á episódios que passam sem deixar marca. Outros duram apenas alguns segundos e mudam uma vida inteira.
Oriana e Andreia Belchior tinham 9 anos quando terminaram o 4.º ano do ensino básico. Numa aldeia perdida de Baião, onde se chegava depois de uma viagem aos solavancos, aquele era o fim da escolaridade para as gémeas de Mafómedes. Os pais, que viviam de uma magra pensão de invalidez e dos curtos rendimentos feitos com a venda dos produtos hortícolas, não tinham possibilidades para pagarem a deslocação diária para outra localidade. Por isso, as meninas começaram a ajudar na lida da casa e no trabalho no campo. Repetiam os mesmos passos da irmã mais velha, que acabaria por emigrar para a Bélgica.
Só que um encontro inesperado, a 20 de janeiro de 1998, selou outro destino para as gémeas. Aquela pequena localidade com apenas 40 habitantes recebeu o então Presidente da República, que se comoveu com a história das irmãs e, graças à sua influência presidencial, conseguiu que regressassem à escola.
Logo no dia seguinte, a Câmara Municipal conseguiu assegurar o transporte para que, em Teixeira, a cinco quilómetros, as irmãs pudessem frequentar o ensino básico em modo telescola. Apesar do caminho mais tortuoso e de alguns altos e baixos, as irmãs gémeas concluíram os restantes ciclos. Quando terminou o mandato, em 2006, Jorge Sampaio foi encontrá-las já estudantes universitárias em Coimbra: Oriana em Radiologia e Andreia em Direito.
Muitas vezes são acontecimentos como este, que não planeamos, que acabam por definir o nosso trajeto e mudar a nossa vida. Decidir o próximo passo numa fração de segundo durante uma prova, um encontro fortuito com um músico famoso, uma experiência de quase-morte, podem ter um impacto profundamente transformador, mesmo que não o percebamos na altura.
Os 10 segundos na mente de um campeão
No total, a prova de Vasco Peso nos Europeus de Tumbling não chega aos 10 segundos. E o entusiasmo do público vai aumentando à medida que executa os saltos e piruetas que lhe valeram a medalha de ouro e o título de campeão da Europa, um feito inédito nesta categoria para um ginasta português.
Aquele não era o exercício que Vasco tinha planeado para a prova, que decorreu em Portimão, em abril de 2026. “Não me sinto confortável naquela pista e, desde que comecei a preparar-me, disse sempre que não ia fazer estes saltos porque com grande certeza podia cair”, descreve.
Contudo, à medida que a prova decorria e os adversários competiam, Vasco Peso percebeu que tinha de arriscar se queria ter hipótese de ganhar. “Fui para aquela série de mente aberta e a meio, enquanto estava a saltar, decido arriscar. Foi um grande risco, porque caio com o tronco muito perto do colchão, mas valeu a pena”, afirma.
Como é que, em menos de 10 segundos, se decide mudar uma série de saltos já planeada e treinada? “Pode parecer que é pouco tempo mas, à medida que evoluímos na carreira e a nossa mentalidade no desporto também evolui, temos tempo para tomar decisões. É inconsciente.”
Apesar dos 23 anos, são já 12 os anos de carreira e quase tantos outros aos pinos e cambalhotas num clube de Alhos Vedros, na Moita, onde vive. “A ginástica não foi uma escolha que fiz. Vim de uma família de ginastas (os meus pais, primos, tios) e aos dois anos já fazia pinos, cambalhotas e rodas.” Aos quatro anos, os pais inscreveram-no na ginástica e, aos seis, no tumbling, num clube muito perto de casa, a Sociedade Filarmónica Estrela Moitense. Em 2013, já representava Portugal em campeonatos do mundo.
A rotina implica quatro treinos por semana, a que se somam as aulas de Engenharia Biomédica no Instituto Politécnico de Setúbal e um estágio. “Estou há cinco anos para terminar um curso de três. São sacrifícios que tenho de fazer. Não é fácil, mas é possível”, afirma.
Os primeiros tempos de faculdade foram particularmente desafiantes, porque não estava a conseguir conciliar tudo e teve de lidar com um burnout. “Estava cheio de compromissos: ir às aulas, dar treinos aos mais pequeninos, estava a tirar a carta de condução. Comecei a falhar um bocadinho na faculdade porque tinha mais coisas acumuladas.” E essa pressão também se fez sentir na sua saúde mental. A psicóloga contribuiu para que voltasse a encontrar o equilíbrio.
E esta é uma lição que hoje também passa aos ginastas mais novos: “De cada vez que estão a passar por uma fase mais difícil, falem.” Também tem aprendido a trabalhar a resistência mental. “Ninguém é obrigado a saber lidar com a pressão da mesma forma. Eu tiro a pressão de cima de mim e todas as distrações são completamente anuladas na competição”, explica.
Naquele 12 de abril, em Portimão, ainda recordou a prova de 2024 em que também fora finalista individual nos europeus, igualmente realizados em Portugal, e falhou. “Tinha aquele playback na minha cabeça. E não era bom estar a lembrar-me disso naquela altura.” Focou-se no objetivo, foi pragmático e venceu. Nos dias seguintes, já planeava as próximas provas.
Encontros que constroem uma profissão
Que um dos melhores luthiers do mundo se tenha instalado numa aldeia no interior de Portugal, em Mortágua, é talvez mais fruto do acaso do que de um plano — como muitos feitos na sua vida, dirá o inglês Andy Manson.
Em quase 60 anos de carreira, Andy construiu perto de 1400 guitarras. E qualquer biografia sua assinala sempre que as suas criações foram tocadas por Jimmy Page e John Paul Jones, dos Led Zeppelin, Matt Bellamy, dos Muse, Andy Summers, dos Police, ou Josh Homme, dos Queens of the Stone Age.
Tudo começou aos 18 anos, em 1967, com a construção artesanal de uma guitarra com uns restos de madeira e algumas ferramentas do pai. “Tinha começado a tocar guitarra e dei por mim sem uma para tocar. E então pensei: “Talvez eu possa construir uma”, conta à Revista Montepio. “Não tinha experiência suficiente para julgar a qualidade do som que ela produzia em relação às guitarras mainstream. Mas funcionava e toquei com ela em Londres e também em França.”
Um dos primeiros da extensa lista de famosos para quem fez uma guitarra foi John Paul Jones, numa daquelas partidas do destino que Andy, na verdade, fez por acontecer. O jovem luthier, que estudou esta arte em Londres, estava em casa dos pais, no sul de Inglaterra, quando uma vizinha lhe disse que, na grande casa ao fundo da colina, viviam “uns músicos” que talvez lhe quisessem comprar um instrumento. “Fui lá, bati à porta e foi a mulher dele que me atendeu. Expliquei-lhe quem era e que podia fazer umas reparações.” E ela disse-lhe para entrar. “Era uma casa linda, ele tinha um estúdio, mas eu nem sequer conhecia os Led Zeppelin. O meu mundo musical não os incluía”, confessa. John Paul Jones — “por bondade” — pediu-lhe para consertar uma guitarra. “E foi assim que comecei.” Atrás dele vieram muitos outros, numa época em que, em Inglaterra, não havia assim tantos luthiers. Ter aquela encomenda foi “publicidade que não se compra”, refere tantas décadas depois, recordando outro episódio: quando um instrumento seu fez a capa de uma importante revista na época com o cantor e compositor Michael Oldfield e a frase “A melhor guitarra que alguma vez toquei.” Relatando estas histórias, conclui: “As coisas mais seminais da minha vida aconteceram assim por acidente.”
Tal como escolher Portugal para viver com a mulher ceramista e montar a sua oficina. “Como adorava o sul de França e o Mediterrâneo, tinha mais ou menos o sonho de mudar-me para lá.” Mas era apenas um sonho até ao dia em que um conhecido se apaixonou pela sua casa britânica e a comprou num ápice. Manson e a mulher decidiram, então, cumprir esse desejo de viver no sul da Europa e, por mais uma série de acasos, acabaram, em 2011, a visitar uns amigos numa aldeia no interior de Portugal e fixaram-se.
Aventurou-se, entretanto, a construir guitarras portuguesas, tendo chegado a vender a um americano que tinha uma paixão pelo instrumento. “Mas não é a minha área de especialidade. Eu não sei tocar. Também cheguei a tentar fazer um violino e depois pensei: ‘Eu não sei tocar, é inútil tentar construir um.” Um outro projeto de que se orgulha foi o livro Talking Wood, um diário do seu trabalho com mais de 600 fotografias e a descrição detalhada do seu processo durante muitos meses. Fez uma publicação com cerca de mil cópias que esgotaram e está a trabalhar numa nova edição. Com tempo.
“Quando vivia em Inglaterra, estava sempre sob pressão financeira. Era mais jovem, conseguia fazer uma guitarra muito rápido. Agora, estou a fazer apenas por gosto e para as pessoas de quem gosto. Isto é um privilégio.”
Vamos ter os nossos filhos e cuidar da tua irmã
Ao soprar as velas em todos os seus aniversários, Marta Rodrigues desejava que a irmã, dois anos mais nova, ficasse boa. Há muito que, replicando as ações dos adultos da família, também ela tinha assumido o papel de cuidadora e protetora. Suspeitava-se que, à nascença, Bruna tinha tido um ataque epilético que lhe condicionaria a vida para sempre. Os médicos chegaram a antecipar que Bruna nunca andaria ou falaria, mas nos primeiros anos tinha conseguido contrariar esses prognósticos. “Ela desenvolveu-se. Não com o mesmo desenvolvimento natural de uma criança, mas de forma mais lenta. Chegou a comer, a andar normalmente, a fazer equitação, de que gostava imenso!”, conta Marta, hoje com 39 anos.
Até àquele dia de praia, aparentemente rotineiro, em meados da década de 1990. Pela primeira vez, Marta apercebeu-se de que Bruna estava a ter um ataque epilético. Foi necessário chamar uma ambulância, com todos os veraneantes a juntarem-se à família para verem o que se passava — e, no meio da confusão, alguém lhes roubou tudo o que tinham levado para a praia.
Mas o mais difícil desse dia, diz Marta, foi o “ponto de viragem” para Bruna, que começou a ter ataques epiléticos diariamente. A partir daí começou a haver um retrocesso, com atrofia muscular e perda de vocabulário. A irmã começou a não conseguir comer sozinha ou a fazer outras atividades do dia a dia. Hoje, está dependente de um adulto para a ajudar em tudo. A mãe assumiu esse papel, tendo deixado de trabalhar e isolando-se do mundo.
“Sempre fui muito próxima do meu pai, que ia às festas na escola e às reuniões com os professores, e tive muita dificuldade em compreender a minha mãe.” A distância só se dissolveu quando Marta se tornou mãe. “Só a partir desse momento é que compreendi e perdoei. Não é que ela tenha feito mal, mas isolou-se bastante, desenvolveu uma depressão. Sentia-se derrotada. E eu não conseguia compreender a maneira tão pessimista de ver a vida. O que a agarra aqui são os netos.”
Marta Rodrigues, que hoje tem quatro filhos e é especialista em parentalidade, diz que a sua empatia se desenvolveu com a irmã. “Aprendi a lidar com uma pessoa que não sabia exteriorizar os sentimentos. Aprendi a ler aquela pessoa.”
Uma certeza que desenvolveu desde sempre é que também ela é, e será, cuidadora da irmã. “Sempre foi um dos meus maiores receios quando era miúda: se a pessoa que estivesse comigo ia aceitá-la.” Um dia, sem que ela perguntasse, o namorado (hoje seu marido) disse-lhe: “Um dia vamos ser nós, os nossos filhos e a tua irmã.” Marta costuma dizer que foi aí que ele a conquistou.
A vida como bónus após um pelotão de fuzilamento
António Costa e Silva jurou “amar profundamente a vida e fruir cada dia como se fosse um bónus” depois de ser colocado perante um pelotão de fuzilamento. A frase, que podia ter sido retirada de um romance de Gabriel García Márquez, traduz na íntegra a realidade vivida pelo ex-ministro da Economia quando ainda era estudante universitário na sua Angola natal, na década de 1970. “Fui preso com 25, saí com 28”, explica, recordando que um dos seus captores era um colega da universidade “que se transformou num ser absolutamente feroz” e capaz de uma grande violência física e mental. “Os regimes totalitários têm estas características: descarregam toda a raiva no corpo dos presos políticos e tentam levar as pessoas a humilharem-se a si próprias e a perderem a sua dignidade.”
Passaram meses a torturar este jovem crítico do governo daquele recente país. Até um dia em que o amarraram, lhe taparam os olhos e o transportaram para a ambulância branca. Os presos sabiam que quem entrava naquele veículo não regressava. E isso significava que também ele se preparava para uma viagem sem regresso. “Eu estava calmo. Assumi que seria o meu último dia de vida.” Sem ver o que se passava, mas ouvindo algures o som do mar, foi colocado em posição, mas as armas não dispararam e voltaram a levá-lo para a prisão. “Foi tudo encenado, como mais uma ferramenta de tortura, para ver se eu à última hora fraquejava e assinava uma declaração. Mas eu pensei: ‘Se faço isso, a minha vida não vale absolutamente nada!’”
Hoje, António Costa e Silva garante que esta experiência-limite o mudou profundamente. “Aquelas memórias dolorosas são uma espécie de ferida de onde sai a luz”, descreve ao recordar os anos de prisão, de cujos horrores muitos outros companheiros seus não foram capazes de se libertar. Mesmo durante o tempo que passou em solitária, António Costa e Silva procurou na formulação mental de poesia a tal luz que o resgatava diariamente. E ainda guarda um caderninho onde mais tarde escreveu de cor a poesia daqueles três anos de cárcere. “Alguns camaradas e amigos não aguentaram. Quando foram libertados, suicidaram-se. Eu agarrei-me sempre ao cérebro humano, que é uma máquina extraordinária que temos. Quando estamos sozinhos, no escuro, podemos sempre revisitar o que lemos e vimos; podemos reescrever as coisas na nossa cabeça.”
Mesmo ao ser libertado, ouviu novas ameaças “com grande ódio”: “Não te esqueças que vais sair, mas podes cair num elevador, ser abatido na rua.” Decidiu nunca ceder ao medo. “Se nos deixarmos armadilhar por essas intimidações, somos seres muito reduzidos. A vida é demasiado preciosa para ser esbanjada num mundo desencantado”, diz, citando o escritor Mia Couto. “Compete-nos construir o encanto, tentarmos ser úteis nas várias dimensões em que podemos e fruir a vida ao máximo. O segredo não é existir por existir, é ter um objetivo para a vida. Ter algo em que acreditar e transformar.”
Em setembro de 2025, António Costa e Silva regressou a Angola para uma viagem com os seus colegas do curso de Engenharia de Minas. Durante três semanas, percorreram 4 500 quilómetros, visitando a terra de cada um. “Fui à minha escola primária, que ainda lá estava. Levei muitos livros, esferográficas. Foi um dia extraordinário”, relata António Costa e Silva, de 73 anos. Depois daqueles anos de violência contra ele, podia ter recusado voltar. “Há muita gente que se desligou completamente. Mas eu não consigo desligar, foi a terra onde nasci.”