Irmãs Hospitaleiras: cuidar antes de ser tarde

Irmãs Hospitaleiras: cuidar antes de ser tarde
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á mais de 130 anos que as Irmãs Hospitaleiras colocam a pessoa, e não apenas a doença, no centro dos cuidados de saúde mental. Uma parceria com o Montepio Associação Mutualista ajuda hoje a tornar esses cuidados mais acessíveis às famílias associadas.

O ano é 1881. Em Ciempozuelos, perto de Madrid, uma mulher com doença mental não tinha acesso a um hospital, à possibilidade de um diagnóstico ou de um tratamento. Na melhor das hipóteses, era colocada num asilo; na pior, ficava na rua à mercê de si mesma e da indiferença de quem passava.

Na Europa do final do século XIX, era prática corrente abandonar à sua sorte os doentes mentais, sobretudo mulheres, e as crianças com deformações ou doenças infeciosas. Foi para responder a essa exclusão que o sacerdote italiano Bento Menni fundou, nesse ano, com duas religiosas espanholas, a Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. A missão chegaria a Portugal poucos anos depois e soma hoje mais de 130 anos de história no país, cuidando de quem, durante demasiado tempo, a sociedade preferiu esquecer.

“Hoje sabemos muito mais sobre as doenças mentais e os diferentes fatores que podem estar na sua origem, quer sejam biológicos, psicológicos ou sociais”, explica Alexandre Mendes, médico psiquiatra e diretor clínico das Irmãs Hospitaleiras de Condeixa-a-Nova.
Sabe-se, também, que as doenças mentais podem afetar qualquer pessoa e que, com o acompanhamento certo, é possível recuperar e ter uma vida plena.

“A própria psiquiatria mudou”, continua o psiquiatra. “Temos hoje tratamentos mais eficazes, equipas multidisciplinares e uma preocupação crescente com a pessoa no seu todo, seja a autonomia, a recuperação e a integração da pessoa na comunidade.”

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Um estigma que ainda pesa

Quando falamos em saúde mental, os últimos anos têm sido pródigos em novidades. O estigma tem vindo a diminuir, sobretudo pela maior visibilidade dada aos problemas psicológicos. Hoje é mais fácil falar de ansiedade ou de estados depressivos e procurar ajuda.

No entanto, Alexandre Mendes avisa que os estereótipos e a discriminação associados a estas patologias “estão ainda muito presentes no nosso quotidiano”, principalmente quando falamos de “doenças mentais graves”. E continuam a condicionar o acesso aos cuidados e a atrasar diagnósticos e tratamentos.

“É crucial continuar a promover a literacia em saúde mental, de forma estruturada e consistente, e uma cultura de compreensão e inclusão, na qual pedir ajuda seja encarado com naturalidade e sem preconceitos. É uma missão de todos, a começar pelos profissionais de saúde, pais, professores, educadores, agentes de segurança, entidades patronais e agentes políticos. Todos podem fazer a diferença e todos fazem diferença.”

Esse mesmo estigma atinge, de forma ainda mais silenciosa, os cuidados paliativos e o internamento psiquiátrico, dois temas que, para muitas famílias, continuam a ser tabu. “Falar de cuidados paliativos ou em internamentos em unidades de psiquiatria costuma ser um tema sensível, muitas vezes associado a uma ideia de fracasso das atitudes terapêuticas”, reconhece Alexandre Mendes. A mudança que defende é de perspetiva: “Precisamos de transferir o foco do diagnóstico, das intervenções terapêuticas e do prognóstico das doenças para o processo de cuidar e aliviar o sofrimento do outro que pede ajuda.”

Procurar ajuda mais cedo, sublinha, não é apenas uma vantagem clínica. Significa, sobretudo, aliviar e acompanhar o sofrimento do outro, cuidar melhor e preservar a dignidade e a qualidade de vida da pessoa.

É esse princípio de intervenção precoce que hoje orienta parte da resposta das Irmãs Hospitaleiras. Com 12 unidades de saúde especializadas em psiquiatria, saúde mental, demências, reabilitação física e cuidados paliativos espalhadas por Portugal Continental e Ilhas, as Irmãs Hospitaleiras não são desconhecidas dos portugueses. E através da parceria com o Montepio Associação Mutualista agora conseguem chegar com condições mais acessíveis às famílias associadas.

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Cuidar antes de ser tarde

O princípio de chegar cedo, em vez de esperar pelo momento de crise, orienta o modo como as Irmãs Hospitaleiras respondem a duas das situações mais difíceis que uma família pode enfrentar: o diagnóstico de uma demência e a necessidade de cuidados paliativos.

No caso das demências, a intervenção não se limita à fase avançada da doença. O modelo assenta em três níveis: a prevenção e o acompanhamento ainda na comunidade, através de programas de estimulação cognitiva e consultas de especialidade; uma resposta especializada em regime de Área de Dia; e, quando é mesmo necessário, o internamento especializado.

O objetivo, explica o médico psiquiatra, é garantir a continuidade de cuidados e uma resposta progressiva às necessidades da pessoa. “[Esta estratégia] evita intervenções fragmentadas, atua no atraso do declínio cognitivo e funcional, promove a manutenção da autonomia, das capacidades funcionais e da qualidade de vida pelo maior período de tempo possível.”

Nos cuidados paliativos, a lógica é semelhante: quanto mais cedo a intervenção, maior a capacidade de controlar os sintomas e diminuir o sofrimento. Não só do doente, mas de quem cuida dele. O acompanhamento é multidisciplinar, e inclui também uma dimensão psicológica, emocional e espiritual, tanto para o doente como para os seus cuidadores.

“Uma pessoa vale mais que o mundo inteiro” é o lema das Irmãs Hospitaleiras, que conta com 12 unidades de saúde em Portugal

Cuidar da pessoa, não apenas da doença

“O modelo Hospitaleiro é uma forma de cuidar em que a pessoa é colocada no centro e não apenas os sintomas ou a doença.” É esta a distinção que Alexandre Mendes faz entre o modelo das Irmãs Hospitaleiras e uma resposta puramente clínica. O primeiro implica cuidar tendo em conta os sintomas e a doença, mas também “as potencialidades, os apoios, as expectativas, os gostos, o projeto de vida” de cada pessoa.

A missão, diz, não se esgota no diagnóstico ou no tratamento da doença, mas procura cuidar da pessoa na sua globalidade, na sua dignidade, autonomia, crenças e projetos de vida, através de uma abordagem que integra as dimensões clínica, psicológica, social, relacional e espiritual.

Não há hoje uma área mais urgente do que outra, assinala o médico. As necessidades variam de região para região, mas há sinais que se repetem: perturbações ansiosas e depressivas continuam a ser as mais prevalentes, enquanto quadros mais complexos, como a esquizofrenia e a doença bipolar, têm registado uma procura crescente.

Também aumentam os pedidos de ajuda em demências, perturbações do desenvolvimento intelectual, patologia aditiva, perturbações do comportamento alimentar e do neurodesenvolvimento. E, cada vez mais, os projetos são levados para fora das unidades, para dentro da comunidade, dirigidos a crianças, jovens e pessoas mais velhas.

É também aí, na comunidade, que se revela uma das facetas mais decisivas do trabalho das Irmãs Hospitaleiras: preparar as pessoas para o regresso. “Podemos afirmar que a reabilitação psicossocial é uma das áreas primordiais da intervenção nas unidades de saúde hospitaleiras”, diz Alexandre Mendes. Depois de tratada a doença, muitas pessoas integram programas de terapia ocupacional e de formação profissional, com o envolvimento das famílias e das estruturas da comunidade, dos centros de saúde aos serviços de psiquiatria e outras instituições.

Ou seja, o acompanhamento não termina com a alta. Continua até que a reintegração esteja, de facto, concluída. “Para que os benefícios alcançados até ao momento não se percam”, acrescenta o médico psiquiatra. Um princípio que remonta ao próprio fundador da instituição, Bento Menni, e ao lema que continua a orientar todas as unidades hospitaleiras: “Uma pessoa vale mais que o mundo inteiro.”

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Uma parceria que nasce da proximidade

É desta convicção — de que cuidar é, antes de mais, uma questão de proximidade — que nasce a ligação entre as Irmãs Hospitaleiras e o Montepio Associação Mutualista. “A parceria tem vindo a afirmar-se como uma forma concreta de aproximar os cuidados de saúde especializados das pessoas e famílias associadas Montepio”, resume Tiago Dias e Sá, coordenador do Gabinete de Comunicação e Marketing das Irmãs Hospitaleiras. Ao longo do tempo, a colaboração tem permitido disponibilizar condições de acesso aos cuidados prestados pelas Irmãs Hospitaleiras, reforçando uma relação assente em valores que são próximos às duas instituições, “como a solidariedade, o cuidado e a atenção às necessidades das pessoas”.

Com quase 186 anos de história, o Montepio Associação Mutualista é também uma instituição que assenta na ideia de solidariedade e apoio mútuo. E é nessa afinidade que a parceria com as Irmãs Hospitaleiras encontra terreno comum.

Atualmente, a colaboração abrange as diferentes áreas de intervenção das unidades de saúde hospitaleiras e traduz-se em condições específicas para associados e respetivos familiares: 10% de desconto em internamentos de psiquiatria, psicogeriatria, cuidados paliativos, reabilitação física e toxicodependência, e 5% em consultas de especialidade e tratamentos.

Tiago Dias e Sá é cauteloso quanto a atribuir ao desconto, isoladamente, o peso da decisão de uma família procurar ajuda. Mas reconhece que o acesso aos cuidados de saúde tem sempre uma dimensão económica, sobretudo quando estão em causa tratamentos prolongados ou internamentos. “As condições mais favoráveis podem representar uma ajuda importante para as famílias e reduzir uma das barreiras que, em determinadas circunstâncias, pode dificultar o acesso a cuidados especializados”, reconhece. Mais do que o valor do desconto em si, o que a parceria procura é aproximar as famílias de respostas diferenciadas, garantindo que a condição económica não seja um obstáculo adicional num momento de maior vulnerabilidade.

Sobre o que já foi conseguido com a parceria, Tiago Dias e Sá diz que as famílias valorizam a qualidade dos cuidados, a proximidade das equipas e o acompanhamento ao longo do percurso. Para o futuro, o objetivo passa por reforçar a divulgação das condições já existentes e por explorar novas formas de cooperação, num contexto em que os desafios da saúde mental, do envelhecimento e da dependência só tendem a crescer. “Queremos que esta seja uma parceria com impacto real na vida das pessoas: que facilite o acesso aos cuidados, aproxime respostas especializadas das famílias e contribua para uma sociedade mais solidária e atenta à saúde e ao bem-estar.”

É essa, no fundo, a mesma ideia que sustenta as Irmãs Hospitaleiras há mais de 130 anos: que cuidar bem de alguém começa por olhar para essa pessoa como um todo. E que nenhuma família devia enfrentar sozinha o momento em que mais precisa de ajuda.

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Porquê “irmãs” e não “irmãos”?

O nome remete para a congregação religiosa que está na origem de toda a obra: as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, fundada em 1881, em Ciempozuelos, por Bento Menni, mas cujos primeiros membros foram, precisamente, mulheres. Duas religiosas espanholas, María Josefa Recio e María Angustias Giménez, juntaram-se a ele para constituir a primeira comunidade dedicada a cuidar de mulheres com doença mental, uma população que na altura era particularmente negligenciada. São estas religiosas, e as que se lhes seguiram ao longo dos anos, que dão nome à instituição.

Historicamente, as Irmãs Hospitaleiras tratavam apenas mulheres, sobretudo em regime de internamento. Essa realidade mudou: a maioria dos Centros Hospitaleiros recebe hoje homens e mulheres. Também as respostas em ambulatório e em contexto comunitário — consultas, tratamentos de administração hospitalar, apoio domiciliário, projetos em contexto escolar — têm crescido, e já não distinguem, à partida, o sexo de quem procura ajuda.

Nos últimos anos, a congregação cresceu muito além de Portugal e Espanha. Está hoje presente em 25 países, em quatro continentes, e é liderada, a nível mundial, por uma portuguesa: a Irmã Idília Maria Carneiro, Superiora Geral desde 2024, depois de uma carreira de décadas dentro da estrutura portuguesa da congregação.

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