Em 1977, num país que acabava de sair de uma guerra para entrar noutra, um jovem engenheiro de 27 anos foi colocado perante um pelotão de fuzilamento. Vendado e amarrado, ouvia o mar ao fundo, mas as armas não dispararam e voltaram a levá-lo para a prisão. António Costa e Silva decidiu, a partir daí, que cada dia seria um bónus: a vida já não lhe devia nada.
Quase cinquenta anos depois, quando lhe perguntam o que ficou daqueles três anos de cárcere, responde com uma frase que podia ter saído de um romance: “Aquelas memórias dolorosas são uma espécie de ferida de onde sai a luz.“ É uma recusa, deliberada e sustentada, de se deixar definir pelo pior que aconteceu.
É essa convicção que atravessa esta edição da Revista Montepio. “Ser possível”, que o Montepio Associação Mutualista escolheu como mote para a mais recente campanha de comunicação, é sobre o que se constrói quando nada parece apontar nessa direção. É decidir, a dez segundos da prova, mudar de estratégia para ganhar uma medalha de ouro, como fez o ginasta Vasco Peso; ou bater à porta de uma estrela rock para vender os serviços de luthier, como Andy Manson fez a John Paul Jones, dos Led Zeppelin; ou até simplesmente soprar as velas de mais um aniversário e pedir que a irmã ficasse bem, como Marta Rodrigues. É, sobretudo, não deixar que o que parece impossível tenha a última palavra.