enhum talento deve perder-se por falta de dinheiro. Foi a promessa feita por Adriana de Vecchi há mais de 70 anos e é ainda hoje a missão da AMAC, a academia de música que fundou. Conheça melhor este projeto de democratização do ensino da música em Portugal e como os associados Montepio podem ganhar duplamente por fazerem parte dele.
“Num inverno, fui uma vez por semana à Covilhã dar aulas e conheci um rapazinho com tendências extraordinárias para a música. Era filho do senhor da bomba de gasolina. Quando deixei de ir, por razões da minha vida e porque era cansativo, fiz todos os possíveis para conseguir que uma entidade subsidiasse a vinda do rapaz para Lisboa para poder continuar a estudar. Não havia e perdeu-se um valor.”
A história, contada pela pedagoga e violoncelista Adriana de Vecchi à RTP em julho de 1989, quando já tinha 92 anos, resume uma vida inteira a tentar aproximar as pessoas, com ênfase para os jovens, da música. Foi essa mentalidade que a levou a fundar, com o seu futuro marido, o também violoncelista Fernando Costa, a Fundação Musical dos Amigos das Crianças (FMAC), em 1953. E foi também com essa motivação que passou os 40 anos seguintes a trabalhar para dar melhores condições de aprendizagem a todos os que quisessem aprender um instrumento, tivessem ou não condições financeiras.
Hoje designada Academia Musical dos Amigos das Crianças (AMAC), a instituição tem duas escolas — a Vecchi-Costa, em Lisboa, e a Guilhermina Suggia, no Porto — e é dirigida pelo maestro Rui Pinheiro. É ele quem, mais de três décadas depois de Adriana de Vecchi ter contado esta história à RTP, continua a lidar com a mesma pergunta de fundo: como garantir que o talento não se perde por falta de condições?
ACADEMIA MUSICAL DOS AMIGOS DAS CRIANÇAS
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Duas escolas, a mesma ideia
“As duas escolas são bastante diferentes, nomeadamente nos corpos pedagógicos”, conta-nos, ao telemóvel, depois de mais um ensaio. A Vecchi-Costa é a escola-mãe, fundada em 1953, e nasceu sobretudo virada para os instrumentos de corda. Daí a força histórica das suas orquestras, das quais, ao longo dos anos, saíram nomes como Ana Bela Chaves (viola de arco), Aníbal Lima (violino), Irene Lima (violoncelo), Jorge Moyano (piano) ou Leonardo de Barros (maestro).
A escola Guilhermina Suggia, no Porto, é bem mais recente. Abriu portas em 2002 [ver caixa], de acordo com as necessidades e os alunos que foi possível captar na altura, e tem hoje uma oferta diferente, como as aulas de guitarra e bateria, que não existem em Lisboa, mas ainda com algumas lacunas ao nível das cordas. “A escola do Porto é naturalmente mais pequena, e o nível de projetos pode estar um pouco mais limitado por isso”, reconhece o maestro, que aponta um novo projeto de violoncelos a arrancar este ano na cidade como parte de um plano para, a médio prazo, dar à escola do Porto uma orquestra e coros com mais dimensão.
Estas diferenças são também um reflexo de 70 anos de percurso que já produziu gerações de músicos hoje sentados nas principais orquestras portuguesas — da Gulbenkian à Orquestra Sinfónica Portuguesa — mas também engenheiros, psicólogos e gestores que nunca fizeram da música profissão e nem por isso deixaram de a levar consigo. Rui Pinheiro lembra dois alunos que terminaram o oitavo grau com 20 valores, ambos ao violoncelo: um seguiu Psicologia, o outro Engenharia. Alunos de excelência, sublinha, sem esconder o orgulho de uma escola que não mede o sucesso apenas pelo número de profissionais que forma.
É esse, aliás, o argumento central do maestro para explicar por que razão a música importa, mesmo a quem nunca vai viver dela. Fala-nos, por exemplo, de sinapses e de coordenação. “Há uma coordenação entre a mão direita e a esquerda, e por vezes também os pés, no caso dos organistas. Mas também uma coordenação absolutamente espantosa entre o olho, que tem de olhar para a partitura, e o gesto.”
Este lado “social” da música “não é muito falado”, mas é “fundamental” para formar pessoas. Veja-se a disciplina de uma orquestra. Cada um dos elementos tem de saber a sua parte, mas também chegar a horas ao ensaio, porque um atraso prejudica 30 ou 40 pessoas, e perceber que se é responsável por si mas também pelos outros. “[É algo transposto] para a vida fora deste meio”, explica. Assim, tocar com outros também ajuda a formar pessoas “com mais facilidade de socializar, de compreender, de ouvir, de escutar, de respeitar”.
“Formamos músicos. Mas interessa-nos também formar públicos, pessoas que no dia a dia estejam disponíveis para ouvir concertos, para aprender música de forma amadora ao longo da vida”
O custo do ensino da música
Mas a missão da AMAC tem também um custo, e é aqui que o argumento volta a cruzar-se com a história de Adriana de Vecchi e o rapaz da Covilhã. “O ensino da música não é, nem pode ser, um ensino barato”, diz Rui Pinheiro. “É das poucas áreas em que não há turmas: uma aula de violino é uma turma de um aluno, um professor tem um aluno durante uma hora.”
Esta dedicação torna o ensino especializado de música estruturalmente mais caro do que qualquer outra disciplina escolar. Uma parte significativa do financiamento das duas escolas vem de contratos de patrocínio com o Estado, que delega nestas instituições, através de regimes supletivo e articulado, uma responsabilidade que os conservatórios nacionais não conseguem cobrir sozinhos. “É sempre uma situação muito instável”, admite Rui Pinheiro.
É por isso que a direção está a desenhar um programa de bolsas de mérito para alunos com capacidades excecionais, mas que não conseguem pagar. O objetivo é fugir ao modelo de apoio genérico e distante, mantendo o foco numa lógica mais próxima da que o próprio maestro Rui Pinheiro viveu como bolseiro em Inglaterra: cada aluno tem um percurso definido, um valor calculado e, em troca, um compromisso com quem o apoiou, seja um concerto, seja uma atuação pública. “Acho que este lado, sendo um bocadinho mais pessoal, também é mais interessante”, diz. É, no fundo, uma resposta atualizada ao mesmo problema que Adriana de Vecchi descrevia em 1989: encontrar quem financie a distância entre o talento e a oportunidade, antes que se perca.
MONTEPIO ASSOCIAÇÃO MUTUALISTA
Na Atmosfera m, a cultura é rainha
Um apoio chamado Montepio Associação Mutualista
É na cidade do Porto que a AMAC tem procurado, nos últimos anos, sair das quatro paredes da escola. Os alunos da Escola de Música Guilhermina Suggia tocam regularmente em audições e concertos de final de período no Atmosfera m, o espaço cultural do Montepio Associação Mutualista na cidade do Porto. É uma parceria que, conta Rui Pinheiro, nasceu de um conhecimento pessoal entre a direção pedagógica do Porto e o espaço, e cresceu pela vontade de ambos os lados de a tornar mais permanente. Além das audições e dos concertos de fim de período, a escola tem levado para lá também alguns projetos ligados a estágios de maior dimensão, que exigem um espaço com outra capacidade do que o da própria academia.
Para os alunos, o ganho é sair do “circuito muito fechado” de um concerto de final de ano, cuja plateia costuma resumir-se a pais e familiares, e tocar perante um público mais amplo e diversificado. “Isto abre-nos portas a outras pessoas”, resume o maestro.
A frase resume também uma das dimensões mais interessantes da parceria. O Atmosfera m não é apenas um espaço onde os alunos apresentam o seu trabalho, é, também, onde podem encontrar novos públicos e onde esses públicos podem, por sua vez, descobrir a música através de quem está a começar.
Há, por isso, uma dimensão de formação de públicos que acompanha a formação dos próprios músicos. Rui Pinheiro fala da importância de criar pessoas “com mais facilidade de socializar, de compreender, de ouvir, de escutar, de respeitar”, mas também de manter, ao longo da vida, uma relação próxima com a música.
“Faz parte da nossa filosofia: sim, formamos músicos, formamos alunos de ensino especializado em música, e este ensino é bastante exigente, e tem de sê-lo. Mas interessa-nos também formar públicos, pessoas que no dia a dia estejam disponíveis para ouvir concertos, para aprender música de forma amadora ao longo da vida”, refere Rui Pinheiro.
Desconto para associados
A ligação entre o Montepio Associação Mutualista e a AMAC vai além do Atmosfera m. Assim, os associados Montepio têm 10% de desconto nas propinas do ensino musical (o desconto é comum às escolas de Lisboa e do Porto). Numa área onde uma aula é sempre individual e o custo por aluno é, por definição, elevado, qualquer alívio no orçamento familiar pode ser o que separa uma criança de continuar, ou não, a aprender música.
“Infelizmente, estes 10% podem fazer esta diferença”, diz Rui Pinheiro. Para o maestro, não devia ser uma questão de dinheiro a decidir quem tem acesso à música. Mas sabe que, na prática, ainda é.
É também por isso que olha para o Montepio Associação Mutualista, e para o Atmosfera m em particular, como um parceiro natural para ir mais além do desconto ou do espaço cedido para concertos, nomeadamente no desenho do programa de bolsas em que a AMAC está a trabalhar.
Ainda que não esteja nada fechado, está em cima da mesa a possibilidade de abrir esse projeto a várias entidades da sociedade portuguesa. A lógica é a mesma que acompanha a AMAC desde a sua fundação: criar condições para que o talento encontre uma oportunidade.
REVISTA MONTEPIO
A música que ajuda a encontrar o futuro
Um sonho intemporal
Mais de 70 anos depois de Adriana de Vecchi ter fundado a AMAC numa sala emprestada, a instituição continua a formar músicos e pessoas. Rui Pinheiro acredita que a fundadora reconheceria pouco da escola de hoje. “A sociedade é diferente, e isso reflete-se nas escolas”, afirma. Mas tal visão não é um problema per se, apenas uma consequência natural do tempo. “Mas creio que ela ficaria muito orgulhosa do projeto que iniciou há mais de 70 anos e que continua a dar frutos.”
O que permanece, porém, é a ideia que esteve na origem da AMAC: não deixar que a falta de condições impeça alguém de desenvolver um talento. Descobrir um aluno com potencial é apenas o primeiro passo. É preciso garantir-lhe condições para aprender, crescer, ganhar confiança e, quando chegar o momento, subir a um palco.
É também aí que espaços como o Atmosfera m podem assumir um papel importante. Para os alunos da Guilhermina Suggia, cada atuação é uma etapa de um percurso que se faz também perante os outros, com novos públicos e novas experiências. Porque o próximo grande músico pode estar hoje a começar a sua aprendizagem. O que acontece depois depende, muitas vezes, das oportunidades que encontrar pelo caminho.
Os associados Montepio beneficiam de 10% desconto sobre o valor da propina nas escolas de música Vecchi-Costa, em Lisboa, e Guilhermina Suggia, no Porto. Esteja atento ao espaço Atmosfera m Porto para descobrir as próximas atuações dos alunos da AMAC.
Guilhermina Suggia e o Atmosfera m Porto: um palco para tocar
“Tem havido uma boa relação, uma boa empatia.” As palavras de Rui Pinheiro, presidente da direção da AMAC, não poderiam ser mais esclarecedoras. A ligação entre a Escola de Música Guilhermina Suggia e o Atmosfera m, o espaço cultural do Montepio Associação Mutualista no Porto, é fulcral para o projeto educativo e para a própria missão de democratizar o acesso à música.
A parceria tem uma ideia simples na origem: uma escola de música não se faz apenas de aulas e ensaios. Também é preciso criar oportunidades para os alunos apresentarem aquilo que aprendem, ganharem experiência e encontrarem públicos para a sua música.
É neste encontro entre formação e comunidade que o Atmosfera m assume um papel particular. Para os alunos, é um palco onde podem experimentar o contacto com novos públicos. Para quem assiste, é uma oportunidade de descobrir jovens músicos e de se aproximar de uma escola que, de outra forma, poderia permanecer fora do seu quotidiano.
A chegada da AMAC ao Porto começou por um testamento. Em 2000, a engenheira Ilda Moura deixou à então Fundação Musical dos Amigos das Crianças o edifício da Rua D. Manuel II, com a condição de ali nascer uma escola que seguisse os mesmos princípios sociais e artísticos da instituição de Lisboa. O espaço abriu à comunidade em março de 2002 e os primeiros alunos chegaram em outubro de 2003, para ateliers de expressão musical, plástica e dramática. Cerca de um ano depois, a escola de música ganhou o nome da violoncelista portuense Guilhermina Suggia.
“A escola do Porto tem feito um trabalho absolutamente incrível a nível de projetos de final de ano, mas também de interação com outras áreas, como a pintura”, refere Rui Pinheiro. Este ano, explica o maestro, a escola começou o “Cantar Bombarda”, um coro alicerçado em princípios de participação ativa, criação artística colaborativa e de integração na comunidade local.
“Cada escola tem estas especificidades e vai criando os seus projetos, com a sua capacidade pedagógica e artística para os concretizar. E isso, para nós, é muito enriquecedor, porque aprendemos uns com os outros. O que o Porto implementa e nos parece fantástico, tentamos replicar em Lisboa, e vice-versa. Há aqui uma partilha de experiências muito interessante”, conclui o responsável.