Devo pagar ao meu filho para realizar tarefas domésticas?

Há quem defenda que a compensação monetária incute o valor do dinheiro e da responsabilidade nos filhos. Outros consideram que as tarefas domésticas são uma atividade familiar que não deve ser recompensada. Quem está certo?
Artigo atualizado a 01-06-2021
tarefas domésticas

É um debate antigo: devemos pagar ou não aos nossos filhos pelas tarefas domésticas? Alguns pais acreditam que esta é uma forma de transmitir a noção de que o dinheiro vem com o esforço. Outros são da opinião de que as tarefas de casa fazem parte das responsabilidades da vida em família e que, por isso, não devem envolver dinheiro.

Apesar de o filho de Joana Barbosa, 42 anos, residente no Porto, ter apenas quatro anos, já vai cumprindo alguns deveres. Prepara a mesa de refeições e recolhe a loiça no final, arruma os brinquedos, leva a roupa para o seu quarto. Em troca, no final da semana, recebe uma recompensa.  “Achei que era um método a experimentar. Toda a maternidade é um método experimental. Para já, está a funcionar.”

A teoria é simples. Joana quer que o seu filho perceba que o dinheiro “não nasce das árvores”. Este sistema, explica, começou há pouco tempo: “Sentíamos que ele não valorizava o que tinha, que não percebia que, para ter coisas, a mãe e o pai tinham de trabalhar”, conta. “Achei que estava na altura de ele perceber que há um esforço envolvido. Para podermos comprar, temos de ganhar dinheiro. E para ganharmos dinheiro, precisamos de trabalhar.”

A “pedinchice”, como lhe chama, esteve na raiz desta decisão.  O montante que agora recebe, e que serve para comprar os seus brinquedos, é simbólico: “Vai de 3€ a 5€ por semana.”

Com este valor, o filho de Joana é livre de decidir onde é que vai investir: “Eu explico-lhe: Cumpres as tuas tarefas, ganhas as tuas moedas e vais gastá-las como quiseres”. No momento de ir à loja, a mãe aproveita para ensinar vários aspetos ligados à compra e ao dinheiro: “Explico-lhe que as lojas têm sempre preços afixados. Explico-lhe o valor das moedas, se dá ou não para comprar o que ele quer. Deixo-o pagar, receber o troco, para se ir habituando ao dinheiro.”

Joana Barbosa nota que o filho pede menos e que se vai habituando à noção de que é necessário fazer escolhas: “Já começa a perceber que não vai poder ter tudo o que quer e que vai ser preciso escolher.” Mas quando há birras, não há dinheiro. “Se fizer uma asneira muito grande, fica sem moedas. Sabe que há castigos associados ao ganho de moedas.”

“As tarefas domésticas são atividades normais de uma casa”

João Gaspar [nome fictício], residente em Lisboa, tem dois filhos: uma menina de seis anos e um menino de quatro anos. Fazem “as tarefas mais básicas”, de acordo com a sua idade: arrumam os brinquedos e ajudam a preparar a mesa de refeições e a recolher as loiças. “Eles veem-nos fazer e agem muito com base na repetição. Se dermos o exemplo e envolvermos as crianças nestas atividades, elas vão querer participar.”

Para o pai de 37 anos não faz sentido compensar monetariamente os seus filhos. “Não têm idade para perceber o dinheiro. Sabem que ele existe, que serve para comprar coisas, mas não têm noção do valor.”

Por outro lado, o pai acredita que isso não faz sentido: “Não têm de ser recompensados por uma coisa que é do interesse deles. Eles percebem muito bem que não têm empregados e que não são empregados de ninguém”, diz. “As tarefas domésticas são atividades normais de uma casa, que todos temos de fazer. Acho que compensá-los pode ter efeitos contraproducentes.”

Quando não cumprem as suas tarefas, João fala com eles e, caso se recusem, podem ser castigados. E quando pedem muitos doces ou brinquedos, explica-lhes que o dinheiro é finito, mas de uma forma ajustada à idade: “Não podemos comprar tudo todos os dias, porque senão não temos moedinhas para fazer outras coisas”, conta. “Eles percebem que as moedinhas não dão para tudo e que é preciso fazer escolhas. Aceitam muito bem.”

Para já, este pai não vê benefícios em dar compensações monetárias aos filhos. No futuro, conta apostar na semanada ou mesada, que considera ser a melhor forma de incutir a noção de dinheiro e de responsabilidade.

“O princípio da mesada é bom e é importante para entenderem e gerirem o dinheiro”, considera. “Ajuda-os a perceber que se gastam tudo, não há mais. Que é preciso poupar.”

“Em casa, a família é uma equipa”

Bárbara Barroso, especialista em finanças pessoais, tem a sua opinião bem definida: “Não pago por tarefas domésticas.” Mãe de dois filhos, para a educadora e consultora financeira a família tem de funcionar como uma equipa e é esse o espírito que, acredita, deve ser sempre incutido.

“As crianças vivem em casa e ajudar deve fazer parte do seu papel”, considera. “Não devemos condicionar ou estimular monetariamente algo que faz parte da vivência familiar. O pai e a mãe também trabalham nas tarefas de casa e ninguém lhes paga por isso.”

Recompensar monetariamente poderá, na sua visão, ter impacto na forma como se encaram estas responsabilidades. “Sempre que ficam dependentes do incentivo, caso não haja, não vão querer cumprir as tarefas”, diz. Este método, considera, poderá ainda interferir com os princípios que se levam para a vida adulta, pondo em risco os valores da empatia, solidariedade e noção de coesão familiar. Para a consultora financeira, esta estratégia acarreta vários perigos. “Há uma barreira ténue entre direitos e deveres e a matriz pode ficar confusa. Em vez de ajudar a mãe e o pai por uma questão de altruísmo, está a ajudar por interesse.”

A palestrante e fundadora do MoneyLab distingue ainda a mesada da recompensa por tarefas domésticas: “A semanada ou mesada são excelentes. Mostra-lhes que o dinheiro não é inesgotável e que tem de ser gerido. Se querem comprar alguma coisa, têm de juntar”, considera. “Se gastarem tudo de uma vez, aprendem. Temos de deixá-los errar. Mesmo que o dinheiro tenha sido todo gasto em gomas, é como os salários: vai ter de esperar.”

Que outras formas existem para incentivar os miúdos a arrumar?

Para estimular o envolvimento nas tarefas domésticas em casa, Bárbara Barroso deixa algumas ideias. “Uma estratégia que resulta muito bem, sobretudo entre irmãos — nós somos naturalmente competitivos — é criar um quadro com estrelinhas, em que há atividades e objetivos, que devem ser cumpridos. Quem realiza as tarefas todas, ganha uma estrelinha e recebe um prémio.”

Mas não é monetário: “Ganha mais dez minutos a andar de bicicleta, mais meia hora na consola”, exemplifica. “A compensação não deve depender do dinheiro.”

Além da mesada, o dinheiro pode ser ganho de outras formas. Tendo em conta que o tecido empresarial português é constituído na sua maioria por microempresas, que arrancam sobretudo a nível familiar, os filhos podem ajudar os pais em tarefas simples e, aí sim, ser recompensados.

A consultora financeira destaca ainda a importância de estimular o espírito empreendedor. “Temos de pôr as crianças a pensar”, diz. “Podem aproveitar os limões do jardim, fazer uma banca e vender limonadas. Podem fazer trancinhas, colares de missangas, pulseirinhas, desenhos e vender. Isto era uma coisa que se fazia muito e sinto que se perdeu. É bom recuperar estas atividades, porque as vantagens vão além dos ganhos monetários.”

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