olteiros, divorciados ou viúvos. Há um lado inteiro da vida financeira que se geria a dois que fica em suspenso com o primeiro imprevisto, a primeira grande decisão. Como se gere o dinheiro quando não há ninguém do outro lado?
Quando o marido morreu, há quatro anos e meio, Idalina Basílio não teve apenas de aprender a viver sem ele. Teve, também, de resolver sozinha uma sucessão de questões práticas que, até então, faziam parte da vida dos dois. Havia um crédito à habitação que se prolongou até três meses após a morte de Rodrigo, seguros para tratar, assim como todas as decisões sobre o património e as burocracias próprias de um óbito. E tudo isto aconteceu ao mesmo tempo que lidava com a perda. “É um desgaste emocional enorme, a juntar ao desgaste da própria perda, que é o principal”, revela em entrevista à revista Montepio.
Bancária de profissão, Idalina conhece o sistema financeiro de trás para a frente e está habituada a gerir o dinheiro da família. Mas assim que ficou viúva, percebeu que havia uma diferença entre conhecer os caminhos do dinheiro e ter de tomar todas as decisões sozinha. “Comecei a reorganizar tudo, e a pensar que, antes de gastar, tenho que pensar se devo, ou não, fazê-lo”, explica.
O primeiro grande teste surgiu em dezembro de 2024, quando teve de tomar uma decisão para ajudar a mãe a comprar a casa de que era inquilina. “A senhoria estava a vender o imóvel e tinha de ser uma decisão super-rápida, que tomei sozinha. Dizia para mim: ‘Compro ou não compro? Ajudo ou não ajudo?’ Havia uma mistura de medos, porque teria de utilizar todas as minhas poupanças. Não foi fácil”, explica Idalina.
Dois meses antes, já tinha tomado uma decisão com bastante impacto financeiro: aceitou uma proposta do seu empregador para a aposentação antecipada, aos 58 anos, reduzindo o seu rendimento mensal entre 700 a 1 000 euros. “Depois de uma perda [como a do marido], começamos a relativizar o que é importante para a vida. Se calhar ter um carro muito bom já não interessa; se calhar ter mais paz e tranquilidade para conseguir andar em frente é mais importante”, garante.
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Os minutos a seguir à má notícia
O dinheiro que fica e o que desaparece
Há uma tendência para pensar no impacto financeiro de uma morte, sobretudo, através do rendimento que desaparece. Mas, para quem fica, a mudança pode ser bastante maior.
Alexandra Coelho, psicóloga clínica e presidente da InLuto – Associação Portuguesa de Cuidados Integrados no Luto, explica que, numa família, o dinheiro é apenas uma das dimensões que podem ficar desorganizadas. Há tarefas que estavam distribuídas pelo casal e que, de repente, ficam sem responsável.
“Quando uma pessoa morre, não perdemos apenas o rendimento que ela trazia. Perdemos também as funções que desempenhava”, explica.
Quem tratava das contas? Quem fazia o IRS? Quem sabia onde estavam determinados documentos? Quem tinha maior noção das despesas fixas da família? São perguntas que podem parecer banais quando tudo está a funcionar, mas que se tornam peças de um puzzle por acabar quando a pessoa que não sabe a resposta fica sozinha.
“Há muita insegurança em relação ao futuro. Em como é que uma pessoa vai, sozinha, conseguir reorganizar toda a vida sem este contributo tão importante, quer em termos financeiros, quer em termos práticos e instrumentais”, explica Alexandra Coelho.
Tratar destas burocracias traz stress adicional a uma situação de vida já de si complexa. “Uma pessoa que nunca entregou o IRS, que nunca tratou da gestão das contas… há várias pessoas que me dizem: ‘Eu nunca levantei dinheiro porque era sempre o meu marido’”, exemplifica a psicóloga.
Idalina Basílio recorda que, nos primeiros tempos, ficou chocada com a falta de empatia das pessoas com quem tinha de tratar das burocracias. “Estava sistematicamente a repetir o mesmo. Isto causa um desgaste enorme”, diz. Alexandra Coelho diz que é uma situação normal e que junta a carência emocional, de alguém que agora está sozinha e ninguém atende às suas necessidades, à carência prática, de quem não sabe fazer nem para onde se virar.
No caso das viúvas, a situação pode agudizar-se. “Na cultura portuguesa, muitas vezes ainda é atribuída ao homem a área financeira do casal. E quando é essa pessoa que falece, a mulher fica completamente desorganizada, sem saber o que há de fazer”, refere Alexandra Coelho. Com os filhos sobrecarregados com as suas próprias responsabilidades como pais e profissionais, a situação torna-se mais complicada. Idalina, que já passou pela situação, deixa um conselho: “Não devem depender da outra pessoa, saibam gerir as vossas finanças.”
InLuto: uma associação para quem fica
“É quase como se uma parte da nossa identidade tivesse realmente desaparecido.” É assim que Alexandra Coelho, psicóloga clínica especializada no luto e no trauma, se refere ao que sente uma pessoa depois de perder o companheiro de vida. Foi para dar resposta a esse vazio — que não é só emocional, é também prático e financeiro — que nasceu, em 2021, a InLuto (Associação Portuguesa de Cuidados Integrados no Luto). Fundada por um grupo de profissionais com experiência clínica na área, a InLuto abrange vários temas ligados a quem perdeu alguém. Disponibiliza consultas de psicologia e de pedopsiquiatria, organiza grupos de partilha entre pares e apoio às famílias, mas também retiros, caminhadas e formação para professores e outros profissionais que lidam, no dia a dia, com pessoas em luto.
Depois da aposentação, Idalina Basílio tornou-se voluntária na InLuto. A antiga bancária conheceu Alexandra Coelho após o marido ter sido acompanhado na unidade de cuidados paliativos de Santa Maria e de ter sido o próprio hospital a, depois da morte, lhe oferecer apoio psicológico. “Na altura, achei que não precisava. Mas a minha filha disse: ‘Mãe, acho que precisas de ajuda. Sozinha vai ser sempre mais difícil.’ E em boa hora procurei ajuda.”
Hoje, Idalina sente-se feliz a ajudar quem está a passar pelo que ela já passou, sendo a cereja no topo do bolo o facto de a sede da associação ficar em frente ao seu antigo local de trabalho. “Vejo-os quase todos os dias”, conta. Assim, para esta antiga bancária ajudar também é uma forma de recomeçar.
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Até que o divórcio os separe
A morte não é a única forma de uma pessoa ficar, de repente, sozinha perante os seus compromissos financeiros. Numa separação, desaparece uma parte daquele que, até então, era o orçamento da casa.
Foi o que aconteceu a Catarina Vieira [nome fictício, a pedido da própria], de 43 anos. Quando se separou, em outubro de 2023, a casa e o respetivo crédito à habitação estavam em seu nome. Ela tinha comprado a casa, mas, durante a relação, o companheiro contribuía com cerca de metade da despesa. “De um dia para o outro, os 50% deixaram de entrar”, recorda.
Na prática, aqueles 50% faziam uma diferença grande num orçamento que tinha ainda de acomodar as despesas do filho, as contas da casa e todos os gastos que continuaram a existir mesmo quando o agregado familiar mudou.
“A primeira coisa que fiz foi entregar ao banco o meu atestado médico de incapacidade multiusos, que sabia que podia fazer mas andava sempre a adiar. Foi precisamente na altura em que as taxas de juro começaram a subir imenso, com subidas na prestação de 100€”, recorda.
Catarina diz que sempre foi organizada com o dinheiro e tinha o hábito de poupar. “A minha mãe diz que o meu dinheiro é ‘fêmea’, porque sei multiplicá-lo [risos].” Mas, olhando para trás, percebe que uma coisa é ter uma poupança familiar e outra é ter uma reserva com uma dimensão que permita a cada pessoa atravessar sozinha um período de maior dificuldade. No início da separação, essa diferença tornou-se evidente.
“Tive dois ou três meses em que cheguei a pedir dinheiro emprestado a amigos — pouco — para não ficar com a conta a negativo por causa do empréstimo”, recorda.
Paralelamente, teve de reaprender a gerir a vida financeira. Durante a relação, algumas tarefas estavam distribuídas entre os dois. Catarina tratava sobretudo da gestão do dia a dia, das compras e das despesas correntes. O companheiro tratava de outras questões mais administrativas: seguros, contactos com o banco, renegociação de serviços, procura de alternativas quando alguma despesa podia ser reduzida.
Quando ficou sozinha, passou a ter de fazer também essa parte. “Nunca tive muita paciência para falar ao telefone para renegociar contratos, comparar ofertas”, explica. “Mas tive de inteirar-me mais dessas coisas, arranjar estratégias para começar a fazê-lo.” Para tal, refinou as pesquisas de literacia financeira online e pediu ajuda a uma amiga. “É perita nisso, anda sempre atenta às promoções, formas de dar a volta às mensalidades, e falo muito com ela quando tenho dúvidas.”
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Apagar fogos sem se queimar
Catarina diz que não há propriamente uma preparação para este momento. “Havia a necessidade de resolver as coisas à medida que apareciam. Apagar fogos”, conta.
Alcina Rosa, psicóloga que acompanha situações de divórcio, diz que, muitas vezes, esta aprendizagem acontece ao mesmo tempo que a pessoa está a lidar com a própria separação. “Há muita coisa que tem de ser resolvida”, afirma. “Não é só a questão emocional. Há a casa, os filhos, os bens, os créditos, as contas.”
Segundo a psicóloga, a separação acaba por trazer para cima da mesa questões que, durante a relação, permaneceram divididas entre os dois. O fim de uma relação pode implicar a reorganização das responsabilidades parentais, a divisão do património e a necessidade de encontrar uma nova forma de sustentar a vida quotidiana.
“A partilha dos bens é normalmente o que gera mais confusão. E às vezes pode durar anos. Conheço casos que andam nisso há oito, dez anos, e recorrem a todos os adiamentos possíveis, vão a todas as instâncias para adiar ao máximo”, explica a psicóloga.
O dinheiro, sempre ele. “Normalmente é o dinheiro, é a casa, são os carros, tudo o que tenha valor”, resume Alcina Rosa, que garante que já assistiu a casos que roçam o surrealismo, com casais a contabilizar os presentes que deram uns aos outros, ou até os objetos e ajudas que os pais partilharam com o casal. “Quando há partilhas, as pessoas diminuem a sua riqueza. E não gostam de ficar a perder.”
Há outros casos, conta Alcina, em que o dinheiro, ou o mau uso dele, é a ferida que causa o divórcio. “O dinheiro está sempre no centro da nossa vida, e faz aflorar em quase todas as pessoas aquilo que é menos bonito, mais feio, da sua personalidade.”
“A partilha dos bens é normalmente o que gera mais confusão. E às vezes pode durar anos. Conheço casos que andam nisso há oito, dez anos.”
O dinheiro no meio do conflito
Hoje, Catarina está mais desafogada. Admite que não tem um “acordo formal” com o ex-companheiro, tendo ficado “estabelecido” que ele paga a escola na totalidade, o que funciona como pensão de alimentos. “Depois, tudo o resto tentamos dividir: as compras que fazemos, por exemplo roupa, as idas ao médico, as despesas extra.”
Recentemente, Catarina considerou mudar o filho de escola, para um colégio com melhores condições. “Mas não o consigo fazer sozinha porque o novo colégio é mais caro. E o pai já disse que não tínhamos condições para pagar tanto, mas eu sei que ele tem condições para o fazer. Estou a tentar ser diplomata e negociar de outra forma”, explica.
É também nas despesas dos filhos que o dinheiro pode prolongar conflitos que começaram muito antes de as contas aparecerem. Alcina Rosa acompanha situações em que os antigos companheiros continuam a ter de tomar decisões em conjunto, mesmo depois de deixarem de viver como casal.
“Há pessoas que entendem que a pensão de alimentos é para a mãe e não para o filho”, conta a psicóloga. Na realidade, explica, trata-se de uma contribuição para as despesas da criança, que continuam a existir depois da separação.
A psicóloga já acompanhou situações em que a discussão financeira deixa de ser apenas sobre o dinheiro. Pode passar a ser uma forma de prolongar o conflito, de compensar uma mágoa ou de tentar fazer com que o outro sinta as consequências da separação. “Há pessoas que querem fazer alguma coisa ao outro através do dinheiro.”
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Uma casa, um salário, muitas contas
Nem sempre é preciso uma separação ou uma morte para perceber o que significa gerir uma vida financeira sozinho. Para Maria Lopes [nome fictício, a pedido da própria], essa realidade foi sendo construída aos poucos, desde que saiu de casa dos pais para estudar em Lisboa, em 2004.
Começou a trabalhar em 2007 e, mais tarde, conciliou o trabalho com um mestrado. Pelo caminho, partilhou casa com a irmã, até ela emigrar. Maria ficou. E acabou por construir uma vida inteira à sua medida, incluindo uma casa que paga sozinha.
Hoje, aos 40 anos, vive num T2 no Lumiar. A renda é de 630 euros por mês, um valor que considera importante preservar, sobretudo tendo em conta os preços atuais do arrendamento em Lisboa. No ano passado, os senhorios quiseram aumentá-la em 100 euros. Maria recusou. O contrato, de cinco anos, está agora a entrar no terceiro ano e, para ela, manter aquela renda é uma das condições para continuar a viver onde está sem desequilibrar o orçamento.
“É muito pouco, tenho noção disso, mas também é a única maneira de eu conseguir morar aqui”, explica. A renda é a maior despesa fixa, mas está longe de ser a única. Há a eletricidade, a água, a internet, o carro, os seguros e todas as despesas que, numa casa com apenas um rendimento, não podem ser repartidas por outra pessoa.
“Há sempre um eletrodoméstico que avaria, há sempre um mês de muito frio em que gasto imenso em eletricidade”, refere. Com apenas um salário, Maria aceita trabalhos externos para obter rendimentos extra. “Esse dinheiro vai para os imprevistos. Há um mês em que preciso de ir ao médico três vezes e o seguro não cobre tudo, ou uma avaria no carro e aparece uma fatura de 400 euros. Uso o dinheiro que faço a mais para essas coisas”, explica.
Nos últimos três anos, a jornalista tornou-se minuciosa no modo como acompanha as finanças. Regista as despesas numa folha de Excel, consulta os movimentos da conta regularmente e procura perceber onde está a gastar mais do que gostaria. “Percebi que, nos últimos três anos, estava a gastar dinheiro a mais. Várias vezes penso: ‘Mas porque fui gastar, sei lá, 120 euros em roupa?’” Quando vê os números, repensa as despesas e, diz, sente-se mais segura financeiramente. “Fui criando minicontas para as várias coisas. Sei exatamente quanto dinheiro tenho para pagar impostos, para férias, para a casa e para o fundo de emergência, que vou reforçando.”
Nascida em 1986, Maria costuma dizer que chegou ao mundo no ano errado. Entrou no mercado de trabalho na crise do subprime, em 2007, ano em que o Governo português substituiu o Incentivo ao Arrendamento por Jovens (IAJ) pelo mais restritivo Porta 65. Finalmente, já tinha 37 anos quando o Governo lançou a Garantia Pública no Crédito à Habitação para Jovens, que permitia o financiamento de até 100% do valor da aquisição, através de uma garantia pública de até 15%, e o IMT Jovem, que isentava os jovens até aos 35 anos do pagamento de IMT e Imposto do Selo na compra da primeira habitação própria e permanente.
“Não apanhei nada disso”, confessa com tristeza. Um facto que apenas veio reforçar a necessidade de organização financeira. “No outro dia, estava a falar com um amigo que é casado e tem uma filha, e ele dizia-me: ‘Ah, tu ganhas acima da média.’ Acredito que posso ter um salário superior ao dele, mas depois tive de lhe explicar que pago tudo sozinha e ele é casado, divide com outra pessoa.”
Viver sozinha é também estar constantemente a pensar na próxima fonte de rendimento. Maria confessa que anda “há anos” a adiar um plano de poupança para a reforma, mas não passa de 2026. “Já fui a uma reunião, já decidi o que vou fazer.”
Sabe, também, que sozinha a reforma não chega. “Acho evidente que ficarei numa situação muito fragilizada se depender só da reforma que vou ter.” Por isso, tenciona juntar-se às duas irmãs para reabilitar uma casa que vai herdar da mãe e pô-la a render, seja em arrendamento a longo prazo, seja em alojamento local. Desta vez, não está sozinha.
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O dinheiro depois do “nós”
A história foi contada pelo jornal inglês The Guardian. Cassandra — nome que o jornal também mudou para proteger a sua identidade — tinha tudo o que costuma passar por segurança: uma casa de milhões, carros de luxo, um marido com rendimentos elevados, os filhos em escolas privadas. Quando o casamento acabou, essa segurança financeira não só não a protegeu, como deixou de estar ao seu alcance.
O processo de divórcio prolongou-se durante anos e, à medida que a batalha jurídica avançava, as contas dela foram-se esgotando. E Cassandra acabou a dormir no sofá de uma amiga, sem dinheiro para sustentar a disputa da guarda dos filhos em tribunal. “Como é que uma pessoa como eu podia acabar sem casa?”, perguntava-se, já a receber apoio social.
Nenhuma das histórias que contamos neste artigo assume esta dimensão. Mas todas partilham a mesma pergunta de fundo: o dinheiro que parece seguro porque está lá, guardado, a dois, continua a ser assim tão seguro no dia em que deixa de haver um “dois”?
Catarina reconhece a mesma ilusão à escala da sua própria vida. “Os meus fundos de maneio sempre foram coletivos, dos dois.” Era, diz, o que lhe parecia normal. Viver a dividir tudo, incluindo a reserva para os imprevistos. Só quando a relação acabou é que sentiu a diferença entre ter dinheiro guardado e ter dinheiro a que, de repente, já não tinha o mesmo acesso. Hoje tem um fundo de maneio só dela, imune a imprevistos.
Idalina já pagou a casa da mãe, sem perguntar a ninguém se devia ou podia. E Maria continua, mês a mês, a atualizar a folha de Excel onde regista cada euro que gasta. O que mudou nas finanças quando ficaram sozinhas? A vida decidiu por elas.
Quando o dinheiro é um segredo
Há um pormenor que a psicóloga clínica Alcina Rosa diz notar cada vez com mais frequência no seu trabalho como perita nomeada pelos tribunais: cada vez mais homens pedem a guarda partilhada dos filhos. Não necessariamente por quererem estar mais presentes, mas para não terem de pagar pensão de alimentos à mãe.
“Estou a lembrar-me de casos em que as crianças acabam sistematicamente em casa da mãe, mas assim ele não tem de pagar”, conta. Viu também situações em que o pai, com mais posses, considerava estar a “enriquecer” a mãe ao pagar um telemóvel de última geração ao filho, enquanto os livros escolares tinham de ser pagos pelo Estado porque a mãe, com o ordenado mínimo, não conseguia suportar tudo naquele mês.
Alcina Rosa também acompanhou um caso em que só a morte revelou que um dos elementos do casal tinha vários cartões de crédito com juros elevados e compromissos bancários que a mulher desconhecia por completo. “A mulher achava estranho haver tanto dinheiro em falta”, recorda a psicóloga. “Ela tentou perceber, mas ele nunca permitiu, mesmo sabendo que ia falecer.” Só depois de ele morrer é que os problemas vieram ao de cima. E foi preciso o apoio de uma filha e das próprias entidades bancárias que, nestes casos, atuam muitas vezes como facilitadoras, para a mulher reorganizar a vida.
O conselho prático que Alcina Rosa dá a quem ainda vive em casal é sempre o mesmo: uma conta conjunta para as despesas comuns, e duas contas individuais, cada uma com a sua margem de autonomia. É esta baliza de segurança que permite que, se a relação alguma vez acabar, ninguém tenha de começar do zero a aprender a gerir sozinho aquilo que nunca geriu.