Cara ou coroa? Quando uma moeda desbloqueia decisões complexas

Cara ou coroa? Quando uma moeda desbloqueia decisões complexas
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Ilustração de Maria Lourenço
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erante uma indecisão que nos bloqueia e nos impede de escolher um caminho, atirar uma moeda ao ar pode ser tão importante como recolher toda a informação possível e ouvir conselhos de amigos e especialistas. Mesmo, ou principalmente, se a moeda nos mostrar a sua pior face.

O momento não era inédito na história da política dos Estados Unidos da América, mas a decisão raramente tinha sido tão importante como a que iria ser anunciada nos minutos seguintes. Naquela manhã de 4 de janeiro de 2018, num sorteio semelhante aos que determinam o calendário dos jogos da Liga dos Campeões, o estado norte-americano da Virgínia ia decidir, perante o olhar de dezenas de testemunhas no salão principal da Comissão de Eleições, quem iria representar os 85 mil habitantes de um distrito no sudeste do estado.

Após duas contagens de votos e uma decisão dos tribunais, a eleição para a escolha do representante do 94.º Distrito Eleitoral da Virgínia, que decorrera dois meses antes, tinha terminado num empate entre os dois principais candidatos. O titular do cargo, o republicano David Yancey, e a sua adversária do Partido Democrata, Shelly Simonds, tinham recebido 11 608 votos cada, e agora era preciso desempatar a corrida.

Aprovada em 1705, a lei do critério de desempate nas eleições que se realizam na Virgínia — não só para as duas câmaras da Assembleia Geral do estado, mas também para eleições de âmbito nacional, incluindo as corridas à Presidência dos EUA — atirava a decisão final para o domínio da sorte e do azar: “Se duas ou mais pessoas receberem um número igual de votos, sendo esse número superior ao de qualquer outro candidato, a Comissão de Eleições deverá proceder publicamente a um sorteio para determinar qual dos candidatos será declarado vencedor.”

Em cumprimento da lei, o presidente da Comissão de Eleições da Virgínia enfiou a mão direita numa taça de barro, feita por um artista local e trazida do Museu de Belas Artes de propósito para a ocasião, para retirar um papel previamente colocado numa daquelas caixinhas de plástico onde se guardam os rolos fotográficos.

“E o vencedor do 94.º Distrito é… David Yancey”, anunciou o responsável, pondo fim a um processo que daria ao Partido Republicano a maioria na Câmara de Delegados da Virgínia para o biénio 2018-2019.

Nem só de sorteios se fazem os desempates eleitorais na política dos EUA. Na eleição presidencial de 2000 (aquela em que o candidato republicano, George W. Bush, seria declarado o vencedor na sequência de uma decisão do Supremo Tribunal dos EUA e após várias contagens de votos na Florida), a forte possibilidade de um empate no Novo México entre Bush e o seu adversário do Partido Democrata, Al Gore, levou os jornalistas a desenterrarem uma lei antiga daquele estado segundo a qual um empate teria de ser resolvido “através de um jogo de azar”.

Gore sairia vencedor no Novo México com mais 366 votos do que Bush, num universo de 573 200 votantes, e os dois candidatos não tiveram de se preparar para decidir a eleição num jogo de póquer — o método a que as autoridades locais tinham recorrido, um ano antes, para desempatar uma eleição em Edgewood, uma localidade com 6 000 habitantes.

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A ideia de que um método aleatório — um sorteio ou uma moeda atirada ao ar, por exemplo — nos pode ajudar a ultrapassar uma indecisão complexa e paralisante, seja na política ou na vida pessoal, é muitas vezes vista como uma ação desesperada, que impede ou anula um processo racional de recolha de informação. Mas na Suíça, na Universidade de Basileia, existe uma pequena equipa de irredutíveis investigadores que tenta lutar contra este preconceito.

“Quando atiramos uma moeda ao ar, não temos necessariamente de tomar a decisão que é indicada no resultado”, salienta Mariela Jaffé, investigadora sénior na Universidade de Basileia e especialista em Psicologia Social.

“O que acontece é que o simples ato de se atirar uma moeda ao ar pode produzir em nós um sentimento tão forte, de agrado ou de desagrado, que esse sentimento passa a ter valor informativo em si mesmo”, diz Jaffé, autora de uma série de estudos sobre o recurso a soluções como a “cara ou coroa” (aquilo a que chama “catalisadores de decisão”) quando nos encontramos indecisos entre duas opções.

“Ao atirar uma moeda ao ar, assumimos um compromisso com uma das opções, o que a torna concreta e tangível. Isso, por sua vez, desperta-nos emoções: concordo ou não concordo com a decisão? Qual será a minha resposta ao resultado?”

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A ciência imita a arte

Os estudos de Jaffé têm pontos de contacto com um poema do dinamarquês Piet Hein, escrito na década de 1960, num exemplo de como a arte pode intuir verdades psicológicas décadas antes de elas serem comprovadas empiricamente.

Com uma distância de meio século entre eles, ambos abordam a “cara ou coroa” não como um simples jogo de sorte ou azar, mas como uma ferramenta importante para a tomada de decisões.

Hein, um génio multifacetado que se distinguiu em campos como a matemática, o design e a literatura, e que fascinou personalidades como Albert Einstein ou Charlie Chaplin, ficou mais conhecido pelos seus “grooks” (uma palavra inventada pelo próprio para designar os milhares de epigramas, ou poemas curtos e aforísticos, que foi criando ao longo de 40 anos).

Num desses “grooks”, escrito em inglês, em 1966, e intitulado A Psychological Tip (uma dica psicológica), Hein resumiu em poucas palavras as conclusões a que os investigadores de Basileia iriam chegar décadas mais tarde.

“Sempre que fores chamado a decidir e te sentires mal por não o conseguires, verás que para resolver o dilema basta fazer girar uma moeda. E não, não será a sorte a decidir a questão enquanto tu aguardas cabisbaixo; assim que a moeda for lançada, perceberás de repente aquilo que desejas.”

“Ao atirar uma moeda ao ar, assumimos um compromisso com uma das opções, o que a torna concreta e tangível. Isso, por sua vez, desperta-nos emoções: concordo ou não concordo com a decisão? Qual será a minha resposta ao resultado?”

Mariela Jaffé, investigadora sénior na Universidade de Basileia

A força do desejo

Num estudo publicado em 2019, intitulado “Decisões catalisadoras: de que forma a ‘cara ou coroa’ reforça reações afetivas”, Jaffé e outros dois investigadores — Leonie Reutner e Rainer Greifeneder — citam o exemplo de uma pessoa que estava indecisa entre duas propostas de emprego após ter concluído os estudos universitários.

De um lado estava um cargo muito bem remunerado num prestigiado escritório de advogados, que lhe exigiria, provavelmente, um elevado grau de compromisso e de cumprimento de horas extraordinárias; do outro lado estava uma posição numa empresa mais pequena, que era menos conhecida e que pagava um salário mais baixo, mas que lhe permitiria ter maior flexibilidade em termos de horário de trabalho.

Ambas as hipóteses tinham vantagens e desvantagens, e o caminho não se tornou mais claro após muita reflexão e conversas com outras pessoas em busca de aconselhamento. Perante o impasse, a solução foi atirar uma moeda ao ar.

“A moeda sugeriu-lhe que aceitasse a proposta com melhor salário e mais horas de trabalho, mas ele não gostou do resultado e sentiu que, lá no fundo, não era aquele o caminho que desejava. Em vez disso, decidiu aceitar a outra proposta.”

Segundo os investigadores, os seus estudos demonstram que o recurso à moeda ao ar perante decisões inconsequentes, como a escolha de um prato num restaurante, “provoca um sentimento instantâneo de se saber o que se quer escolher”, e permitem especular que o mesmo fenómeno acontece quando estão em causa decisões mais complexas: mudar de emprego, comprar casa ou escolher o momento certo para preparar a reforma.

As 7 decisões financeiras que dão forma à vida

Há escolhas demasiado importantes para ficarem ao acaso, mesmo quando uma moeda ajuda a desbloquear o dilema. Estas são as decisões financeiras que mais pesam ao longo da vida:

1. A profissão que escolhemos

Mais do que definir quanto ganhamos, determina também a estabilidade, o risco associado e até o tempo útil de carreira. Uma profissão com picos e quebras, como as ligadas ao desporto, à cultura ou ao trabalho independente, obriga a um planeamento financeiro quase cirúrgico. Outras, mais estáveis, permitem investir com previsibilidade. A escolha inicial condiciona tudo o que vem depois.

2. Comprar casa ou continuar a arrendar

Contrair um crédito à habitação é assumir uma decisão que influencia décadas: estabilidade vs. mobilidade, património vs. flexibilidade, segurança vs. risco de taxa. Arrendar pode custar mais no imediato, mas permite reagir a mudanças profissionais e familiares sem penalizações. Comprar dá âncora, mas também amarra. É uma das escolhas mais emocionais e, ao mesmo tempo, mais matemáticas da vida.

3. Criar um fundo de emergência

É o colchão que separa um imprevisto de uma crise. Uma avaria no carro, três meses sem trabalho, uma despesa de saúde inesperada: tudo isto deixa de ser uma tragédia quando existe liquidez de lado. Para muitos agregados, criar este fundo é a primeira verdadeira decisão financeira adulta: sacrificar o consumo presente para garantir a tranquilidade futura.

4. Começar (ou não) a investir

Adiar investimentos tem um custo silencioso: a perda do efeito dos juros compostos. O tempo é o maior aliado de quem investe cedo, mesmo valores pequenos. Investir, por sua vez, exige enfrentar o medo de perder dinheiro e aceitar que volatilidade não é sinónimo de fracasso. É uma decisão que marca, literalmente, a diferença entre “vou conseguir reformar-me bem” e “espero que chegue”.

5. Ter filhos. E quantos

Do ponto de vista financeiro, é a decisão com maior impacto no orçamento familiar durante mais anos. Alimentação, saúde, creches, atividades, educação e, mais tarde, ensino superior: cada filho dobra ou triplica certas despesas. Para muitos casais, é a escolha que redefine prioridades, adia investimentos e altera por completo a arquitetura financeira da casa.

6. Proteger o futuro: modalidades de proteção

Subscrever modalidades de proteção vida ou de incapacidade raramente são uma prioridade quando tudo corre bem. Mas quando algo acontece, seja uma doença, um acidente ou perda de rendimento, tornam-se a diferença entre manter a estabilidade ou entrar em espiral. Decidir protegermo-nos (e proteger a família) é uma escolha racional que a maioria adia… até perceber que já devia tê-la feito.

7. Preparar a reforma

É a decisão mais fácil de ignorar quando se tem 20 ou 30 anos, mas é a que mais impacto terá aos 60. Contribuir apenas o mínimo para a Segurança Social, depender exclusivamente do sistema público ou começar a construir um complemento privado: cada caminho leva a reformas completamente diferentes. Pensar cedo é ganhar liberdade; pensar tarde é correr atrás do prejuízo.

Assumir a falta de controlo

“A decisão de se contratar uma poupança reforma, por exemplo, é muitas vezes adiada. No entanto, o adiamento dessa decisão tem como resultado a diminuição do valor das poupanças futuras, devido à perda de juros simples e de juros compostos, e gera um possível aumento dos riscos para a sociedade, já que a população geral poderá ter de suportar as lacunas nas poupanças individuais. Se o uso de catalisadores permitir que os indivíduos se confrontem com os seus sentimentos sobre os planos de poupança, e se os levar a procurar mais informação sobre o assunto e a iniciar um processo de tomada de decisão, então a sociedade no seu todo poderá beneficiar a longo prazo”, dizem os investigadores.

Ou seja, não se trata de confiar cegamente na sorte, nem de seguir à risca o caminho apontado por uma moeda — ou por um papel que é retirado de uma taça, como no caso da eleição na Virgínia —, mas de alargar a caixa de ferramentas que usamos para construir o nosso futuro, e que já inclui a auscultação de amigos e especialistas e uma recolha de informação exaustiva.

Nada nestes estudos legitima um processo de tomada de decisão assente apenas nos caprichos da sorte, antes pelo contrário. No entanto, segundo um estudo de 2024 do grupo HSCB em que foram ouvidas mais de 17 000 pessoas em 12 países, quem se vê confrontado com uma decisão importante num contexto de pressão económica e de incerteza financeira não deve fingir que consegue controlar tudo.

“O mais importante na tomada de decisões num clima de incerteza é aceitarmos que não conseguimos saber qual será o resultado”, diz David Tuckett, especialista em economia e psicologia cognitiva na Universidade de Londres e um dos conselheiros académicos do estudo da HSBC.

“Planear, investigar e analisar os factos de forma racional é obviamente fundamental, e também é importante falar sobre potenciais decisões com um grupo alargado de pessoas, incluindo aquelas que não concordam connosco”, afirma Claer Barrett, editora no jornal Financial Times. “Mas, ainda que não devamos ser guiados apenas pelas nossas emoções, o ato de imaginarmos como nos sentiríamos se não tivéssemos tomado determinada decisão tem um valor muito próprio.”

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Cautela sim, mas q.b.

Mariela Jaffé e os seus colegas da Universidade de Basileia não foram os primeiros a estudar o papel que a “cara ou coroa” pode ter nas nossas decisões mais importantes.

Antes deles, já o economista norte-americano Steven D. Levitt — mais conhecido por ser o autor dos livros Freakonomics, em parceria com o jornalista Stephen J. Dubner — tinha refletido sobre o tema, num estudo de 2016 no qual faz o elogio da mudança, seja ou não em resultado dos caprichos de uma moeda.

“Os resultados sugerem que as pessoas são excessivamente cautelosas quando confrontadas com escolhas que podem mudar as suas vidas”, diz Levitt. Segundo o economista, os indivíduos que tomaram decisões importantes por indicação de uma moeda atirada ao ar — incluindo a demissão de uma empresa ou o fim de uma relação amorosa, por exemplo — estavam, dois meses e seis meses depois, mais satisfeitos do que quem optou por não fazer qualquer mudança na sua vida.

“Se estes resultados estiverem corretos”, diz Levitt, “frases como ‘os vencedores nunca desistem e os desistentes nunca vencem’, embora possam ser bem-intencionadas, devem também ser entendidas como conselhos muito fracos”.

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