A geometria do mutualismo

A geometria do mutualismo
9 minutos de leitura
9 minutos de leitura
N

a exposição Gravidade, de Luísa Pereira da Fonseca, as linhas pretas que definem a sua linguagem abandonaram as telas e passaram a percorrer o chão e as paredes do Atmosfera m. Uma obra que nasceu do lugar, para o lugar, e onde os visitantes se tornaram parte da instalação. Uma metáfora involuntária do mutualismo: ninguém atravessa o espaço sem deixar a sua marca na teia.

Não há tela em branco que assuste Luísa Pereira da Fonseca. Afinal, o branco é o princípio de tudo, o silêncio antes da criação e o campo de possibilidades infinitas de onde emergem as linhas pretas que, desde 2020, são a sua linguagem mais fiel.

Artista e Associada do Montepio Associação Mutualista, Luísa transformou as paredes, o chão e a arquitetura do Atmosfera m numa teia viva de geometria. A exposição Gravidade não poderia ter um nome mais adequado para uma artista que, ao contrário do que o título pode sugerir, recusa ver a gravidade apenas como uma força que nos puxa para baixo. “Para mim, a gravidade é o poder de ordem que organiza o cosmos. É o que mantém a coesão entre os elementos, a força invisível que abraça e curva os trajetos das linhas”, explica.

A arte encontrou Luísa cedo. O avô, Joaquim Pereira da Fonseca, e a bisavó, Mimi Fernandes, eram ambos artistas. Os seus ateliês foram, para a miúda Luísa, o lugar mais estimulante do mundo. “Lembro-me de que, perto deles, as tardes passavam depressa e o tempo parecia dilatar-se perante a arte. Era lá que eu podia sujar as mãos, onde não havia limites para a experimentação.”

A primeira desta nova geração familiar – filha, neta e bisneta –, Luísa cresceu naqueles espaços a aprender a ver além da superfície. Não o sabia ainda, mas estava a preparar o terreno para uma linguagem que só encontraria décadas mais tarde. Hoje, olha para esse percurso e reconhece a linha contínua: “A minha investigação sobre o invisível e as ligações do universo é uma continuação desse diálogo que começou na minha infância.”

MONTEPIO ASSOCIAÇÃO MUTUALISTA

Na Atmosfera m, a cultura é rainha

Visitar

O silêncio que faz barulho

O ponto de viragem chegou em 2020. Com o mundo exterior silenciado pela pandemia, o interior de Luísa começou a fazer um “barulho ensurdecedor” que exigia ser expresso. As primeiras obras, reunidas na coleção Tinta Silenciosa, eram simples: linhas pretas em acrílico sobre branco. Mas a simplicidade guardava perguntas complexas. “Comecei a questionar-me: porquê estas linhas? Porquê estes contrastes? Porquê estes labirintos?”

À medida que procurava respostas, encontrou a sua linguagem. Percebeu que não estava apenas a pintar, mas a mapear o seu interior e a tentar compreender o que nos sustenta enquanto humanidade. Os artistas são assim: metódicos e misteriosos. A geometria e o conceito tornaram-se o seu modo de navegar nesse território interior que se abrira com o isolamento.

Curioso é que a origem de tudo, admite Luísa com toda a vulnerabilidade, foi o amor. “Pode parecer um clichê, mas o amor é a força invisível mais real que existe. Uma força que ultrapassa as barreiras do espaço e do tempo. As minhas linhas pretas são, no fundo, o mapa dessas ligações.” As leis que mantêm os planetas em órbita, descobriu Luísa, não são assim tão diferentes das forças que nos unem ou repelem enquanto seres humanos.

“O meu trabalho assenta na premissa de que nada no universo existe de forma isolada, tudo funciona numa teia infinita de interligações. O mutualismo é uma manifestação social dessa lei universal”

Luísa Pereira da Fonseca, artista e Associada Montepio

O invisível como essência

Há uma escolha que define o trabalho de Luísa Pereira da Fonseca de forma imediata: o preto e branco. É, podemos dizer, uma tomada de posição. “A cor remete para a psicologia e para os sentimentos humanos. O que eu procuro é a geometria pura e dura”, afirma. O contraste absoluto permite-lhe representar o universo sem distrações, mapeando a complexidade sem filtros.

Neste cenário, o invisível é o verdadeiro protagonista. O vazio representa o espaço, o silêncio, o ato de respirar. É no branco que a obra começa, e é no que não está pintado que reside muitas vezes o significado mais fundo. “Acredito que a mente humana se acomoda facilmente ao que vê, mas a verdadeira verdade reside naquilo que sentimos sem ver”, diz Luísa.

No percurso de Luísa encontramos outra coisa surpreendente: a importância do “bom e velho” rock n’roll nas experimentações artísticas. “Bandas como os AC/DC marcaram-me profundamente pela sua força dinâmica e autenticidade inabalável. A forma como transformaram a dor em algo potente e único, criando uma música que transcende o tempo, é exatamente o que eu procuro fazer com as minhas linhas.”

REVISTA MONTEPIO

Poupança de Associado, alma de artista

Ler artigo

Linhas que saem das telas

Quem entra no Atmosfera m sem saber o que vai encontrar, pára. O primeiro instinto é olhar para baixo. No chão de madeira clara do espaço de cultura do Montepio Associação Mutualista, linhas pretas e espessas formam retângulos que se sobrepõem, cruzam e multiplicam em todas as direções. É uma espécie de diagrama de linha de metro, sem o nome das estações. Uma grelha geométrica que percorre toda a sala e sobre a qual os visitantes caminham, querendo ou não, como se fossem eles próprios parte da obra. E são.

Nas paredes, as telas a preto e branco. No chão, as linhas que delas parecem ter escapado. A instalação não tem início nem fim claros, antes envolve o espaço inteiro, une as obras entre si e dissolve a fronteira entre o que se observa e o sítio onde se está. É preciso ver in loco para perceber que se trata de uma afirmação. O universo, diz Luísa com as suas linhas, não separa o que acontece dentro das molduras do que acontece fora delas.

Esta exposição nasceu sem apontamentos prévios ou desenho fixo. No primeiro dia de montagem, Luísa entrou no Atmosfera m com um propósito: deixar-se absorver pelo ambiente. O que se seguiu foi um processo site-specific puro, onde cada linha respondeu à arquitetura e à energia do lugar. “Não são elementos transferíveis, pertencem àquele lugar”, afirma. Todas as obras foram criadas de raiz para este momento, incluindo as que ficaram no chão para serem pisadas.

A liberdade criativa que lhe foi concedida, diz, foi tão rara quanto preciosa. “Ter a honra e a oportunidade de criar uma exposição de raiz, com total autonomia, é um privilégio. Esse voto de confiança institucional é o que permite que projetos autorais ganhem vida e saiam do papel para o espaço físico.”

A geometria e o mutualismo

Quando lhe perguntamos se vê pontes entre o seu trabalho e o espírito mutualista do Montepio, Luísa não hesita. “O meu trabalho assenta na premissa de que nada no universo existe de forma isolada, tudo funciona numa teia infinita de interligações.” E o mutualismo? “É uma manifestação social dessa mesma lei universal. A consciência de que o todo é maior do que a soma das partes e de que a nossa existência ganha sentido através das pontes que construímos com o outro.”

Para a artista, a física quântica e o modelo mutualista partilham uma lógica semelhante à das partículas entrelaçadas: o movimento de uma afeta as restantes. A analogia pode parecer ousada, mas diz muito sobre como Luísa Pereira da Fonseca pensa o mundo, a arte e as relações entre as pessoas.

O erro que dá vida

Há uma última coisa que Luísa revela sobre o seu processo criativo, e que ilumina a sua visão de forma inesperada: no ateliê, a maior surpresa é o erro. “Aprendi a confiar no momento em que algo foge ao meu controlo, aquele gesto que ‘saiu mal’ ou que não estava planeado. Sei perfeitamente que as obras que mais vou adorar são as que nasceram de um imprevisto.”

Quando perde o domínio da técnica, a obra ganha vida própria. O universo artístico auto-organiza-se. O que parecia um erro torna-se o elemento central e mais autêntico da peça. “Aprendi que o meu destino como artista é aceitar que nem tudo precisa de ser controlado. Às vezes, é preciso deixar que a obra me guie.”

Atmosfera m: um espaço para pensar e para agir

Na cafetaria do Atmosfera m Lisboa, o café é gratuito. É uma história simbólica, mas que diz muito sobre o mutualismo: o Montepio Associação Mutualista pagou o primeiro que ali se tomou, em fevereiro de 2015, e desde então cada pessoa que paga o seu está, sem o saber, a oferecer o próximo a quem chega depois. Chama-se Café do Próximo, e resume bem o espírito do lugar.

Inaugurado em 2014, na Rua Júlio Dinis, no Porto, e um ano depois em Lisboa, na Rua Castilho, o Atmosfera m é um projeto de cidadania, cultura e lazer aberto a todos, inclusive a quem ainda não é Associado. Longe de ser uma galeria convencional ou centro cultural de porta fechada, trata-se de um espaço híbrido onde cabem exposições, concertos, workshops de teatro, ioga, robótica e música, conferências, clubes de leitura, salas de formação e uma ludoteca para os mais novos. Tudo com a mesma lógica: a cultura não é um privilégio.

Nos últimos anos, a programação tornou-se cada vez mais variada e regular. Em Lisboa, o ciclo Claquete, dedicado ao cinema e que já vai na quinta edição, acontece às quintas-feiras, com entrada gratuita. E o ciclo Poesia e Qualquer Coisa Mais trouxe ao espaço recitais que cruzam poesia com música, fado e interpretação. Há ainda feiras de produtos biológicos, exposições como as de Luísa Pereira da Fonseca e outras atividades que fazem deste um dos mais multifacetados espaços da cultura das duas principais cidades.

No Atmosfera m Porto, existe o mesmo espírito e programação própria. Nos últimos tempos, o espaço recebeu, por exemplo, a exposição fotográfica Mário Soares – 100 Anos, assinada por Alfredo Cunha e Rui Ochoa, ou as exposições Inflorescências, do artista plástico Miguel Neves Oliveira, e O Silêncio é Um Lugar, dedicada à vida e obra de Pedro Abrunhosa.

Também pode interessar-lhe

Está prestes a terminar a leitura deste artigo, mas não perca outros conteúdos da sua Revista Montepio.