Chegaram de diferentes regiões do país, de Gondomar a Faro, para percorrer esta sexta-feira, 19 de janeiro, as ruas deste bairro. A missão dos jovens voluntários é descobrir como podem ajudar a comunidade do bairro da Serafina/Liberdade. Os projetos que resultarem da experiência serão apresentados no sábado, dia 20, num pitch, de dez minutos. O melhor projeto será o vencedor do Prémio Voluntariado Jovem Montepio, que este ano decorre em moldes diferentes com uma intervenção direta no terreno.

Um dos educadores do Centro Social do Soutelo, Gondomar, um dos grupos participantes, cresceu próximo de bairros sociais do Porto e trabalha com jovens. Na Serafina, Hélder Nogueira aproximou-se de dois habitantes – o dono de um café e um amigo – e recolheu as suas experiências.

“Sou o dono do café aqui em frente, moro num sítio mais perigoso do que este, o Bairro da Boavista, mas se vou a uma entrevista de emprego não posso dar a minha morada verdadeira. Se o faço sou catalogado e o mesmo acontece com muitos outros jovens.” O amigo acredita que as intervenções só podem ser realizadas com um trabalho de fundo, em que as pessoas que pretendem ajudar habitem os locais para estreitar laços com a comunidade.

Vanessa, uma jovem do Bairro do Pendão, em Queluz, que durante este trabalho de campo acompanhou o grupo de voluntários do Soutelo, intervém na conversa para sublinhar que podemos sempre ser diferentes e temos que nos afastar das más influências. Depois de ter estado internada num Centro Educativo, está decidida a seguir um rumo positivo e diz que até já tirou o curso de auxiliar de saúde.

Um bairro que é um refúgio

“Sempre gostei muito do bairro, está muito perto do centro da cidade, tem espaços verdes e sempre brinquei na rua. É um refúgio na cidade”, diz Rafael, que serve de guia no percurso por ruas tantas vezes escondidas de olhares exteriores.

O rapaz de 24 anos, que acompanhou o grupo de voluntários da Associação de Proteção à Infância Bispo D. António Barroso, no Porto, explica que os pais cresceram no Bairro da Serafina e que tinham o sonho de morar na melhor zona das “vivendas”. E assim aconteceu, quando Rafael tinha seis anos. O jovem diz que percorre todas as zonas sem receios porque todos o conhecem.

O senhor José, de chapéu de palha e com 75 anos, entretém-se a plantar alfaces e a melhorar o aspeto dos terrenos situados junto a uma espécie de porta de entrada para o bairro, com a bandeira de Portugal no cimo, prédios devolutos com portas e janelas entaipadas mesmo ao lado. “Nasci aqui. As ruas são muito mais silenciosas do que na minha infância. Agora é um deserto”, explica aos jovens voluntários que vieram da Casa dos Rapazes, em Faro.

António Machado, 75 anos, também lamenta o “vazio” em que as ruas se tornaram e Guilhermina Rosa Gomes, com 82 anos, diz que o chão, todo esburacado a assusta porque como tem a locomoção limitada pode cair.

Outros mundos, outras visões

Na zona da Serafina existem blocos de apartamentos de habitação social que convivem lado a lado com ruas inteiras de casas pequenas e degradadas, muitas vezes construídas pelos próprios. As jovens meninas da Associação de Proteção à Infância D. António Barroso, no Porto, estão preocupadas com o que encontraram ao nível do saneamento, com muitas casas que nem sequer têm casa de banho: as pessoas recorrem aos balneários públicos, que abrem apenas alguns dias por semana.

“Será que somos capazes de aniquilar algum dos problemas que vamos encontrar?” O repto foi lançado pelo chefe dos escuteiros, António Chaves, que, para além de ser um dos organizadores da iniciativa, acompanhou o grupo de Faro no Bairro da Serafina/Liberdade.

“A rua é para ser vivida de uma forma positiva pelos habitantes? Podemos torná-la mais bonita? Que histórias encontramos, que memórias do passado podem ser guardadas no presente e no futuro? E o ambiente? O que podemos fazer por ele?”, questionou.

“A visita está a ser muito interessante para estes jovens que, em Faro, não têm acesso a este tipo de bairros. Estão a conviver com outros mundos e isso é importante para que entendam que existem problemas diferentes dos que vivem”, afirma Adelina Godinho, a coordenadora dos professores do apoio ao estudo da Casa dos Rapazes, na capital algarvia.

Uma jovem voluntária do Centro Social do Soutelo mostrou-se também surpreendida com o que encontrou no Bairro da Serafina. “Parece que estamos numa vila”, afirmou.

No final do dia, todos os voluntários partilharam experiências e juntaram ideias para elaborarem as suas propostas ao Prémio Voluntariado Jovem Montepio. No sábado, espera-os um dia em cheio.