O que a cultura faz a quem não tem tempo para ela?

O que a cultura faz a quem não tem tempo para ela?
14 minutos de leitura
14 minutos de leitura
T

oda a gente diz que não tem tempo para a cultura. Para um concerto, para uma exposição, para um espetáculo. Mas o que ganham as pessoas quando finalmente se permitem parar para fruir da arte dos outros?

Sofia Reis já tinha completado 18 anos quando assistiu ao seu primeiro concerto. “Tinha de ir, ponto final.” No dia 2 de novembro de 2017, os norte-americanos Tank and the Bangas aterraram em Lisboa para atuar no Musicbox, histórico espaço de concertos entretanto encerrado. Sofia não faltou. E foram precisos mais cinco anos, em 2022, para ir ao segundo concerto da vida, o do rapper e produtor belga Stromae, também em Lisboa. “Quando quero ver um concerto é porque sei que o artista dá um bom espetáculo. E não é só a música, há outras coisas a acontecer”, explica por telefone.

Para esse segundo concerto, Sofia sabia que o cantor tinha, além da música, reservado várias surpresas para o público: um espetáculo de luzes que se moviam no palco e uma cenografia e estética escolhidas a rigor para cada músico. “Paguei o bilhete de um festival de verão só para ver aquele espetáculo. Cheguei cedo e fiquei num bom sítio”, continua.

Apesar da distância temporal entre eles, Sofia diz que os dois concertos foram memoráveis e ainda a acompanham na vida. Talvez, até, tenham contribuído para despertar a sua veia artística, que viu a luz do dia em fevereiro de 2024, quando a jovem de 27 anos, através do alter ego Capital da Bulgária, lançou o seu primeiro álbum Contei e Deixei que tu me Julgasses.

A história de Sofia é um exemplo de como uma experiência cultural pode deixar marcas que vão muito além do momento em que acontece. Mas que outro papel tem a cultura na nossa vida? E será que nos podemos dar ao luxo de ignorar a cultura que nos rodeia com uma justificação tão simples e tão banal: “Não tenho tempo.”

MONTEPIO CULTURA

O espaço Atmosfera m está diferente. Já o visitou?

Ver agenda

A cultura é desinteressante?

José Machado Pais, sociólogo e coordenador do Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses (2020), realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, já ouviu esta desculpa mais vezes do que consegue contar. “O tempo é o que dele fazemos”, responde.

Os números do seu inquérito confirmam que a nossa alienação com a vertente cultural começa muito antes da vida adulta. Mais de 70% dos portugueses nunca foram, em criança, acompanhados por um familiar a uma livraria, a uma feira do livro ou a uma biblioteca. Não houve quem os levasse, nem quem lhes oferecesse um livro. “Por falta de tempo?”, questiona Machado Pais. “É uma questão pertinente que merece reflexão.”

Os dados do inquérito, porém, sugerem outra explicação. Para uma parte dos portugueses, a cultura simplesmente nunca se tornou hábito. Quando perguntados porque não participam em certas práticas culturais, muitos respondem que as consideram aborrecidas, desinteressantes, ou que preferem ocupar o tempo de outra forma. “Entre alguns portugueses há hábitos culturais que nunca se enraizaram”, resume o sociólogo.

Um estudo do Centro Cultural de Belém (CCB) de 2023 sobre consumo cultural na região de Lisboa chega a conclusões semelhantes: 73% dos inquiridos apontam a falta de dinheiro e 63% a falta de tempo como razões para consumirem menos cultura do que gostariam. Para Machado Pais, estas duas conclusões são duas faces da mesma moeda. “Se falta tempo para a cultura é porque no rol das prioridades a cultura não ocupa uma boa posição.”

“O que acontece quando se desfruta da cultura é uma excitação dos sentidos, um empolgamento da sensibilidade, uma vibração de emoções”

José Machado Pais, sociólogo

O tempo que foge e o tempo que se escolhe

Temos uma relação conflituosa com o tempo. Não é de hoje, mas é cada vez mais visível. “É algo que sobressai na sociedade contemporânea, pois nem sempre o conseguimos controlar”, explica Machado Pais. “Por isso, o tempo foge e o tempo falta.” Vivemos, segundo o sociólogo, numa aceleração constante que nos obriga a escolher, todos os dias, entre o que fazemos e o que deixamos de fazer, e a cultura raramente ganha essa disputa.

Mas a “falta de tempo” nem sempre significa a mesma coisa. As diferenças entre gerações mostram que o problema está mais em como ocupamos o tempo do que na sua real escassez. Entre os mais velhos, é frequente a televisão substituir outras formas de cultura: apenas 26% dos portugueses com 65 ou mais anos usam a Internet com regularidade, e muitos preenchem esse espaço de outra forma. “Alguns aliam-se à televisão para aliviar a solidão”, nota Machado Pais. “Os apresentadores de televisão são adotados como se fossem da sua própria família.”

Já entre os mais jovens — que passam, em média, 32 horas semanais ligados à Internet, a maior parte em lazer —, o tempo não falta tanto quanto se distribui de forma diferente: essa presença digital nem sempre afasta da cultura, muitas vezes aproxima. “As recomendações de leitura ou de filmes surgem com frequência de amigos. Frequentemente, a Internet é uma plataforma de acesso a conteúdos culturais partilhados entre amigos”, explica o sociólogo.

REVISTA MONTEPIO

Gilles Lipovetski: “O tempo livre tornou-se um superluxo”

Ler artigo

O que muda quando finalmente saímos

Seja pela televisão, seja pelo telemóvel, o tempo vai sempre para algum lado. A pergunta que interessa é o que acontece quando, em vez disso, escolhemos ocupá-lo com a fruição da arte dos outros. É precisamente nesse espaço entre o adiar e o finalmente ir que ela revela o que a distingue de qualquer outra forma de lazer. “O que acontece quando se desfruta da cultura é uma excitação dos sentidos, um empolgamento da sensibilidade, uma vibração de emoções”, diz Machado Pais. “São mágicos os efeitos que se podem gerar entre quem se desloca a um concerto, a uma exposição de arte ou assiste a um espetáculo.” Para o sociólogo, não se trata apenas de sentir, mas de se tornar, através desse sentir, uma versão diferente de si próprio. “As nossas vidas são rascunhos de um devir. Se nelas cultivarmos cultura, o devir será mais culto.”

Sofia Reis conhece bem esse efeito. Em cima do palco, como Capital da Bulgária, já viu tudo: público completamente entregue, a bater palmas e a cantar; e público a rir e a conversar, como se estivesse num café. Foi o que aconteceu, explica, quando recentemente cantou a música intimista Coração em Jejum, em que fala sobre a morte da avó. “É bem estranho, mas ao mesmo tempo também é um bocado injusto julgá-los, porque eles estão a fazer a noite deles, por exemplo num festival, e nem sabiam que ia haver esses momentos”, diz.

Foi também em cima do palco, ou melhor, longe dele, a ver os outros, que Sofia percebeu o custo real de adiar a cultura. Este ano, ia ver o cantor norte-americano Oliver Tree, que atuaria em Lisboa na primeira semana de julho. Não foi. Oliver Tree morreu antes do concerto acontecer. “Imagina que ele tinha vindo um bocadinho mais cedo”, diz Sofia, ainda incrédula. A mãe, conta, viveu uma versão semelhante: esperou anos para ver Céline Dion atuar nos Estados Unidos, mas, quando finalmente comprou o bilhete, a artista cancelou toda a tournée por causa da doença que lhe viria a ser diagnosticada. “As pessoas arrependem-se porque são os artistas da vida delas. Não vais porque pensas que vais ter todos os dias da tua vida para fazer aquilo”, resume Sofia.

Foi essa certeza que a levou a mudar de comportamento este ano, resumida numa frase que repete como um mantra: “Deixa de ser para isso, porque isso é aquela conversa de ‘amanhã faço, amanhã faço’ e depois morremos.” Cansada de adiar, criou um calendário pessoal onde se obriga, pelo menos duas vezes por mês, a fazer algo fora da rotina: um concerto, uma exposição, uma peça de teatro. “Se é preciso fazer um Excel para isso, imagina como andam as nossas vidas”, ri-se. “Mas eu precisei, porque claramente estava desorganizada, estava a achar que não tinha tempo. Mas se quisermos, temos tempo.”

Capital da Bulgária na foto promocional da música “Lisboa”, que levou ao Festival da Canção. A artista tem um Excel para não se esquecer de eventos culturais

A cultura para quem não tem agenda

Se para Sofia a solução passou por uma folha de cálculo, para Patrícia Ramon a resposta veio da própria imprevisibilidade da vida profissional. Tradutora e intérprete de conferências, Patrícia não consegue controlar o que vai fazer no dia seguinte. “Um trabalhador independente, prestador de serviços, vive em função dos pedidos que lhe chegam e aos quais pode, ou não, dar resposta. Não vale a pena comprar um bilhete para um concerto daqui a dois meses, porque nem daqui a um bocadinho sei o que vou estar a fazer”, frisa.

Foi essa mesma imprevisibilidade, que para tantos seria um obstáculo à cultura, que a levou a encontrar no atmosfera m, o espaço cultural do Montepio Associação Mutualista, em Lisboa, praticamente o único lugar onde ainda consegue consumir cultura com regularidade. O facto de a programação ser anunciada com relativa pouca antecedência, característica normalmente vista como limitação, torna este espaço, no seu caso, compatível com uma vida sem rotina. “Para pessoas como eu, é muito prático [consumir assim cultura]. É pegar ou largar”, resume.

Associada Montepio desde 2008, só mais recentemente descobriu o espaço atmosfera m, depois de ter sido levada a um ciclo de cinema por um amigo. Hoje, e além dos ciclos de cinema, é assídua das exposições, masterclasses e concertos, sempre gratuitos. “Isto tudo contribui para o nosso bem-estar em geral, físico, emocional, mental, para a nossa alegria, para a nossa felicidade. É extremamente profícuo, é essencial, é uma questão de sobrevivência, quase de sobrevivência mesmo”, garante.

A experiência de Patrícia sugere que ter um espaço disponível pode ser decisivo. Machado Pais concorda que os espaços de proximidade, como o atmosfera m, podem ter um papel importante a desempenhar. Mas avisa que a oferta, por si só, não chega para criar o hábito onde este nunca existiu: “Não é certo que o aumento da oferta de equipamentos culturais em zonas consideradas mais carenciadas induza um inequívoco aumento da procura.” O que realmente cria hábitos culturais duradouros, defende, é o prazer sentido nas primeiras experiências, sobretudo quando vividas na infância e na adolescência, em casa, na escola, entre amigos.

“De pequenino se torce o pepino”, resume, citando o adágio popular. E se há uma ideia que gostaria de deixar a quem continua a adiar a cultura “para quando tiver tempo”, o sociólogo escolhe terminar num tom quase poético: “A cultura necessita de abraços. Também se dá em nossos abraços. Faz sentido adiar abraços por falta de tempo?”

“O atmosfera m? Surpreendeu-me”

Foram precisos alguns anos para Patrícia Ramon, Associada Montepio desde 2008, descobrir o atmosfera m, o espaço cultural de usufruto gratuito do Montepio Associação Mutualista. Foi um amigo quem a levou, por acaso, a um ciclo de cinema. Desde então, tornou-se assídua e o espaço continua a surpreendê-la.

A maior surpresa, conta, surgiu com a exposição sobre Pedro Abrunhosa, em 2025. “Não fazia ideia nenhuma do percurso daquele homem”, confessa. “Não sabia que ele tinha começado pelo jazz.” Bastou essa retrospetiva para mudar a imagem que tinha do artista: “Ele é o Elton John português”, diz a sorrir.

Houve outras experiências surpreendentes. No último verão, participou numa masterclass do jovem realizador norte-americano John Alexander, que esteve em Lisboa para promover o documentário Little Satchmo, vencedor do Emmy de Melhor Documentário Histórico em 2023. “O documentário baseia-se em memórias, cartas e gravações preservadas ao longo da vida por Sharon Preston-Folta, filha do músico de jazz Louis Armstrong. Adorei.”

No espaço de cultura da Associação Montepio, Patrícia até já assistiu a peças de teatro. “Foi a peça O Elétrico 21, uma rábula cómica passada dentro de um elétrico imaginário. Foi a única vez que vi lá teatro”, recorda. E, confessa, é essa sensação de nunca saber ao certo o que vai encontrar que a faz voltar.

Ir mesmo quando não apetece

Diogo Borges não deixa a cultura ao sabor do acaso. Marca-a no calendário como quem marca uma reunião: pelo menos uma ida ao teatro por mês, a uma exposição ou outro qualquer evento artístico. “Faço quase por me obrigar a ir, porque, embora às vezes não me dê jeito, sei que vou voltar realizado”, explica. O gestor de projeto, de 35 anos, fala desta ânsia quase como se fosse um processo orgânico e, sobretudo, cerebral. “Tenho disciplina. E a verdade é que regresso a casa mais contente.” O esforço, diz, compensa por um motivo simples: sair, ainda que por pouco tempo, da própria vida.

“É importante para mim sair um bocadinho da minha realidade, dos meus pés, dos meus sapatos, e temporariamente estar nos de outros.” É esse desvio que o traz de volta a casa mais rico do que quando saiu. Explica, por exemplo, que depois de assistir à peça de teatro Se não És Lésbica, como É Que Te Chamas?, de Alice Azevedo, não conseguiu dormir. “A peça percorre a história, a literatura, sociedades antigas, fala da Grécia antiga, com muita comédia pelo meio.” Quando chegou a casa, Diogo ficou a investigar os temas abordados na peça, os sítios e as épocas que o fizeram “viajar” no Teatro do Bairro Alto, local onde a peça aconteceu.

É, aliás, um hábito que se repete sempre. Normalmente, já sabe de antemão quem escreveu o que vai ver, mas depois “as coisas que aconteceram na peça, citações, passagens” ficam para pesquisar mais tarde. Da exposição que visitou recentemente de Vivian Maier, a fotógrafa norte-americana autodidata que fotografava às escondidas as ruas de Nova Iorque, guarda uma admiração parecida. “Ela tinha uma sensibilidade impressionante para quem não era fotógrafa. E isso é, para mim, muito comovente e interessante de ver.” As fotografias, explica, deixaram-no revisitar décadas nas quais não tinha sequer nascido. Só por isso já valeu a pena ir de Almada ao Porto para ver a exposição.

““[Frequentar espaços de cultura] contribui para o nosso bem-estar em geral, físico, emocional, mental, para a nossa alegria, para a nossa felicidade.”

Patrícia Ramon, Associada Montepio, tradutora e intérprete de conferências

 Fazer 1 000 quilómetros para ver um concerto

Nem sempre o desvio é assim tão previsível. Um dia, por acaso, entrou na Casa Capitão, em Lisboa, só para ver o que se passava. “Foi o dia da abertura e estava a acontecer um poetry slam (ndr: competição de declamação de poesia, ao vivo, com o público a votar). Não percebi bem o que era, mas fui com o coração aberto, ver o que se passava, e foi bom.” É essa disponibilidade para ser surpreendido que sustenta o hábito. Também não deixa que o orçamento decida até onde vai. Foi “de propósito” ao festival Paredes de Coura, em 2024, sabendo que a viagem, a estadia e o tempo pesam mais do que o bilhete em si. “Fui ver Fontaines D.C.” E embora raramente lhe falte companhia — “não tenho dificuldade em arranjar amigos para ir a coisas” —, também não faz desta condição. “Onde quer que vá estou distraído, estou a aprender, estou entretido. No final de contas, a companhia está ali.”

É também por disciplina, e não por acaso, que evita perder-se nas redes sociais quando quer descobrir o que vai acontecer na cidade. Prefere ir direto a uma fonte — uma agenda cultural ou um jornal — a deixar-se assoberbar pelo Instagram. “É muito fácil uma pessoa ficar ali sobrecarregada e, no final do dia, não ir a lado algum”, diz.

E tem reparado que não é o único que, no eixo que frequenta, entre Almada e Lisboa, Setúbal e Évora, consome cultura regularmente. Salas de teatro esgotadas, concertos mais concorridos, exibições de cinema que antes tinham lugares vazios e hoje não têm. É uma impressão pessoal, admite, mas é a que lhe fica de todos os bilhetes que tenta comprar. “Acho que a pandemia foi um bocadinho o virar da página, porque talvez tenha havido o excesso de ficar em casa”, afirma. Depois de tanto tempo fechados, talvez sejam cada vez mais os que decidem, como Diogo, marcar a cultura na agenda e ir apesar de não apetecer. Os profissionais da cultura, mas também o futuro do país, agradecem.

A cultura é o que nós quisermos

“A cultura é o que nos dá o passado e o futuro. E sem cultura não há futuro.” A frase é da atriz Maria do Céu Guerra e foi partilhada em entrevista à Revista Montepio durante as filmagens da campanha “O que fazemos pelos outros diz muito sobre nós”, que destacou o apoio do Montepio Associação Mutualista à música e ao teatro, mas também ao desporto e à cidadania.

Estávamos em 2018 e, só nesse ano, o Montepio Associação Mutualista apoiou novos projetos culturais, tournées de diversos nomes da música portuguesa, como Rodrigo Leão, Jorge Palma ou Dead Combo, além de diversos festivais de verão e de inverno, como o Montepio Às Vezes o Amor, e peças de teatro para todas as idades. “Estas iniciativas permitiram impactar milhões de portugueses, captar novos associados, além de afirmar o posicionamento da Associação enquanto organização determinada a acompanhar a vida dos seus associados com respostas complementares às necessidades de proteção e previdência, de abrangência nacional e âmbito multigeracional”, pode ler-se no Relatório e Contas (R&C) desse ano.

Desde então, o Montepio Associação Mutualista reforçou e diversificou a oferta cultural, de que é exemplo a recente estratégia de curadoria do atmosfera m (Lisboa e Porto), integrados no Montepio Cultura. Todos os meses, estes espaços recebem criadores e criativos, especialistas e conhecedores de temas que vão da música às artes plásticas, da poesia e literatura ao cinema.

Da mais recente lista de oferta, destaque para os ciclos de cinema Claquete, no Atmosfera m Lisboa, as Noites de Novembro, no mesmo espaço, e as exposições regulares de pintura em Lisboa e no Porto.

Também pode interessar-lhe

Está prestes a terminar a leitura deste artigo, mas não perca outros conteúdos da sua Revista Montepio.