores. Gosto muito de uma música de amor chamada Emboscadas, que…

Gostas tu e gosta uma amiga minha, é a música favorita dela. [Começa a cantar]: “E esta dor em que me vejo / de nos ver quase no fim.” Esta canção foi feita para um filme do José Fonseca e Costa, mas acabou por não ser usada. Também era para ser cantada pela Lia Gama, que já tinha cantado músicas minhas noutro filme, Kilas, o Mau da Fita.

E porque não foi usada?

Por razões que agora não interessam. Acho que até fiz duas canções para este filme e uma delas acabou por fazer parte do espetáculo da Lia Gama ao vivo, em sítios como o Frágil e outros mais ou menos marginais. Mas essa música, Emboscadas, é originalmente um fado-canção.

Não sabia disso.

O próprio Camané cantou esta música [NDR: no álbum Do Amor e dos Dias, de 2010]. Eu tinha feito algumas coisas para ele e ele pediu-me outra canção. Na altura, estava embrulhado noutras coisas, não tinha disponibilidade, mas disse-lhe que tinha muito repertório e muitas canções que ficavam bem na voz dele. E falei-lhe do Emboscadas. Ele não conhecia a canção, foi ouvir e disse logo: “É perfeita.” E cantou-a. E quando o Camané canta, a canção fica logo com uma categoria [risos]. Não quer dizer que a minha versão seja má, mas ele deu-lhe o twist fadista que vinha da origem, é curioso.

É uma canção com várias vidas.

Eu gosto que elas tenham várias vidas, gosto de versões. Das minhas canções e não só. Fiz um projeto, que é o Caríssimas Canções, em que só canto canções de outros, com uma exceção. São canções de outros, versões à minha maneira. Mesmo as minhas canções, cantadas por mim, têm várias vidas, com arranjos diferentes.

Recordo-me da música Espectáculo, que mudou completamente.

Mas isso foi porque houve uma versão dos Clã, em que eu também cantei, nos espetáculos conjuntos que fizemos e resultaram num disco. Eles tornaram a música um rock e eu adotei essa versão para os meus espetáculos. Aliás, está no meu alinhamento base.

Apropriou-se da versão dos Clã de uma música sua.

Tornou-se minha, também. Quer dizer, o seu a seu dono, não é? [risos]

Aos 80 anos, Sérgio Godinho continua a ser seduzido pelos palcos. Em agosto, atua pela primeira vez no importante festival de Paredes de Coura

Canções de amor e desamor

Há duas outras músicas de amor de que gostaria de falar. A primeira é 2.º Andar, Direito. Foi inspirada numa história real?

É completamente ficção. É um storytelling, a história de um casal muito novo e que se vai desenrolando em seis minutos de canção. As pessoas gostam muito desta música e foi por isso que a cantei neste espetáculo. Eu tenho três filhos, mas é engraçado que a minha filha mais nova, que tem 35 anos, descobriu há pouco tempo essa canção e disse: “Pai, que maravilha. Eu não conhecia esta canção.” A descoberta das coisas pode considerar-se tardia, mas este não é o caso. Foi quando foi. E a canção é atual.

Não é uma canção, é uma curta-metragem.

Mas foi mesmo feita uma curta-metragem com esta canção.

Isso já não sabia.

Mas foi. Infelizmente, perdeu-se na poeira dos tempos.

Pode contar-nos essa história?

Foi na altura em que o Ricardo Pais era professor de Argumento na Escola Superior de Cinema e propôs, como exercício aos alunos, fazerem um script a partir dessa canção. No final do ano letivo, um desses alunos realizou uma curta-metragem para a RTP. Devo ter tido essa curta-metragem em VHS, mas já não tenho. Desapareceu algures no tempo e também duvido que esteja nos artigos da RTP porque eles apagaram muita coisa.

É pena.

Mesmo. Aliás, eu tinha uma peça como ator, também encenada pelo Ricardo Pais, em 1976: A Mandrágora, de Maquiavel, que é uma peça muito boa e que foi filmada pela RTP. Alguns anos depois, conheci o responsável pelos arquivos da RTP e pedi-lhe para ver onde estava. E tinha sido apagado porque aproveitavam as cassetes para gravar outras coisas. Há vários casos destes.

Voltando à música 2ª Andar, Direito — sempre pensei que o Sérgio Godinho fosse o vizinho.

Há uma altura em que se percebe que o narrador é o vizinho e acho curiosa essa inclusão: “É preciso explicar que sou eu o vizinho / E à noite vivo neste quarto sozinho / Corpo cansado, a cabeça em desalinho / E o prédio inteiro nos meus ouvidos.” No limite, a história só existe na cabeça do vizinho. É uma metanarração. Posso não ter sido eu o narrador, pode ter sido esse vizinho. É um bocado o ricochete do ricochete, é engraçada a volta narrativa que a canção dá.

É um plot twist.

É. Não sei se é percetível para todos, há pessoas para quem aquilo passa, mas há ali uma volta na narrativa.

A última música é Às vezes o Amor, que acabou por dar nome ao festival. Pediram-lhe autorização para usar o título da canção?

Não [risos]. Mas pronto, está reparada a omissão visto que este ano me convidaram [risos].

Gosto muito do verso “Da morte volta sempre em vida”. Só o Sérgio consegue pôr a palavra “morte” numa frase que fala sobre esperança.

Sim, porque muitas vezes morre-se dos amores. No calendário, às vezes está-se para cima, outra para baixo. É uma morte simbólica quando o amor acaba. Mas a maior parte das vezes renasce-se, com mais feridas ou menos feridas. Ou até com libertação, porque há amores que são tão ambíguos… Tenho uma canção chamada Tudo no Amor, uma letra que fiz para os Clã, na qual pergunto: “Gostarás de ti ao gostares de mim?” Isto é importante, porque muitas vezes não estamos a gostar de nós quando estamos envolvidos numa situação amorosa. Quando estamos a gostar de outra pessoa, mas não de uma maneira que nos satisfaça. É importante gostarmos de nós quando estamos a gostar dos outros, é bom sinal.

Voltamos à Fátima, a da lástima.

Mais ou menos, mais ou menos.

Há também uma versão desta canção por parte da Márcia. Gosta das versões que fazem da sua música?

Nesse caso gostei muito. Mas até fui eu a sugerir que a Márcia cantasse essa canção. Ela disse-me que estava a pensar cantar A Noite Passada, mas era uma canção já muito batida. Disse-lhe: “Experimenta outra coisa. Vê no meu repertório, tens o Às Vezes o Amor.” E gostei muito da versão dela, despida e cantada naquela maneira minimal que ela sabe praticar, cantar. Aliás, no último disco dela, chamado Ana Márcia, eu dou uma segunda voz numa música, dou só uma pincelada no refrão. E a Márcia tem canções muito inspiradas. No álbum Nação Valente (2018) canto uma música dela, chamada Delicado. Tem frases brilhantes: “Quem quiser pintar passados / vai ter muito pr’a emendar.” É essa coisa que, quando queremos alterar o passado, aquilo que já vivemos, vamos ter muito que emendar, temos de assumir o nosso passado. É a única canção que não é minha.

Sangue novo vs. sangue maduro

Quando começou a trabalhar com os Clã ou com o Nuno Rafael (guitarrista dos Peste & Sida e dos Despe & Siga), fê-lo para chegar a novos ouvintes ou queria mesmo fazer coisas novas?

Isso é um equívoco completo porque foram eles que vieram ter comigo. Não fui eu que fui à procura de sangue novo. No caso dos Clã, tudo começou porque a Manuela [Azevedo] tinha tido um convite para cantar na Expo’98, mas com um convidado que tomasse uma parte muito ativa no concerto. Nessa altura, os Clã estavam a fazer o segundo disco, e ela e o Hélder [Gonçalves] convidaram-me para fazer um espetáculo em conjunto. Eles pegaram em algumas canções minhas, como O Baú de Sigmund Freud, que nunca tinha cantado ao vivo. Deu-me muito gozo fazer isso.

E o Nuno Rafael.

Nesse caso, o primeiro convite foi feito por mim, mas para tocar numa canção do álbum Domingo no Mundo (1997). Como ele, mas também o João Cardoso e o Sérgio Nascimento estavam nos Despe & Siga, um dia fiz uma letra para uma canção deles. Passados uns meses, os três vieram ter comigo e disseram-me que queriam fazer parte da minha banda. Eu estava num processo de renovação de músicos e…

Isto está tudo ligado.

Sim [risos]. Mas não sou eu que procuro sangue novo, eles é que querem o sangue maduro [risos].

Foi recentemente partilhado um vídeo do Festival Literário de Penacova em que um coro o surpreende a cantar O Primeiro Dia. Ainda se emociona quando vê as suas canções apropriadas por outras pessoas desta forma?

Esse evento foi uma surpresa para mim, foi no fim de uma sessão literária na biblioteca de Penacova, onde fui apresentar o meu último livro: Como se não Houvesse Amanhã. Foi uma espécie de flashmob, no fim do período de perguntas. De repente, alguém no público pergunta: “Continua a achar bem aquela canção: a princípio é simples, anda-se sozinho.” E começaram a levantar-se do público, era um coro. Mas com contracantos e tudo, foi uma coisa linda, muito emocionante. No fim, eu disse-lhes que tinham de ter cuidado comigo porque começo a chorar [risos]. Foi inesperado e uma surpresa para mim.

No outro dia, a minha filha de três anos chegou a casa a cantar a Canção dos Abraços porque a educadora estava a trabalhar o tema da amizade e…

Cantam muito isso nas creches, sim.

Acha que as gerações que estão agora a nascer ainda vão ouvir e cantar as suas músicas? A sua música é intemporal?

Não sei, é daquelas coisas que acho que se vão perdendo um bocado. Há menos gente nova que conhece as minhas canções do que havia há 20 anos, sem dúvida. No caso da Canção dos Abraços, como todas as canções do álbum Os Amigos de Gaspar (1988), como: [Começa a cantar]: “É tão bom uma amizade assim / Ai, faz tão bem, saber com quem contar.” São casos que pegaram em gente de uma certa idade porque era uma série extremamente popular. Quantos anos tens?

46 anos. Era criança nessa altura.

Então conhecias a Canção dos Abraços porque apanhaste isso. E ficou nas pessoas. Ainda hoje me falam dessa série, é engraçado, até porque os episódios estão no YouTube. E foi uma série muito bem feita, na qual estive envolvido. Fiz todas as músicas com o meu amigo Jorge Constante Pereira e trabalhámos com o marionetista João Paulo Seara Cardoso, que sabia muito, tinha trabalhado com o Jim Henson, dos Marretas. Foi uma série que marcou uma geração. Iniciativa de gente do Porto [risos].

A começar pelo Sérgio.

Sim, a começar por mim. Aliás, o Jorge Constante Pereira fez várias músicas comigo. Há uma canção chamada Pequenos Delírios Domésticos, cuja música é dele. Mas ainda sobre se as crianças vão ouvir as minhas músicas, é evidente que se vai perdendo um bocado. Ainda estou cá. Por exemplo, este ano vou tocar no festival de Paredes de Coura.

Com estas canções de amor ou será um espetáculo normal?

Espetáculo normal, com convidados. Aliás, nas próximas semanas tenho vários espetáculos com os Assessores (banda do Sérgio Godinho) e o repertório normal, seja lá o que isso quer dizer. Embora queira repor este espetáculo de amor e está em agenda para mais tarde, porque não pode ficar só por aqueles dois concertos. É um investimento diferente a nível musical, com arranjos do António Quintino e, à parte do Sérgio Nascimento na bateria e o Nuno Rafael na guitarra, com músicos que nunca tinham tocado comigo. É algo que pode ser repetível.

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Vê muitas pessoas jovens nos seus concertos?

No concerto do Porto, como foi às seis da tarde, vieram muitas crianças. À noite não é tão comum, às vezes vai uma ou outra criança, e eu depois vejo que está a dormir no colo da mãe [risos]. Mas no fim bate palmas. O que há é gente bastante jovem que me vem dizer que é o primeiro espetáculo meu que viu porque o irmão mais velho, os pais ou os tios lhe deram a conhecer a música. Normalmente, as pessoas esperam uma coisa mais estática, mas é um espetáculo muito vivo.

Há muitas crianças que se sentem atraídas pela sua música. Será o ritmo das canções?

Sim, acho que é o ritmo e a maneira como as palavras dançam dentro do ritmo. Mas os miúdos gostam de várias canções minhas que não são para crianças, gostam dessa vivacidade. Normalmente são as coisas mais vivas, mais rítmicas, que eles apanham.

Como vê o seu futuro? Novo álbum, novos livros.

Neste momento não tenho perspetivas de novo álbum. Tenho algumas coisas feitas, mas não me tenho dedicado muito a isso porque estou bastante envolvido na ficção narrativa. São tempos de vida e também tenho 50 e tal anos de canções e um repertório imenso que vou renovando.

E vai continuar a escrever?

Sim, continuo envolvido na ficção narrativa: fiz um livro de contos, três romances, depois outro livro de contos, e agora estou envolvido num novo projeto de ficção literária que tem algum carácter autobiográfico mas ainda não posso falar dele. E depois logo se verá.

E a música?

Enquanto tiver voz e estiver bem para cantar, não deixo a música. De maneira nenhuma. De voz estou bem e adoro os palcos. É um contraponto quase total em relação à solidão da ficção narrativa, que é uma coisa de nós para nós, e depois o público, quando lê, é em diferido. O palco é um exercício de comunicação. E eu gosto muito dessa partilha e do risco de ir para o palco, essa vibração.

Isso é de uma música sua, Espectáculo. Às vezes está no music-hall, outras está na televisão. Mas, por vezes, a luz da ribalta não o seduz.

Ah, sim, sim.

Escreveu o seu próprio futuro há 40 anos.

É isso, é isso. E está feito.

Aos 80 anos, Sérgio Godinho está aí para as curvas

Sobre Sérgio Godinho já quase tudo foi escrito. Natural do Porto (1945) e crítico do Estado Novo, viveu na Suíça, França e Canadá antes de regressar a Portugal, depois do 25 de Abril, para se tornar um dos artistas mais conhecidos e acarinhados dos portugueses. O seu primeiro disco, Os Sobreviventes (1972), é considerado um dos melhores álbuns portugueses de sempre. Ao todo, são 18 álbuns de originais e incontáveis músicas para bandas sonoras (por exemplo, Kilas, o Mau da Fita, de 1981), desenhos animados, parcerias musicais (com destaque para Milton Nascimento ou Chico Buarque) e vários álbuns ao vivo.

Figura central da cultura portuguesa dos últimos 55 anos, Sérgio Godinho conviveu e colaborou com os grandes vultos da música portuguesa: Zeca Afonso, Fausto, José Mário Branco, Jorge Palma e Vitorino. Percorreu, e ainda percorre, milhares de quilómetros a caminho dos teatros, dos auditórios, das festas municipais, das vilas e aldeias. Agregou, como poucos, as novas gerações da música portuguesa, ao ponto de ser figura de proa de uma música de B Fachada, Os Discos do Sérgio Godinho, que a certa altura diz assim: “Só me mostravas discos do Sérgio Godinho / Dominavas o glossário daquele verso irregular / Eu também sei escrever pr’a te cantar assim / Com o verso, enfim, quebrado, quase falado.”

Sérgio Godinho esteve sempre um passo à frente. Seja na inovação musical, de que é exemplo o álbum Na Vida Real, de 1986, ou na forma como renovou as canções de sempre com roupagens rock, fruto das parcerias musicais com os Clã ou músicos da banda punk Peste & Sida, como Nuno Rafael. Ator, compositor, intérprete e entertainer tout court (que ele próprio admite na música Espectáculo), Sérgio Godinho dedicou-se, nos últimos anos, à escrita de contos e romances. Vai continuar a conjugar a música com a literatura, para nossa sorte.

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