otificações, e-mails, vídeos, mensagens. O tempo parece escapar-nos entre os dedos, e o tédio tornou-se um inimigo silencioso. Mas e se esse desconforto fosse, na verdade, um aliado? Saiba como abraçar momentos de pausa, estimular a criatividade e tomar decisões mais conscientes: no trabalho, na vida familiar e nas finanças.
Vivemos rodeados de estímulos. Para estar sossegado a escrever este artigo, silenciei o telemóvel. Mas ele acabou de vibrar e sei que uma notificação surgiu no ecrã. Há sempre um vídeo novo para ver, uma mensagem por ler ou uma notícia urgente que não pode ser ignorada. Quer estejamos a escrever um artigo, numa reunião de trabalho, num almoço de família ou a dormir, a não resposta a este estímulo produz uma sensação de mal-estar. Como se estivéssemos a falhar.
É um cenário familiar? É o custo de estarmos sempre ligados. E no meio desta avalanche diária de dados, o tédio – aquela “eternidade sem conteúdo”, como o definiu Kierkegaard – torna-se quase um pária, um intruso, um defeito.
Talvez o problema não seja o tédio. O verdadeiro problema poderá ser a nossa incapacidade para lidar com ele. Durante décadas, as viagens de carro eram passadas a olhar pela janela, as esperas nas repartições públicas ou num consultório médico tinham como atenuante o folhear de revistas e as tardes das férias grandes arrastavam-se indolentes. Nesses momentos aparentemente desinteressantes, surgiam jogos inventados, perguntas inesperadas, capazes de mudar vidas. Thomas Edison terá dito que as suas melhores ideias surgiam “quando não estava ocupado a tentar ter ideias”.
Hoje, ao menor momento de pausa, agarramos no telemóvel, quase sem pensar. O tédio ganhou má reputação: é sinónimo de preguiça, desatenção ou falta de foco. No entanto, pode ser exatamente o contrário. Ao permitirmo-nos uma pausa, criamos espaço para organizar pensamentos e descansar. O que acontece a um computador que nunca reinicia? Por mais poderoso que seja, começa a ficar lento, a acumular janelas abertas e reage tardiamente. O nosso cérebro não é diferente. Sem momentos de paragem, fica saturado. E quando estamos ocupados a reagir ao que se passa cá fora, é impossível ouvir o que se passa dentro de nós.
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Porque fugimos do tédio?
Quando falamos de tédio, pensamos em estar sentados sem fazer nada, a olhar pela janela, tamborilando os dedos na mesa. Parece um momento sem utilidade, quase infantil. A psicologia descreve-o como um estado em que gostaríamos de estar envolvidos em algo, mas nada capta a nossa atenção. Como se estivéssemos disponíveis, mas não encontramos um estímulo. É uma sensação estranha: queremos fazer alguma coisa, mas nada nos entusiasma. Daí o desconforto que nos leva a fugir dele o mais depressa possível.
“Não conseguimos estar focados a 100% durante as 24 horas do dia”, afirma Mónica Mateus, psicóloga com trabalho em comunidades desfavorecidas e na área da saúde mental. “Precisamos de pausas. Se estivermos cansados, a cabeça não vai funcionar. Mas hoje em dia, damos uma conotação negativa ao tédio e não tem de ser assim. Apenas se torna um problema se não tivermos objetivos na vida e o tédio passar de uma pausa a uma regra.”
Porque fugimos do tédio? Parte da resposta a esta pergunta está na forma como a sociedade olha para o tempo. Vivemos num mundo em que estar ocupado é uma medalha. “Não ter tempo para respirar” é um elogio. Estar num movimento perpétuo é sinal de sucesso. Parar, pelo contrário, soa a falta de ambição. “Para ser sincera, eu sempre achei que o tédio era um problema. Só mais tarde percebi que, ao estar permanentemente ocupada, fico ainda mais cansada e ansiosa porque só penso no que me falta fazer”, afirma Inês Stone, jurista e Associada Montepio.
Esta ideia, contudo, é recente. Aristóteles considerava o tédio fundamental para fazer perguntas e pensar em respostas. Os senhores medievais entretinham-se em jogos quando não estavam em guerra e até Isaac Newton terá tido a ideia da gravidade por causa da proverbial maçã que o acordou de um sono. Ainda há pouco mais de uma geração ou duas, antes da era dos smartphones, quem esperava pelo autocarro observava quem passava, quem enfrentava filas intermináveis entretinha-se a imaginar histórias com as nuvens. Eram momentos de puro tédio, e ninguém os considerava errados. Hoje, à mínima pausa, puxamos do WhatsApp ou do e-mail e deslizamos o feed das redes sociais.
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O tédio como sinal, e não falha
E se o tédio não fosse um inimigo, mas um aviso? “Vivemos num mundo muito acelerado e com muitas exigências. Se não cumprirmos com essas exigências, corremos o risco de sermos deixados para trás”, afirma Mónica Mateus, que foi uma das responsáveis pelo primeiro co-living de saúde mental em Portugal, em Cascais. “Mas vai sempre chegar uma altura em que precisamos de uma pausa. E isso faz falta a todos: adultos, crianças, adolescentes. É nestes momentos que refletimos sobre o que somos e para onde vamos.”
A psicologia não olha para o tédio como um defeito, mas como um estado emocional com uma função própria. É uma luz no painel do carro: surge quando precisamos de uma intervenção, seja um estímulo ou um desafio. “O nosso corpo é uma máquina extraordinária, mas, por vezes, não se consegue fazer ouvir. E há ocasiões em que pede pausas, sem que o escutemos. Protelamos este cuidado, não valorizamos os problemas e o corpo e a nossa estabilidade emocional ressente-se”, acrescenta esta psicóloga.
Ao ficarmos entediados, o cérebro ativa aquilo que os neurocientistas designam de “modo-padrão”, um sistema que entra em funcionamento quando não estamos concentrados numa tarefa específica. É nesse estado que surgem ideias criativas, memórias mais ou menos longínquas como o cheiro da sopa da avó, as férias grandes ou reflexões sobre como deveriam estar organizadas as cidades. Os devaneios são, na verdade, um trabalho mental invisível.
“O excesso de estímulos prejudica a nossa capacidade de tomarmos boas decisões. Cada vez mais encaramos o mercado financeiro como um jogo”
Se o tédio é útil, porque o evitamos?
Detestamos sentir-nos desconfortáveis. O tédio é acompanhado por uma inquietação, como se o tempo não passasse e fosse um desperdício. Este desconforto leva-nos a procurar uma distração imediata. Em vez de distinguirmos as tais formas nas nuvens, a era digital dá-nos o mundo à distância de um clique. “Por vezes, quando fico em silêncio começo a lembrar-me de preocupações, contas para pagar e tarefas por fazer. Mas se parar por breves momentos, em que vou beber café ou dar uma volta ao quarteirão para respirar um bocadinho, consigo ter momentos de calma. Não é sempre fácil, mas acho que é um progresso lento”, refere Inês Stone.
Num vídeo altamente partilhado da Harvard Business Review, Arthur C. Brooks defende a necessidade do tédio para pensarmos melhor. Segundo o professor de Liderança, o cérebro foi concebido para alternar entre momentos de foco e de descanso. Sem esse descanso, perdemos clareza, criatividade e capacidade de tomar boas decisões. E exemplifica este argumento com uma experiência curiosa: um grupo de voluntários ficou sentado numa sala vazia durante alguns minutos, sem telemóvel nem tarefas. Muitos preferiram carregar num botão que descarregava um pequeno e inofensivo choque elétrico, apenas para escapar àquele lugar vazio.
Assim, reaprender a estar entediado é, de certo modo, reaprender a pensar. Vamos dar três exemplos. No trabalho, as pausas para o café ou caminhadas após o almoço servem para arejar a cabeça e dão origem a boas ideias; em casa, quando as crianças se queixam de que estão aborrecidas, acabam a inventar jogos, construir mundos imaginários e pegar em brinquedos esquecidos; no dia a dia, quando estamos a lavar a loiça do jantar ou a tomar banho, encontramos soluções para problemas que pareciam insolúveis.
Como incluir o tédio na nossa vida?
Mudar a nossa maneira de ser não é fácil. Ainda assim, apresentamos cinco estratégias para criar um espaço mental de reflexão sem precisar de alterar significativamente o dia a dia ou embarcar num retiro espiritual de semanas.
1. Faça micropausas regulares: programe pequenos intervalos de cinco a dez minutos para não fazer nada. Desligue o telemóvel, feche o computador e sente-se à janela. Esses momentos são suficientes para acionar a rede de modo-padrão e permitir que a mente faça um reset e descanse.
2. Caminhe: além de fazer bem à saúde física, também faz bem à saúde mental. Sem telemóvel ou auscultadores, observe os prédios, as pessoas com quem se cruza, o céu e ouça os seus passos e a sua respiração.
3. Crie janelas livres de exposição digital: estabeleça períodos no seu dia em que reduz drasticamente o tempo de exposição aos ecrãs. Pode ser durante as refeições, antes de dormir ou numa manhã de fim de semana. Esses momentos silenciosos são preciosos para encontrar o equilíbrio mental.
4. Faça tarefas manuais: sempre que possível, tenha atividades que libertem a sua mente. Arrumar a casa, cuidar do jardim ou cozinhar receitas simples fazem com que as mãos trabalhem enquanto a cabeça ganha liberdade para divagar.
5. Tenha reflexões guiadas: reserve uns minutos do seu dia para escrever numa folha branca ou num caderno tudo o que lhe vem à cabeça, sem filtros. Pode até escrever perguntas como “O que me preocupa?” e deixar a caneta correr. Algumas respostas podem demorar semanas a surgir, e não há qualquer problema nisso.
O poder criativo do tédio
Quando pensamos nos grandes rasgos de criatividade da humanidade, imaginamos musas a inspirarem artistas ou cientistas. Mas, na maioria das vezes, a criatividade surge longe desses cenários romantizados. As melhores ideias surgem em momentos de tédio, quando deixamos o cérebro respirar e ele começa a trabalhar em silêncio.
Se a criatividade é vista como uma explosão de ideias e o tédio é sinónimo de ausência de estímulos, a relação entre estes dois conceitos parece inconciliável. No entanto, a ciência mostra que trabalham em conjunto.
Mas ao ativarmos a rede de “modo-padrão”, ligamos pontos soltos, combinamos a memória com a imaginação e chegamos a soluções fora da caixa. Por isso, o tédio faz com que o cérebro opere ligações que nunca faria quando está ocupado com tarefas, notificações ou outros estímulos. “O tédio tem esta vertente terapêutica. As atividades físicas e cíclicas, sem estímulos, obrigam-nos a encontrarmo-nos. Nestes momentos, o pensamento flui e há um estado de maior criatividade”, explica Mónica Mateus.
Uma das experiências mais conhecidas sobre esta temática juntou dois grupos de pessoas. O primeiro grupo realizou tarefas monótonas, como copiar números ou enrolar cordéis. O segundo foi posto a realizar atividades desafiantes. Depois, foi pedido a ambos os grupos que inventassem formas criativas de usar um copo de plástico. Surpreendentemente, as soluções mais originais e com mais usos foram as do grupo que realizou tarefas monótonas. A mente procura, por norma, formas de se estimular. Quando não está a ser desafiada, a única porta disponível é a da imaginação.
O nosso bem-estar mental
Além de estimular a criatividade, o tédio tem impactos positivos na nossa saúde mental. “Esta capacidade é ainda mais relevante no contexto atual, em que o excesso de estímulos pode contribuir para o aumento dos níveis de ansiedade, cansaço e até burnout, cuja incidência é cada vez maior”, aponta Mónica Mateus.
Estas pausas ajudam a reduzir a sobrecarga cognitiva, pois estamos sempre a absorver enormes volumes de informação em curtos lapsos de tempo. Baixam o nível de stress e melhoram a atenção porque permitem recuperar o foco nas coisas mais importantes. Por fim, aumentam a clareza de pensamento porque dão espaço para se pensar sem pressão. Muitos problemas de concentração e fadiga mental não resultam do excesso de trabalho, mas da falta de pausas reparadoras. O tédio pode ser um aliado.
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Mais bem-estar, menos preocupações
Um trampolim para a inovação
A criatividade gerada pelo tédio não serve apenas para momentos de inspiração artística. É também uma ferramenta prática, com impacto no trabalho, na vida familiar e até nas decisões financeiras. É por isso que empresas nas áreas da tecnologia e do design já reservam momentos específicos para não fazer nada, deixando a mente desbloquear o insolúvel. Há quem lhe chame “tempo branco” ou pausas criativas. Independentemente do nome, são momentos de tédio saudável e que resultam.
A vida moderna tirou-nos tempo. É como se os dias encolhessem e os minutos tivessem apenas 30 segundos. Somos inundados por e-mails, notificações, notícias, chamadas, e temos de tomar decisões quase instantâneas, sob pena de deixarmos escapar grandes oportunidades. Mas o que a ciência e a experiência nos ensinam é que desacelerar melhora a qualidade das decisões tomadas. E, sim, isto inclui as decisões financeiras.
Júlio Lobão é professor na Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEUP) e estuda a relação entre a psicologia e as decisões financeiras. Assume, desde logo, que não conseguimos ser objetivos. “Temos um filtro mental quando tomamos decisões económicas e financeiras, quer por parte de investidores particulares ou por gestores de ativos ou CEO de grandes empresas. Todos temos esse filtro. Não escapamos ao enquadramento cultural e à maneira como vemos a realidade”, refere. E dá um exemplo: “Um europeu, por exemplo, vê um investimento de forma diferente de um asiático. Estas variáveis influenciam os preços e as nossas tomadas de decisão.” Quando estamos distraídos, a mente está fragmentada. A nossa atenção salta de estímulo em estímulo, como quem quer acompanhar várias conversas ao mesmo tempo. E é neste cenário que tomamos decisões impulsivas ou baseadas no medo, na urgência ou em vieses momentâneos.
O professor da FEUP concorda que a impulsividade é inimiga da boa decisão, mas é difícil resistir-lhe. “As entidades reguladoras têm feito avanços neste sentido. A adoção de perfis de risco é um instrumento importante para dificultar o acesso a produtos mais arriscados para quem não tem essa necessidade.” Mas o ambiente vai contra esta noção de paragem.
“A valorização do imediatismo existe em todo o lado. A leitura, por exemplo, vai desaparecendo, sendo substituída pelas mensagens, posts, vídeos curtos e outros estímulos de curto prazo.” O tédio, por outro lado, funciona como um filtro silencioso. Ao reduzir o excesso de estímulos, damos espaço e tempo à nossa mente para organizar informações, refletir e ponderar. É como limpar uma secretária desarrumada: de repente, vemos o que realmente importa.
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O impacto dos excessos
Quem já experimentou fazer compras online sabe que as promoções constantes, os conselhos e recomendações de amigos e desconhecidos, as notícias da economia e a facilidade de um clique convidam a decisões precipitadas ou mal ponderadas.
“Aprendi que, quando estou sobrecarregada com informação, tomo piores decisões: compro coisas por impulso, adio escolhas importantes ou fico ansiosa com o futuro. Hoje, faço pequenas desintoxicações digitais para conseguir ter mais clareza”, assume Inês Stone. O professor Júlio Lobão concorda com a ideia e acrescenta: “O excesso de estímulos prejudica a nossa capacidade de tomarmos boas decisões. Cada vez mais encaramos o mercado financeiro como um jogo. E isso é potenciado pelas redes sociais, pela difusão dos rumores, das notícias, verdadeiras e falsas, e pelo que parece, mas não é. E isso tem impacto em tudo, até no comportamento dos investidores e no preço das ações. Tudo se torna volátil, obrigando a uma resposta imediata.”
É neste contexto que os momentos de tédio são valiosos. No sentido literal da palavra, porque acrescentam valor. As pessoas que optam por breves momentos de pausa antes de tomarem decisões financeiras escolhem soluções mais equilibradas e menos arriscadas do que aquelas que optam por agir por impulso, sem ponderação. Às vezes, a melhor decisão é a não decisão.
Júlio Lobão afirma que todos temos um enviesamento, que é o excesso de confiança. “Por causa disso, transacionamos em demasia, o que se traduz em perdas, piores retornos e em demasiados custos pela via das comissões. Conseguimos tomar más decisões financeiras acreditando que estamos a fazer o melhor. Mesmo alertados, é difícil ajustarmos o nosso comportamento.”
A reflexão sobre prioridades, riscos e objetivos de longo prazo só ocorre se dispusermos de um tempo sem estímulos. Se desligarmos o telemóvel durante dez minutos antes de avaliarmos um investimento ou decidirmos fazer uma compra, vamos tomar uma decisão – seja de avançar ou não – muito mais consciente e, por isso, mais segura.
Imagine um casal a organizar o orçamento do mês. Entre notificações de promoções de cartões, mensagens de um amigo a combinar férias e jantares e notícias sobre o futuro da economia, é fácil sentir-se sobrecarregado. Se este casal estudar o orçamento sem distrações ou tomando notas num papel, vai tomar decisões mais ponderadas, reduzindo o risco de se arrepender no futuro.
Ao mesmo tempo, há gestores que relatam que as suas melhores decisões foram tomadas em períodos de pausa entre reuniões. A regra dos “Dez minutos” de Steve Jobs é muito conhecida: sempre que se deparava com um problema durante mais do que dez minutos, levantava-se e ia caminhar sem pensar em mais nada. Tinha de reservar alguns minutos do seu dia para ficar entediado.
Além de melhorar a tomada de decisão, o tédio ajuda-nos a perceber melhor os nossos valores e prioridades. Ao reduzir o ruído à nossa volta, começamos a ouvir o que realmente importa. Decidir onde investir tempo, dinheiro ou energia deixa de ser um ato automático sem reflexão e torna-se alinhado com os nossos valores e objetivos. Esta reflexão reforça o nosso bem-estar. A redução do stress e ansiedade, aliada ao aumento da confiança, é um investimento valioso em nós e na nossa saúde mental.
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Aprender a parar
Calendarizamos cada minuto, valorizamos a produtividade e medimos o nosso valor pela lista de tarefas concluídas. Mesmo na velhice, estar ocupado tornou-se sinónimo de estar bem. Mas esse ritmo acelerado tem um custo.
Alguém acorda às 6:30, responde aos e-mails no autocarro ou, pior, disfarçadamente na fila do carro enquanto conduz, e tem reuniões durante toda a manhã. Almoça com o telemóvel por cima do guardanapo. A correria continua durante a tarde e, mesmo de volta a casa, vai dar uma olhadela ao telemóvel. À noite, antes de dormir e apesar do sono, dá uma última espreitadela às redes sociais. Passou um dia sem pausas, sem desligar e sem encontrar tempo para pensar.
Somos ensinados a acreditar que o tempo sem atividade é tempo desperdiçado. Ao parar, temos medo de parecer preguiçosos. E quando estamos sozinhos com os nossos pensamentos, surge o desconforto: preocupações, dúvidas, inseguranças. Ficamos vulneráveis. É mais fácil refugiarmo-nos nos estímulos.
E, claro, parar exige esforço. Estamos tão habituados ao movimento constante que só paramos se for uma decisão consciente.