É preciso pôr a alimentação em pratos limpos

É preciso pôr a alimentação em pratos limpos
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Ilustração de Sérgio Veterano
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m novembro de 2022, o planeta atingiu o marco dos oito mil milhões de habitantes, sublinhando um problema maior: como vamos conseguir alimentar a população mundial? E como é que a indústria alimentar poderá coabitar com todo o ecossistema sem destruí-lo? Alexandra Prado Coelho, jornalista especializada no tema da alimentação, desenha um quadro complexo do futuro.

Quando Alexandra Prado Coelho, jornalista do Público, começou a dedicar-se ao mundo da comida, em 2011, julgava que estava a entrar num tema relativamente leve. Não demorou a perceber que, afinal, “a alimentação tem a ver com economia, política, ambiente, saúde, tudo”, conta à Revista Montepio. No entanto, considera que “ainda não há uma grande consciência disso” e que, “mesmo ao nível político, o tema não é levado verdadeiramente a sério”.

A indústria alimentar é responsável por cerca de um quarto das emissões de gases com efeito de estufa em todo o planeta. Ao mesmo tempo, é um colosso de consumo e contaminação de solos e de recursos hídricos e um dos principais responsáveis pela desflorestação mundial. Em 2019, Davos ouvia em silêncio a conclusão desconcertante de um relatório desenvolvido pela Fundação Ellen MacArthur: até 2050, cinco milhões de pessoas vão morrer todos os anos devido a danos causados pela produção industrial de alimentos. Em paralelo, as estimativas apontam para que, em 2050, sejamos 10 mil milhões de pessoas em todo o mundo.

Com a população a poder atingir os 10 mil milhões em 2050, a falta de recursos (ou a sua distribuição deficiente) poderá tornar-se o grande problema da segunda metade do século. (Fonte: World Urbanization Prospects 2018)

Como alimentaremos dez mil milhões de pessoas em 2050? “É a grande questão do momento”, afirma Alexandra Prado Coelho, para a qual encontra dois tipos de resposta: “Ou aumentamos a produtividade loucamente ou temos de alterar todo o sistema.” Aumentar a produtividade passa por produzir mais com menos recursos, reduzindo o desperdício alimentar e a pegada ecológica, com um gigantesco investimento financeiro envolvido. Alterar o sistema implica, por outro lado, transformar mentalidades e combater grandes interesses económicos.

Um dos problemas que leva à inação relativamente a este paradigma negro, de acordo com a jornalista, é a separação – na comunicação social, na discussão pública, na política e até na ciência –, entre áreas como a agricultura, a alimentação, a saúde e o ambiente. Se morrem pessoas, animais e plantas, a produção agroalimentar não é saúde? Não é ambiente? Não é economia? “Era preciso uma política que pensasse isto de cima a baixo, mas é como se não conseguisse ver que tudo está ligado”, defende.

Assim, a transformação do atual sistema alimentar deveria tocar em pontos como a educação, os hábitos instalados, a redução do desperdício e da pegada ecológica, mas também contar com novos modelos de produção e de distribuição. Muitas destas mudanças já estão a acontecer em diferentes pontos do mundo, como o Reino Unido, os Países Baixos ou mesmo Portugal. Alguns através de “pequenos esforços” dispersos, como lhes chama a jornalista, e muito poucos com uma política agroalimentar concreta.

“Reduzir a produção e o consumo de proteína animal é a pedra de toque de todo o sistema alimentar”

Alexandra Prado Coelho, jornalista (foto de Nuno Ferreira Santos)

Maus hábitos

Em países com baixo poder de compra, como é o caso de Portugal, a escolha do que comemos é, muitas vezes, baseada num único fator: o preço. Nesse capítulo, a indústria da carne consegue superar muitas outras. Ao mesmo tempo, depois de décadas de carência proteica na dieta de grande parte das populações, a busca por proteína (sobretudo animal) tornou-se um grande motor dos mercados. No entanto, nas sociedades ocidentais, que enfrentam graves problemas de saúde relacionados com o que comem, esta busca não é acompanhada por uma literacia alimentar.

Em paralelo, “há uma geração mais informada e preocupada em reduzir [o consumo de proteína animal] e há uma tendência nos restaurantes e na grande distribuição” em apresentar proteínas de origem vegetal, aponta Alexandra Prado Coelho. Mas, muitas vezes, “são produtos ultraprocessados e isso gera outros problemas”, nomeadamente de saúde. “As prateleiras dos supermercados estão cheias de proteína, os iogurtes estão cheios de proteína. Mas, de quanta proteína, de facto, precisamos?”

Numa entrevista a Alexandra Prado Coelho, no Público, o diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição da Universidade do Porto, Pedro Graça, referiu que “há uma percentagem muito elevada da população mundial – em Portugal é de cerca de 60% – que consome mais calorias do que necessita”. Neste dado poderá estar, assim, uma parte da resposta à questão sobre como conseguiremos alimentar 10 mil milhões de pessoas daqui a 27 anos.

Se temos de repensar o que comemos, os pratos do futuro poderão ter uma figura bem diferente da atual, contendo ingredientes como insetos, algas (pouco frequentes na cultura ocidental), proteína fabricada em laboratório ou larvas, que hoje representam pontos de esperança no panorama agroalimentar. Mas mudar hábitos não é simples. O mercado impõe tendências de consumo, sim, mas “a ideia de um Estado regular o que comemos não é aceitável em muitos países”, enquadra Alexandra. Ainda assim, “há coisas que se podem fazer, como aconteceu com o açúcar ou com o tabaco. Na questão do sal, por exemplo, tivemos bastante sucesso”, afirma, lembrando a chamada lei do sal, de 2009, que impôs limites máximos deste mineral no pão e obrigou a informar de forma mais clara sobre a quantidade de sal nos alimentos embalados, uma medida de saúde pública para combater sobretudo doenças do foro cardiovascular. “Acho que reduzir a produção e o consumo de proteína animal é a pedra de toque de todo o sistema alimentar”, acredita a jornalista.

AMBIENTE

Como reduzir o desperdício alimentar?

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Por outro lado, no plano da produção, “também são importantes as decisões referentes aos subsídios, ou seja, ver que tipo de agricultura se apoia”. Em Portugal, apoia-se um número bastante grande de hectares de agricultura biológica, mas a esmagadora maioria é destinada a pastagens”, aponta a profissional. Assim, o futuro que Alexandra Prado Coelho vislumbra para a alimentação teria uma nova organização produtiva e uma reinvenção da nossa dieta diária. “A proteína animal deixaria de estar no centro”, como acontece há séculos, aliás, na dieta mediterrânica.

Educação alimentar? Elementar

Reaprender a comer é uma tarefa que, para ter sucesso no futuro, tem de contar com as camadas mais jovens. Nesse sentido, há um trabalho nas escolas que deve ser mais aprofundado, segundo a jornalista. “Acho que era preciso um programa que assumisse o tema da alimentação como uma prioridade”, diz. E esse programa não pode ser apenas teórico. “Há uma questão que me parece evidente e que vi ser implementada noutros países, ditos de terceiro mundo, que é acabar com o sistema centralizado das compras de alimentos para as escolas, ganhando autonomia para comprarem da produção agrícola mais próxima. Por outro lado, há produtos e receitas diferentes de acordo com a região e isso deveria ser integrado no plano alimentar das escolas, de uma forma transversal”, para respeitar um modelo de consumo local.

“Se o mundo mudou, a escola tem de mudar.” Uma volta pelo ensino, do pré-escolar ao superior

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Já existem alguns (muito poucos) exemplos desta mudança a nível nacional. Na Escola Básica de Serra da Vila, em Mansores, Arouca, a maioria dos alimentos disponíveis na cantina provêm da região. Noutro plano, começa a olhar-se para a alimentação escolar com uma preocupação assente na saúde. Em 2021, o Governo legislou a proibição da venda de produtos como gelados, batatas fritas, bolos, pizzas ou refrigerantes e estabeleceram-se novas normas a ter em conta na elaboração das ementas.

Em suma, há muito a aprender e a fazer no setor da alimentação. Se os modelos de agricultura intensiva e de consumo excessivo continuarem a imperar, perderemos solos, água e vida, como, aliás, já acontece a grande velocidade. “Um estudo recente descobriu que o número de insetos nas reservas naturais da Alemanha ocidental caiu mais de 76% de 1973 a 2000” e um estudo global concluiu que “a perda de habitat pela conversão para agricultura intensiva é a principal causa deste declínio”, com os poluentes agroquímicos, as espécies invasoras e as mudanças climáticas como coadjuvantes”, lê-se na página do Programa Ambiental das Nações Unidas. “Há propriedades na China onde se está a polinizar à mão, porque já não há insetos”, lamenta Alexandra Prado Coelho. “Nada disto me parece sustentável. Temos de estudar, estudar muito a perda de biodiversidade, as nossas perdas. Há muito a fazer e são precisos apoios concretos para isso.”

Os números da comida

2,3 mil milhões de euros por ano podem ser poupados à economia mundial através da redução do desperdício alimentar e do investimento numa economia circular nas cidades, segundo um relatório de 2019 da Fundação Ellen MacArthur

465 mil milhões de euros em despesas de saúde poderiam ser reduzidos a cada ano, se houvesse uma redução significativa do uso de químicos na indústria alimentar, revela o mesmo relatório

15% é quanto se prevê que aumentará o consumo de carne em todo o mundo, até 2031, dizem a OCDE e a Organização das Nações Unidas (ONU). O aumento é motivado pelos crescimentos económico e populacional

10% da população mundial, ou seja, mais de 800 milhões de pessoas vivem em insegurança alimentar. Destas, mais de 50 milhões estão no limiar da fome, informa a ONU

60% é quanto a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) estima que a produção alimentar deveria aumentar para responder às necessidades de uma população próxima dos 10 mil milhões de pessoas, em 2050

28% é quanto a produtividade agrícola deveria aumentar para eliminar a fome até 2030, diz a OCDE. Isto implicaria aumentar as colheitas em 24% e produzir mais 31% de carne, diminuindo, ao mesmo tempo, a emissão de gases com efeito de estufa

70% do volume global agroalimentar exportado vem de cinco fontes: União Europeia, Austrália, Rússia, Canadá e Estados Unidos

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