Envelhecer sem rede: tem tudo o que precisa para o que aí vem?

Envelhecer sem rede: tem tudo o que precisa para o que aí vem?
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m milhão de portugueses vão envelhecer sem uma rede de suporte familiar próxima. Planear a longevidade com antecedência, antes de a vida levantar as perguntas difíceis, é exatamente o que separa quem chega à velhice com autonomia de quem chega a depender das circunstâncias.

Alice Fernandinho tem 86 anos e mora, há quase três, na Residência Montepio Quinta de Cravel, em Vila Nova de Gaia. Com a vida financeira estável, sobretudo devido à pensão que recebe do marido, que “trabalhava na área do petróleo”, esta ex-professora chegou a viver em casa dos filhos, quando já não conseguia fazê-lo sozinha, mas a transição para esta residência sénior mudou a sua vida, já nos oitentas. “Já devia ter vindo para aqui há muito mais tempo, porque isto é uma maravilha”, confessa-nos por telefone, numa tarde amena de verão.

Com cuidados médicos garantidos a qualquer hora e uma comunidade que descreve como família, Alice parece genuinamente feliz. A decisão de viver numa residência sénior, conta, foi “muito pensada”. “Tive uma queda grande em casa, e depois [outros desafios], como tomar medicamentos ou fazer uma certa ginástica na alimentação.” Foi nessa altura que começou a pensar em ir para um sítio “onde estivesse com médicos e proteção”. “Aqui há tudo. Médicos a toda a hora, enfermeiras, estamos muitíssimo bem. É uma família e uma comunidade fantástica.”

Quis o destino, também, que a residência onde está ficasse perto da sua própria casa, onde ainda volta com regularidade. “Quando vim para cá ainda estava razoável, ainda podia andar bem. Agora faço-o mais devagar, mas, mesmo assim, ando pelo edifício todo. Felizmente, ainda não preciso de ajuda”, explica.

A história de Alice é a de uma preparação bem-sucedida para os anos em que o corpo, e também a mente, começam a pregar partidas. Mas os tempos são outros e há uma geração inteira a caminhar para uma velhice com menos rede para responder aos desafios que irão ter.

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“Millennials, we have a problem”

As contas foram feitas por Luísa Loura, diretora da Pordata, no artigo Sem filhos, nem netos: como a probabilidade prevê o nosso futuro coletivo. Quem tem hoje mais de 70 anos pode contar com uma rede próxima de apoio (filhos e irmãos) composta, em média, por quase quatro pessoas. Mas esse número deverá cair de 3,7 para 1,7 pessoas entre 2030 e 2070, o que equivale a “menos duas pessoas no núcleo direto de apoio”. No mesmo período, a percentagem de idosos com, no máximo, apenas um familiar próximo disponível deverá subir de 9,2% para 50,1%.

Nesta situação estarão, num futuro próximo, mais de um milhão de pessoas, nos cálculos da autora, que recorreu a simulações estatísticas baseadas nas projeções de população do Instituto Nacional de Estatística (INE). A geração que hoje adia a conversa sobre envelhecer é também a que vai ter menos pessoas por perto quando essa conversa se tornar inevitável.

A falta de rede de apoio não é a única situação na qual a matemática não ajuda. Segundo o relatório Ageing Report (2024, Comissão Europeia), a taxa de substituição das pensões em Portugal poderá descer de 69,4% do último salário em 2022 para 38,9% em 2070, atingindo 38,5% em 2050, num cenário de políticas inalteradas

A coincidência de calendário não é boa: para a geração que hoje se encontra entre os 35 e os 40 anos existirá uma rede de apoio menor e, simultaneamente, um rendimento mais baixo. Será complexo preparar-se para cada um destes desafios, quanto mais para os dois ao mesmo tempo.

João Calado tem 37 anos e está, segundo o estudo, no olho do furacão. “Penso na lógica financeira da reforma, de ter capacidade para poupar. Mas não tinha olhado para essa perspetiva de ter de precisar de uma rede de apoio”, refere. Ainda sem filhos, João diversifica a sua poupança por vários instrumentos financeiros, desde PPR a ações e ETF. “Sempre numa lógica de muito longo prazo, nunca naquelas coisas de bitcoin ou de venda a curto prazo.” Mas quando perguntamos se já pensou em quem vai estar por perto quando precisar de ajuda, a resposta é direta: “Não.”

O gestor admite que nunca tinha pensado nesta questão, justificando-se com a ausência de proximidade com o tema. “A minha mãe, que tem 72 anos, está bem fisicamente, bem de cabeça, é uma pessoa superativa, anda numa universidade sénior. E como não tenho agora próximo de mim alguém com 70, 80 ou 90 anos que tenha esse tipo de desafios, não consigo associar-me a isso, ou não tenho essa preocupação para mim.”

Como tudo na vida, só sentimos as dificuldades quando já estamos nelas. Por isso é que é tão difícil associarmo-nos a um futuro distante. “É difícil, mentalmente, pensar num dia em que estejamos reformados ou tenhamos um problema qualquer de saúde, uma perna partida aos 70 e poucos anos, e pensar: ‘Quem é que me vai ajudar?’”

“É difícil, mentalmente, pensar num dia em que estejamos reformados ou tenhamos um problema qualquer de saúde”

João Calado, gestor. Em 2070 terá 81 anos.

Sim, quem nos vai ajudar?

Este é o tipo de pergunta a que Teresa Ibérico, que dirige a Residência Montepio da Parede há 16 anos, responde todos os dias. Nesta década e meia, muita coisa mudou na forma como as pessoas olham para uma residência sénior. “Antigamente, o nosso público eram pessoas que tinham tomado esta decisão de forma pensada e estruturada. Hoje, as pessoas vêm por ocasião de uma situação aguda ou súbita. Ou seja, tentam adiar ao máximo a vinda para uma residência, eventualmente também porque o custo de vida está mais alto (ver caixa).”

O padrão que a diretora da Residências Montepio Parede descreve tem quase sempre a mesma forma: alguém chega para um período de reabilitação depois de uma queda, uma fratura, um internamento, e só depois, a viver ali, é que decide ficar. “Percebem que se adaptam, que, de facto, até gostam de viver aqui, sentem-se mais seguros. E aí, sim, tomam a decisão de ficar.”

Em Vila Nova de Gaia, na residência Quinta de Cravel, a diretora Célia Vasconcelos confirma o mesmo padrão, mas acrescenta que a família que cuida dos seus utentes já não é, necessariamente, a família que consideramos nuclear. Por isso, há cada vez mais sobrinhos a assumirem a retaguarda. “São casais ou pessoas que não tiveram filhos, e por isso são os sobrinhos a tratar deles.”

A responsável identifica, aliás, uma certa norma no que toca ao planeamento desta fase da vida. “A minha experiência, que já é de quase 20 anos, diz-me que as pessoas que, enquanto mais novas, já não tinham grande retaguarda familiar — solteiros, sem filhos — tendem a ter já um backup mais preparado.” Não quer dizer que quem tem filhos não pense na longevidade, mas estas pessoas acabam por “resistir um bocadinho mais a sair do próprio domicílio” do que as que não têm essa retaguarda familiar.

Há ainda outro perfil de utente, acrescenta Teresa Ibérico: as pessoas que têm filhos, mas estes estão no estrangeiro. “Temos muitas situações assim, em que os filhos estão fora e os pais já não têm idade para querer ir viver com eles. Os filhos também têm as suas vidas, não podem voltar, e por isso delegam em nós esta responsabilidade de cuidar dos pais e de lhes dar o suporte de que precisam”, explica. Neste caso, não são apenas as necessidades básicas que são supridas, como as clínicas e assistenciais, mas também as lúdicas. “As pessoas precisam de continuar a ir ao teatro, sair da residência para ir a um restaurante, esse tipo de coisas.”

“As pessoas que, enquanto mais novas, já não tinham grande retaguarda familiar — solteiros, sem filhos — tendem a ter já um backup mais preparado”

Célia Vasconcelos, diretora da Residência Montepio Quinta de Cravel, Vila Nova de Gaia

Mais vida do que se espera

Nem todos os que lá vivem se encaixam na imagem que se tem de uma residência. Há quem chegue demasiado jovem, e há quem, lá dentro, viva mais do que alguma vez viveu cá fora. Célia distingue, por isso, dois tipos de residência: a ERPI (Estrutura Residencial para Pessoas Idosas), pensada para quem já não vai voltar a casa, e a Rede Nacional de Cuidados Continuados, que existe precisamente para o contrário, para libertar camas de hospital e devolver as pessoas às suas casas sempre que a autonomia o permita.

É nesta segunda realidade que a diretora da Residência Montepio Quinta de Cravel identifica a mudança mais preocupante dos últimos anos: começam a chegar pessoas vítimas de AVC, traumatismos crânio-encefálicos e outras situações graves de dependência com apenas 50 e poucos anos, muito antes do que seria de esperar. “São muito jovens, muito novos, para estar ali já institucionalizados.” São pessoas que se encontram a mais de vinte anos da reforma e que, mesmo estando já a poupar para essa fase da vida, não tiveram tempo de se preparar para o que aconteceu. “Se as pessoas fizerem contas só à reforma”, resume Célia, “não vão ter dinheiro para pagar uma residência sénior.”

Há, por fim, um outro lado desta realidade, o de quem encontra, dentro da residência, mais vida do que teria fora dela. Célia fala de uma residente sem filhos, sem casamento, cuja única retaguarda próxima é um antigo conhecido, e que, mesmo assim, tem uma vida mais ativa do que muita gente “de fora”: sai para as consultas, vai a restaurantes de que gosta, descobre sítios novos e regressa a contar as novidades do dia. “Muitas vezes, faz melhor uso da residência do que de um hotel.”

Teresa Ibérico, na Residências Montepio da Parede, tem uma história semelhante para partilhar: um residente que, apesar de ter filhos e apoio familiar, insistia em tomar todas as decisões sobre a própria vida. E cujos filhos respeitavam essa autonomia, mesmo quando isso significava discordar dele. Chegou depois de fraturar um braço, decidiu ficar e mandou montar o quarto à sua medida, com secretária própria para continuar a trabalhar. Chamava a essa fase da vida a sua “quarta idade”, e fez, ali dentro, um grupo de amigos com quem organizava tertúlias semanais. “Costumava dizer que nunca pensou que, com aquela idade, ainda voltasse a ter estas experiências.”

“Antigamente, o nosso público eram pessoas que tinham tomado esta decisão de forma pensada e estruturada. Hoje, as pessoas vêm por ocasião de uma situação aguda ou súbita”

Teresa Ibérico, diretora da Residências Montepio da Parede

Dois caminhos até ao mesmo lugar

Sentada confortavelmente numa poltrona e com o telefone no ouvido, Alice Fernandinho diz que podia estar a conversar connosco a tarde toda. Fala com carinho dos amigos que fez na residência e dos profissionais que a apoiam, destaca os serviços de saúde prestados 24 horas por dia, a limpeza do espaço e a alimentação. “Podemos, até, fazer a nossa ementa. Cada um come aquilo de que mais gosta”, afirma.

No quarto, tem uma máquina de costura que ainda usa. “Sou costureira, tive de alargar a minha roupa quando era mais jovem e sempre me ocupei assim, com as costuras”, conta. Quando estamos a terminar a entrevista, deixa um conselho às gerações para quem a terceira (ou quarta) idades ainda parecem distantes: “Poupem enquanto podem, poupem mais do que para as outras coisas. E venham para aqui.”

Uns minutos depois, estamos já a falar com Maria Fátima Veríssimo. “Não sou Maria de Fátima, tire o ‘de’”, começa por dizer-nos em jeito de brincadeira. Com 94 anos, esta antiga professora do Ensino Básico vivia no Ameal, na cidade do Porto, mas sentia-se “sozinha” depois de o marido falecer. “Embora os meus filhos me tratassem muito bem, e a minha nora e o meu genro também, eu sentia-me sempre só”, refere.

Foram os filhos que lhe falaram da possibilidade de vir para a Residência Montepio Quinta de Cravel, onde está há cerca de um ano. “Queria sentir-me com mais vida social, com mais segurança.” Os filhos vivem perto e visitam-na com frequência, mas é dentro da residência que Maria Fátima descreve a companhia mais constante: “Tanto o pessoal, como as médicas, as meninas, são muito simpáticas. Gosto muito de conversar.” A sua atividade preferida é o desenho — “é muito divertido” —, e é com esse mesmo entusiasmo simples que resume a decisão de ter vindo. “Fazemos muitas atividades juntas, estamos muito bem aqui. Gosto muito de conversar, estou muito feliz.”

Aos 42 anos, sem tempo para planear

José Fernandes tem 57 anos e vive na Residência Montepio Quinta de Cravel, em Vila Nova de Gaia, desde os 42. “Adoro estar aqui. Gosto mesmo muito”, diz-nos, enquanto avisa que tem para contar “uma história um bocado má”. Chegou em 2011, depois de um acidente de trabalho o deixar numa cadeira de rodas e a seguradora Lusitania [do Grupo Montepio] ter entrado em contacto com a residência.

Ainda jovem, José Fernando é um perfil diferente da maioria, senão da totalidade, dos utentes da residência. É, também, a prova de que um imprevisto de vida pode acontecer a qualquer pessoa, de um dia para o outro, muito antes de a reforma sequer entrar em cena. “O conselho que dou às pessoas que mo pedem é viver um dia de cada vez”, revela.

Hoje, a rotina de José está preenchida ao pormenor: duas sessões de ginástica por dia, fisioterapia regular, hidroginástica, sessões de psicologia três vezes por semana e aulas de pintura. Espera ansiosamente por dias temáticos, como o Dia dos Avós, para participar em atividades. “Gosto de festas”, diz-nos.

Fala da equipa como quem fala de família: “Já vi tanta gente passar por aqui. Tinha enfermeiras que, quando iam embora, eu chorava. Apegamo-nos às pessoas.” É, muito provavelmente, o residente há mais tempo no espaço, e ao mesmo tempo o que lá chegou mais jovem, uma dupla distinção que resume o que é envelhecer numa instituição sem ter escolhido fazê-lo pela idade.

Alice Fernandinho, José Fernandes e Maria Fátima Veríssimo vivem na Residência Montepio Quinta do Cravel. E consideram-se felizes por lá estar.

Menos foco no problema, mais na solução

Apesar de as soluções de proteção financeira perante riscos de velhice ou longevidade existirem há muito em Portugal — veja-se o caso do Montepio Associação Mutualista, fundado no distante ano de 1840 —, a verdade é que foi na década de 1980 que a sociedade portuguesa começou a falar, de forma séria da poupança como complemento da reforma.

Nos últimos anos, esta conversa foi associada ao facto de trabalharmos cada vez até mais tarde, à sustentabilidade da Segurança Social e à incerteza de qual será a nossa pensão de reforma. Por isso, para João Calado, existe “muito pouco foco na solução, seja para a saúde ou para a parte financeira”.

“Com 40% [do último salário], o que vou conseguir fazer? Não vou conseguir comprar medicamentos, não vou conseguir outras coisas básicas. E a conversa tem de virar a agulha, por exemplo, para a preocupação com a saúde física”, explica. E dá um exemplo de um artigo recente que comparava a massa muscular de uma pessoa aos 30 anos com atividade física com a de alguém da mesma idade sem exercício, aos 60 ou 70 anos, que era praticamente sem músculo, só gordura e pele. “Isto devia ser muito mais documentado porque, se nos precavermos do ponto de vista da saúde, vamos envelhecer com qualidade. Falta muito falar sobre o que nos dá, de facto, qualidade de vida.”

Falta, também, mais informação sobre medicina preventiva, perceber o nosso estilo de vida, a nossa genética e saber como devemos preparar-nos e que o temos de antecipar. “Podíamos fazer marketing à volta desta questão: ‘Atenção que isto vai acontecer. Saiba o que pode fazer.’”

João Calado diz que ainda temos medo de antecipar o futuro. E, talvez, contra ele fale. “Um medo que tenha do futuro? Olha, ter algum problema urgente e não conseguir ter resposta. Ter um problema cardíaco e não conseguir chamar ninguém, nem ter capacidade para sair de casa, ficar completamente dependente. É o que me dá mais medo.”

Ninguém pede a Alice, a Maria Fátima ou a José que voltem atrás no tempo e façam diferente, já não há essa opção para eles. Mas João, e todos os que se reveem nele, ainda a têm. A diferença entre os dois grupos deste artigo é o tempo: uns tiveram-no para se preparar, outros não. E o tempo, ao contrário do dinheiro ou da saúde, só se gasta numa direção.

Um dia, todos vamos precisar de ajuda. A pergunta que se coloca agora, é: quando deixaremos de tratar desta certeza como uma hipótese distante?

Porque estamos a adiar a entrada numa residência sénior?

Em Portugal, a entrada numa residência sénior tende a acontecer cada vez mais tarde no processo de envelhecimento. Muitas vezes, já muito próximo dos 90 anos, e não poucos anos após a entrada na reforma, como seria de esperar.

Uma das justificações para adiar a decisão de entrar numa residência sénior pode estar relacionada com o aumento das respostas ao domicílio. “Acabam por prolongar a estada em casa de forma confortável, sem terem de ir para uma residência”, explica Teresa Ibérico, diretora da Residências Montepio Parede.

Por outro lado, com o elevado custo de vida dos últimos anos, as pessoas tentam a retardar esta decisão, preferindo não gastar este dinheiro enquanto podem manter-se em casa. “Só depois, ao viver aqui, é que muitas vezes chegam à conclusão de que a despesa que têm connosco até é inferior à que teriam em casa. Se olharem bem às contas, muitas vezes é mesmo inferior”, conclui Teresa Ibérico.

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