Investimento: as regras de ouro para gerir o seu dinheiro

Investimento: as regras de ouro para gerir o seu dinheiro
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Quando chega a hora de escolher o destino das suas poupanças, as condições continuam favoráveis a níveis de risco mais elevados. Conheça as regras de ouro para investir o seu dinheiro e saiba porque os fundos de investimento são uma boa opção a ter em conta.

A pandemia da Covid-19 forçou muitas alterações na nossa vida – do trabalho ao lazer, passando por uma série de comportamentos no dia a dia. O modo como gerimos o nosso dinheiro também foi alvo de uma mudança significativa – nas preocupações redobradas com o futuro financeiro, mas também nos retornos que se obtêm com os rendimentos disponíveis.

Um efeito mais visível e imediato verificou-se na poupança, que em Portugal nunca foi tão elevada como atualmente. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), referentes ao primeiro trimestre de 2021, revelam que a taxa de poupança das famílias atingiu 14,2% do rendimento disponível (o nível mais alto da atual série do INE), o dobro do registado no final de 2019 (7,1%).

O aumento da poupança por parte dos portugueses acaba por ser um efeito benigno da pandemia. No entanto, também há o reverso da medalha. A crise sanitária provocou uma recessão sem precedentes na economia global, o que obrigou os bancos centrais a injetarem elevadas somas de dinheiro nas economias e a diminuírem as taxas de juro para níveis nunca antes vistos.

Este movimento reduziu substancialmente a remuneração dos tradicionais depósitos bancários, mas também de outros produtos de poupança de risco reduzido. Por outro lado, a liquidez injetada pelos bancos centrais para aligeirar a recessão acabou por impulsionar o valor dos ativos de maior risco (ações e matérias-primas, entre outros).

Lisboa vazia

O aumento da poupança por parte dos portugueses foi um efeito benigno da pandemia

 

Máximos históricos, maior risco

Apesar de a pandemia ainda ter um elevado nível de incidência a nível global, estamos mais perto do regresso à normalidade e as economias recuperam a bom ritmo. Contudo, não será tão depressa que os bancos centrais vão começar a aumentar os juros de modo a que os bancos remunerem os depósitos com taxas apelativas.

“Desejavelmente, as taxas de juro vão manter-se baixas por mais algum tempo”, diz Rui Nápoles, diretor da Sala de Mercados da Montepio Gestão de Activos, que explica que os “bancos centrais querem manter os juros baixos” porque o endividamento global é tão elevado que, se estas taxas se descontrolarem, a situação pode representar uma “hecatombe enorme. Não só para os mercados, mas também para a economia”.

Apesar de as ações globais estarem a negociar em máximos históricos, esta continua a ser uma boa altura para investir em ativos de maior risco, que tendem a beneficiar com a atual política monetária.

Tem sido essa a tendência nos últimos meses marcados pela pandemia, apesar do aumento da volatilidade mais recente, que os especialistas acreditam irá persistir.

Citando o Nobel da Economia de 2013, Robert Shiller, o diretor da Sala de Mercados da Montepio Gestão de Activos salienta a perspetiva de que, no médio e longo prazo (cinco a dez anos), as ações serão o ativo que vai ter maior rendibilidade, embora o retorno médio esperado seja inferior ao registado no passado.

Rui Nápoles alerta, contudo, para os vários indicadores de sobrevalorização no mercado de ações, que “estão em níveis nunca antes vistos”, pelo que são admissíveis “correções acentuadas no curto prazo”.

“Se é para investir no médio e longo prazo, o conselho é o mercado de ações. Desligar os ecrãs e as televisões e, no final do período, é grande a probabilidade de ter um ganho médio de 3 ou 4% ao ano”, remata o diretor da Sala de Mercados da Montepio Gestão de Activos.

Um estudo recente da European Fund and Asset Management Association (EFAMA) revela que a “tranquilidade tem um preço” e aplicar as poupanças em depósitos é uma opção cada vez mais duvidosa. Entre 2010 e 2019, os fundos de investimento geraram, em média, retornos anuais positivos: ações (7,6%), obrigações (2,3%) e mistos (3%). No mesmo período, um depósito gerou uma perda real (descontando a inflação) de 1%.

Gestao Ativos

Apesar das ações estarem a negociar a máximos históricos, ainda é uma boa altura para investir em ativos de maior risco

Investimento: 6 regras a seguir

Aplicar as poupanças em produtos com um nível de risco acima dos depósitos é, assim, uma opção que deve ter em conta. Mas antes disso, é necessário perceber que tipo de investidor é, o risco que está disposto a assumir e conhecer as regras de ouro na altura de investir.

Definir objetivos. Antes de mais, tem que responder a esta pergunta: está a poupar para quê? A resposta pode fazer toda a diferença na escolha dos produtos e ativos em que vai investir. É diferente poupar para a reforma ou para fazer aquela viagem de sonho daqui a uns anos; para pagar o curso do seu filho ou para remodelar a casa.

Pensar num prazo. A resposta a esta pergunta também lhe permite definir uma das variáveis mais relevantes na altura de escolher onde investir. O prazo da aplicação que vai efetuar é fundamental para definir a escolha. É diferente poupar para a reforma (muito longo prazo) ou para as obras que pretende realizar dentro de cinco anos (médio prazo). O prazo do investimento também é um contributo decisivo para definir o perfil do seu investimento (ver caixa).

Diversificar. “Não colocar os ovos todos no mesmo cesto” é, provavelmente, um dos conselhos mais repetidos. Mas não deixa, por isso, de ser um dos mais importantes. Diversificar a carteira de investimento é fundamental para minimizar o risco. Se colocar toda a poupança numa aplicação e o retorno desta for negativo, irá sempre perder dinheiro. Se investir em cinco aplicações, mesmo que uma ou duas deem mau resultado, o balanço final ainda pode ser positivo.

Retornos e riscos lado a lado. A principal máxima do investimento é obter o maior retorno possível com o menor risco. Por isso, diversificar a carteira é meio caminho andado para atingir esta meta. Porém, antes de efetuar um investimento tem que ter a noção de que quanto mais elevados os retornos que essa aplicação ou ativo geraram no passado, mais elevado é o risco do investimento. É que as valorizações mais elevadas estão geralmente associadas a volatilidade mais acentuada. Além de que rendibilidades passadas não são sinónimo de ganhos futuros.

Prazos prolongados. O prazo é fundamental na altura de escolher o investimento. Se puder, privilegie prazos prolongados, pois assim vai conseguir reduzir o risco. Fica mais protegido da volatilidade. Conseguir retornos elevados num curto período de tempo é possível mas pouco frequente, e é necessária uma elevada dose de sorte. Se o seu horizonte temporal é curto (um ou dois anos) e no final precisa do dinheiro, é mais acertado escolher um produto de capital garantido. O retorno será baixo, mas só assim garante a manutenção do capital. Se, pelo contrário, investir a quinze anos, não terá de se preocupar demasiado com a volatilidade ou com perdas potenciais na fase inicial da aplicação.

“Se tem 20 anos deve claramente investir em ações. Se tem 80 anos não deve fazê-lo”, diz Rui Nápoles, que deixa ainda outro conselho: “Não fazer tudo de uma só vez. Ir fazendo. Investir é muito simples e, se for feito num horizonte de longo prazo, deve incluir ações.”

Saber no que está a investir. Este conselho é um dos mais conhecidos daquele que é considerado o investidor mais reputado do mundo. Warren Buffett sempre disse que nunca investiu numa empresa ou negócio cuja atividade não conhecesse. Foi por isso que ficou quase imune às fortes perdas geradas no início deste século, quando a bolha das empresas tecnológicas rebentou. Esta regra serve não só para as ações, mas para todo o tipo de aplicações. Se não percebe o que é, não invista.

Investimento

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Apostar nos fundos

Há mais conselhos que podíamos dar para escolher o melhor investimento. Um deles, que até está relacionado com a última regra, passa por procurar o apoio de especialistas profissionais, que investem por si, fazem diariamente a gestão de carteiras e acompanham o mercado financeiro.

Se está disposto a fazer um investimento de risco mais elevado para conseguir rendibilidades mais altas, é inevitável apostar em ações. Porém, o investimento no mercado acionista exige muito conhecimento e, sobretudo, o acompanhamento diário dos mercados, o que é incompatível para muitos de nós. É por isso que os fundos de investimento são um instrumento a ter em conta na altura de escolher a aplicação para o seu dinheiro.

Existem diversos tipos de fundos de investimento, o que permite desde logo escolher aqueles que lhe oferecem o nível de risco que procura – fundos do mercado monetário (risco reduzido), obrigações, PPR, multiativos e fundos de ações (risco elevado) são os principais.

Dentro de cada um destes há várias categorias, para distinguir as geografias e o perfil de risco em que apostam. São classificados consoante o nível de risco, numa escala de 1 a 7, que tem em conta a volatilidade.

Para cumprir a regra da diversificação pode escolher diversos fundos, ou optar por um fundo misto (multiativos) que investe em diversos tipos de ativos. Além dos fundos de investimento mobiliários (FIM) também estão disponíveis os fundos de investimento imobiliários (FII), que permitem uma exposição ao mercado imobiliário.

Ao investir num fundo, compra uma unidade de participação (UP) que tem um determinado valor e varia em função da evolução das cotações dos ativos que integram a carteira desse fundo. Antes de escolher um fundo, leia a ficha descritiva para saber em que tipo de ativos está a investir e qual o risco associado.

 

FIM com evolução muito positiva

Como referido no início deste artigo, a poupança dos portugueses aumentou substancialmente nos últimos meses e os fundos estão bem presentes no seu radar.

Nos primeiros seis meses deste ano o investimento líquido (subscrições menos resgates) em FIM nacionais aumentou quase 2 mil milhões de euros. A aposta está a revelar-se certeira, já que a evolução muito positiva dos mercados acionistas globais está a gerar retornos bem elevados nos fundos.

Os 10 FIM com retornos mais elevados em Portugal apresentavam, no início de agosto, rendibilidades anuais acima dos 30%. São todos fundos de ações e com níveis de risco elevado (5 ou acima).

Entre as 24 categorias listadas pela APFIPP (Associação Portuguesa de Fundos Investimento, Pensões e Património), só uma regista rendibilidade média negativa nos últimos doze meses.

Onze têm ganhos de dois dígitos. Rendibilidades passadas não são garantia de ganhos futuros, mas esta estatística mostra que os fundos devem ser um investimento a considerar na altura de escolher o destino das suas poupanças.

“Os investidores não devem preocupar-se com o timing do investimento mas com a sua natureza. Não tentar acertar no olho da mosca mas na mosca”, conclui Rui Nápoles. Está pronto para dar este passo?

Três perfis de investidor. Qual o seu?

Para saber qual o seu tipo de investidor e escolher os ativos em que vai investir, consulte os três perfis abaixo para perceber em qual se enquadra. São várias as classes de ativos, mas neste modelo recomendado pela Merrill Edge (do Bank of America) incluímos apenas três para simplificar: Dinheiro (ou equivalente, como depósitos e produtos de capital garantido), Obrigações (títulos de dívida de empresas ou países) e Ações de empresas. Se pretende investir em fundos, estes perfis também são úteis para escolher a categoria.

Conservador
Dinheiro 16%
Obrigações 58%
Ações 26%

É um investidor que privilegia a preservação do capital e só está disposto a assumir um nível reduzido de risco e volatilidade.

Não está habituado a investir, precisa do dinheiro no período de cinco anos e fica satisfeito se conseguir retornos reais positivos, ou seja, superiores à inflação. Só tolera uma perda de capital mínima e, se for muito conservador, o peso das ações na carteira deve ser bem inferior a 20%.

Moderado
Dinheiro 2%
Obrigações 39%
Ações 59%

Investidor que procura equilíbrio entre preservação do capital e valorização da carteira. Aceita um nível moderado de risco e volatilidade e procura uma diversificação abrangente do investimento.

Procura um retorno acima dos que são oferecidos pelos produtos de capital garantido e tem um conhecimento razoável dos mercados.

Agressivo
Dinheiro 2%
Obrigações 10%
Ações 88%

Habitualmente é um investidor experiente e procura rendibilidades elevadas, estando por isso disponível para assumir maior risco e preparado para aceitar maior volatilidade da sua carteira.

Está focado no longo prazo e não necessita do dinheiro investido no prazo de dez a quinze anos. Um investidor muito agressivo dá preferência a ações de mercados emergentes e de empresas de baixa capitalização, que são mais voláteis mas oferecem retornos (e perdas) potenciais mais elevados.