Na saúde mental, não há espaço para cosplay

Na saúde mental, não há espaço para cosplay
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o Iberanime, por trás de cada personagem há pessoas. E num mundo cada vez mais habituado à performance, criar espaços onde a vulnerabilidade não precise de máscara tornou-se uma necessidade. Com o apoio do Montepio Associação Mutualista, o maior evento de cultura pop japonesa em Portugal passou a ter um espaço de saúde mental. Onde termina a representação e começa a vida real?

Há dois anos, a organização do Iberanime colocou uma árvore no meio do evento. Não era uma árvore qualquer, mas a Árvore dos Desejos, inspirada nas cerejeiras japonesas, a flor que no Japão simboliza a impermanência e a beleza do efémero. A ideia era simples: pedir aos visitantes que deixassem os seus desejos pendurados nos ramos. A organização esperava encontrar pedidos sobre o evento, sobre os conteúdos, sobre o que gostariam de ver no ano seguinte.

O que encontraram foi outra coisa. “Gostava de ser melhor tratado na escola”, lia-se numa mensagem. “Gostava que os meus amigos gostassem de mim”, lia-se noutra. “Gostava de encontrar um namorado.” Desejos sobre a vida, vindos de quem ali estava feliz por umas horas e sabia que do lado de fora esperava um mundo mais difícil.

“Percebemos que havia ali uma necessidade de aproveitarmos o Iberanime para criar um espaço de bem-estar e de saúde mental”, diz Mário Costa, diretor do evento. “Em que, de uma forma profissional, mas sem o peso de um consultório, pudesse dar oportunidade às pessoas de sentirem que o Iberanime também as pode ajudar no seu dia a dia fora do evento.”

O público pediu, o Iberanime fez. No ano passado, nasceu o Espaço Saúde Mental powered by Montepio Associação Mutualista, um local de acolhimento, orientação e encaminhamento integrado num evento que, só em 2025, recebeu 66 mil pessoas nas suas duas edições, no Porto e em Santarém.

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Um público particular

O Iberanime existe desde 2010 e é hoje o maior evento de cultura pop japonesa em Portugal. Mangá, anime, cosplay, jogos, música… é um universo que cresceu de nicho a fenómeno de massas, e que continua a crescer. Mas para perceber porque faz sentido ter um espaço de saúde mental num evento deste tipo, é preciso perceber quem são as pessoas que lá vão.

“Estamos a falar de pessoas que são, em muitos casos, vítimas de bullying, que têm a sensação de que vivem um bocadinho fora daquilo que é a normalidade”, explica Mário Costa. Para muitos destes jovens, o Iberanime é um dos poucos lugares onde podem ser quem são sem medo de julgamento. “Quem não é deste meio percebe imediatamente que há muita liberdade e há muita felicidade ali naqueles corredores.”

Há uma ligação profunda entre esta comunidade e a própria cultura japonesa, um ideal que vai além da estética. O Japão é, enquanto sociedade, um país de enorme pressão pelo sucesso e pela conformidade, que lida mal com o falhanço e a rejeição. Esse peso reflete-se no conteúdo que produz: animes e mangás que falam de superação, de bem contra o mal, de união em prol de um objetivo comum. “Este público identifica-se muito com este tipo de mensagens e de filosofia”, diz Mário Costa. O cosplay – fenómeno mundial mas com forte expressão em Portugal – é, no fundo, a possibilidade de, por momentos, sermos a personagem com quem nos identificamos. De sentir que somos capazes do que ela é capaz.

E é aqui que a tensão se instala. O mesmo evento que dá às pessoas a liberdade de serem uma personagem tem agora um espaço que as convida a serem elas próprias. “Nós queremos que o evento seja de facto um evento de fantasia”, admite Mário Costa. “Mas temos também a obrigação da responsabilidade social de, depois do evento, permitir que as pessoas continuem a sua extensão de felicidade no seu dia a dia.”

“[Há muitos visitantes do Iberanime] vítimas de bullying, que têm a sensação de que vivem um bocadinho fora daquilo que é a normalidade. Queremos que as pessoas continuem a extensão de felicidade no seu dia a dia”

Mário Costa, diretor do Iberanime, sobre a importância do Espaço de Saúde Mental powered by Montepio

Acolher sem pressionar

A psicóloga Nathalie Marques, do Centro Impacto – parceiro do Montepio Associação Mutualista neste projeto –, coordena a equipa que assegura o espaço. Especializada em crianças, jovens e famílias, conhece bem o público que encontra ali.

“Normal não é, porque não existia até aqui”, diz sobre a ideia de ter saúde mental num evento de massas. “Mas é extremamente necessário, e daí devia tornar-se uma normalidade.”

Os atendimentos duram cerca de 30 minutos, com possibilidade de se prolongarem, dependendo do caso, e não são consultas de psicologia no sentido clínico. São, nas palavras da psicóloga, momentos de acolhimento. “O objetivo primordial é orientar. E há outra palavra extremamente importante: encaminhamento.”

Muitas das pessoas que chegam aqui, continua Nathalie, não sabem que existem apoios acessíveis, sejam linhas de SOS, grupos de ajuda, apoios de juntas de freguesia e outras alternativas ajustadas à realidade socioeconómica de cada um. Aliás, o perfil de quem procura o espaço surpreendeu a própria equipa. Esperavam maioritariamente jovens, mas encontraram pessoas entre os 16 e os 40 anos. “A maioria eram jovens adultos, na casa dos 20, 30 anos”, refere Nathalie Marques. Mas houve também aconselhamento parental, casos de depressão pós-parto, jovens com dúvidas de orientação vocacional e até pessoas que chegaram em crise no momento do evento.

“Tivemos um jovem cuja ex-namorada estava no evento e que ficou extremamente nervoso”, recorda. “O foco foi: vamos perceber como podemos continuar a usufruir do resto do evento. Quais são as estratégias que no imediato podemos usar.”

E o que muda quando a escuta acontece fora de um consultório? “As pessoas estão mais relaxadas, mais abertas”, diz a psicóloga. “Não há aquela coisa de ‘amanhã vou ao psicólogo e já estou nervoso e já não consigo dormir’.” O ambiente familiar, o evento à volta, os corredores cheios de personagens, tudo isto contribui para que as pessoas cheguem ao espaço sem armadura. “A primeira experiência que têm na saúde mental é positiva. Depois ir à clínica vai ser muito mais fácil, porque já sabem para o que vão.”

No ano passado, em Santarém, a equipa atendeu 24 pessoas; os números do Porto são semelhantes. Durante os dois dias, nunca houve um momento sem atendimento. E as consultas chegaram a prolongar-se para uma hora, porque os temas são sensíveis e as pessoas precisam de tempo.

“Estamos a pôr sementes. Eventualmente vai ser um pinhal. Só que nós não vamos ver esse pinhal crescer. Mas esse pinhal vai depois abrigar pássaros”

Nathalie Marques, psicóloga e responsável pelo Espaço Saúde Mental powered by Montepio

“Eu não estava maluca”

Carla (nome fictício, a seu pedido) foi ao Iberanime no ano passado. Associada do Montepio Associação Mutualista há vários anos, soube do espaço através da organização do evento. “Juntei o útil ao agradável”, diz. “Queria ir ao Iberanime. Mas se me tivessem falado só do espaço de saúde mental, ia na mesma… estava mesmo aflita.”

Na altura, a filha de Carla tinha 7 anos e a mãe andava desconfiada de uma possível perturbação de aprendizagem. Tinha ido à escola, tinha procurado ajuda, e encontrou sobretudo silêncio. “Nunca ninguém me disse: ‘Olhe, a sua filha, se calhar é melhor procurar uma ajuda para perceber se há aqui alguma coisa.’”

No Iberanime, sentou-se com o marido frente a Nathalie Marques e contou o que sentia. “Ajudou-me a perceber que eu não estava a imaginar coisas”, confessa. “Ajudou-me a ver que não estava maluca, que não era só eu, que não eram coisas na minha cabeça.” A psicóloga orientou-a para uma profissional especializada na zona onde vive. Meses depois, o diagnóstico chegou. E Carla voltou a escrever a Nathalie. “Disse: ‘Afinal é verdade, a minha filha tinha isto e isto.’ Fiquei superagradecida.”

Este ano, Carla tenciona voltar ao Iberanime. E provavelmente vai ao espaço de saúde mental outra vez. Desta vez, para contar como correu.

Para a Associada, o facto de ser o Montepio Associação Mutualista a apoiar este tipo de iniciativa tem um significado que vai além do evento. “O Montepio pensa nas pessoas. É a base, não é? A base é o coletivismo, não ter lucro, ter o fator humano envolvido.” Numa altura em que muitas organizações procuram remover o fator humano das suas operações, este facto, diz, continua a fazer a diferença.

Em 2025, o Iberanime recebeu 66 mil pessoas. Muitas delas adolescentes e jovens adultas apaixonados pela cultura japonesa

Sementes que crescem devagar

Nathalie Marques faz 15 anos de carreira este ano, mas diz que o Iberanime a surpreendeu. Passado quase um ano do atendimento, a voz ainda abranda quando fala num dos jovens que recebeu. “Abraçou-me e disse: ‘Muito obrigado, eu nunca tinha pensado nesta perspetiva de vida.’ Foram 30 minutos. E ele saiu com uma luz completamente diferente sobre o que podia fazer.”

A psicóloga acredita que o impacto deste tipo de espaços vai muito além do que é mensurável. “Daqui a 10 ou 20 anos, a sociedade já vai estar um bocadinho melhor porque estas pessoas foram impactadas.” É uma conta de multiplicar: quem é acolhido, acolhe outros. Quem encontra uma semente, planta outras.

A imagem que usa para explicar o trabalho é a de um pinhal. “Estamos a pôr sementes. Eventualmente vai ser um pinhal. Só que nós não vamos ver esse pinhal crescer. Mas esse pinhal vai depois abrigar pássaros.” Para o Montepio Associação Mutualista, apoiar o Espaço Saúde Mental no Iberanime é um passo numa direção que tem feito parte da missão mutualista desde a sua fundação: chegar às pessoas onde elas estão. Com ou sem máscara.

Dentro do espaço, ninguém ouve

Ao fundo do corredor, entre stands de mangá e filas para fotografias com cosplayers, há uma porta diferente. Perto, ouve-se música, colocada propositadamente para que o que se diz lá dentro não chegue cá fora. É assim o Espaço Saúde Mental powered by Montepio Associação Mutualista. Não estamos em Las Vegas, mas, também aqui, quem entra sabe que o que disser fica naquela sala.

O espaço funciona nas duas edições anuais do Iberanime – Porto e Santarém – com uma equipa de quatro psicólogas do Centro Impacto, parceiro do Montepio Associação Mutualista neste projeto. Os atendimentos são gratuitos, duram cerca de 30 minutos e não são consultas de psicologia. São momentos de acolhimento, orientação e encaminhamento. Para quem precisa de saber para onde ir, mas ainda não sabe como perguntar. A marcação é feita no local, no próprio dia. E há sempre fila de espera.

Além dos atendimentos individuais, o espaço também recebe quem queira apenas saber mais sobre os serviços disponíveis. Estas pessoas não são contabilizadas para o número final.

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