Onde estão os adultos?

Onde estão os adultos?
Ilustração de Shutterstock

Aos 15 anos, Helena Sacadura Cabral entrou no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (atual ISEG), em Lisboa, de tranças, lacinhos e soquetes. Entre mais de um milhar de alunos, era a mais nova e uma das raras raparigas. Talvez por isso, gozaram com ela e mandaram-na de volta para a escola primária.

Tinha bons motivos para desistir logo ali. O pai reservava-lhe o destino das meninas da média burguesia lisboeta e recusava-se a pagar-lhe a faculdade. Helena fez as contas e tomou algumas decisões para continuar a estudar. Primeiro, tornou-se a melhor aluna para garantir uma bolsa de estudos; depois, deu explicações durante o dia, o que a obrigava a estudar à noite.

Quando a associação académica lhe pediu os apontamentos para as sebentas, Helena não os deu. Propôs vendê-los e receber uma percentagem de cada exemplar. Afinal, já não estava na escola primária.

Hoje, aos 91 anos, admite que teria sido mais fácil aceitar o caminho que lhe estava destinado. Mas, aos 10 anos, já tinha decidido que não queria depender de ninguém e começou por aprender a gerir a semanada. Crescer, na vida dela, foi perceber que a liberdade tem um custo. E decidiu pagá-lo.

Nem todos chegam lá pelo mesmo caminho. No tema de fundo desta edição, três portugueses contam-nos o momento em que perceberam que o adulto eram eles. Márcia teimou em ser pintora e cantora quando lhe aconselhavam prudência; José Milhazes trocou as Caxinas por Moscovo aos 18 anos, com uma mala quase vazia. São histórias diferentes, mas com a mesma descoberta: o futuro começa a decidir-se muito antes de sabermos que é disso que se trata.

Até ao fim da estrada

Em 2016, a revista Montepio foi à procura dos agentes provocadores da mudança: criativos e curadores que, através da cultura, tentavam mudar a sociedade. Jorge Palma foi um deles. Respondeu-nos por escrito, em folhas preenchidas com a sua letra caótica e garrafal. “Como em todas as artes, existe na canção uma função catártica e, em grande parte delas, uma mensagem que pode ser mais ou menos explícita e intencional. E quando essa convivência entre texto e música é conseguida, mais cedo ou mais tarde acaba por influenciar e fazer parte do imaginário coletivo.”

Jorge Palma deixou-nos na noite de 21 de setembro. As suas canções, que há décadas entoamos como nossas, fizeram também parte da história do Montepio Associação Mutualista, que o recebeu diversas vezes ao longo dos anos: nos concertos de aniversário, na Atmosfera m e no festival Montepio Às Vezes o Amor.

Nessas mesmas folhas, Jorge Palma explicava como escolhia o que escrevia: “Tenho procurado sempre escrever canções que me satisfaçam no momento ou façam sentido para mim, e com as quais preveja um bom convívio até ao fim da estrada, continuar a cantá-las com prazer e convicção.”

Entre elas há uma cujo título podia servir de legenda a esta edição: Nunca é tarde para se ter uma infância feliz. Perceber que o adulto na sala somos nós não nos obriga a fechar a porta à criança que fomos. Paradoxalmente, talvez seja esse o momento de cuidar dela.

Dois meses antes, a 22 de julho, tinha partido Luís Represas, no ano em que celebrava meio século de carreira. Também ele faz parte da nossa história. A 12 de outubro de 2006, a pedido do Montepio Geral – Associação Mutualista, o coletivo Trovante, do qual Represas fazia parte, subiu ao palco do Campo Pequeno. Foi apenas a segunda vez que o grupo se reuniu desde a separação. Represas e Palma chegaram a colaborar. Hoje, partilham a falta que nos fazem.

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