No início dos anos 1950, António Gentil Martins, abalado pela morte do seu primeiro paciente, tomou uma decisão difícil: abandonar a carreira médica. O país, então em plena reconstrução dos hospitais e do sistema de saúde, não imaginava que perderia um dos maiores defensores da humanização no atendimento aos doentes.
Sem a sua presença, a prática médica tornou-se mais técnica e distante. Jovens médicos, sem um mentor capaz de transmitir empatia e resiliência, aprenderam cedo a focar-se apenas em diagnósticos e procedimentos, esquecendo muitas vezes a pessoa por detrás da doença. A medicina avançou na ciência, mas não na humanização dos pacientes.
E quando, nos anos 1970, Portugal enfrentou um dos desafios cirúrgicos mais complexos da época — o caso das gémeas siamesas Tânia e Magda, unidas pelo tórax e abdómen — nenhum médico com uma visão simultaneamente técnica e profundamente humana foi capaz de coordenar os cuidados e preparar a família para uma decisão tão delicada. A cirurgia foi adiada, envolta em hesitações e receios, e o país assistiu, dividido entre a esperança e o medo, àquilo que poderia ter sido um marco de confiança na medicina portuguesa.