ma visita ao Montepio Museu permite descobrir quase dois séculos de história mutualista através de fotografias e objetos. Com a guia Inês Ribeiro, Associada desde que nasceu, percorremos um espaço que procura aproximar os associados das suas origens e do espírito de solidariedade que deu origem à Associação.
Na movimentada Rua do Carmo, no coração da Baixa lisboeta, o Montepio Museu guarda uma parte da história do Montepio Associação Mutualista. A exposição permanente percorre o período entre a fundação da instituição, em 1840, e a Segunda Guerra Mundial, revelando como nasceu e evoluiu um projeto criado para proteger trabalhadores e famílias numa época em que ainda não existia Segurança Social.
É Inês Ribeiro quem conduz a visita. Associada do Montepio Associação Mutualista desde o nascimento e atualmente envolvida na mediação cultural deste espaço, conhece bem a importância das histórias que ali se cruzam. Mas nem sempre foi assim. “Eu própria, como Associada, não conhecia o museu”, admite. A afirmação pode surpreender, mas ajuda a explicar uma das missões deste espaço: aproximar os associados de uma história que muitos desconhecem.
A visita começa junto da cronologia que acompanha os primeiros cem anos da Associação. É aí que surgem alguns dos momentos mais importantes da sua história: a aprovação dos estatutos por D. Maria II, a escolha do pelicano como símbolo do Montepio, a criação da Caixa Económica ou a aquisição da sede na Rua Áurea.
Entre os símbolos que atravessam toda a história da Associação está o pelicano. Presente desde os primeiros tempos do Montepio, representa a ideia de entreajuda que está na origem do mutualismo. “Existe o mito de que o pelicano alimenta as crias com um pouco de si próprio”, explica Inês Ribeiro. “Por isso tornou-se uma imagem tão forte para uma associação assente na solidariedade entre os seus membros”, continua.
MONTEPIO MUSEU
Há quanto tempo não vai ao século XIX?
Quando o Montepio entrava em casa
Nas vitrinas encontram-se pequenos vestígios do quotidiano: fichas de atendimento, carimbos, máquinas de escrever, livros de registo, cofres, mealheiros utilizados pelos associados e até as balas de um revólver utilizado pela segurança. “São peças que nos permitem imaginar como era o dia a dia das pessoas, como a Associação funcionava e perceber a presença que tinha nas suas vidas”, observa Inês Ribeiro.
Alguns desses objetos guardam histórias curiosas. É o caso das antigas fichas metálicas utilizadas nos balcões de atendimento. Distribuídas aos associados para organizar a ordem de chegada, nem sempre regressavam ao seu lugar. “As pessoas levavam as senhas para casa”, conta Inês. “Não eram feitas de prata nem de ouro, mas havia quem achasse que tinham algum valor e acabasse por guardá-las.”
Mesmo ao lado, estão exemplares de um dos objetos mais icónicos da história do Montepio Associação Mutualista: os mealheiros. Distribuídos aos associados para incentivar a poupança, entravam nas casas e acabavam por se tornar presença habitual no quotidiano de várias gerações. Esta é também uma das primeiras ligações de Inês Ribeiro à Associação. “A minha tia ofereceu-me um destes mealheiros para juntar dinheiro. Era uma espécie de caixa-forte. Eu tentava, de inúmeras maneiras, abri-lo. Não dava, porque só abria nos balcões”, brinca.
Os cofres, representados através de fotografias da época, evocam outra faceta da relação dos associados com a instituição. Muitas famílias recorriam a este serviço para guardar documentos e outros bens importantes. “A minha tia tinha um cofre. Para pessoas daquela geração, era algo de extrema importância e até de algum estatuto”, recorda Inês.
Para a mediadora cultural, é precisamente aqui que o museu ganha vida. “É um espaço que nos desperta a imaginação”, acrescenta. “O que guardariam dentro dos seus cofres? O que era tão importante para estar ali protegido?”, continua.
Os rostos do mutualismo
As fotografias ocupam um lugar especial na exposição, revelando também, de caminho, a sociedade portuguesa entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Ao longo da exposição surgem professores, militares, médicos, funcionários públicos, empregadas domésticas, viúvas e famílias inteiras que encontraram no mutualismo uma forma de proteção numa época em que o Estado ainda não assegurava esse papel.
“Temos a representação de uma elite, que vai a eventos sociais e desportivos, de uma pequena burguesia, que já tinha o seu estatuto, mas também daqueles que trabalhavam para se sustentar no dia a dia”, observa Inês Ribeiro, apontando para algumas das fotografias expostas.
Essa diversidade ajuda a perceber como a própria Associação foi evoluindo ao longo do tempo. Se nos primeiros anos predominavam funcionários públicos e profissionais liberais, com o passar das décadas o Montepio foi chegando a grupos cada vez mais diversos da sociedade portuguesa, incluindo muitas mulheres trabalhadoras.
“Muitas vezes eram mulheres já viúvas, ou com filhos, que se tornavam associadas para terem essa noção de proteção”, explica Inês. Aliás, a documentação da época mostra que, em 1926, as empregadas domésticas e serviçais já constituíam um dos maiores grupos de associadas. Para muitas, o mutualismo representava uma das poucas formas de acesso a proteção financeira. “Muitas não sabiam ler nem escrever, mas reconheciam a importância desta proteção”, sublinha.
A preocupação com os mais vulneráveis atravessa toda a história da instituição. Um dos exemplos surge na área dedicada à Primeira Guerra Mundial. As fotografias dos soldados portugueses recordam um conflito para o qual muitos partiram mal preparados e do qual muitos não regressaram.
“Mais uma vez, quando os homens partiam para a guerra, as mulheres e crianças ficavam sem qualquer proteção. A Associação procurava dar essa segurança através das suas pensões.” Para muitas famílias, estes apoios representavam a diferença entre enfrentar sozinhas uma situação de enorme fragilidade ou poder contar com uma rede de entreajuda. O subsídio de funeral é um dos exemplos mais reveladores desta realidade. “Hoje pode parecer um benefício simples, mas numa época em que as despesas funerárias eram suportadas integralmente pelas famílias podia fazer uma diferença decisiva”, prossegue.
“[O museu tem] peças que nos permitem imaginar como era o dia a dia das pessoas, como a Associação funcionava e perceber a presença que tinha nas suas vidas”
Guardar quase dois séculos de memória
Os objetos expostos representam apenas uma pequena parte do património histórico preservado pelo Montepio ao longo de quase dois séculos. Antes de chegarem às vitrinas, foi necessário um longo trabalho de identificação, catalogação e estudo de milhares de documentos, fotografias, atas, fichas de associados e objetos do quotidiano.
A historiadora Maria Fernanda Rollo, que coordenou o trabalho de investigação do espólio, descreveu este processo como uma tarefa técnica e invisível. O objetivo não era apenas preservar peças antigas, mas compreender o que podiam revelar sobre a evolução da Associação e da sociedade portuguesa.
O resultado é um arquivo que ultrapassa largamente a história institucional do Montepio Associação Mutualista. Nas palavras da investigadora, trata-se de “um retrato efetivo da economia, da sociedade, das profissões, da vida e dos quotidianos da sociedade portuguesa”.
Do museu para a cidade: uma experiência imersiva
A exposição permanente do Montepio Museu termina na primeira metade do século XX, fim da 2ª Guerra Mundial, mas as histórias que ali se contam continuam a inspirar novas formas de aproximar os associados da sua Associação.
Enquanto mediadora cultural, Inês Ribeiro imagina formas que permitam prolongar a visita para lá das vitrinas. Uma das ideias passa por criar experiências que liguem o museu às ruas da Baixa lisboeta, ajudando os participantes a compreenderem melhor o contexto social, económico e cultural em que nasceu o movimento mutualista.
As crianças também fazem parte desta visão. Através de oficinas e atividades práticas, o objetivo é dar a conhecer conceitos como a poupança, a solidariedade e a entreajuda de uma forma participativa e adequada aos mais novos.
Para Inês, estas experiências podem ajudar a revelar uma dimensão menos conhecida do Montepio Associação Mutualista. “Muitas pessoas conhecem o Montepio pelos seus serviços ou benefícios, mas não conhecem a história que está na origem da instituição.”
Talvez seja esse o maior convite que o Montepio Museu deixa aos seus visitantes: descobrir que por detrás de cada objeto, fotografia ou documento existem pessoas reais, cujas histórias continuam a ecoar muito para além das vitrinas.
Dar voz às histórias
Inês Ribeiro é Associada Montepio desde que nasceu. Foi a tia quem a inscreveu na Associação, a mesma que tinha um cofre no Montepio e que lhe ofereceu um dos mealheiros que hoje recorda com um sorriso. Mantém uma ligação próxima à instituição e continua a fazer as suas poupanças através do Montepio Associação Mutualista. “O objetivo é ir, um dia, para uma residência para séniores Montepio”, brinca.
Hoje, trabalha como mediadora cultural, incluindo em experiências promovidas pela Associação Mutualista. É uma das pessoas responsáveis por aproximar associados e visitantes do património da Associação e confessa que, até há poucos anos, desconhecia grande parte dessa história.
“Gostava que mais associados conhecessem por dentro a história riquíssima da Associação. Quando começamos a perceber quem foram estas pessoas, como viviam e porque procuravam o Montepio, olhamos para a instituição de outra forma”, diz.
O que a move, agora, é o que ainda está por contar. “A história das elites está bem documentada. Mas esta dimensão das pessoas comuns, das classes mais baixas, ainda tem muito para ser descoberta.” Em particular, o papel das mulheres na Associação. “É a parte que me desperta mais curiosidade e que tenho mais vontade de explorar”, conclui a mediadora cultural.
Um museu, dois caminhos
A exposição física do Montepio Museu é apenas uma das portas de entrada para um projeto mais vasto de preservação e divulgação da história da Associação. Ao longo do percurso, algumas fotografias históricas ganham movimento através de recriações apoiadas por inteligência artificial. As projeções ajudam a aproximar o visitante dos ambientes, das pessoas e do quotidiano de outras épocas, acrescentando uma nova dimensão ao espólio exposto.
A viagem continua no museu virtual, onde é possível explorar cronologias, biografias, entrevistas, coleções e centenas de documentos e imagens que ajudam a compreender quase dois séculos de mutualismo e de história social portuguesa.