á quem comece a carreira na infância e termine aos 30, e há quem trabalhe até ao último fôlego sem saber quanto vai receber na velhice. Entre altos e baixos, há carreiras que dependem mais da sorte do que do suor: basta um osso partido, uma bola desviada ou a chuva que não cai. Neste artigo, mostramos como três profissionais de mundos distintos se preparam para garantir uma reforma segura.
Afonso Taira, futebolista profissional, jogava no Beitar Jerusalem, uma das principais equipas israelitas, quando uma alteração na gestão do clube lhe mudou a vida. “Disseram-me que não ia jogar mais, que não ia sequer ser inscrito.” Com mais um ano de um contrato que, financeiramente, era o melhor que tinha assinado – “fui ganhar cinco vezes mais do que ganhava em Portugal” –, Afonso viu-se num dilema: cumprir o contrato, ficando um ano parado, com todas as implicações que isso teria no futuro da carreira, ou reduzir substancialmente o seu salário, esperando melhores tempos.
“Foi a minha decisão de carreira mais arriscada”, contou à Revista Montepio. Com as portas do futebol português fechadas ao seu vencimento, rescindiu o contrato e aceitou uma proposta do Hermannstadt, clube romeno que, naquela altura, não primava pela estabilidade. “A queda salarial foi considerável, fui ganhar menos de metade do meu salário em Israel.” Para complicar ainda mais a situação, a paragem dos campeonatos devido à pandemia da Covid-19 acabou por tornar a experiência ainda pior, levando o jogador a regressar finalmente a Portugal.
Como é que Afonso e a família sobreviveram financeiramente? “Planeei. Fiz as contas à rescisão do contrato e, com isso, à média do salário real.”
De entre as profissões assombradas pela incerteza, a de futebolista está no topo. Uma bola que não entra, uma lesão complicada e uma carreira que, salvo raras exceções, está fadada a terminar entre os 31 e os 35 anos, de acordo com um estudo desenvolvido pela Universidade da Beira Interior (UBI), pelo ISMAI (Universidade da Maia) e pelo CIDESD, são ingredientes para a constante incerteza.
Afonso, que aos 33 anos joga agora no Abha Club, da segunda divisão da Arábia Saudita, cresceu com a instabilidade do mundo do futebol. Filho de José Taira, futebolista internacional português, foi tendo lições de carreira antes mesmo de assinar o primeiro contrato profissional. “Percebi que a carreira era curta. Aos 18 anos, queremos aproveitar um pouco [a liberdade financeira], comprar o primeiro carro, pensar nas férias. Eu, ao invés, fui tirar um curso”, conta.
A licenciatura em Gestão, que começou na Universidade Nova e acabou no ISCTE por razões profissionais (foi jogar para o Córdoba, em Espanha, aos 19 anos), deu-lhe bases de macroeconomia, mas deixou de fora as finanças pessoais. “Só aprendi o que era um PPR aos 30 anos e isso não pode acontecer. É dinheiro deitado ao lixo.” Segundo Afonso, há muitos futebolistas que olham para o dinheiro que têm na conta e dividem-no pelos anos futuros. “Tive um colega, de 32 anos, que fazia assim as contas: com o que tenho no banco consigo viver mais 30 anos a gastar entre 1 500 e 2 000 euros por mês. E isto está errado a vários níveis. Onde está a conta da inflação? E os restantes anos?”, pergunta.
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A reforma (não) agrária
Enquanto a incerteza de Afonso é saber como poupar para a segunda fase da sua vida, que vai começar em breve, Manuel Pereira tem outros problemas. “A instabilidade do clima é a coisa que mais dá cabo de nós”, suspira. Com 59 anos, este agricultor de Lamalonga, no concelho de Vieira do Minho, Braga, trabalha a terra há mais de meio século e garante que o cenário nunca foi tão sombrio.
“Há umas décadas, regávamos o milho e a batata quanto queríamos. Hoje, as nascentes secaram. Semeamos, mas não temos água para regar”, explica. E se não chove o suficiente no Alto Minho, o que dizer noutros locais de Portugal? “Sei que sou um privilegiado por ter terras nesta zona, mas a água falha-nos muito. E quando chove, é exageradamente. São as alterações climáticas”, continua.
Filho e neto de agricultores, Manuel Pereira começou a ajudar a família quando saía das aulas. “Com 7 anos estavam à minha espera para ir tratar dos animais”, conta. Em 1986, com 20 anos feitos, aproveitou a entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE, atual União Europeia) para “meter um projeto”. Foi o primeiro da família e um dos primeiros do concelho.
Eram os anos da Política Agrícola Comum (PAC), que melhoraram a vida dos agricultores com a atribuição de subsídios para apoiar a modernização e dar ferramentas para melhorar a produtividade. Foi nesse ano que começou a descontar para a Segurança Social. “Era obrigatório.”
Na altura, era possível descontar o que o agricultor quisesse, com um teto mínimo e máximo. “Descontei 30 e tal anos. Mas a minha reforma não vai ser extraordinária, porque descontei sempre o mínimo.” E esclarece porquê. “Não sabia, como não sei, se amanhã vou ter uma má colheita ou se as vacas vão morrer. É instável. A minha profissão é muito ingrata”, refere.
Altos e baixos
Não é só o clima que impacta a vida dos agricultores. Na pandemia, conta Manuel Pereira, o rendimento caiu drasticamente. “Não havia turismo, não havia restaurantes. Não havia cantinas nas escolas e nós tínhamos os animais. Em casa, as pessoas são mais contidas em comprar a nossa carne [barrosã]”, afirma. “Valeu-nos que tínhamos reservas, poupanças. Temos de guardar sempre um bocado.”
Hoje, ao contrário de muitos colegas, Manuel Pereira não se queixa. Longe vão os tempos em que descia até Braga para vender carne aos talhos da capital de distrito. Em 2024, o agrupamento da raça barrosã subiu o preço do vitelo cerca de 2 euros por quilo, enquanto os preços do gasóleo, das rações e do feno mantêm-se. O agricultor, que espera trabalhar “até aos 70 ou 75 anos”, diz que o equilíbrio entre a qualidade de vida e as finanças é a base da vida. “Trabalhou-se muito, poupou-se bastante, investiu-se, fizemos bons investimentos.”
A pouco mais de 7 anos da reforma legal, Manuel Pereira faz do dia a dia uma “terapia”. “É uma vida árdua, mas a agricultura sempre foi uma terapia para mim. Adoro animais. Hoje trabalho menos porque as minhas filhas estão sempre em cima de mim, não querem que trabalhe tanto. Mas eu gosto da aldeia, gosto disto.”
E deixa um apelo aos mais jovens. “As pessoas só pensam no presente, não no futuro, porque por vezes não há possibilidades. Mas pensem: como é que vai ser a [pensão de] reforma daqui a 40 anos?”
“[Na pandemia] não havia turismo, não havia restaurantes. Não havia cantinas nas escolas e nós tínhamos os animais. Valeu-nos que tínhamos reservas, poupanças. Temos de guardar sempre um bocado.”
A reforma que sai do corpo
Se o agricultor usa a força do seu corpo para produzir alimentos, o bailarino inventa movimentos que o Homem desconhecia ter. “Cada peça de dança tem uma dor diferente”, explica a bailarina e coreógrafa Olga Roriz. Aos 71 anos, aquela que é considerada uma figura seminal da dança portuguesa continua a dançar nos palcos, agora com o seu espetáculo a solo: O Salvado.
Natural de Viana do Castelo, Olga chegou a Lisboa bem cedo e aos 8 anos já estava na escola de dança do Teatro Nacional de São Carlos, “a ver as Margot Fonteynes desta vida” sob a liderança de Ana Ivanova, que tinha sido bailarina na Companhia de Ana Pavlova. Em 1976, entrou no Ballet Gulbenkian, tendo ficado com um salário de 40 000 escudos por mês (o equivalente a 5 949,20 euros nos dias de hoje, com a atualização da inflação). “Era muito dinheiro e, na altura, recebia mais do que o meu pai”, confessa.
Na Gulbenkian, Olga Roriz destacou-se. Foi solista e depois primeira bailarina. “A minha carreira é muito linear”, refere. Ser bailarina é duro, mas existem alguns privilégios. Um deles, à época, era poder reformar-se aos 40 anos ou com 20 anos de casa. “Na altura, não pensava nisto. As pessoas não começam a carreira a pensar na reforma. Pelo contrário, querem é que ela nunca venha. Não no sentido monetário, mas no sentido de acabar a sua carreira.”
Esse pensamento chegou, pela primeira vez, no final da estadia na Gulbenkian, entre 1988 e 1992. “Comecei a fazer os meus solos, numa carreira paralela, e fui convidada para dirigir a Companhia de Dança de Lisboa. Aí sim, tive de pensar na parte financeira”, afirma. Como ainda lhe faltavam dois anos para fazer os 20 anos de casa, pediu a pré-reforma, a exemplo de alguns colegas, como Vera Mantero.
“Tinha a consciência de que havia essa reforma antecipada. Ao nível do estado, não tinha a reforma na totalidade, a não ser aos 56 anos. Mas era a Gulbenkian que pagava”, recorda. Hoje, recebe duas pensões: uma da Gulbenkian e outra do Estado.
REVISTA MONTEPIO
O meu último dia de trabalho
Há vida depois da vida
Olga Roriz sabe que é a exceção e não a regra da sua profissão. A maioria dos bailarinos chega à idade da reforma com pensões muito reduzidas, a não ser que tenha passado por instituições com regimes internos de proteção (como a Gulbenkian ou a Companhia Nacional de Bailado).
Para estes, a alternativa é continuarem atividades profissionais com ligação à sua arte, desde dar aulas de dança nas várias escolas e estúdios espalhados pelo país ou até em ginásios, em disciplinas como pilates. “Têm técnicas muito mais fáceis de serem dadas por um bailarino que foi ou ainda é profissional.”
Segundo Olga, os colegas da Gulbenkian não parecem muito preocupados com esta instabilidade. “Temos o privilégio de sair aos 40 anos, na flor da idade, e ter a possibilidade de fazer outro tipo de atividades. Mas já com um pé-de-meia, uma reforma.” A bailarina sabe, porém, que quem tem atividade freelance não tem estas benesses. “Na minha companhia só temos dois bailarinos a contrato, num elenco de 6 ou 8. Por isso, nos quatro meses da peça e mais dois de digressão, não podem dar-se ao luxo de deixar de dar aulas.”
Com um projeto a solo na estrada, Olga Roriz não pensa em parar. “A minha idade é uma grande mais-valia, traz um peso dramatúrgico forte.” O público tem elogiado O Salvado e a própria Olga descobriu uma vivência e um sentido de humor que lhe dá “empoderamento”, ao invés de fecho. “Pensa-se que o espetáculo vai ser pesado porque estamos mais perto da morte, mas depois há um sentido de humor, não sei se por defesa ou porque já vivemos muito.”
Se o corpo ainda responde, é tempo de pensar no futuro da sua companhia. “Tenho projetos até 2030, mas estou a avisar que é altura de deixar de estar tão ativa. Somos muito mais do que os espetáculos de dança: temos apoio social na prisão do Linhó, apoiamos artistas e criadores, por exemplo no festival Interferências, temos as residências de coreógrafos, artistas plásticos, DJ, fotógrafos e a parte da formação.”
Fintar a incerteza
Cannes, 1989. Zinedine Zidane, futebolista do clube local, e Véronique Fernández, futura ex-bailarina, conhecem-se na elegante cidade, símbolo da Riviera Francesa. Talvez Zizou tenha alcançado a fama global com as fintas coreografadas por Véronique, mas há, sem dúvida, várias semelhanças entre as duas profissões: os anos curtos de atividade, as lesões frequentes (ver caixa), a necessidade de pensar a reforma mais cedo que nas profissões tradicionais e, também, a possibilidade de mudar de vida aos 40 anos.
“Preocupar-me com o futuro financeiro foi automático e constante”, recorda Afonso Taira. Aos 20 anos, um jovem futebolista é “jogador de alto potencial de mercado”, ou seja, pode valer mais – e receber mais – do que mostra em campo. Mas tudo acaba depressa. “Um jogador deve pensar na reforma com 23 ou 24 anos. Na altura do meu pai, isso acontecia aos 27 ou 28 anos. Agora é cada vez mais cedo.”
Aos 33 anos, Afonso Taira ainda não sabe o que o futuro lhe reserva. Com investimentos fora do mundo do futebol desde os 22 anos, quando comprou o primeiro apartamento, recusa deixar-se fintar pela instabilidade. Talvez fique mais um ano na “reforma dourada” da Arábia, talvez explore áreas sem relação com o desporto-rei ou até regresse a Portugal para continuar a jogar.
“Gostava de aproveitar o futebol ao máximo, porque desfruto em campo e me dá conforto financeiro para preparar os passos seguintes”, admite. Depois? Talvez treinador, talvez um cargo de direção num clube: desportivo, de marketing ou financeiro. “O futebol, enquanto produto, tem um caminho enorme para percorrer. E eu tenho uma tendência muito empreendedora: gosto de ideias de negócio e passo muitas horas a imaginar coisas que dariam para fazer, a falar com pessoas.”
Dançar: uma profissão arriscada
Porque é que as bailarinas, e os bailarinos, podem ter acesso à pensão de velhice antes dos restantes profissionais? Porque a dança é considerada uma profissão de desgaste rápido, sobretudo por razões físicas.
Olga Roriz explica que há vários tipos de lesões profissionais consoante o tipo de dança. Numa companhia de dança clássica predominam as dores da cintura para baixo: ancas, joelhos, pés. Já na dança contemporânea, são frequentes as lesões da coluna e, por vezes, dos joelhos, “por causa da técnica, da exigência e do embate no chão”, afirma.
Se a dança clássica é vertical, a contemporânea envolve muitos esticões. Quem está numa companhia de repertório e, portanto, disponível para peças de diferentes coreógrafos, acumula “muito mais lesões” do que quem trabalha sempre com o mesmo criador.
Quanto a ela própria, Olga diz que a longevidade resulta do facto de ter preparado o corpo desde muito cedo – “os músculos, tendões e ossos” – e também de ter começado a fazer as suas próprias coreografias. “Porque é que a Martha Graham, a Pina Bausch e o Merce Cunningham dançaram até muito tarde? Porque estavam a fazer as suas próprias coreografias: vem do seu corpo para o seu corpo”, conclui.