Geração Montepio: os jovens que estão a reinventar o mutualismo

Geração Montepio: os jovens que estão a reinventar o mutualismo
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uerem construir poupanças sólidas e aceder a descontos na saúde e na cultura. Conheça as histórias de três jovens das gerações Z e Millennial que se juntaram ao Montepio Associação Mutualista.

Sérgio Araújo, conhecido no mundo do futebol como Serginho, recebeu o primeiro salário aos 17 anos. “Era um bocado miúdo”, admite. “Os meus pais davam-me conselhos, mas eu pensava de maneira diferente: achava que o dinheiro era meu, e gastava em coisas que vejo que não faziam sentido nenhum”, reconhece o atleta, que, na infância e adolescência, passou pelos escalões de formação do Moreirense e do Vitória de Guimarães.

Em 2023, depois de ter jogado no Oliveirense, na Liga 2, foi contratado pelo Santa Clara e mudou-se para São Miguel, nos Açores. Foi lá que ficou a conhecer melhor o mutualismo, um movimento associativo assente em princípios como a solidariedade, a entreajuda e a reciprocidade. “O futebol é um desporto coletivo, onde o individual vem sempre depois, e creio que neste aspeto há algumas parecenças [com o mutualismo]”, diz, revelando que, pouco tempo depois de ter chegado ao arquipélago, decidiu juntar-se ao Montepio Associação Mutualista.

“Foi uma das coisas que até agora fiz bem na minha vida”, sublinha Serginho. Entre os benefícios de que pode usufruir como Associado, o futebolista destaca a subscrição de uma poupança. “Tinha mudado de clube, estava a ganhar mais e sentia que era o momento certo para fazer alguns investimentos”, recorda o futebolista, contando que alguns amigos já lhe tinham falado do Montepio Associação Mutualista, instituição fundada em 1840 precisamente com o objetivo de desenvolver ações de proteção social e promover a qualidade de vida dos seus membros.

Luís Capucha, investigador no ISCTE ­— Instituto Universitário de Lisboa e autor de vários estudos sobre o mutualismo, lembra que estas associações, com raízes centenárias e que atingiram um dos momentos de maior esplendor durante a Primeira República, foram “olhadas com desconfiança” pelo poder político durante o Estado Novo. No entanto, após o 25 de Abril, encontraram “o seu espaço” na sociedade portuguesa.

Nos últimos anos, têm-se tornado atrativas para jovens que, como Serginho, procuram instituições com propostas inovadoras e soluções para as diversas fases da vida. “O movimento mutualista está consciente de que tem de qualificar a sua oferta, encontrando nichos com uma vantagem comparativa em relação às ofertas de mercado e em relação também à proteção social pública”, afirma Luís Capucha, que defende que “muitos desses nichos” só podem ser explorados através “de um funcionamento em rede”. E dá alguns exemplos: “Serviços partilhados, produtos comuns que ganhem escala e que possam depois ser promovidos com um marketing adequado às novas gerações, como respostas atrativas e competitivas, quer com as ofertas privadas, quer com as ofertas públicas.”

Para este especialista, os jovens estão hoje “muito desconfiados em relação ao futuro da proteção social pública”. É neste contexto, sublinha, que as associações mutualistas podem representar uma mais-valia para esta faixa etária. “São instituições com séculos de existência, de estabilidade e sentido de missão”, afirma, sugerindo que nestas organizações os mais novos podem encontrar a confiança de que precisam. Ao mesmo tempo, acrescenta o investigador, esta é também uma maneira “de combater o individualismo narcísico que tem caracterizado a juventude”. “A atividade mutualista não pode deixar de ser solidária”, frisa.

Tal como no futebol, também no mutualismo o coletivo supera o individual, diz Serginho. O jogador do Santa Clara, da principal liga portuguesa, vive a melhor fase da carreira

“É preciso ter um pé-de-meia”

Foi precisamente a importância que o Montepio Associação Mutualista atribui à proteção e à necessidade de preparar o futuro que cativou o jovem Serginho. Natural de Guimarães, o futebolista, hoje com 26 anos, lembra que, em Portugal, os atletas não são convenientemente preparados, desde as camadas jovens, para administrarem bem as suas finanças e a sua carreira. “Nos casos em que um jogador não tem um acompanhamento familiar forte, poderia haver no clube uma ou duas pessoas responsáveis para o ajudar a fazer as coisas certas, no momento certo”, afirma, lembrando que a escola também não fornece ferramentas suficientes nesta área. “Esta profissão é um bocado ingrata e nós, jovens, às vezes iludimo-nos. Ganhamos bom dinheiro, cedo, e muitas vezes não temos o apoio necessário para geri-lo bem”, acrescenta.

Quando se tornou Associado Montepio, passou a poupar regularmente. Todos os meses, põe de lado uma parte do salário. “É preciso ter um pé-de-meia. Neste momento, estamos bem, mas não sabemos como é que vai estar a nossa vida daqui a dois ou três anos”, diz, deixando uma mensagem para quem está a dar os primeiros passos no mundo desportivo. “Somos jovens. Podemos aproveitar e fazer algumas asneiras, mas sempre com cautela. É preciso aprender que o dinheiro é importante e que começando a ganhá-lo tão cedo — nisso somos uns sortudos em relação a uma grande parte da população — temos de saber poupá-lo e geri-lo.”

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A Associada que trouxe o marido e o irmão

Para se aproximar cada vez mais dos associados, na última década o movimento mutualista tem procurado ter uma forte presença na Internet. Foi aí que Patrícia Nunes descobriu o Montepio Associação Mutualista. “Vi um passatempo nas redes sociais, achei a publicação muito engraçada e fui pesquisar mais. Percebi que tinha muitos eventos, muitas atividades para crianças, e que também oferecia a possibilidade de fazer uma poupança”, recorda a gestora de comunicação, contando que se tornou Associada em 2023. “Na altura, acabei também por ganhar o passatempo”, recorda, divertida. “Recebi um telemóvel.”

Desde então, Patrícia Nunes tem valorizado o foco da associação “no apoio e no futuro dos filhos”. Sabe, por exemplo, que há avós que fazem dos netos associados assim que nascem, preparando, desde logo, uma vida com maior segurança e conforto. No seu caso, e como tem duas filhas ainda pequenas, procura usufruir com regularidade das atividades da Associação. “Recentemente, fui ao concerto de aniversário, no Campo Pequeno, em Lisboa, com as minhas filhas e o meu marido. Adorámos”, lembra, destacando alguns nomes do cartaz como Pedro Abrunhosa, Buba Espinho e D.A.M.A.

Ainda no âmbito cultural, costuma aproveitar os descontos para idas ao teatro e para antestreias no cinema. “É uma Associação muito dinâmica”, considera. “Permite ter a possibilidade de aceder a um conjunto de experiências sociais de que também precisamos para sermos felizes.”

Hoje com 42 anos, Patrícia Nunes começou o seu caminho na Associação com a subscrição de uma poupança. “Este ano, comprei uma casa. Precisei de algum desse dinheiro que tinha guardado e o processo foi muito simples e prático”, conta, frisando que, apesar desse levantamento, todos os meses continua a pôr de lado uma parte do salário. “É um montante que vai crescendo”, explica, sublinhando que a criação deste mealheiro lhe dá maior segurança caso surja uma eventualidade. “Não sabemos se teremos dificuldades com o empréstimo da casa, se os ordenados vão baixar ou se um dia ficaremos desempregados. É muito importante poupar não só para nós, como também para os nossos filhos.”

As vantagens de que beneficia no Montepio Associação Mutualista também levaram o seu marido e o irmão a tornarem-se membros. “O meu irmão fê-lo porque não tem seguro de saúde e assim pode ter acesso a alguns descontos nesta área”, refere a gestora de comunicação, que é também autora do livro Clara, a Boneca sem Cabelo.

A saúde é, segundo o investigador Luís Capucha, uma das áreas em que as associações mutualistas podem ser diferenciadoras, nomeadamente através da “promoção de bons produtos de saúde, complementares ao SNS, oferecidos em rede e com qualidade”. Mas não só: “As mutualidades podem ter uma vantagem em relação aos privados, que tendem a investir em grandes clínicas e grandes hospitais, e há aqui um nicho que, em rede e com produtos comuns, poderia ser um elemento de valorização.”

A Associada Patrícia Nunes convenceu o marido e o irmão a tornarem-se associados. “É muito importante poupar não só para nós, como também para os nossos filhos”, diz

Ser Associado, não cliente

Entre os millennials que, nos últimos anos, se juntaram à Associação, está também Bruno Morais, que se cruzou com o mutualismo quando estava a fazer a tese de mestrado, que aborda o voluntariado no Brasil e em Portugal. “Procurava um lugar onde a solidariedade fosse método e não apenas discurso”, refere o brasileiro de 42 anos, que, na altura, era aluno da Universidade de Lisboa. “O que mais me cativou foi perceber que, no mutualismo, as pessoas não são clientes, mas associados, coautores de um projeto coletivo que atravessa gerações”, sublinha.

Entusiasmado, decidiu, rapidamente, tornar-se membro do Montepio Associação Mutualista. “No início, foi uma escolha sobretudo racional: a procura por uma estrutura sólida que me desse segurança real. Com o tempo, veio também o envolvimento emocional ao perceber que fazia parte de algo maior”, diz, explicando que esta também foi uma forma de fazer parte de uma organização com sentido para si, para os associados e para “a sociedade como um todo”.

O envolvimento foi tal que, estando a viver em Portugal há pouco tempo, passou a integrar, em abril de 2019, o quadro de colaboradores da Fundação Montepio e do Gabinete de Responsabilidade Social, tendo-se tornado, ainda, voluntário do Grupo Montepio. “Ao acompanhar de perto iniciativas como o Prémio de Mérito por Excelência Escolar, dirigido aos filhos dos trabalhadores do grupo, percebo concretamente a importância de incentivar a poupança desde cedo e de criar melhores condições para o futuro”, diz. E sublinha: “É aí que entendo, na prática, como o mutualismo pode acompanhar uma pessoa ao longo de toda a vida.”

Segundo Bruno Morais, a responsabilidade social é um dos fatores que aproxima os mais jovens de instituições como o Montepio Associação Mutualista. “O Deloitte Global 2024 Gen Z & Millennial Survey mostra, de forma consistente, que as novas gerações escolhem relacionar-se com organizações que atuam com propósito, coerência e impacto social real. Querem contribuir, não apenas consumir”, afirma, referindo os prémios de Voluntariado Jovem e de Mérito por Excelência Escolar, do Montepio Associação Mutualista, como exemplos que proporcionam aos mais novos experiências de “reconhecimento, responsabilidade e impacto”.

“Fala-se muito em ‘projetos para jovens’, mas estes refletem quase sempre mais a visão de quem os desenha do que a realidade de quem os vive”, confessa. “Se não compreendemos o imaginário das novas gerações, as suas linguagens, referências e modos de estar no mundo, estamos a falar para um público que não existe.”

Para este colaborador da Fundação Montepio, “o futuro do mundo é muito incerto, mas o mutualismo nunca foi. Atravessou guerras, crises, deslocações e transformações profundas. Sempre que o individualismo falhou, a solidariedade sustentou. Sempre que os sistemas ruíram, as redes humanas permaneceram. Por isso acredito que, daqui a uma década, poderemos dizer com honestidade: o mutualismo não resistiu apenas; mas foi a resposta”.

“O futuro do mundo é muito incerto, mas o mutualismo nunca foi. Sempre que o individualismo falhou, a solidariedade sustentou. Sempre que os sistemas ruíram, as redes humanas permaneceram”

Bruno Morais, colaborador do Grupo Montepio

O mutualismo pode chegar a mais jovens?

A pedido da Revista Montepio, o investigador Luís Capucha identifica algumas áreas em que as associações mutualistas podem inovar para darem resposta às necessidades das novas gerações.

Saúde. Ainda que os jovens não estejam na faixa etária que mais recorre aos cuidados de saúde, Luís Capucha considera importante que as associações mutualistas promovam “bons produtos de saúde complementares ao SNS”, apresentando assim soluções adequadas ao contexto.

Proteção Social. Segundo Luís Capucha, “os jovens estão desconfiados em relação ao futuro da proteção social pública”, e a confiança de que precisam pode ser encontrada em “instituições com séculos de existência como as associações mutualistas”, através de soluções inovadoras e seguras.

Habitação. Perante a atual crise no setor, o especialista afirma que esta pode ser uma área em que o mutualismo se pode diferenciar. “É preciso estudar de que modo o [acesso] à habitação pode ser mais vantajoso [para os associados]”, refere.

Cultura. Mais do que optar por iniciativas destinadas a elites, o movimento mutualista pode investir em grandes eventos musicais como forma de “chegar às massas” para se dar a conhecer.

Marketing. Para chegar a cada vez mais jovens, também é preciso apostar na comunicação, diz o especialista. “É preciso fazer com que o marketing seja cada vez mais atrativo para dar a conhecer a mais pessoas as vantagens do mutualismo, qualificando simultaneamente a oferta para que corresponda efetivamente ao que é promovido”, afirma o professor universitário.

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