ntre novas formas de investir, expectativas de herança e um mercado de habitação cada vez mais difícil, os jovens estão a reinventar a forma como lidam com o dinheiro. Mas o que fazem, afinal, com o que ganham?
Não é todos os dias que o ministro das Finanças vai à escola, mas foi exatamente isso que aconteceu a 31 de outubro de 2025, no Dia Mundial da Poupança. Na Escola Secundária José Gomes Ferreira, em Lisboa, que ele próprio frequentou há muitos anos, Joaquim Miranda Sarmento explicou a 150 alunos do 11.º ano alguns conceitos básicos sobre investimentos, inflação, o valor temporal do dinheiro e a relação entre o risco e o retorno.
“Pensem em poupar a médio e longo prazo e no que gostariam de fazer daqui a dois anos, ou a partir dos 18 anos. Podem conduzir, viajar mais. Pensem no dinheiro que conseguem poupar todos os meses e, sobretudo, nos momentos em que recebem mais: nos aniversários e no Natal”, disse o ministro, citado pelo jornal Público.
Miranda Sarmento não escolheu o público por acaso. A relação dos jovens com o dinheiro está a mudar, fruto das próprias alterações da sociedade nos últimos anos. Por exemplo, comprar casa tornou-se uma missão quase impossível para quem começa a vida adulta. Mas também há hoje novas fronteiras a ultrapassar, sejam literais (viajar é muito mais acessível do que há 30 anos), sejam metafóricas (poupar nunca foi tão fácil).
“Hoje existe uma maior tendência para o consumismo, muito influenciada pelas redes sociais”, explica Sérgio Lagoa, diretor do Departamento de Economia Política da Escola de Ciências Sociais e Humanas do ISCTE. “As pessoas comparam-se com figuras públicas, com pop stars ou atletas, e querem atingir níveis de consumo semelhantes. É uma comparação vertical, diferente da comparação mais horizontal que existia no passado, dentro da mesma classe social.”
Mas essa mudança não se explica apenas pelo consumismo: também reflete transformações estruturais da sociedade portuguesa. “Hoje existe uma maior proteção social ao nível da saúde, da educação ou das pensões. Antes do 25 de Abril, muitas famílias tinham de poupar para fazer face a doenças, desemprego ou velhice. Essa necessidade foi diminuindo à medida que o Estado Social se consolidou”, explica Sérgio Lagoa.
No entanto, mesmo num contexto de maior proteção social e pressão para consumir, há jovens que adotam estratégias financeiras surpreendentemente rigorosas. “Consigo poupar cerca de 60-70% do que ganho”, afirma Margarida Guerra, consultora e analista de marca. Ainda a viver com os pais, a jovem não tem grandes despesas fixas. Assim, além da poupança, o resto do dinheiro vai para “gasolina, jantares, almoços e pequenos gastos do dia a dia”.
Setenta por cento parece muito? É. Mas não é caso único. Todos os jovens que entrevistámos para este artigo — Margarida, Rita, Raquel e Tiago — poupam regularmente. A diferença está na percentagem, nas estratégias e, sobretudo, nos objetivos. Uns querem casa própria. Outros, liberdade para mudar de país. Há quem veja a poupança como segurança e quem a considere um bilhete para novas oportunidades.
Ainda assim, essa preocupação financeira surge hoje mais cedo do que nas gerações anteriores. “A situação financeira está cada vez mais agreste para os jovens”, observa Sérgio Lagoa. “Há maior instabilidade laboral e os salários não são elevados. Antigamente, quando alguém terminava um curso superior, havia uma expectativa mais forte de progressão na vida. Hoje essa esperança está mais limitada, e por isso os jovens começam a preocupar-se com o dinheiro mais cedo.”
REVISTA MONTEPIO
As gerações sem urgência
Quando poupar não é sacrifício
Margarida Guerra sabe que tem sorte. Aos 24 anos, viver com os pais permite-lhe preparar o futuro com mais tranquilidade financeira. Mas quando começamos a conversar, percebemos que esta forma de estar vem desde muito cedo.
“Sempre me preocupei com dinheiro, desde miúda”, conta. De criança, ficou o gesto de poupar, mas também toda uma educação financeira informal ministrada à mesa de jantar. “Sempre se falou muito abertamente sobre dinheiro em casa. Isso ajudou-me a considerar o tema natural, como parte da minha vida.”
Hoje, divide o dinheiro entre uma reserva de poupança, certificados de aforro e alguns ETF. “Prefiro investimentos a longo prazo que me deem estabilidade. Mas continuo a tentar aprender mais e a procurar formas de aplicar melhor o meu dinheiro.”
Este interesse precoce pelo investimento não é um caso isolado. Segundo Sérgio Lagoa, os jovens adultos, sobretudo entre os 25 e os 50 anos, estão cada vez mais presentes nos ativos financeiros. “São as gerações que mais poupam e que mais investem em produtos com algum risco, como ações, obrigações ou até criptoativos”, explica. Parte deste fenómeno é impulsionado pelas novas plataformas digitais, que democratizaram o acesso ao investimento.
Com uma taxa de poupança tão alta e um perfil disciplinado, seria de esperar que Margarida já estivesse a planear comprar casa. Mas não. “Para já ainda não é prioridade. Não quero estar presa a uma casa se aparecer uma oportunidade lá fora. Ainda tenho vontade de ir morar e trabalhar internacionalmente.”
Presa. É essa a palavra que usa. Para a geração dos pais, a casa própria era o símbolo máximo de sucesso. Para Margarida, pode ser uma prisão. O objetivo da poupança não é acumular património físico, mas comprar liberdade. “Gostava de conseguir construir um fundo sólido que me desse liberdade de escolha. Seja para eventualmente comprar casa um dia, seja para fazer uma mudança de país ou de carreira sem sofrer grande stress financeiro.”
O que torna, então, esta geração diferente das anteriores? “Muitos jovens cresceram já com a ideia de que alguns marcos considerados tradicionais, como comprar casa cedo, são difíceis de atingir. Isso implica que o modo como lidamos com o dinheiro sofra algumas mudanças”, explica. Há uma preocupação crescente com poupança e literacia financeira, mas também uma maior valorização das experiências. “Parece-me ser mais por uma tentativa de não adiar a vida para o futuro, que nos parece cada vez mais incerto.”
“Muitos jovens cresceram já com a ideia de que alguns marcos considerados tradicionais, como comprar casa cedo, são difíceis de atingir. Isso implica que o modo como lidamos com o dinheiro sofra algumas mudanças”
Rita e o sonho da casa própria
Rita Grou tem 24 anos e todos os meses, no dia em que o ordenado cai, acontece o mesmo ritual: 20% desaparecem automaticamente para uma poupança. “Trato esse dinheiro como se não existisse”, explica. Os outros 80% servem para pagar a renda e as despesas do mês. “Se quiser viajar, junto o valor necessário a partir do que sobra desses 80%.”
É uma disciplina impressionante, nascida da necessidade. Rita começou a poupar “a sério” aos 18 anos, quando teve de gerir o pagamento dos próprios estudos. “Entrei no mundo da gestão financeira de uma forma abrupta e assustada”, conta. Nessa idade, teve de trabalhar, estudar e ainda ajudar com as contas de casa. “Tive de fazer um grande jogo de cintura.”
Hoje, a designer mantém a mesma atenção ao dinheiro. Mas há uma diferença: não sacrifica tudo pelo futuro. “Vejo os meus pais e outros familiares que pouco ou nada usufruíram do dinheiro que ganharam. Muitas vezes achavam que viajar era um desperdício, assim como experiências simples como ir a museus ou comprar bilhetes para concertos.” Para Rita, poupar só faz sentido com equilíbrio. “No fim do dia, trabalhamos para ganhar dinheiro, e é legítimo podermos desfrutar e ‘mimar-nos’ com o fruto desse esforço.”
Atualmente, o grande objetivo financeiro é poupar para ter um bom fundo de segurança quando, eventualmente, comprar uma casa. “Ter uma almofada financeira onde cair.” Aos 24 anos, os pais de Rita já tinham casa, filhos, carta e carro. “Começaram a trabalhar muito cedo e não tiveram a oportunidade de estudar, como eu tive.”
As contas são simples: com o dinheiro que hoje paga de renda, poderia assegurar um crédito à habitação. “A grande diferença é que estaria a investir em algo que é meu, e não a pagar uma casa que nunca será minha.”
Apesar da disciplina, Rita lamenta não ter começado ainda mais cedo. “Podia ter posto algum dinheiro de lado, nem que fossem 20 ou 30 euros por mês, e simplesmente fingir que esse dinheiro nunca existiu.” É exatamente o que faz agora.
“Vejo os meus pais e outros familiares que pouco ou nada usufruíram do dinheiro que ganharam. Muitas vezes achavam que viajar era um desperdício”
A independência de Raquel
Raquel Almeida tem 25 anos e divide o rendimento mensal em três: despesas gerais (casa, contas, passe e supermercado), poupança para objetivos de curto e médio prazo, como viagens, e objetivos de longo prazo. O principal? Comprar casa.
“O que faço ao dinheiro que iria para uma prestação da casa? Gasto na renda da minha casa atual e nas despesas do dia a dia”, confessa a redatora. Mas isso não significa que deixe de viver. “Sinto que há uma tentativa de encontrar um equilíbrio entre ser responsável financeiramente, poupar para o futuro e viver o presente: viajar, passear e estudar. Há claramente uma preocupação com o futuro, com o sair de casa dos pais, criar um fundo de emergência e investir.”
É por isso que tantos jovens acabam por procurar trabalhos extra para conseguirem juntar mais dinheiro. “Talvez por ser tão difícil atingir metas que, antigamente, eram mais acessíveis em idades mais jovens, como comprar casa.”
Raquel começou a pensar no dinheiro quando chegou a Lisboa para estudar, vinda de Santarém. “Mudar de cidade e alugar um quarto é dispendioso, por isso nessa altura comecei a trabalhar para ajudar os pais. Estava focada em trabalhar para juntar dinheiro para um mestrado e ficar a viver em Lisboa.”
Foi nessa altura que aprendeu a monitorizar as despesas, aproveitando o mundo digital — app ou Excel — para perceber onde anda a gastar dinheiro desnecessariamente. Ao mesmo tempo, socorria-se dos amigos, dos podcasts ou das redes sociais para tomar decisões financeiras.
Entre independência financeira e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, Raquel escolhe a primeira sem hesitar. É uma resposta que a distingue de Rita. E talvez reflita não apenas personalidade, mas também realidade económica: a jovem sabe que, para atingir os seus objetivos, terá de trabalhar e poupar mais do que a geração dos pais com a mesma idade.
Para Sérgio Lagoa, a habitação tornou-se o verdadeiro ponto crítico das finanças pessoais das novas gerações. “Ao não conseguirem entrar no mercado da habitação, os jovens ficam expostos à volatilidade das rendas durante décadas. Ter casa própria continua a ser um dos ativos mais importantes para garantir segurança financeira na velhice”, explica.
“Sinto que há uma tentativa de encontrar um equilíbrio entre ser responsável financeiramente, poupar para o futuro e viver o presente: viajar, passear e estudar”
Poupar sem saber para quê: a filosofia de Tiago
Aos 36 anos, Tiago Teixeira está numa fase da vida distinta de Margarida, Rita e Raquel. Sem filhos, o redator segue a regra dos 50/30/20, adaptada para 60/30/10, para gerir o orçamento familiar. Sessenta por cento do rendimento vai para habitação e necessidades, 30% para despesas não essenciais, como saídas, jantares, viagens e subscrições várias, e 10% vai para a poupança. “Uma parte do dinheiro poupado vai para uma poupança estável e de fácil acesso. O restante é investido em diferentes produtos”, refere.
Mais velho, Tiago também começou a preocupar-se com o dinheiro depois dos 30 anos. “Foi quando tinha 32 ou 33 anos e o principal motivo esteve ligado ao salário e à falta de progressão na minha área de trabalho, mas também à crise da habitação, ao aumento das rendas e do custo de vida. Pensei mesmo: se acontecer alguma coisa, como é que faço?”, conta.
Quando uma pessoa se aproxima dos 35 ou 40 anos, as prioridades começam a mudar. “Eu não tenho um produto de reforma e é um dos meus objetivos a curto prazo.” Para que servirá essa poupança, Tiago ainda não sabe. “Há quem poupe para um ano sabático, uma viagem ou para comprar um carro. Pessoalmente, não me identifico com nenhum desses objetivos. Suponho que poupe para o que der e vier. Mas sei que quero poupar, ter dinheiro a render e vê-lo a crescer, na medida do possível.”
Para já, Tiago tem um fundo de emergência, uma poupança e investe em ETF, commodities (ouro, prata, etc.) e criptomoedas. “Também tenho algumas ações.”
Fora da idade elegível para a Garantia Pública do Estado (que termina aos 35 anos), Tiago já só pensa em comprar casa para criar património, não para viver. “Tenho sorte em poder arrendar casa no centro de Lisboa, com uma renda acessível. Para comprar uma casa teria de o fazer fora de Lisboa, comprar um carro. Mas se o fizer, vejo-o mais como um negócio do que propriamente um objetivo de vida”, explica. O facto de poder receber, num futuro próximo, alguma herança e juntar algumas poupanças, pode permitir-lhe pôr em prática esse plano. “Mas o mais certo é investirmos numa propriedade algures no sul do país, onde tenho família, e colocarmos a arrendar.”
A tendência para investir também coloca alguns riscos. “Observamos jovens com uma parte significativa da carteira em criptoativos, por vezes 25% ou mais”, alerta Sérgio Lagoa. “Isso significa uma grande exposição à volatilidade.”
Ainda assim, o economista relativiza os receios desde que o horizonte seja de longo prazo. “Investir de forma racional e diversificada em ações ao longo de 30 ou 40 anos tende a ser lucrativo. O problema não é o investimento em si, mas a lógica de curto prazo que muitas plataformas incentivam.”
5 erros financeiros comuns entre os jovens
Poupar sem objetivos claros. Muitos jovens guardam dinheiro apenas por hábito, sem definirem metas concretas, o que reduz a motivação e a eficácia da poupança. Ter um objetivo, seja uma viagem, liberdade financeira ou uma futura casa, ajuda a manter a disciplina.
Gastar para impressionar. A influência das redes sociais e de figuras públicas leva alguns jovens a consumirem mais do que podem, dando prioridade ao status em vez da segurança financeira.
Procrastinar. Adiar uma poupança é um erro comum. Começar cedo permite aproveitar o efeito dos juros compostos e construir património de forma consistente.
Exposição a riscos elevados. Alguns jovens concentram os seus investimentos em ativos voláteis, como criptomoedas, sem diversificação adequada, aumentando a vulnerabilidade a perdas.
Ignorar a educação financeira. A falta de conhecimento sobre produtos, riscos e oportunidades impede decisões informadas, tornando mais difícil equilibrar consumo, poupança e investimento.
Jovens vs. os pais deles
Como é que uma conversa sobre poupança entre os mais jovens acaba inevitavelmente nos pais deles? Porque é neles que tudo começa e, por vezes, continua durante vários anos.
Tiago Teixeira diz que os tempos são “totalmente diferentes”, destacando a euforia económica dos anos 90, por contraponto à crise de 2008. “Pude testemunhar em primeira mão a rapidez com que a vida pode mudar, mesmo para quem achava que estava bem ou que tinha tudo controlado.” Arrepende-se, por isso, de não ter percebido que as pequenas quantias fazem a maior diferença.
“Escolher um prato que seja 80 cêntimos mais barato, ir a pé ou de transportes em vez de Uber, levantar-me para ir às compras em vez de encomendar. Todas estas pequenas coisas fazem mesmo a diferença”, explica.
Outra experiência diferente tem Margarida Guerra, que se acha “muito parecida” na forma de pensar dos pais. “Cresci a vê-los a pensarem na gestão do dinheiro sem dar nada por garantido, e penso que isso ficou muito enraizado em mim”, refere. A grande diferença, conta, é que os pais tomavam decisões num mundo “mais previsível”, enquanto ela precisa de gerir o dinheiro num cenário mais incerto. “O que me leva a dar mais importância à flexibilidade e a manter opções em aberto durante mais tempo.”
Finalmente, Raquel Almeida destaca o facto de, com a sua idade, os seus pais já terem casa. “Como não tenho filhos, acabo por ser um pouco mais descontraída. Aproveito mais o lazer e tento viajar sempre que posso. De qualquer forma, sinto que herdei deles esta preocupação por poupar e ser responsável nas minhas despesas”, conclui.
“Tenho sorte em poder arrendar casa no centro de Lisboa, com uma renda acessível. Para comprar uma casa teria de o fazer fora de Lisboa, comprar um carro”
Uma geração diferente
Não há dúvida que os jovens de hoje estão mais bem informados sobre o dinheiro. Um estudo da consultora JPMorgan Chase concluiu que o número de jovens de 25 anos que investe regularmente aumentou dos 6% em 2015 para 37% em 2024 — um aumento de seis vezes em menos de uma década.
O estudo revela que este crescimento foi impulsionado pelas redes sociais e pela pandemia, quando jovens presos em casa descobriram plataformas de investimento acessíveis através de apps móveis. Mas há um alerta: muitos nunca enfrentaram perdas num mercado em queda e podem não estar preparados para a volatilidade. “Os novos investidores podem não estar adequadamente equipados para gerir as suas respostas [às perdas]”, adverte o JPMorgan, sublinhando a importância da educação financeira adaptada a estes novos investidores.
Outro dado relevante: o fosso entre investidores de rendimentos altos e baixos está a diminuir. Em 2014, os investidores de rendimentos abaixo da mediana representavam cerca de 22% do total. Durante a pandemia, esse número saltou para 35%, e hoje estabilizou nos 31%. As plataformas digitais tornaram o investimento mais democrático.
“Poupo todos os meses de forma bastante consistente”, confirma Margarida Guerra, cujo caso ilustra esta tendência. “Para já, tenho o dinheiro dividido entre poupança de fácil acesso, certificados de aforro e alguns ETF, porque prefiro investimentos a longo prazo que me deem estabilidade.”
Mas essa democratização do investimento também levanta novas preocupações. “Os jovens com menos de 25 anos continuam a ter níveis de literacia financeira mais baixos”, sublinha Sérgio Lagoa. “Ao mesmo tempo, são muito influenciados por redes sociais e influencers financeiros, que por vezes promovem investimentos arriscados ou estratégias de curto prazo.”
No fundo, as histórias de Margarida, Rita, Raquel e Tiago mostram que poupar hoje já não significa necessariamente preparar uma vida previsível. Significa, aliás, exatamente o contrário: ganhar margem para decidir mais tarde. Num mundo menos estável do que aquele que os pais conheceram, o dinheiro tornou-se uma ferramenta para manter a liberdade de escolha. E, para muitos jovens, talvez seja essa a nova forma de segurança.
“Os jovens pagam as casas mais caras e isso penaliza toda uma geração”
Antes de falar em poupança, heranças ou habitação, é importante perceber o contexto económico em que os jovens vivem. A estagnação salarial e a limitação da mobilidade social tornam mais difícil acumular património.
“Desde que entrámos na Zona Euro, os salários não têm crescido ao mesmo ritmo das despesas. Muitos jovens dizem-me: não conseguimos poupar porque não temos rendimento suficiente”, explica Sérgio Lagoa.
Concluir um curso já não garante a subida na vida que as gerações anteriores experienciavam. “Quando terminávamos um curso, havia a esperança de melhorar de vida. Hoje, essa esperança diminuiu bastante ou está bastante limitada”, acrescenta Sérgio Lagoa.
As heranças que não chegam
A chamada “Grande Transferência de Riqueza”, dos baby boomers para os Millennials e para a Geração Z também é motivo de ceticismo. “Muitas vezes, nas nossas famílias já não temos grande capacidade para cuidar dos mais velhos. Agora não há uma rede social tão alargada.” O resultado é que os lares e cuidados de saúde consomem grande parte do património familiar.
E depois há a questão do uso dessas heranças: “Veremos o que os jovens farão com o património: se o gastarem rapidamente, não terá impacto no bem-estar. Se conseguirem mantê-lo para retirar rendimento, pode ser positivo.”
Ainda assim, a penalização é evidente: “Os mais jovens pagam as casas mais caras e isso acabará por estabilizar a desigualdade geracional.” Um paradoxo cruel: herdarão casas valorizadas, mas se quiserem comprar agora enfrentam preços históricos.
Diante desta realidade, Sérgio Lagoa sublinha a importância do investimento pessoal: “É investir no nosso próprio capital humano e na nossa educação. É o melhor investimento que podemos fazer. Há um prémio salarial elevado para quem tem formação universitária ou outra qualificação.”
Numa geração sem garantias sólidas, sem heranças certas e com casas inacessíveis, resta investir em si próprio, o único ativo que ninguém pode tirar.
Esse investimento deve ter uma perspetiva de décadas. “O jovem tem um horizonte de vida bastante elevado, por isso deve investir, poupar regularmente, sobretudo para a sua pensão”, sublinha o professor. O raciocínio é simples: o Estado Social que protegeu os pais não terá a mesma força para os filhos. “As pensões do Estado não vão desaparecer, mas a taxa de substituição entre o nosso salário e a nossa pensão será baixa. É necessário haver alguma poupança privada para garantir a pensão.”