A educação financeira não nasce com a idade adulta. Constrói-se aos poucos, com pequenas experiências do dia a dia, e quanto mais cedo os pais a introduzirem em casa, mais natural se torna a relação dos filhos com o dinheiro no futuro.
Educação financeira para crianças e jovens
A partir dos 4 anos
Os pais são os primeiros a encarregarem-se da educação financeira dos seus filhos. Como devem as crianças ser educadas para gerirem o seu dinheiro? Bárbara Romão, psiquiatra da Infância, refere que é importante que os mais jovens percebam desde cedo o valor do dinheiro. E isto acontece por volta dos 4 anos. É nesta altura que surgem as primeiras perguntas sobre o tema. E é fundamental fazê-los entender que este recurso não é ilimitado.
“Depois de entrarem na escola primária começam a fazer perguntas mais concretas: quanto custam as coisas, quanto é que os pais ganham. Devemos responder sempre de forma a que entendam e não fugir aos temas difíceis. As crianças reagem bem ao que lhes explicam”, diz. Nesta fase, é aconselhável deixá-los fazer algumas compras e serem eles a pagar e a receber o troco.
Uma sugestão simples para esta fase: guarde as moedas de troco num frasco transparente em casa e deixe a criança contá-las de vez em quando. Ver o dinheiro acumular-se, de forma visual e concreta, ajuda muito mais do que qualquer explicação abstrata sobre poupança.
Dos 10 aos 12 anos
Talvez o velho mealheiro tenha caído em desuso, mas o hábito de poupar continua a ser tão pertinente quanto sempre foi, só a forma é que mudou. Quando as crianças chegam ao segundo ciclo, por volta dos 10 anos, o caso muda de figura. Começam a ter o cartão da escola, que necessitam de carregar para almoçar, lanchar ou comprar material na papelaria, ou vão ao cinema com os amigos. Aqui convém dar pouco de cada vez, como dois ou três euros, para evitar gastos supérfluos.
Para esta especialista, por volta dos 12 anos já se pode começar a dar uma semanada para aprenderem a gerir o seu dinheiro. De início pequena, mas poderá ser aumentada conforme as necessidades. Começar com uma quantia elevada e ir depois reduzindo conforme os gastos é que é desaconselhado.
Também Ricardo Ferreira, economista e Fundador da Escola de Finanças Pessoais, considera que, a partir dos 10 anos, a mesada começa a ser apropriada, nomeadamente para fazer face aos gastos diários, como lanches, revistas e coleções, para carregar o telemóvel e para poupar (deve poupar-se 10% do valor da mesada).
Na sua obra “Educação Financeira das Crianças e Adolescentes”, o especialista considera que é fundamental conversar com a criança de forma a definir, com precisão, quais as despesas que são cobertas pela semanada e que tipo de encargos serão pagos à parte (livros escolares, material escolar, aulas de apoio).
No entanto, os pais não devem impedir os filhos de gastar o dinheiro, para que estes aprendam por si. É ainda obrigatório não confundir resultados escolares com mesada.
E se o seu filho lhe pedir um aumento? Nesse caso, deverá perceber as razões que motivam o pedido e analisar se o aumento é necessário ou antes resultado de má gestão, aconselha Ricardo Ferreira.
Uma forma prática de aplicar isto: peça ao seu filho para anotar, durante duas semanas, tudo o que gasta num pequeno caderno ou numa nota no telemóvel. No fim, veem juntos onde foi o dinheiro. Muitas vezes, a própria criança identifica os gastos que podia evitar, sem que seja preciso dizer-lho.
Entre os 15 e os 16 anos
Pelos 15, 16 anos, os adolescentes já pedem um pouco mais para saírem com os amigos, e é aqui que a mesada mensal, em vez de semanal, ganha sentido: obriga a planear um período mais longo. Sabem que aquele valor tem de chegar ao fim do mês e, se o gastarem todo nos primeiros dias, não haverá reforço.
Nesta fase, vale a pena também introduzir o conceito de objetivo de poupança: um telemóvel novo, uma viagem de finalistas, um computador. Definir um valor e um prazo transforma a poupança de obrigação em meta pessoal, o que costuma resultar melhor do que insistir apenas na disciplina.
Não se esqueça que…
A educação financeira também passa muito pelo exemplo. Nesse sentido, é importante que os pais demonstrem comportamentos financeiros responsáveis, como elaborar mensalmente um orçamento familiar, ter um fundo de emergência e poupar regularmente.
Educação financeira: um hábito diário, não uma aula isolada
A responsabilidade de ensinar as crianças a lidarem com o dinheiro cabe, em primeiro lugar, aos pais, e deve começar cedo, muito antes de qualquer aula de educação financeira na escola. Resumindo pela idade:
- A partir dos 4 anos: deixar pagar e receber troco, mostrar que o dinheiro é limitado;
- Dos 10 aos 12 anos: introduzir uma quantia pequena e regular, e conversar sobre o que ela cobre;
- Dos 15 aos 16 anos: passar para mesada mensal e trabalhar objetivos de poupança concretos.
Nenhuma destas etapas exige métodos complicados. Exige sobretudo conversa, repetição e o exemplo dos pais no dia a dia. É esse conjunto, mais do que qualquer teoria, que forma adultos com uma relação mais tranquila com o dinheiro.