urante décadas, fomos ensinados que poupar é uma responsabilidade individual. Uma questão de carácter, de escolhas, de força de vontade. Mas e se essa ideia estiver errada ou, pelo menos, incompleta?
Renata Martins (pseudónimo, a seu pedido) passa os dias a escrever sobre dinheiro. Conhece os princípios, os métodos, os erros mais comuns. Sabe que se deve poupar no início do mês e não no fim, que os fundos de emergência são indispensáveis, que a reforma chega mais depressa do que parece. É, por profissão, alguém que pensa sobre poupança melhor do que a maioria das pessoas.
E ainda assim admite, sem hesitar, que há meses em que não consegue poupar. “Saber o que devemos fazer financeiramente não significa que seja simples fazê-lo de um modo consistente. A inércia pesa muito, mas também pesa o dia a dia, as despesas inesperadas e até o cansaço mental”, diz.
Há meses em que os objetivos avançam. Há outros em que um imprevisto, seja uma ida ao médico, o carro ou um eletrodoméstico avariado, desfaz em dias o que levou semanas a construir. “Às vezes, a margem financeira das famílias é tão curta que basta um imprevisto para comprometer qualquer tentativa de poupar.”
Vinda de quem vem, esta confissão é valiosa. Se alguém que passa a vida a pensar sobre poupança sente esta dificuldade, o problema talvez não seja a falta de conhecimento. Talvez seja outra coisa.
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Como é que rentabilizo as minhas poupanças?
O mito da força de vontade
Há uma história que nos contam desde cedo. Diz assim: se não tens dinheiro poupado, é porque não quiseste. Se não preparaste o futuro, é porque gastaste o presente. Se um dia ficares desempregado, doente ou surpreendido pela vida, a culpa é tua.
Todos os dias, essa história entra-nos pela televisão, pelos jornais e pelos telemóveis. Há livros, podcasts, cursos e influenciadores a repeti-la todos os dias. A estes conteúdos chamamos “finanças pessoais”, mas poderíamos chamar outra coisa: a individualização do risco.
“Há uma indústria enorme à volta das finanças pessoais que, basicamente, nos diz que o problema somos nós”, diz Renata. “Isso pode gerar frustração. É preciso ter atenção redobrada aos influenciadores que decidimos seguir. Alguém que promete estratégias com rentabilidades exageradas será, em grande parte dos casos, um engodo.”
Sílvia Ferreira, professora associada em Sociologia, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, e investigadora do Centro de Estudos Sociais, vai mais longe na análise. “Este discurso individualizador — da poupança ou do empreendedorismo — é absolutamente corrosivo da solidariedade coletiva que está na base dos sistemas de proteção social”, afirma. “A pessoa fica desempregada e ela é quem tem de resolver o seu próprio problema? O desemprego é a culpa dela, do fracasso dela, e não do fracasso da sociedade?”, questiona.
É um diagnóstico duro, mas podemos situá-lo historicamente. A ideia do Estado Social nasceu precisamente do reconhecimento oposto: de que às vezes acontecem azares às pessoas e a culpa não é delas. De que a responsabilidade por resolver esses problemas não é individual, mas coletiva. A narrativa das finanças pessoais, nesse sentido, não é neutra. É uma inversão filosófica com consequências muito concretas.
Renata Martins reconhece isso no seu próprio trabalho. “Os bons hábitos contam, mas o contexto económico pesa imenso. A inflação, o custo da habitação, a energia, os salários estagnados… tudo isso influencia a capacidade de uma pessoa poupar. Há pessoas extremamente organizadas que simplesmente não têm margem financeira suficiente.”
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O que estão os jovens a fazer ao dinheiro?
A ciência descobriu… o que já sabíamos
Em 2017, Richard Thaler foi distinguido com o Prémio Nobel da Economia. A razão foi simples, mas revolucionária: demonstrou cientificamente que os seres humanos não são os agentes racionais que a economia clássica sempre assumiu. Não poupamos porque calculamos o futuro com frieza, mas quando o contexto nos ajuda a fazê-lo. Quando a decisão está tomada de antemão. Quando não temos de lutar contra a inércia todos os meses.
Thaler identificou três mecanismos centrais. O primeiro é a poupança automática: se o dinheiro sair no início do mês, sem que seja necessário decidir, as taxas de poupança aumentam de forma consistente. O que não está disponível, não se gasta.
O segundo é a contabilidade mental: as pessoas tratam o dinheiro de forma diferente consoante o “cesto” em que ele está. Um fundo com um destino claro — a reforma, a saúde, os filhos — é psicologicamente mais protegido do que um saldo genérico numa conta bancária.
O terceiro é aquilo a que chamou nudges, que consiste em alterar o ambiente de escolha para influenciar decisões e comportamentos de forma subtil, sem proibir nem impor nada. Um exemplo simples: quando uma empresa inscreve automaticamente os trabalhadores num plano de poupança, em vez de lhes pedir que adiram, ninguém é obrigado a ficar. Mas como sair exige esforço, a maioria fica. O resultado é uma taxa de poupança muito mais elevada, sem qualquer imposição.
O que Thaler formalizou em laboratório, já as associações mutualistas praticavam há gerações. A quotização regular e automática remove a decisão mensal. A pertença a uma comunidade cria uma pressão social suave que reforça o compromisso. A ligação a propósitos concretos — como saúde, reforma, família — protege o dinheiro de outras solicitações. E as melhorias, os excedentes que podem ser distribuídos no final de cada exercício, funcionam como uma recompensa que reforça o comportamento de permanecer e de continuar a poupar.
Renata Martins reconhece isto na sua vida. “Para mim, o método que funciona melhor é a poupança automática. No início do mês, uma parte do rendimento sai logo para a poupança, sem pensar muito nisso. O que já percebi que não resulta comigo é esperar pelo fim do mês para poupar ‘o que sobra’, porque muitas vezes não sobra nada.”
E acrescenta algo que sintetiza bem o argumento: “Confiamos demasiado na ideia de força de vontade, quando os comportamentos financeiros funcionam melhor com sistemas e estruturas. Automatizar decisões, criar regras simples ou ter objetivos partilhados ajuda mais do que depender apenas da motivação.”
Organizações de pessoas, não de capital
Mas o que significa isto na prática, quando uma pessoa vai efetivamente colocar o seu dinheiro algures? A resposta mais óbvia é o banco. Mas há uma alternativa com séculos de história que funciona segundo uma lógica completamente diferente, e essa diferença começa logo no primeiro princípio: numa associação mutualista, o dinheiro serve para satisfazer as necessidades dos membros, não as necessidades do capital.
Para perceber o que distingue uma associação mutualista de um banco é preciso ir além da estrutura jurídica. A diferença mais profunda está na lógica. “Estamos a comparar lógicas coletivas e lógicas individuais”, explica a professora Sílvia Ferreira. “Numa associação mutualista, o excedente da poupança é redistribuído pelos próprios membros. Há um retorno para as pessoas que estão a poupar. A primeira diferença é esta: são organizações de pessoas e não organizações de capital. O dinheiro serve para satisfazer as necessidades dos membros, não as necessidades do capital.”
Esta distinção, aparentemente simples, tem implicações enormes. Num banco tradicional, quando existe um excedente, ele vai para os acionistas. Numa associação mutualista, esse mesmo excedente regressa aos associados sob a forma de melhorias, uma remuneração extra que não existe em nenhum produto bancário convencional.
Paula Laranjo é Associada do Montepio Associação Mutualista. A decisão foi tomada em conjunto com o marido, uma escolha de casal, pensada como forma de poupar e aceder a outros benefícios, sobretudo na área da saúde. Quando lhe perguntamos se as melhorias fazem alguma diferença na prática, a resposta é direta: “Claro que sim. Mostra que há consideração para com os associados.”
E o facto de existir uma estrutura de poupança já definida dá-lhe mais tranquilidade? “Claro que sim. Estruturar o presente tendo em vista um futuro mais tranquilo e seguro.”
Para perceber a profundidade desta distinção, a professora Sílvia Ferreira convoca Karl Polanyi, um autor que trabalhou na fronteira entre a sociologia e a economia. Polanyi identificou aquilo a que chamou “mercadorias fictícias”, coisas que o mercado transformou em objetos de compra e venda mas que não são verdadeiramente mercadorias: o trabalho, a terra e o dinheiro. “O dinheiro tem outros objetivos que têm a ver com a sobrevivência”, diz Sílvia Ferreira. “Através da mercadorização do dinheiro, ele passa a ser mais uma mercadoria sobre a qual se especula. O mutualismo está muito, de facto, na diferença entre uma lógica de gestão do dinheiro não como mercadoria, mas como uma necessidade de vida e de existência.”
REVISTA MONTEPIO
Porque o mutualismo floresce nos momentos de crise?
Uma história antiga com um nome novo
Informalmente, o movimento mutualista português tem mais de 850 anos. Mas basta-nos recuar apenas dois séculos para conhecermos as primeiras associações mutualistas em Portugal. Quando o Montepio Associação Mutualista foi fundado, em 1840, não existia segurança social, pensões públicas nem qualquer rede de proteção estatal. As pessoas organizavam-se porque não tinham alternativa, por um lado, e porque perceberam, empiricamente, que juntas estavam mais protegidas.
Mas esta intuição é ainda mais antiga. “Antes da Revolução Industrial existiam as mútuas de gado”, lembra a professora Sílvia Ferreira. “As pessoas juntavam-se para constituir um fundo caso acontecesse alguma coisa ao gado de que dependiam. As formas de poupança para a proteção coletiva são muitíssimo antigas.”
O microcrédito, criado por Muhammad Yunus no Bangladesh, na década de 1970, reinventou esta lógica para o século XX. Grupos de pessoas que se conheciam entre si pediam empréstimos coletivamente, sendo que o facto de se conhecerem pessoalmente criava uma responsabilidade mútua que tornava os reembolsos muito mais consistentes. Era a estrutura social a fazer o seu trabalho.
“Nasceu da perspetiva de que as pessoas, aforrando coletivamente e conhecendo-se umas às outras, tinham mais preocupação em pagar o empréstimo porque tinham estas formas de controlo social”, explica Sílvia Ferreira. A lógica é a mesma: o grupo faz o que o indivíduo sozinho não consegue sustentar.
Como se poupa em conjunto nos outros lugares do mundo?
Portugal não está sozinho nesta história. Mas está, em muitos aspetos, atrasado em relação a outros países europeus. Em França, as mutualidades desenvolveram-se fortemente antes da criação do Estado Social, e quando a segurança social se tornou nacional foram integradas no sistema, passando a ser um elemento constitutivo da proteção social pública, nomeadamente na área da saúde. Na Alemanha, as caixas de crédito cooperativo têm raízes no século XIX e continuam a ser uma alternativa robusta ao sistema bancário tradicional. Na Bélgica, as mutualidades de saúde são tão importantes que quase toda a população está inscrita numa delas.
Nos países nórdicos, os fundos de pensões coletivos, muitas vezes negociados entre sindicatos e empregadores, garantem níveis de poupança para a reforma que seriam impossíveis de atingir individualmente. E mesmo nos Estados Unidos, as credit unions, cooperativas de crédito sem fins lucrativos, têm mais de 130 milhões de membros e oferecem condições consistentemente melhores do que os bancos comerciais.
Em Portugal, o percurso foi diferente, o que se explica, em parte, pelo contexto histórico. “Como tivemos o período da ditadura, não foi possível fazer uma articulação entre as mutualidades e o sistema de segurança social”, explica a professora Sílvia Ferreira. “A segurança social foi desenhada durante a ditadura, top down, a partir de cima, num contexto de repressão das mutualidades.”
O Estado Novo, que via nas associações voluntárias de trabalhadores uma ameaça política, destruiu sistematicamente o tecido mutualista que existia. O Montepio, ainda assim, sobreviveu. “O que Salazar fez foi destruir tudo o que eram pequenas associações mutualistas”, recorda Sílvia Ferreira.
Essa herança ainda pesa. A integração das mutualidades no estatuto das IPSS teve vantagens fiscais e de reconhecimento, mas também obscureceu o significado específico do mutualismo. E há outro fator, mais difuso mas igualmente poderoso: o desconhecimento. “Tenho a perceção da incrível falta de conhecimento e de compreensão sobre o que é a economia social”, admite a investigadora. “Estive num debate com estudantes de Sociologia que se perguntavam o que era melhor, o sector privado ou o sector público. Tive que lhes explicar que no meio existe o terceiro sector.”
MONTEPIO POUPANÇA REFORMA
Preparar a reforma e ter benefício fiscal? É possível
A crise como espelho
Em 2008, o colapso do sistema financeiro global expôs com brutalidade os limites da poupança individual. Milhões de pessoas que tinham feito “tudo certo” — poupado, investido, planeado — viram as suas poupanças evaporar, os seus empregos desaparecer, as suas casas executadas.
E mais recentemente, em 2020, a pandemia voltou a mostrar que os imprevistos não são exceções, são a regra. E que, quando chegam, chegam a todos ao mesmo tempo.
“O grande impacto na maneira como vemos a proteção social foi [a pandemia] da Covid-19”, diz a professora Sílvia Ferreira. “A segurança social foi absolutamente fundamental para sustentar a economia e a vida das pessoas, através do lay-off. Isso levou a uma mudança de perspetiva: passou a perceber-se que os subsídios são, de facto, uma almofada de segurança quando acontecem crises.”
Renata Martins sente isso na sua vida. “Há uns anos que tenho a sensação de que, com o mesmo nível de organização, era mais fácil chegar ao final do mês com margem para reforçar a poupança. Essa margem é hoje muito mais curta. E acredito que muitas famílias sentem exatamente isso.” Para Sílvia Ferreira, estes momentos de crise podem ser, paradoxalmente, uma oportunidade para o mutualismo. “Quando as instituições que dão segurança às pessoas se tornam frágeis, pode ser uma boa oportunidade para o mutualismo crescer. Assim as pessoas o conheçam.”
O que muda quando se poupa em conjunto
Paula Laranjo diz que a poupança ainda é “do foro privado”, um tema que não se discute abertamente com amigos ou colegas. É uma observação que toca num ponto importante: em Portugal, falar de dinheiro continua a ser um tabu.
Mas há algo que muda quando a poupança deixa de ser uma decisão solitária. Renata Martins identifica isso com precisão: “Os modelos coletivos ou partilhados podem funcionar bem porque introduzem compromisso e consistência. Quando existe uma estrutura, a poupança deixa de depender apenas da motivação momentânea. Há também um lado emocional importante: sentimo-nos menos sozinhos no esforço.”
Menos sozinhos no esforço. É talvez a frase mais honesta sobre o que o mutualismo oferece e que nenhum produto financeiro individual consegue replicar.
A professora Sílvia Ferreira enquadra-o numa perspetiva mais ampla: “As mutualidades e a segurança social nasceram como uma forma de auto-organização da sociedade. A ideia de que somos interdependentes, de que o nosso bem-estar vai depender do bem-estar dos outros, está na base da invenção destes mecanismos. Foram feitos por alguma razão.”
Essa razão não desapareceu. Apenas ficou temporariamente obscurecida por uma narrativa que prefere ver indivíduos onde existem comunidades, e falhas pessoais onde existem riscos coletivos.
É que poupar, por si, já é difícil. Mas poupar contra a corrente, sem estrutura, sem comunidade, sem compromissos partilhados, é genuinamente difícil para quase toda a gente. A ciência confirmou-o. A história demonstrou-o. E as associações mutualistas souberam-no sempre.
Os portugueses e a poupança: o que revelam os números?
Portugal atingiu em 2024 uma taxa de poupança de 12,5% do rendimento disponível das famílias, o valor mais alto desde 2003. Uma boa notícia, mas com contexto: a média da Zona Euro no mesmo período situou-se nos 15,4%, o que coloca Portugal entre os países que menos poupam na Europa.
Os números escondem outra realidade ainda mais reveladora. Segundo o estudo “O Bem-Estar Financeiro em Portugal: Uma Perspetiva Comportamental” (2024), do Doutor Finanças, 22% dos portugueses não têm qualquer poupança. E 42% não tem um fundo de emergência capaz de cobrir três meses de despesas em caso de doença ou perda de emprego. Quando o imprevisto chega (e chega sempre), mais de um terço das famílias portuguesas não tem onde se apoiar.
Para quem consegue poupar, os montantes são modestos: a maioria dos portugueses coloca de lado entre 50 e 100 euros por mês. E o método mais comum continua a ser o mais frágil: guardar “o que sobra” no fim do mês. Que, como se sabe, muitas vezes não é nada.