O momento em que percebi que o adulto era eu

O momento em que percebi que o adulto era eu
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á uma decisão que marca o resto do percurso e um momento em que se percebe que o futuro depende do que se faz agora. A maioridade não é uma data, mas uma descoberta, contam Helena Sacadura Cabral, Márcia e José Milhazes.

“Não quero depender de ninguém.” Seria um objetivo de vida concretizável para uma menina de 10 anos no Portugal da década de 1940? Para Helena Sacadura Cabral, era. Filha de um advogado conservador que lhe queria um destino semelhante ao das meninas-bem da época (ser educada para as línguas, deixar a escola no máximo no 5.º ano de liceu e casar), começou ela própria a desenhar um outro caminho.

“Aos 10 anos damos os primeiros passos para saber quem somos, e sonhamos com o que queremos vir a ser. Eu queria ser independente pelo trabalho. Vivi junto de duas mulheres – mãe e avó materna – que sempre incutiram em mim esse objetivo. Saber administrar a semanada que recebia já era um começo. Administrar a independência da minha vida decorre dessa educação que me foi transmitida”, descreve a economista e escritora.

A mãe, “uma mulher muito à frente do seu tempo”, foi uma aliada imprescindível. Defendeu sempre a ideia da filha de que deveria continuar a estudar. “Gostava de ter sido médica ou escultora. Nunca o poderia ser, em casa do meu pai, que considerava que trabalhar com o nu era inaceitável, de uma moralidade duvidosa. Restavam-me Direito, Filosofia, Matemática e Economia. Optei pela última, que, entendia eu, poderia ajudar a mudar a sociedade”, conta.

E assim, aos 15 anos, entrou uma menina de tranças, lacinhos e soquetes no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (atual ISEG), em Lisboa. Entre mais de um milhar de alunos, distinguia-se pela idade, pelo aspeto e pela quase singularidade de ser rapariga num tempo em que as universidades eram dominadas pelos homens. Gozaram com ela e mandaram-na para a escola primária. Helena, que costuma dizer que não esquece, decidiu que um dia haviam de pagar aquelas palavras.

Antes disso, tinha ainda um outro desafio: como podia continuar a estudar quando o pai tinha decidido que não pagaria os custos da faculdade? Tornou-se a melhor aluna para garantir uma bolsa de estudo e começou a dar explicações. O seu primeiro aluno foi um rapaz que trabalhava como paquete num escritório e precisava de ajuda para fazer o exame do liceu. Incentivada pela mãe, começou a dar lições a mais pessoas até ter os seus dias preenchidos. Durante a noite, estudava.

Teria sido mais fácil aceitar o destino reservado às meninas da média burguesia lisboeta, reconhece hoje, aos 91 anos. “Mas não queria depender de ninguém, sabia que iria permitir-me mostrar o que valia. Trabalhei duramente. Dei explicações e fui babysitter para ganhar dinheiro para os livros e alguma distração. Foi tão duro, que só dancei, pela primeira vez, com 17 anos.”

Quando chegou ao 2.º ano, já não era a mesma menina. “Ia uma Marilyn Monroe, vestida de vermelho e de sapatos altos”, recordou numa entrevista à rádio Antena 1. Além dessa transformação exterior, chamava também a atenção pela sua capacidade de trabalho. Como não havia livros, tomava notas de tudo. Quando a associação académica lhe perguntou se podia dar os apontamentos para as sebentas, Helena fez uma proposta: não os daria; vendê-los-ia e receberia uma percentagem de cada exemplar. Teve então a sua vingança e transformou o seu esforço em valor, mais um passo para a desejada independência.

Depois de terminar o curso com o prémio de melhor aluno do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, fez um percurso marcado pela independência que procurara desde criança. Foi, por exemplo, a primeira mulher nos quadros técnicos do Banco de Portugal, além de professora universitária.

Às meninas que querem ser mulheres independentes e livres, deixa três conselhos: que tenham uma verdadeira consciência daquilo que querem, que gostem de trabalhar para alcançar os objetivos e que tenham “uma enorme resiliência para vencer as pedras do caminho escolhido”.

“Não queria depender de ninguém, [por isso] trabalhei duramente. Dei explicações e fui babysitter para ganhar dinheiro para os livros e alguma distração”

Helena Sacadura Cabral, economista e escritora

Seguir a própria voz

“Teimosias.” É assim que Márcia chama às decisões que tomou. Sempre quis ser pintora, como o pai. “Perante a minha média de 17 no liceu, algumas pessoas e professores tentaram elucidar-me sobre a vida arriscada de um artista, alertando-me que poderia seguir, em vez de Pintura, o curso de Arquitetura ou Design. Esta foi a minha primeira teimosia.”

Não quis a opção mais segura e inscreveu-se em Pintura, nas Belas-Artes, em Lisboa. “Sinto que foi a minha formação. O curso que se escolhe é muito mais do que ‘um curso’”, explica.

Foi a primeira decisão de uma vida adulta em que quis sempre encontrar a sua própria expressão. Seguiu-se um percurso como pintora, cantora e compositora, que em setembro inaugurou uma exposição na Atmosfera m, em Lisboa (ver caixa).

A decisão de cantar apareceu quase por acaso, num bar em Évora onde estava com amigas. “Prestei atenção à música que tocava. Era uma cantora de jazz impressionante. Decidi, nesse momento, que queria ser (também) cantora. Inscrevi-me no Hot Club. Fui trabalhar para poder pagar esse curso.” Já tinha trabalhado aos fins de semana e nas férias durante a faculdade, e voltaria a fazê-lo sempre que decidia investir noutras formações, como aulas de voz ou estudar fora. “Trabalhei todo o verão, vários verões, para poder financiar a minha arte”, afirma.

“É muito difícil tomar decisões para se ser artista a tempo inteiro. Hoje tenho amigos que, mesmo conhecendo-me bem, acham que é fácil para mim. Mas nem sempre foi fácil. Sacrifiquei muito conforto, algumas saídas à noite com amigos, tive muitas dificuldades para pagar rendas e nunca jantava fora. Não passava férias caras.” Era assim que pagava a aprendizagem das várias formas de expressão que queria seguir.

Um dia, a sua teimosia voltou a sobrepor-se a um novo desafio: devido a um problema de voz, foi aconselhada por pessoas muito próximas a esquecer o canto porque o tratamento era muito caro. Mas Márcia, Ana Márcia de Carvalho Santos no assento de nascimento, voltou a contrariar esses conselhos. “Procurei e encontrei o serviço de terapia de voz no Hospital Egas Moniz, pelo SNS. Eu era elegível, as consultas custavam cerca de 3 euros. Nunca desisti e sempre usei a minha criatividade para criar mais do que arte, para criar soluções.”

Mais tarde, chegou um convite de uma editora para gravar um disco. Teria sido tentador dizer que sim e iniciar uma carreira com maior visibilidade? “Se me tivessem convidado para gravar um disco com as canções como as tinha composto, eu teria aceitado.” Mas não era essa a proposta, conta Márcia, hoje com 44 anos: “Nessa altura não queria fazer nada que não fosse exatamente aquilo que tinha como meu e a minha expressão natural. A música era a minha forma de desabafar; se perdesse isso, perdia tudo o que me movia. O meu propósito, a minha confidente (a música), a minha linguagem. Acho que perderia a minha alegria e me perderia a mim própria.”

Ter optado por esperar outro convite – viria anos depois, pela mão de Henrique Amaro – foi importante: “Ganhei muito. O desafio é sermos nós próprios durante a vida em tudo o que for possível e conseguir chegar àqueles que vão gostar de nós genuinamente. Assim seremos livres e felizes.” Hoje, o conselho que daria a um jovem que estivesse perante uma oportunidade importante seria: “Não te forces a nada que não estejas preparado. Teima em seres aquilo que és porque, por mais gente gira que esteja na moda, seguramente não há ninguém como tu.” À jovem Márcia, agradeceria: “Dir-lhe-ia que é uma miúda excelente e muito corajosa. Dir-lhe-ia: Brava! por ter sido tão determinada a seguir o curso de Pintura, a música, a escrita, e a sua liberdade.”

Ser adulto é saber dizer não ou ainda não? Para Márcia, é dizer “Não”: “Até que as condições sejam diferentes, até que estejam em conformidade com aquilo que sabemos que queremos, com aquilo que somos.”

A primeira exposição de Márcia em Lisboa

O Atmosfera m Lisboa, espaço de cultura do Montepio Associação Mutualista, acolhe até 15 de outubro a exposição “Naquele momento parecia tão certo, não foi?”, de Márcia. A mostra reúne um conjunto de pinturas da artista multidisciplinar.

Para a curadora Patrícia Reis, o título acompanha-nos durante toda a exposição “como uma pergunta que não procura resposta”.

A também jornalista e escritora acrescenta que as pinturas de Márcia são “uma recusa da espetacularidade”, em que “a intimidade nunca se oferece como confissão; manifesta-se através da contenção, da escala, da relação entre o vazio e aquilo que o habita”. A exposição pode ser vista todos os dias úteis, das 09h00 às 18h00, na Rua Castilho, 5, em Lisboa.

Um espaço para ficar

A exposição de Márcia é uma das muitas propostas que passam pelo Atmosfera m. Os espaços culturais do Montepio Associação Mutualista em Lisboa e no Porto funcionam como um ponto de encontro entre gerações, aberto a toda a comunidade. Recebem exposições, oficinas, concertos, debates e outros eventos ligados à arte, ao bem-estar e à cidadania.

A programação é regular e cruza linguagens. O ciclo de cinema Claquete já passou pelo cinema italiano, por filmes sobre gastronomia e pelo cinema independente francês e inglês. As paredes já acolheram a vida e a carreira de Pedro Abrunhosa, os 100 anos de Mário Soares e os 20 anos do festival de Paredes de Coura pelas lentes de Alfredo Cunha. Há apresentações de discos, como a reedição de Galinhas do Mato, de José Afonso, e conversas ao vivo com atores como Maria de Medeiros.

Mas o Atmosfera m também é um lugar para se estar sem planos. Pode entrar só para tomar um café, estudar com calma ou visitar. Em Lisboa, a biblioteca está sempre aberta ao público. No Porto, há uma ludoteca para crianças até aos 12 anos.

Os dois espaços Atmosfera m estão abertos nos dias úteis, das 09h00 às 18h00. Lisboa fica na Rua Castilho, n.º 5, e o Porto na Rua Júlio Dinis, n.º 158. Consulte a programação atualizada em montepio.org e no Instagram do atmosfera m.

Um poveirinho em Moscovo

Das Caxinas a Moscovo em linha reta são mais de 3 600 km. Mas num tempo em que o mundo se dividia entre o bloco ocidental e o bloco comunista, a distância entre uma zona piscatória do litoral norte português e a então capital da União Soviética não se media assim.

Para José Milhazes, então com 18 anos, esta era a distância de cumprir o dever, apesar das saudades. “É uma questão de fé. Na fé, a racionalidade é muito pouca”, conta o jornalista cinco décadas após aquela que foi a sua primeira viagem de avião e o início de uma aventura que marcaria o seu destino pessoal e profissional para sempre.

Quando surgiu a possibilidade de ir estudar para um “país socialista” com uma bolsa de estudo, a União Soviética nem tinha entrado na sua lista. “Tinha Cuba, Bulgária e, acho, também a Alemanha Oriental. Mas tive a sorte de ficar em Moscovo. Era um lugar onde havia menos dificuldades do que nos outros lugares para arranjar produtos essenciais. Dependia muito da resistência pessoal.”

Do aeroporto, levaram-no num autocarro com mais bolseiros para uma residência num bloco com 22 andares onde viviam estudantes russos e estrangeiros. “Estávamos um tanto ou quanto desorientados. Não tinha capacidade de digerir tanta coisa nova ao mesmo tempo. Principalmente quando não se sabe a língua”, conta. Ya ne ponimayu, ou “não entendo”, foi precisamente uma das primeiras expressões que aprendeu. O convívio com os colegas e as aulas focadas na língua e na cultura ajudaram-no a fazer aquilo que chama uma “integração superficial rápida”.

“Mas depois temos de ter bastante tempo para aprofundar as coisas.” No seu caso, foram 38 anos em que se casou, formou família e se tornou uma das vozes portuguesas que traziam as notícias da Rússia.

No entanto, antes de tudo isso foi preciso aprender a “desencascar-se”. José Milhazes tinha chegado a Moscovo com uma mala praticamente vazia. “Estava convencido que no comunismo não havia problemas com essas coisas.” Havia. “Vestia a roupa de amigos, mas ficava curta porque sou muito alto.” A bolsa de estudante nem sempre chegava ao fim do mês. Recorda-se de uma vez, já só com um rublo na carteira e com “uma fome tenebrosa”, ter decidido andar de elétrico sem comprar bilhete para poupar. Logo por azar, foi apanhado por uma revisora.

Quando a cidade recebeu os Jogos Olímpicos, em 1980, e se pretendeu “mostrar ao mundo que a União Soviética estava de boa saúde”, foram postos à venda produtos que até então não existiam nas prateleiras. “Uma vez, numa loja, vejo uma caixa de sabonetes Lux. Comprei a caixa toda, cheguei à residência e troquei-a por outras coisas.” Também encontrou rapidamente outras atividades que lhe permitiam compor a magra bolsa de estudante: traduzia filmes e revistas de propaganda para português. “Isso permitia ganhar dinheiro suficiente para se viver mais ou menos bem”, refere.

“Às vezes, acontecia um momento mais baixo, mas nunca coloquei a possibilidade de me vir embora para Portugal”, relata. Nem sequer nos primeiros tempos, em que tudo era estranho – até as natas na sopa, de que hoje já não abdica – e os bens escasseavam. “Não tinha grandes ilusões. Eu era de uma família bastante humilde, por isso não me podia dar ao luxo de telefonar para os meus pais e pedir-lhes dinheiro para o avião, que era uma fortuna. Havia momentos em que tinha saudades, mas passavam”, diz José Milhazes.

E até o ato de telefonar para casa era uma aventura. Mais uma vez, não apenas pela distância geográfica, mas por tudo o que implicava viver na União Soviética. “Não havia liberdade de expressão, tínhamos de ter cuidado para falar com os nossos colegas soviéticos”, descreve. “Não me passava pela cabeça ir à casa de um soviético para ligar para Portugal, porque ele teria grandes chatices. Íamos a um posto de correio, encomendávamos a hora e esperávamos para ver se a telefonista conseguia, ou não, telefonar.” Podia haver uma avaria ou as linhas estarem sobrelotadas.

Depois, do lado de cá também havia dificuldades que podiam impedir o contacto. “A minha família não tinha telefone em casa, tinha de ir ao outro lado da rua a uma vizinha. A minha mãe, o meu pai ou irmãos iam a correr, isso demorava. Já em 1985, só consegui transmitir à minha família o nascimento do meu filho uma semana depois de ter acontecido.”

“Em casa, completamente, nunca me senti. E tive sempre consciência de que era português e poveirinho, pela graça de Deus.”

O rapaz de Omaha

Em março de 1942, nos Estados Unidos, um rapaz de 11 anos juntou as poupanças e comprou três ações da Cities Service Preferred para ele e outras três para a irmã, Doris, a 38 dólares cada. Chamava-se Warren Buffett. Muitos anos depois, haveria de resumir aquele momento com humor: disse que fez o primeiro investimento aos 11 anos e que, até aí, tinha andado a desperdiçar a vida.

Tinha crescido entre números. O pai era corretor da bolsa e, ainda criança, o pequeno Warren passava tempo no escritório dele, a escrever a giz as cotações no quadro. Aos 10 anos, o pai levou-o a visitar a Bolsa de Nova Iorque.

A primeira lição chegou depressa. Pouco depois da compra, as ações caíram para os 27 dólares. O rapaz assustou-se, mas aguentou. Quando recuperaram para 40, vendeu, com um pequeno lucro. Arrependeu-se pouco depois, quando a Cities Service disparou para perto de 200 dólares por ação. Mais tarde, apontaria aquela venda apressada como uma primeira lição de paciência.

Não parou por aí. Aos 13 anos, distribuía jornais e vendia um boletim de palpites para corridas de cavalos, feito por ele. No fim de 1944, já com 14 anos feitos, tinha ganho mais de 592 dólares, o suficiente para as regras da época o obrigarem a entregar declaração de impostos. Deduziu 35 dólares em despesas, entre a reparação de um relógio e gastos com a bicicleta, e pagou 7 dólares de imposto. Aos 16, já tinha juntado 5 000 dólares.

É fácil ler esta história a partir do fim, sabendo no que aquele rapaz se tornou. Mas em 1942 era apenas um miúdo que arriscou as poupanças, as viu encolher, vendeu cedo demais e percebeu o erro sozinho. Nenhum adulto lhe devolveu a diferença.