“Quando vou para o onírico, para o poético, é aí que acerto.”

“Quando vou para o onírico, para o poético, é aí que acerto.”
23 minutos de leitura
Fotografias de Maria João Gala
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Nos últimos 40 anos, nenhum álbum da música portuguesa superou a estreia de Pedro Abrunhosa: Viagens. É a opinião de um júri de 170 personalidades convidadas pela revista Blitz, mas também de muitos outros portugueses de todas as idades que ainda hoje esgotam os concertos do compositor e multi-instrumentista que ajudou a modernizar Portugal.

A caminho de um novo álbum, o nono, e mais um ano recheado de concertos (em 2024, foram 125), o poeta, cuja obra se confunde com a cidade do Porto, falou-nos dos novos projetos (dois livros e um filme) e deu-nos alguns spoilers dos concertos com que vai abrir o próximo ano e que contam com o apoio do Montepio Associação Mutualista.

Em janeiro, vais dar dois concertos no Porto e um Lisboa. É difícil escolher um alinhamento para agradar a todos?

Essa é a pergunta do milhão de dólares. O repertório é vasto, e chegar a um espetáculo e não tocar Não posso mais ou Socorro, que são canções que têm 30 e muitos anos, seria quase insultuoso para o público. Mas também o seria não tocar as músicas mais recentes, que são contemporâneas das novas gerações. É essa abrangência que faz com que os concertos sejam longos, mas também o que lhes dá vida. O alinhamento é feito pelas pessoas, e eu não posso chegar a um palco e fazer 10 temas que ninguém conhece.

Ninguém te perdoaria.

As pessoas adotaram as músicas para si próprias, no seu dia a dia, na sua corrente pessoal, nas relações com os namorados, com os pais, com os irmãos. E adotaram-nas como leituras pessoais. Tenho canções como Se fosse um dia o teu olhar, Tudo o que eu te dou ou Para os braços da minha mãe, esta última um apelo literal para uma geração que é forçada a emigrar. E depois temos canções de separação, morte, perda, desejo, em que nos refugiamos no nosso quarto. E vamos chorar a namorada que nos deixou, o namorado que foi embora, na solidão de uma canção.

Cada qual adapta as canções à sua própria realidade e depois quer ouvi-las ao vivo. É isso?

Sim, e a língua aproxima-nos muito. A poesia consegue dizer coisas que a linguagem comunicacional não. [O palco] é um lugar de salvação. São canções que foram comercialmente bem-sucedidas, mas também através do lado mais emocional. E é essa ligação da genuinidade que me interessa e fascina.

Pedro Abrunhosa fotografado por Maria João Gala no Palacete Severo Hotel, no Porto. Sair da Cidade Invicta nunca fez parte dos seus planos, confessa

Um concerto é uma luta contra o tempo?

Olha, já fiz um concerto de 4 horas e 46 minutos, numa passagem de ano, na Avenida dos Aliados, no Porto. E creio que o público também se renovou [risos]. Muita gente foi e muita gente chegou. Mas, geralmente, os concertos têm de 2 horas e 30 minutos para cima. É verdade que os concertos são uma corrida contra o tempo, mas também porque é preciso cumprir determinadas etapas: apresentar os músicos, cada um deles tem o seu momento para brilhar. Há um momento físico, com músicas que puxam para dançar, e depois há o momento interior, muito espiritual e muito denso, em que se fala de coisas sérias. Toda esta narrativa é quase de tragédia grega: há uma exposição, um desenvolvimento e depois há um epílogo.

Ainda consegues tocar as músicas mais físicas do álbum Viagens?

Tens de ir ver e depois dizes-me [risos]. Este ano, temos 125 espetáculos e todos têm uma dinâmica muito viva, são muito físicos. E isso pressupõe uma atividade grande no palco, por isso tenho de estar em forma. Tenho vários cuidados diários, desde a alimentação ao desporto. Não fumo, não bebo, nunca consumi drogas, que é uma coisa importante de sublinhar. Consigo sair do corpo, que é o que faço quando escrevo e entro no palco, sem necessitar de estímulos externos. E isso também tem resultados na longevidade. Não digo que consigo aguentar um espetáculo como quando tinha 20 anos, mas também não ando muito longe.

A nossa fotógrafa, Maria João [Gala], já te fotografou várias vezes e diz que os teus concertos são experiências intensas. Mas são diferentes em cidades como Lisboa e Porto, por exemplo?

É muito complicado distinguir isso geograficamente. As canções são transversais e não te posso dizer que haja reações físicas diferentes. Talvez no Alentejo sejam um pouco mais relaxados, mas a ligação vocal e emocional é a mesma. Fiz agora um concerto em Guimarães e foi uma avalanche de energia. As canções provocam a mesma reação emocional porque a alegria é a mesma, a dor é a mesma e as palavras cumprem uma função lá dentro. O espetáculo não é o palco, mas o que está em baixo, o que está a acontecer. No Porto, existe um acréscimo de emocionalidade porque as pessoas veem-me como da casa. Eu sou um deles.

Depois de um 2025 na estrada, com mais de 125 concertos, Abrunhosa regressa aos álbuns em 2026, com Inverbo. O projeto poderá chegar também aos cinemas

O tempo faz amadurecer

Em outubro, mostraste parte do teu passado na exposição O silêncio é um lugar, no atmosfera m. Sentiste o tempo a passar quando reviveste os bilhetes, os óculos e os blazers antigos?

É a parte comum a todos nós: saber envelhecer, amadurecendo. Eu não acompanhei a curadoria para não influenciar. O curador, João César Nunes, escolheu as coisas que quis. Mas é um confronto físico com o nosso passado. Estavam lá os bilhetes do Frank Sinatra… não são os bilhetes dos Coldplay, isso seria mais óbvio. É um bilhete de uma pessoa que já desapareceu há uns anos largos. O confronto com o tempo passar vê-se nas fotografias, nessa tal transformação física pela qual passamos. Mas o tempo na atividade artística, como noutras, por exemplo na científica e na política, só amadurece. Faz-nos mais sábios perante o passado, mais tolerantes perante os erros e os outros, mais calmos perante as circunstâncias e mais astutos na busca.

Isso também se nota na tua escrita.

Sim, creio que é óbvio. Ninguém contesta que [António] Lobo Antunes escreve melhor numa fase final do que no início, Saramago também, ou qualquer autor. O Mozart maduro é diferente do Mozart adolescente. Mas no caso da música pop existe um complexo de idadismo: quanto mais novo, melhor. Muita da música atual é de uma simplicidade confrangedora, no mau sentido. Por exemplo, recorre demasiado à eletrónica para corrigir as imperfeições. E não permite o erro e o imperfeito, que fazem parte do humano.

Os mais velhos têm de provar mais?

Na música pop, os mais maduros e com mais experiência, como eu, têm de provar mais. E a consequência disto para as vendas de discos ou bilhetes para concertos é importante, assim como o streaming e os likes. Eu não me deixo ultrapassar pelos autotuners (tecnologia que permite afinação vocal e de instrumentos) e orgulho-me disso. Ao contrário de simplificar, tornei a minha música mais complexa e ainda mais profunda. A simplificação retira profundidade à linguagem artística.

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O início do sucesso

Voltemos a 1995. O álbum Viagens mudou a música portuguesa e a vida do nosso país. Sentias que isso podia acontecer?

Não. Uma coisa é a avalanche física que acontece: os concertos, a multidão. Mas eu já era muito maduro quando editei o disco, tinha 33 anos, com um percurso de estrada e de palco muito longo. E era professor, por isso não foi um deslumbre. O lado físico-material, o sucesso, foi muito bom. Comercialmente, [o sucesso do disco] libertou-me de uma situação confrangedora que tinha atravessado para financiá-lo. E é bom que assumamos a recompensa e não tenhamos a vergonha judaico-cristã-portuguesa de pedir desculpa pelo sucesso.

E o país?

Antes de Viagens, a música portuguesa tinha um som por explorar. Houve uma transformação sociológica de um país que se reformula e se revê de outra maneira, que se veste de outra maneira e que passa a ter orgulho na música portuguesa, em cantar em português, que era uma tendência que estava a desaparecer. Eu próprio tenho família no interior, em Moimenta da Beira, e sei o impacto que o disco teve.

É impressionante o que a música pode fazer pela mudança, não achas?

Há um antes e um depois do Viagens, mas na altura a minha perceção era apenas fazer música e não tinha a menor veleidade em transformar o que fosse. Lembro-me que fiz questão de andar a correr o país, numa digressão histórica. Fizemos 200 espetáculos num ano com uma tenda de circo, que andava de terra em terra. Vendíamos bilhetes no dia anterior, numa roulote, 1 500 a 2 000 lugares que esgotavam. Essa digressão ajudou muito a implementar a minha música no interior do país, que estava em transformação.

É o início da era moderna da música portuguesa?

Há uma linguagem muito clara, não só política mas também explícita do ponto de vista sexual, de libertação. Mas por outro lado fala de questões muito importantes, como é o caso da Sida. Pela primeira vez, a música não usa eufemismos. [Começa a cantar]: “Uma seringa trocada / um prazer que agora é nada.” E traz a noite.

Costumas dizer que a tua experiência como empresário de bares ajudou a moldar a música do álbum.

Eu vinha de investimentos que tinha à noite em bares e sim, também trouxe esse universo: a música de dança, a pista, o ir para casa às sete da manhã e depois levantar às nove para ir trabalhar, que era o universo de muita gente nos roaring eighties e no início da década de 1990. Essa fase acabou, a vida noturna assim já não existe. Mas isso está plasmado em Viagens. É um disco zeitgeist, traz o espírito do tempo dos anos 90 porque foi feito entre 1990 e 1993. Experimentei-o muito nas pistas de dança, nas discotecas, antes de ele sair.

Consta que o álbum foi rejeitado por várias editoras. É verdade?

Não consta, foi mesmo verdade. É um facto que nenhum dos editores que recebeu a maquete se deve orgulhar. E eu sou amigo deles [risos].

Sentes-te vingado?

Não, não. Eu percebo-os. Um dos instintos do homem é tentar manter as coisas como são.

O status quo.

Sim. E o status quo artístico é uma coisa vertiginosa. Para quê arriscar nesta coisa estranha que diz [começa a cantar]: “Amor, essa palavra que me mata / que me corta como uma faca.” Depois há Tudo o que eu te dou e Lua, que redimem uma certa agressividade.

Equilibra.

Há um equilíbrio, como dizia Nietzsche, dionísico-apolíneo. Mas o som também era diferente, agora é que achamos que aquilo está adquirido. No outro dia, ouvi Viagens na rádio e surpreendi-me com a qualidade do som que o Mário Barreiros e o Quico [Serrano] conseguiram. O som era diferente, totalmente revolucionário. E as editoras estranharam, não tiveram tempo de entranhar. E continuaram a apostar no tal status quo, das bandas de rock a la Xutos e Pontapés.

De rejeitado a figura máxima da música portuguesa, Pedro Abrunhosa fez a carreira a pulso, conquistando fãs e críticos com talento e persistência

A música como momento

A tua música tem uma relação muito forte com o momento. Canções como Senhor do adeus, Que o amor te salve nesta noite escura ou Balada de Gisberta são retratos de uma época. A inspiração vem da atualidade ou da tua própria inquietude?

Senhor do adeus é o caso típico de uma pessoa que Lisboa conhece. É lindo, não é? Eu achava aquela pessoa abençoada. Chegava ao hotel à noite, vindo do Porto, passava no Saldanha e lá estava ele. Quando desapareceu, senti-lhe a falta, apesar de nunca ter falado com ele. Aquela pessoa tinha uma poesia lindíssima e escrevi a canção por isso. Fiz a Balada de Gisberta pelas mesmas razões, mas contrárias. Num é o caso de celebração poética, noutro de celebração para não esquecer o que aconteceu ali.

Também cantas o lado negro do Porto.

Do nosso Porto. Mas é bom que sejamos nós e não venha ninguém de fora fazê-lo. E ainda bem que o fiz, porque, para já, aquilo foi nas traseiras do sítio onde vivo. Fundei a Escola de Jazz do Porto ao lado e punha o carro naquele edifício abandonado. E depois pela agressividade a uma figura que, por ser pobre, transsexual, brasileira, emigrante, sem-abrigo, portadora de HIV, tinha tudo para ser perseguida e foi. O trágico tem um lado poético, e foi isso que fiz. Mas há outras: Verdade, Silêncio ou É o diabo.

Com Rui Veloso e Rui Reininho formas uma espécie de triunvirato da música do Porto. Os dois Ruis acabaram por viver em Lisboa. Porque ficaste?

O Reininho foi, mas veio [risos]. E ainda há o Sérgio Godinho, que é outro do Porto que também foi para Lisboa. A proximidade com o poder causa-me algum desconforto. A voz da independência é uma coisa maravilhosa e a distância geográfica é boa. Para todas as áreas: a descoberta científica, a inovação, etc. Temos de estar ausentes da influência de corredores e estar no nosso posto de vigia, que é o estúdio. Não tem de ser perto de Lisboa. Aliás, escrevi uma música sobre isso, Rei do Bairro Alto, que é o retrato chapadinho do lisboeta que faz muitos comentários na televisão mas que ignora a realidade do país.

E no sentido artístico?

Para mim, é extremamente benéfico para o artista estar distante disso. Porque mantém o seu espírito de descoberta e vontade de rebeldia sem ter de andar a pagar pequenos-almoços.

No Cancioneiro que agora lançaste [ver caixa], o Fernando Alvim tem uma pergunta que gostava de te fazer: “O que sentirá alguém que escreve uma canção e depois percebe que ela ganha vida e corpo também naqueles que a irão reproduzir e cantar?” É estranho?

Pois… Como é que hei de responder a isto? Estou na solidão do meu estúdio, sentado no chão, à vontade, sem óculos, a pensar no que vou escrever. E depois vou para o piano e ele começa a falar comigo, a dizer-me coisas.

É um dueto.

Sim, e é um bocado de escrita automática, deixo que o texto fale e as mãos vão para cada sítio. A partir daí, começo a construir uma ideia de letra, que é algo assertivo. É o equilíbrio do inconsciente, que não posso negar que existe, ao qual tento não ceder. E quando vou completamente para o onírico, para o poético, é aí que acerto. Quem diria que quando digo “Sangue ardente / fermenta e torna aos dedos de papel”, que é da canção Se eu fosse um dia o teu olhar, um dos maiores êxitos da música portuguesa, as pessoas sentem-se impactadas? Ou então: “Frio, o mar / perante o corpo, fraco de lutar.” Deixa-me mostrar-te umas imagens do meu último espetáculo [pega no telemóvel e mostra o último concerto de Guimarães]. Uma multidão a cantar uma melodia que não está ainda editada. Isto é todos os dias assim, seja lá onde for. É este efeito mágico que a música tem e que não consigo explicar como se faz. Mas é uma névoa, não é uma flecha.

Pedro Abrunhosa admira a coleção da revista Ilustração Portugueza, do início do século XX. “Quem me dera ter comprado isto”, confessa.

O realismo das canções

Quero falar-te de três músicas. A primeira é Tudo o que eu te dou, que soa incrivelmente direta e emocional, quase como uma confissão. É verdade que foi gravada numa só toma?

Sim, sim. Estávamos a gravar em Battle, no sul de Londres, e já tínhamos arrumado as coisas. Na última noite de estúdio, disse ao Quico que ainda gostava de gravar uma canção. Ele foi para dentro da sala, para o piano, eu fiquei na régie com um microfone SM58, que é o mais barato de todos, aqueles das feiras. Ele começa a tocar a introdução de uma maneira tão bonita e eu cantei-a na régie com os auscultadores. É esta tal emocionalidade que a técnica não permite fazer.

Como compuseste esta música?

Estás a falar-me de uma canção que tem 35 anos.

Mas é uma canção emblemática, talvez a mais conhecida do teu repertório.

Foi escrita na Rua do Heroísmo, 235, onde vivia, no piano dos meus avós. A coisa mais importante de uma canção é a primeira frase, e a segunda é o refrão. Aquela frase “Eu não sei que mais te posso dar / um dia rei, outro dia sem comer” ditou o resto da música. Porque permite-me desenvolver uma narrativa poética da dúvida, da dor. Mas afinal “foram tantas as noites sem dormir” e tal. A música acaba por se escrever por si própria. Lembro-me melhor da canção Lua, do mesmo disco, porque sei exatamente quando apareceu. Escrevi-a numa noite de chuva, em que estava a ver a lua na sala, e cantei: “Da janela vejo a luz / que bate no chão.”

É realismo queirosiano.

É, é. Lembro-me também que queria escrever uma canção a la Prince e, na tentativa vã de o fazer, escrevi Lua.

Queria também falar da canção Ilumina-me, que considero uma canção gémea de Tudo o que eu te dou

É aquela velha questão de o escritor escrever sempre o mesmo livro mas de uma maneira diferente. O amor é o tema de 99,9% das canções do mundo inteiro. Desde as tragédias e clássicos gregos, de onde deriva tudo o resto. É o mistério da relação homem e mulher, ou da relação pai e filho. É explicar o amor por várias palavras. Ilumina-me é uma canção de amor entre Porto e Lisboa, entre duas pessoas. É uma canção de duas geografias.

Mas melodicamente tem três partes. Colaste três músicas numa só?

Sim, mas a estrutura da canção é um puzzle. As estrofes, os pré-refrões e o refrão. Ilumina-me ainda tem uma quarta parte, que é a do solo, que é apoteótica. É uma música orquestral.

A terceira música é Que o amor te salve nesta noite escura, que, creio, é a tua música mais ouvida no Spotify e no YouTube. Dizes que compuseste a canção em duas horas. Foi mesmo assim ou é apenas uma boa história de marketing?

Não é marketing nenhum. Até me lembro do dia em que a escrevi: quando começámos a saber notícias da invasão da Rússia à Ucrânia. E escrevi esta canção a pensar numa eventual tomada de Kiev, que felizmente não aconteceu. Foi escrita nessa noite, porque fui para o piano a seguir às notícias, que é algo que acontece muito. E despejei a angústia para cima de mim. A primeira frase escreveu-se sozinha. Aliás, toda a música se escreveu sozinha. De tal forma que nem a cheguei a aperfeiçoar. Às duas da manhã fui para casa descansar, e liguei à Sara Correia no dia seguinte, quando ouvi a música no meu telemóvel. Ou seja, nunca mais mudei a música.

Foi a única vez que te aconteceu?

Não. Aconteceu-me também com a canção Será, uns anos antes, mas durou mais, umas quatro horas. As canções que são feitas com esta emocionalidade são as que mais impacto têm nas pessoas. As mais genuínas.

A música fala sobre a guerra na Ucrânia mas pode ter várias perspetivas? É a tua Candle in the wind?

As músicas não são plásticas. Um grande filósofo espanhol dizia que todas as artes querem ser música. Porque todas querem ser aquilo e o seu contrário.

É como Hotel California, dos Eagles, ou You’re so vain, de Carly Simon. Cada um diz que falam de coisas diferentes.

Exato. Mas a noite escura é uma metáfora dos tempos. Vivemos numa noite escura, agora, por muitas razões. Pela política norte-americana de incógnita total, pela emergência de partidos com pensamentos atrasados. É uma noite escura. E no próprio relacionamento humano, quando duas pessoas se separam uma delas está a viver uma noite escura, ou se calhar as duas. É o que na literatura se chama entidade ampla, não é só aquilo.

Músicas e letras de Abrunhosa disponíveis para todos

Em novembro, Pedro Abrunhosa lançou dois livros: Cancioneiro recolhe os acordes, as partituras e as letras de 43 canções distribuídas por todos os álbuns, além dos singles espaçados no tempo. “É uma tentativa de recentrar a atividade musical na cultura da família, que está a perder-se”, explica o compositor. “Muitas vezes, nos conservatórios, notamos uma certa dificuldade em atrair para autores clássicos porque eles querem tocar autores pop-rock. E [estes conteúdos] aproximam os dois mundos.” Paralelamente, Abrunhosa lançou o livro Vem abrir a porta à noite, com prefácio de Lídia Jorge e que reproduz todas as letras de todas as suas canções. “A poesia, a letra e a palavra, andaram sempre coladas. Isto é uma forma de eu explicar às pessoas que a escrita da canção também vive autonomamente. Muitas das minhas frases, como ‘tudo o que eu te dou’, tornaram-se iconográficas na cultura portuguesa. Mas existem frases dentro das letras, lá dentro, não é no título.” Os dois livros têm edição da Contraponto e podem ser encontrados em várias livrarias.

Novo álbum a caminho

O que nos podes dizer sobre o novo álbum, o teu nono?

Chama-se Inverbo e é um disco sobre a palavra: a escrita e a cantada. É talvez o disco mais poético de todos. Espiritual já era um disco interior, mas este é mais. Por exemplo, a canção Oxalá o meu vestido ainda se lembre de mim é uma história que li no jornal de uma senhora negra nos no Alabama, nos Estados Unidos, que na década de 1950 quis comprar um vestido de noiva e foi-lhe recusado. E viveu sempre com aquela mágoa. Há dois anos, as filhas produziram o vestido, deram-lho e ela voltou a casar com ele. É um happy ending muito tardio e escrevi a canção na voz dela. E achei piada a que fosse o vestido a lembrar-se dela.

E, entretanto, mais um ano na estrada.

Sim, já temos coisas para 2027. O que também me afasta do estúdio, porque passar tanto tempo na estrada não é só afastamento físico, mas também anímico. Chego cansado, tenho de recuperar. Quero não fazer nada durante alguns tempos. Vai ser um disco interessante de fazer ao vivo. Lancei também o repto de fazer o filme Inverbo.

Como realizador ou argumentista?

Como instigador e produtor. O disco já é o instigador do filme, está a ser planificado.

És o artista completo: o livro, o disco, o filme.

Exato [risos].

A canção Tudo o que eu te dou foi composta na casa dos avós de Abrunhosa, na Rua do Heroísmo, 235, no Porto. O prédio é hoje um hotel

Abrunhosa e o dinheiro

Ser músico é uma profissão instável. Como te preparas para envelhecer com segurança financeira?

Ser músico é uma necessidade. Penso que não exista uma necessidade em ser inspetor de seguros, não é propriamente uma coisa vital para que uma pessoa, se não for aquilo, morra. Mas o artista, se não o for, definha. Não é uma opção, é um chamamento. E nem tudo na vida é ser bilionário. Claro que o conforto e a qualidade de vida são-me importantes, até porque venho de uma família burguesa e tinha de provar aos meus pais que podia ser músico e manter a qualidade de vida que tinha antes.

Como preparas essa segurança financeira?

Investindo no conhecimento, no saber, na música. Fazer cursos, pós-graduações, ter formação superior. Quanto mais rico for interiormente, mais bem-sucedida a minha atividade irá ser. Sou, simultaneamente, um gestor, e por isso tenho de estar atento a tudo. A partir do momento em que uma canção é colocada num disco, que passa desse universo entre a emoção e o comercial, é um produto. Logo, o autor tem de ser o gestor desse produto e tem de ter uma ligação muito firme com quem gere o seu produto, como é o caso da editora, o agente, as pessoas que estão envolvidas, os músicos, a comunicação, o marketing.

A poesia não se perde neste caminho?

Por muito poético que seja, o livro também é um produto, por isso tem de ser tratado nesse sentido. Se o meu encaixe financeiro vem também desse produto, é importante que zele por ele. Por outro lado, os direitos de autor, direitos conexos e o grande encaixe da vida de um músico como eu, a performance ao vivo. Onde sou insubstituível, as pessoas querem ver-me.

É uma cadeia de multiplicação de riqueza.

E é muito antiga. Os norte-americanos inventaram o conceito de showbizz porque ele existe. No século XIX, umas carroças com cavalos levavam senhoras a dançar o cancan no meio do faroeste, e isso esteve na origem do que é hoje a grande indústria da Broadway. Nos Estados Unidos, a indústria fonográfica e do audiovisual são a maior fatia do PIB. Basta ver a quantidade de séries, filmes e discos que são editados em todo o mundo e de origem norte-americana e o que isso representa de encaixe global para a indústria. É por isso que veneram e protegem a indústria em termos fiscais e patrimoniais. Portugal tem uma visão zero em relação a isto e, no entanto, a cultura e a indústria musical fazem parte do nosso avançado diplomático, são o nosso melhor cartão de visita. E estar desatento em relação à realidade da música industrial é um erro.

Há muitos profissionais, e muitas famílias, que dependem de ti, do teu sucesso, para a sua própria vida. Como se lida com este peso?

Quando faço mudanças, é muito complicado. Se quiser fazer uma mudança estética e de repente de um grupo de dez passo para um grupo de dois, estou a implicar um encurtamento e isso é complicado. Tento manter a máquina sempre funcional e ter projetos em que posso explorar esteticamente outras coisas mais pequenas. Mas é um problema permanente.

A Revista Montepio agradece ao Palacete Severo Hotel, no Porto, a cedência do espaço para realizar esta entrevista.

10 perguntas-relâmpago a Pedro Abrunhosa

1. Qual é a música de que o teu público mais gosta?

É Tudo o que eu te dou, porque faz um revival. Mas o último êxito é sempre aquele ao qual o público reage de uma forma mais espontânea. Atualmente, é o Que o amor te salve nesta noite escura.

2. Se pudesses escrever uma canção com qualquer artista do mundo, vivo ou morto, quem escolherias?

Tom Waits. Porque é o que faz as canções imperfeitas mais perfeitas.

3. Quem te deu o melhor conselho no mundo do espetáculo?

O conselho mais pertinente foi o de Prince. Não foi para mim, mas li-o. If you don’t take care of your own business, nobody will [“Se não tratares dos teus próprios assuntos, ninguém o fará”, em português]. É uma indireta para a gestão dos nossos negócios. Leonard Cohen delegou na sua agente toda a gestão financeira e saiu-se mal. Faliu e teve de voltar à estrada numa fase em que já não estava fisicamente muito bem.

4. Se pudesses reviver um concerto antigo, qual escolherias e porquê?

Talvez o meu primeiro Coliseu, em 1994 [ndr: dia 2 de dezembro de 1994, no Coliseu de Lisboa]. Porque tive a presença do grande mestre Maceo Parker. E por causa da reação do público, porque todas as músicas de Viagens eram novas naquele dia. Foram tempos bonitos.

5. Qual das tuas canções representa mais o Pedro fora dos palcos?

Talvez a nova música Vem abrir a porta à noite. Não sou muito social. Tinha uma t-shirt onde se lia: “I’m not antisocial, I’m antistupid” [Não sou antisocial, sou antiestúpidos”, em português]. E às vezes até um bocado para dentro demais. Será também é uma música muito especial para mim.

6. Qual é a mentira mais bonita que alguma vez disseste no palco?

[Risos] Prefiro passar essa pergunta.

7. Há alguma música de que te arrependas de ter lançado?

Não, mas há uma música de que me arrependo de não ter conseguido uma melhor solução, que é Não dá, do segundo disco. A letra não é má, mas o refrão é péssimo. Sei que não estou sozinho neste ajuste de contas com músicas do passado, mas agora a música não sairia enquanto não resolvesse aquele refrão melhor.

8. Há alguma canção tua que sentes que só consegues cantar com um determinado estado de espírito?

Sim. Será é essa canção.

9. Dizes que és um barítono. A tua voz é mais Johnny Cash ou Leonard Cohen?

Quando tinha 14, 15, 16 anos imitava o Johnny Cash. [Muda de voz]: Hello, my name is Johnny Cash e depois começava a tocar: I’m sad and I’m lonely, my poor heart will pray / I wish my love will come back / I wish i was there. Sou mais Cash.

10. E se o Pedro Abrunhosa fosse uma canção, qual seria?

É preciso ter calma.

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