Há quem compre casa, outros arrendam. Agora, há uma terceira opção

Há quem compre casa, outros arrendam. Agora, há uma terceira opção
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Fotografia de Rodrigo Cabrita
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urante décadas, a equação da habitação em Portugal teve apenas duas respostas: comprar ou arrendar. Mas existe uma terceira via, ainda pouco conhecida, que começa com uma renda e pode terminar com uma escritura. Uma reportagem sobre o modelo que está a mudar a forma como algumas pessoas acedem à casa própria.

O barulho que vinha das obras do prédio que começava a ser erguido mesmo à frente do apartamento onde viviam, em Coimbra, foi a gota de água para Sara e Pedro. Em teletrabalho desde a pandemia, agora era quase impossível concentrarem-se nas tarefas diárias. E se já procuravam casa há algum tempo, tornou-se urgente encontrar uma.

O problema é que Coimbra não tinha o que procuravam: uma moradia com algum espaço exterior. “Em Coimbra, isso era praticamente impossível”, diz Sara Garcia. E o que existia nos arredores não cabia no orçamento que tinham definido como limite. Nos sites de pesquisa de casa, aumentaram o raio de quilómetros e chegaram ao Entroncamento, cidade com construção nova e bons acessos devido à linha de comboio. Viram algumas casas, mas nenhuma os entusiasmou e o cansaço começava a instalar-se.

Um dia, já desanimada, Sara fez uma pesquisa diferente: sem filtro de distrito. E apareceu-lhe a fotografia de uma cozinha. “Gostei muito, muito daquela cozinha”, recorda. “Depois, fomos ver o resto das fotos e achávamos que era realmente uma boa casa.” A casa ficava em Cuba, no Alentejo, a 350 quilómetros de Coimbra. Não conheciam Cuba nem tão-pouco tinham lá alguém. “Foi como abrir os olhos no escuro.” Mas o preço cabia no orçamento. Havia comboio (aliás, a estação fica a menos de 800 metros da casa) e como ambos trabalham, maioritariamente, à distância, foram ver.

“Saímos de Cuba, olhámos um para o outro e dissemos: é esta a casa.” Mudaram-se no final de janeiro de 2025 e, mais de um ano depois, estão em paz com a decisão.

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O mercado que não para de subir

A história de Sara e Pedro é, ao mesmo tempo, completamente singular e perfeitamente representativa. Em Portugal, encontrar casa — seja para comprar, seja para arrendar — tornou-se uma das tarefas mais difíceis da vida adulta. E os números explicam porquê.

Em 2025, os preços da habitação em Portugal subiram 16,8%, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), atingindo um preço mediano de 2 076 euros por metro quadrado, o valor mais alto alguma vez registado. Nas regiões de maior pressão, os valores disparam muito acima da média nacional: a Grande Lisboa ficou nos 3 439 euros por metro quadrado, o Algarve nos 3 139 euros e a Área Metropolitana do Porto nos 2 305 euros.

Quem compra gasta, em média, 240 518 euros por habitação. E quem quer comprar com crédito, a larga maioria, enfrenta uma taxa de esforço nacional de 70% do rendimento familiar. E até há um dado caricato: em Lisboa, essa taxa ultrapassa os 110%, o que significa que o salário líquido de muitas famílias não chega para pagar a prestação.

Do lado do arrendamento, a situação não é mais folgada. A taxa de esforço para arrendar situou-se em 80% no final de 2025, segundo o portal imobiliário Idealista. Em Lisboa, a renda consome 84% do rendimento familiar médio. Em Faro, 90%. No Funchal, 93%. Arrendar casa num dos grandes centros urbanos portugueses deixou de ser uma solução acessível para uma parte crescente da população.

Para quem não tem capital para a entrada de um crédito, as opções estreitam-se rapidamente. Acumular os 10% de entrada mais os impostos associados à compra pode significar ter de juntar até 50 mil euros, num mercado em que os preços continuam a subir mais depressa do que a poupança consegue acompanhar.

“Com o tempo, fui ganhando perceção do que é importante [na compra de casa]. Já ia ver as casas com a ideia de para onde tenho que olhar, onde tenho que ter atenção”

Sara Garcia, jurista, que se mudou de Coimbra para Cuba em 2025

Uma ferida geracional

A crise da habitação não afeta todos os portugueses da mesma forma. Quem mais sofre são as gerações que chegaram ao mercado de trabalho depois de 2010, quando os preços já tinham começado a subir e os salários não acompanharam.

Os números do Banco de Portugal contam essa história com precisão. No início dos anos 2000, 70% dos jovens entre os 25 e os 34 anos eram proprietários de habitação própria. Em 2021, essa percentagem tinha caído para 42%, segundo um estudo publicado no Boletim Económico do Banco de Portugal. Nas gerações nascidas após 1986, a percentagem de proprietários com menos de 25 anos desceu para menos de 35%, quando nas três décadas anteriores se situava entre 45% e 55%. A tendência é clara: cada geração tem menos acesso à casa própria do que a que veio antes.

O inquérito anual da consultora Deloitte às gerações mais jovens documenta a dimensão da pressão financeira acumulada: 41% dos millennials e 38% da Geração Z em Portugal dizem ter dificuldade em fazer face a todas as despesas básicas a cada mês. E mais de 60% dos millennials receiam não conseguir poupar o suficiente para a reforma, numa geração que ainda está longe dela.

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A vida num limbo

“A ideia de comprar casa foi-se desvanecendo”, explica André Farinha, de 43 anos e que trabalha em gestão de propriedades. Natural de uma aldeia do distrito de Coimbra, arrenda casa desde os 15, quando a família o enviou para a Figueira da Foz para estudar no 10.º ano, por ausência de transporte desde casa. E nunca mais parou de fazê-lo.

André e a companheira, Fátima, vivem desde 2016 no mesmo apartamento, na zona leste da cidade. Pagam 500 euros de renda, um valor que já não existe no mercado à sua volta. No mesmo bairro, há apartamentos com a mesma tipologia a serem negociados a 850 euros de renda por mês. “Basta ver essa diferença para perceber que era impossível ficarmos nesta localização se arrendássemos hoje. Poderíamos encontrar algo nas periferias a este valor, mas depois iríamos pagar o custo na deslocação.”

A casa tem 50 anos, janelas de madeira, problemas de isolamento e humidade. André chegou a propor à senhoria pagar uma parte das obras de melhoria em troca de um desconto na renda, mas a ideia não foi para a frente.

A ideia de comprar casa surgiu por volta de 2008, quando arranjou emprego estável, mas nunca chegou a concretizar-se. “Nenhum de nós tem pais ricos. O aumento exponencial do valor das casas foi devastador.” Com o tempo, a conta tornou-se impossível de fechar. “Não ganho 30 mil euros em dois anos, quanto mais juntá-los. E quando os juntar, já não vão ser 30 mil para a entrada, já vão ser 50 mil.”

Há outra sombra que paira sobre o dia a dia de André. O prédio onde vive, de três andares, já recebeu uma oferta de 600 mil euros de uma imobiliária. Por enquanto, a senhoria não vende. “Os filhos provavelmente precisarão de dinheiro para as suas próprias habitações”, diz André. A matemática é implacável. “A única coisa que me faz querer comprar uma casa própria é não ter a vida presa no limbo.” André já pensou em casas modulares, em contentores, em terrenos no interior. Mas reconhece que o mercado, esse vilão, não lhe dá margem.

“Não ganho 30 mil euros em dois anos, quanto mais juntá-los. E quando os juntar, já não vão ser 30 mil para a entrada, já vão ser 50 mil”

André Farinha, gestor de propriedades, que vive numa casa arrendada

A geografia do desespero

O que separa André (e Fátima) de Sara (e Pedro) é também uma equação de fortunas, de profissões, de capacidade de teletrabalho e de tolerância à mudança. Sara e Pedro puderam ir para Cuba porque ambos trabalham remotamente e não dependem de estar perto de um escritório. Essa liberdade transformou-se na única variável que tornava a equação solucionável.

O teletrabalho está a reescrever, silenciosamente, a geografia da habitação em Portugal. No comboio de Cuba para Lisboa, onde por vezes vai, Sara reconhece as mesmas caras semana após semana. Pessoas que foram da cidade para o interior e fazem o percurso regularmente. No bairro onde comprou casa, há outro casal em situação semelhante: vieram de fora, não conheciam ninguém, trabalham à distância. “Há mais pessoas como nós”, diz Sara.

É um movimento ainda difuso, mas percetível nos dados: em 2025, as regiões com crescimentos mais expressivos nas transações de habitação foram o Alentejo e o Oeste e Vale do Tejo, precisamente as zonas para onde as pessoas que saem dos grandes centros costumam ir quando o preço é o único critério que sobra.

Mas nem toda a gente pode ir para Cuba. Nem toda a gente tem a opção do teletrabalho. E nem toda a gente consegue acumular a entrada para o crédito. Para quem fica preso entre o arrendamento e a compra que não consegue financiar, o mercado não oferecia, até agora, uma terceira via. Até agora.

Uma resposta com 100 anos

O Montepio Associação Mutualista foi fundado em 1840 com um princípio simples: que as pessoas, juntas, podem proteger-se melhor do que cada uma sozinha. Ao longo de 185 anos, este princípio foi-se traduzindo em produtos e serviços que respondem às necessidades reais dos associados. E a habitação, uma das necessidades mais básicas e, em Portugal, uma das mais difíceis de satisfazer, é hoje uma das prioridades da instituição.

Não é a primeira vez que o Montepio assume este papel. Entre 1930 e 1960, a instituição destacou-se como uma das principais forças na construção de imóveis em Portugal, desenvolvendo, inclusive, programas de habitação a custos controlados e rendas acessíveis. Esse legado ainda é visível. Cerca de 75% dos apartamentos que o Montepio Associação Mutualista tem hoje no mercado de arrendamento foram construídos naquele período. São prédios com história e, em muitos casos, com inquilinos de longa data que encontraram neles uma estabilidade que o mercado atual já não garante.

É esse legado que a liderança da instituição decidiu recuperar e atualizar. Virgílio Boavista Lima, presidente do Montepio Associação Mutualista, explica a motivação: “Muitos dos nossos associados jovens têm dificuldade em dispor da entrada inicial para a aquisição de uma habitação e em obter um empréstimo bancário, dada a diferença, em regra, exigida entre o valor da habitação e o valor do financiamento.” A resposta estava a ser preparada. E chegou.

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“A Associação substitui-se ao Associado”

O modelo que o Montepio Associação Mutualista está a lançar tem uma lógica que não existe noutro lugar do mercado imobiliário português. Não é crédito à habitação. Não é arrendamento social. Não é uma cooperativa. É algo que Virgílio Boavista Lima descreve com clareza: “É uma solução pela qual a Associação se substitui ao Associado, comprando a habitação e arrendando-a depois. Mais tarde, o Associado pode adquiri-la, se o desejar.”

Esta substituição tem consequências práticas que valem a pena sublinhar. Quando uma pessoa precisa de crédito para comprar casa, o banco financia entre 80% e 90% do valor do imóvel. O comprador tem de ter os restantes 10% a 20% mais todos os custos associados à escritura — IMT (Imposto Municipal sobre as Transmissões Onerosas de Imóveis), imposto do selo, registo predial, honorários do notário. No total, a entrada pode facilmente representar 25% a 30% do preço do imóvel. Para uma casa de 200 mil euros em Lisboa, isso significa ter disponíveis entre 50 mil a 60 mil euros antes de começar a pagar a prestação.

É uma barreira que, para muitos, simplesmente não é possível de superar. E é exatamente essa barreira que o modelo mutualista elimina, pelo menos no momento inicial.

Mas o que distingue este modelo do arrendamento que o Montepio já praticava há décadas? “A generalidade destes arrendamentos eram aplicações de poupanças para obtenção de rendimentos que visavam remunerar as modalidades associativas. Os novos arrendamentos serão, eles próprios, a modalidade associativa que resolve os problemas habitacionais dos associados, não apresentam a mesma necessidade de retorno para a Associação”, elucida Virgílio Boavista Lima.

Em termos práticos, isto significa que a lógica que orienta a fixação da renda muda. Nos arrendamentos tradicionais do Montepio, o objetivo era gerar rendimento. Nos novos, o objetivo é resolver um problema. O Associado paga apenas os custos efetivos, que são inferiores aos do mercado. A diferença não é lucro para a instituição: é margem para que o Associado comece a poupar.

“Com esta diferença, face às rendas do mercado, admitimos que os associados possam ir constituindo uma poupança, ao longo da vida, para utilizar mais tarde em qualquer finalidade, incluindo a eventual compra da habitação”, explica o presidente do Montepio Associação Mutualista.

“Desejamos ajudar os associados no local em que estes sintam a necessidade de habitação e não apenas nos locais onde construímos ou adquirimos prédios inteiros. As habitações têm apenas que ter procura para novos arrendamentos”

Virgílio Boavista Lima, presidente do Montepio Associação Mutualista

O tempo como variável

Quando Sara e Pedro foram ver a casa em Cuba, já tinham percorrido dezenas de opções. Esse percurso, que poderia parecer tempo perdido, foi na realidade uma aprendizagem. “Fui ganhando perceção do que é importante. Já ia ver as casas com a ideia de para onde tenho que olhar, onde tenho que ter atenção.” Ao treinarem o olho para o detalhe, acabaram por definir o orçamento com maior clareza.

O modelo de arrendamento com opção de compra oferece algo semelhante: o tempo. O tempo de viver numa casa antes de se comprometer com ela definitivamente. O tempo de conhecer a zona, os vizinhos, o comboio, o centro de saúde. O tempo de perceber se aquele é, de facto, o sítio onde se quer ficar.

Esta dimensão — a do tempo como recurso e não como inimigo — é aquela em que o modelo mutualista mais difere do crédito à habitação convencional. No crédito, o compromisso é imediato e total: assina-se na escritura, começa a pagar-se no mês seguinte. No arrendamento com opção de compra, o compromisso vai sendo estabelecido gradualmente, ao mesmo ritmo que a capacidade financeira para o concretizar.

Para André, que ainda não larga o sonho da casa própria mas reconhece que o mercado não lhe deu margem até hoje, um modelo assim seria diferente. “Dependia muito do mercado nessa altura. Teria de definir um valor à partida e isso é algo que ninguém faz facilmente neste momento.” E mesmo que o valor da casa seja fixado apenas na hora da compra, e não na data do arrendamento, a poupança mensal acumulada ao longo do período de arrendamento, com rendimento garantido, seria a forma de ir juntando o capital que hoje não tem.

O investimento por detrás do modelo

Nesta altura, há uma pergunta que se coloca e que os associados do Montepio Associação Mutualista querem, naturalmente, ver respondida: que escala tem este programa? Virgílio Boavista Lima é claro sobre a ambição: “Poderemos, em cada ano, definir um montante que estimamos entre 25 e 100 milhões de euros, em função da evolução. Pode parecer um valor pouco relevante, mas ao fim de 5 ou 10 anos é um valor substancial.”

Com uma carteira já existente de cerca de 1 100 imóveis, dos quais aproximadamente 900 estão arrendados, o Montepio Associação Mutualista prepara-se para colocar no mercado cerca de 550 novos apartamentos nos próximos cinco anos. Destes, mais de 200 estarão disponíveis nos próximos dois anos, distribuídos por várias localizações em Portugal continental, de acordo com as necessidades dos associados.

Os projetos são geograficamente diversificados. Na cidade do Porto, destaca-se a Quinta do Pinheiro, na Baixa, onde foram construídos 117 apartamentos maioritariamente destinados ao arrendamento, e a requalificação de edifícios na Avenida dos Aliados. Em Coimbra, avança a reconversão da antiga fábrica Triunfo. Em Lisboa, há projetos para a Praça de Espanha. E, no Algarve, em Vila Real de Santo António, foi adquirido um edifício com 24 apartamentos.

A dimensão geográfica do programa é, em si mesma, uma novidade. Nos arrendamentos históricos do Montepio, a oferta estava concentrada nos prédios que a instituição construiu ou adquiriu. Agora, Virgílio Boavista Lima anunciou uma lógica diferente: “Desejamos ajudar os associados no local em que estes sintam a necessidade de habitação e não apenas nos locais onde construímos ou adquirimos prédios inteiros. As habitações têm apenas que ter procura para novos arrendamentos.”

O que isto significa, na prática, é que um Associado que proponha ao Montepio a aquisição de um imóvel numa localização específica pode ver essa proposta avaliada. Seja em Lisboa, em Bragança ou em Cuba, no Alentejo. A instituição analisa. Se houver procura potencial para futuras locações — ou seja, se o imóvel puder ser rearrendado caso o Associado inicial saia por motivos de mobilidade profissional ou crescimento familiar — a operação pode avançar.

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A terceira via

De comboio, Cuba fica a duas horas de Lisboa. As mesmas de Coimbra, que Sara viu ficar para trás por impossibilidade financeira. André continua no mesmo apartamento, na mesma rua, com a mesma sombra sobre a cabeça de que um dia a senhoria vai mudar de ideias.

O mercado imobiliário português não vai abrandar por decreto. Os preços não vão descer apenas porque as famílias não conseguem acompanhá-los. Mas há, finalmente, uma terceira resposta para quem ficou encurralado entre comprar o que não pode pagar e arrendar o que não lhe pertence.

Num mercado onde a pressão recai inteiramente no comprador — que tem de ter o capital, o crédito aprovado, a entrada reunida, os impostos pagos, tudo ao mesmo tempo e logo —, o modelo mutualista distribui essa pressão ao longo do tempo. Permite que a decisão de comprar amadureça à mesma velocidade que a capacidade financeira para a concretizar.

“Muitas vezes, os rendimentos do agregado familiar melhoram pela natural evolução nas carreiras profissionais. Caso não desejem comprar, manter-se-ão em arrendamento, situação que já hoje praticamos com milhares de inquilinos”, resume Virgílio Boavista Lima. O modelo não força ninguém a comprar. Garante, quando a compra fizer sentido, que existe uma porta aberta.

Habitação: um problema português, mas não só

Portugal não está sozinho na crise do imobiliário, mas encontra-se numa posição particularmente difícil dentro da Europa. Entre 2015 e 2025, os preços das casas quase triplicaram em Portugal, com uma valorização acumulada de 180%, segundo dados do Eurostat. Apenas a Hungria registou uma subida superior no mesmo período, sendo que a média europeia foi de 53%.

Ao contrário da maioria dos países europeus, onde os sinais de sobrevalorização têm vindo a aliviar, em Portugal a situação piorou. Num relatório publicado em 2025, a Comissão Europeia estimou que os preços das habitações portuguesas estão sobrevalorizados em cerca de 35%. E acrescentou que Portugal é o único país da União Europeia onde se estima que essa sobrevalorização tenha aumentado significativamente em 2024.

Há uma assimetria que os números tornam brutal: entre 2019 e 2025, os preços das casas em Portugal subiram quase 92%, segundo dados do INE. No mesmo período, o rendimento médio líquido das famílias cresceu 43%.

Para quem tenta poupar para uma entrada, é uma corrida em que a linha de chegada se afasta sempre mais depressa do que os pés conseguem avançar.

A escassez de oferta é uma das causas estruturais mais citadas. Durante mais de uma década, Portugal construiu uma fração do que a média europeia e o défice acumulou-se. Ao mesmo tempo, uma em cada dez casas nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto encontra-se vazia. O mercado tem vazios onde devia ter casas, e casas onde devia ter moradores. Enquanto as respostas estruturais demoram a chegar, as famílias continuam a fazer as contas que não fecham.

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