“Às vezes, as pessoas olham para um telefone e eu vejo outra coisa”

"Às vezes, as pessoas olham para um telefone e eu vejo outra coisa"
13 minutos de leitura
Fotografias de Rodrigo Cabrita
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Chega de mota ao espaço atmosfera m Lisboa, onde, naquele momento, se encontra a sua exposição Active Matters. Tira o capacete, cumprimenta toda a gente e começa logo a falar. A conversa ainda mal começou e já salta da pintura para o design, da tecnologia para a inteligência artificial e desta para um telefone SOS transformado em obra de arte. A curiosidade parece nunca se esgotar.

Aos 53 anos, Rui Alexandre Ferreira, mais conhecido por RAF, soma mais de três décadas de carreira e é frequentemente apresentado como um artista de street art. Mas basta conversar alguns minutos para perceber que a etiqueta lhe fica curta. Afinal, como o próprio diz: “A minha cena é alterar.”

Vi que chegaste de mota. O que nasceu primeiro: a tua paixão pelas motas ou pela pintura?

Foi a paixão pela pintura. Comecei a pintar muito novo, com cinco anos. Mas já gostava de bicicletas, que é o parente pobre da mota [risos].

Essa vontade de mexer nas coisas, de as transformar, já vinha daí?

Sim. A minha cena é alterar. Para teres uma ideia, quando era miúdo comprava roupa e depois alterava-a. Gosto do diferente, do único. Hoje isso é mais raro, está tudo mais globalizado. A arte tem muito disso. Embora haja reproduções, a peça original é aquela peça. Não há nenhuma igual. Nem o artista consegue fazer outra igual. É o que valorizo mais.

Quando entras num espaço, mesmo que não vás pintar, pensas logo: “Eu fazia isto de outra maneira?”

Sim. Tirava isto, metia aquilo, punha cor ali. Fiz formação em realização plástica no espetáculo e design de equipamento. Na altura, não percebia bem isso. Mais tarde percebi que a minha cena também era desenhar peças, desenhar mobiliário, desenhar objetos.

É algo que ficou para trás?

Um pouco, embora tenha peças desenhadas. Mas, no fundo, quando faço instalações e insufláveis é design. Tem a conceção volumétrica, a parte técnica, moldes, têxtil. Tem um design à volta do conceito, pensado para um espaço, pensado para ter uma função. Nunca deixei propriamente de fazer design. Só mudou a forma.

E a cor? Alguma vez olhaste para uma obra tua e pensaste: “Aqui menos era mais?”

Nem por isso. Mas as cores têm equilíbrio. Há amarelos a equilibrar, zonas frias, zonas quentes. Não são escolhidas de qualquer modo. A cor é algo que me caracteriza, pelo menos até agora. Não quer dizer que daqui para a frente não seja mais comedido.

Há artistas que olham para a tecnologia e para a inteligência artificial com desconfiança. Tu pareces fazer o contrário.

Eu gosto de experimentar coisas. Lembro-me de um amigo, fotojornalista, que foi muito resistente às máquinas digitais. Só que o mundo avançou. Enquanto ele tinha de revelar, fazer provas, mostrar, escolher, voltar a imprimir, os outros faziam tudo no próprio dia, muito mais rápido e mais barato. Eu não sou assim. Gosto de incorporar as novidades.

Utilizas a tecnologia no processo de trabalho?

Utilizo. Por exemplo, há pouco tempo desenvolvi um trabalho para uma cadeia de fast food que consistiu em fazer o desenho digital, enviar para aprovação e depois passar para uns óculos de realidade aumentada (da Meta). Vejo a parede, ponho o desenho na parede, ajusto, fixo, posso andar. Poupa-me horas. E, nestes trabalhos, o tempo conta. Imagina que pedes cinco mil euros por um trabalho, se fizeres em dez dias tens um valor diário, se fizeres em cinco tens outro.

E a inteligência artificial não te assusta?

Não, porque vai ter lados negativos e positivos, certamente. Uso o que tenho à disposição. Não sou pró em tudo, mas gosto de usar, brincar, experimentar.

Do primeiro quadro vendido aos 17 anos até às grandes obras de street art, o percurso de RAF é feito de reinvenção constante

“As pessoas têm o direito de gostar e de não gostar”

É impossível falar do teu percurso sem falar do Talude [obra de arte urbana de grande dimensão que RAF fez na Alta de Lisboa, em 2019]. Quando aceitaste o desafio, tinhas noção do trabalho que estava à tua frente?

Mais ou menos. Eu sou uma pessoa de desafios, gosto de aceitar coisas destas. A maioria dos artistas não pegava nisto. Alguns até me diziam: “Grande maluco. Pegaste nisso, estás tramado” [risos].

Houve algum momento em que pensaste: “Onde é que eu me fui meter?”

Claro. Cinco meses a pintar, dias com quarenta e tal graus, houve alturas em que era quase impossível trabalhar. O Talude é muito grande, tem cerca de três mil metros quadrados, há zonas com doze metros de altura. À distância nem parece, mas é enorme.

Se voltasses a fazê-lo hoje, farias algo diferente?

Fazia-o em dois meses, porque aprendi muito [risos]. Na altura, demorei muito tempo a decidir as cores. Tinha ajudantes a fazerem os preenchimentos e, às vezes, eles ficavam parados à espera que eu decidisse. Hoje fazia logo um plano diferente, mas isso aprende-se.

Uma das coisas que mais impressiona no mural é a cor. Nem toda a gente imaginava uma obra daquela dimensão tão intensa.

Foi uma luta. Mais de oito reuniões com a Câmara [Municipal de Lisboa], Junta [de Freguesia do Lumiar], Direção-Geral do Património Cultural, a tentar convencer toda a gente. Não foi fácil. Os portugueses, no geral, têm preconceito contra a cor, dizem que cansa, aborrece. Há aquela ideia do cinzento, do bege, do casca de ovo. Eu quis fazer exatamente o contrário. O objetivo era tirar peso àquela massa de betão.

Alguma vez ficaste por perto, sem dizer quem eras, só para ouvir o que as pessoas diziam de uma obra tua?

Gosto muito de ouvir as pessoas. Lembro-me de uma situação engraçada. Estavam duas pessoas a falar de um trabalho meu e uma delas dizia à outra: “Eu conheço o RAF.” E começou a falar de mim, a explicar o meu percurso, os projetos que eu fazia… e eu ali ao lado.

E disseste-lhe quem eras?

Não. Achei muito mais piada ouvir a conversa.

Nem sempre ouves elogios, imagino.

Claro que não. Lembro-me de uma senhora, no Talude, quando ainda estava a ser pintado. Parou, olhou e disse: “Isto é uma porcaria. Qualquer pessoa faz isto.” Não me chateei. As pessoas têm o direito de gostar e de não gostar.

No fundo, nunca esperas que as pessoas vejam exatamente aquilo que tu viste quando criaste a obra.

Não. Às vezes as pessoas olham para um telefone… eu vejo outra coisa. Não têm de ver o mesmo que eu. A partir do momento em que a obra está na rua ou numa exposição, ela deixa de ser só minha. Cada pessoa leva para ali a sua história e a sua maneira de olhar. E isso também faz parte da obra.

Durante muitos anos pintaste motas, carros…

Sim. Tenho algum conhecimento de pintura automóvel e de aerografia. Isso acabou por me dar muita facilidade a trabalhar materiais, vernizes, preparação de superfícies. É outro tipo de conhecimento.

Esta mota que está exposta no atmosfera m, por exemplo, podia andar na estrada?

Não, esta é um protótipo. É a primeira mota de série da FTR, da Indian. A ideia aqui foi desmontá-la por completo. Este projeto fez parte de uma série a que chamei Neblina Cromática. Para mim, neblinas são aquelas pulverizações de tinta. Quase todas as peças têm esses degradés, aqueles tons que vão desaparecendo.

Há muita diferença entre pintar uma mota e pintar um mural?

O processo criativo é diferente. Ao pintar uma mota temos de isolar tudo, preparar os materiais, ter cuidado com os vernizes, com os acabamentos. Na rua, não. Se cair uma mosca no muro, fica lá. Faz parte [risos]. Mas as técnicas são semelhantes e a aerografia acompanha-me há muitos anos.

Podes explicar o que é?

No fundo, é uma caneta que pulveriza tinta. Muitas pessoas pensam que é uma técnica recente, mas já vem da pré-história. Nas cavernas usavam ossos como tubos, sopravam os pigmentos e ficavam as marcas das mãos nas paredes.

Viver da arte, entre quadros e trabalhos comerciais

Ao longo da carreira foste acumulando experiências internacionais. Ainda sentes que, em Portugal, os artistas são mais valorizados depois de serem reconhecidos lá fora?

Antes de responder a isso, deixa-me contar-te uma coisa. No ano passado, participei num projeto de que gosto muito. Concorremos a um fundo inglês, juntamente com uma comunidade portuguesa, e acabámos por criar uma calçada portuguesa inspirada no Tratado de Windsor, que faz este ano 640 anos e continua a ser o tratado mais antigo entre dois países.

Retratámos D. João I e Filipa de Lencastre, num trabalho feito com um mestre calceteiro português. A pedra veio daqui, o calceteiro vive em Macau… mas foi um projeto muito bonito. Agora estou a tentar fazer exatamente a mesma peça em Lisboa. Mas está difícil.

Difícil porquê?

Porque já falei com muita gente e continua muito complicado. Já falei com a Câmara [Municipal de Lisboa], com outras entidades, e sinto que estas coisas demoram sempre muito.

Estamos numa altura em que toda a gente fala da importância da calçada portuguesa, dos calceteiros, do património e, mesmo assim, continua a ser difícil concretizar um projeto destes.

Isso responde um bocadinho à pergunta inicial?

Talvez. Olha para o Bordalo II, para o Vhils… admiro muito os dois, conheço-os pessoalmente e acho que são artistas extraordinários. Mas o reconhecimento deles começou lá fora. A Joana Vasconcelos também. Não estou a dizer que seja sempre assim e há pessoas que têm outra visão. Mas, ao longo do tempo, fui sentindo isso.

Em Portugal, é um desafio viver da arte?

Eu tenho uma empresa de produção artística e faço muitos trabalhos mais comerciais, coisas que me encomendam. Foi a forma que encontrei para sobreviver financeiramente. Se dependesse apenas de vender quadros ou obras, era muito complicado. Tinha de vender quadros todos os meses. No nosso mercado isso não é fácil.

Há exposições que correm muito bem e ajudam bastante. Mas são momentos. Não se pode viver à espera que a próxima exposição resolva tudo.

No fundo, além de artista, também tiveste de aprender a ser empresário.

Completamente. Tenho de gerir espaços, tratar da empresa, fazer contas, falar com contabilistas… há toda uma parte de gestão que as pessoas normalmente não imaginam. Às vezes pensamos no artista fechado no ateliê a criar, mas a realidade não é essa. É preciso fazer muitas outras coisas para conseguir continuar a criar.

E isso não rouba espaço à criatividade?

Rouba. Posso dizer que já tive brancas de um ano.

Um ano?

Sim. Há alturas em que simplesmente não sai nada. A criatividade também tem esse lado. Por isso é que, muitas vezes, faço aquilo a que chamo a minha “chapa cinco” [risos]. São trabalhos mais comerciais. Posso até não gostar muito deles, mas sei que me vão permitir continuar a fazer aquilo de que realmente gosto.

Ainda há pouco fiz um trabalho para um hotel. Produzimos mais de duzentas peças. Esse trabalho abriu-me depois a porta para colocar lá algumas peças de autor.

Active Matters: três décadas de experimentação

Entre junho e julho de 2026, o atmosfera m acolheu a exposição Active Matters, que reuniu cerca de 30 anos de percurso artístico de RAF (Rui Alexandre Ferreira). Longe de uma retrospetiva convencional, a mostra cruzou pintura, instalação, design, objetos, tecnologia e street art, revelando a curiosidade e a vontade constante do artista em explorar novas linguagens.

O percurso expositivo reunia obras de diferentes fases da carreira, entre as quais o seu primeiro quadro, Rosa e Jarra, a mota de Neblina Cromática, um telefone SOS transformado em instalação, insufláveis, pinturas e outras peças que refletem o seu interesse em reinventar objetos e materiais do quotidiano. A exposição integrou também experiências desenvolvidas com recurso à inteligência artificial, programação e realidade aumentada, evidenciando a forma como RAF encara a tecnologia, como mais uma ferramenta criativa e não como um limite à expressão artística.

O título, Active Matters, traduz uma ideia central no seu trabalho: transformar a matéria – tinta, metal, tecido, tecnologia ou objetos do quotidiano – em novas possibilidades de criação, atribuindo-lhes novas funções, leituras e significados.

RAF fotografado por Rodrigo Cabrita no espaço atmosfera m, do Montepio Cultura, em Lisboa. A exposição retrata 30 anos de trabalho

Poupar sem deixar de viver

És Associado Montepio há alguns anos. Como surgiu essa ligação?

Já foi há uns oito anos, talvez. Foi por causa de uma amiga, que insistiu muito para que isso acontecesse. Dizia-me sempre: “RAF, tens de te fazer Associado. Faz sentido para ti.” E eu acabei por fazer.

E continuas ligado?

Continuo. Tenho algumas poupanças.

Mudando completamente de assunto… lembras-te do primeiro dinheiro que ganhaste com a arte?

Lembro. Antes de vender o meu primeiro quadro [aos 17 anos], já tinha feito umas pinturas para amigos, umas coisas pequenas. Davam-me algum dinheiro, mas eu nem olhava para aquilo como um trabalho. Depois apareceu uma hamburgueria. Queriam aquele ambiente americano, ligado ao basquetebol, a Nova Iorque… e convidaram-me para pintar o espaço.

Lembro-me perfeitamente de pensar: “Isto já é dinheiro a sério.” Para mim, na altura, era imenso dinheiro.

E foste logo gastá-lo?

Não [risos]. Precisava de comprar telas, tintas, material, e era tudo caro. Foi aí que comecei a pensar de outra maneira. Em vez de tentar vender quadros, pensei: “E se eu os alugasse?”

Comecei a ir aos bares e dizia-lhes: “Eu trato-vos da decoração. De três em três meses venho trocar os quadros e vocês pagam-me uma mensalidade.” Não era um valor muito elevado, mas permitia-me comprar material todos os meses. Enquanto um conjunto de quadros estava pendurado num bar, eu estava em casa a pintar o conjunto seguinte.

Dás importância aos bens materiais?

Sim, mas isso mudou um bocadinho. Continuo a gostar de coisas boas, mas já não compro por impulso, como quando era mais novo. Por exemplo, se precisar de um computador, prefiro comprar logo um computador topo de gama. Há quem ache que é um exagero, mas depois faço as contas. Se durar dez anos, afinal não foi assim tão caro. Divido o preço pelos anos todos e percebo que compensou. Faço muito esse exercício.

Acho que, no fundo, também tem a ver com a forma como trabalho. Se uma ferramenta me ajuda a trabalhar melhor e durante mais tempo, acaba por ser um investimento e não apenas uma compra.

És uma pessoa que poupa?

Não sou obcecado com isso e também gosto de viver. Mas nunca fui de esbanjar dinheiro em coisas sem grande sentido. Se investir em alguma coisa, normalmente é em trabalho. Computadores, ferramentas, materiais, essas coisas. Acho que, ao longo dos anos, fui percebendo que investir em mim acaba por ser aquilo que me dá mais retorno.

10 perguntas-relâmpago a RAF

1. Qual é a cor da qual nunca te cansas?

Azul.

2. E uma parede ou um espaço que gostavas de pintar?

Uma barragem. Acho que ainda ninguém me fez esse convite

3. Diz-me um artista que te inspire?

Gaudí. Acho extraordinária a forma como pensava os espaços, a arquitetura, os volumes. É uma referência para mim.

4. Qual a obra de que mais te orgulhas?

Talvez o Talude, pelo impacto que teve e pela dimensão do desafio. Mas gosto sempre mais da próxima.

5. Qual o objeto sem o qual não consegues trabalhar?

A pistola de pintura.

6. Qual a melhor altura do dia para criar?

Já foi a noite, hoje não. Posso ter uma ideia num café, na praia, a andar de mota. Ou acordar de madrugada e apontar qualquer coisa. Não tenho uma hora certa.

7. Há algum talento que surpreenda quem te conhece?

Costuro. O meu pai tinha uma fábrica de malas e aprendi desde miúdo a trabalhar com máquinas industriais. Fazia malas, experiências, bainhas às calças da minha mãe. Se calhar foi aí que comecei a perceber como se constrói um objeto.

8. Qual é a pergunta que gostavas que te fizessem e nunca fazem?

Essa é difícil… Nunca pensei nisso. Se calhar é sinal de que ainda continuam a surpreender-me.

9. Completa a frase: “A arte faz sentido quando…”

Ia dizer “quando é verdadeira”, mas depois pensei melhor. Nem sempre tem de ser verdadeira. Tem é de fazer sentido.

10. Diz-nos uma extravagância financeira que tenhas cometido

Era completamente obcecado pelo Michael Jordan, e pela NBA, e um dia comprei umas sapatilhas Nike Air Jordan. Juntei dinheiro durante imenso tempo para comprar aquelas sapatilhas, que custavam uma fortuna. Quando cheguei a casa, disse à minha mãe que tinham sido muito mais baratas. Até hoje acho que ela nunca soube o preço verdadeiro [risos].

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