“O Meu Bairro Decide”: Como os jovens de Quarteira vão mudar a sua comunidade

Num ano marcado pela pandemia, a Akredita em Ti venceu a 10ª edição do Prémio Voluntariado Jovem. O projeto da associação da Quarteira visa dar voz aos moradores de bairros sociais.
Artigo atualizado a 09-02-2021

“O Meu Bairro Decide” é o nome do projeto que será implementado ao longo de 2021 e que tem como objetivo dar voz aos moradores de dois bairros sociais da Quarteira, através do modelo do Orçamento Participativo.

Por força das circunstâncias da pandemia, a 10ª edição do Prémio Voluntariado Jovem teve um modelo diferente, maioritariamente online. Em vez de convidar os jovens para o território da entidade vencedora do ano anterior, para apurar as necessidades e desenvolver projetos para colmatá-las, a organização optou por descobrir entidades com ideias interessantes em todo o território nacional e convidá-los a apresentar um projeto com impacto positivo na sua comunidade.

E assim surgiu o convite para a Associação Akredita em Ti participar nesta edição do Prémio Voluntariado Jovem. “[A Fundação Montepio] perguntou-nos se conseguíamos mobilizar jovens para realizar projetos no nosso território. Na altura achei que seria interessante fazer um Orçamento Participativo que desse oportunidade aos jovens de aprender e ter formação, para depois mobilizarem os moradores dos seus bairros a escolherem projetos que achem que fazem sentido e falta nos seus territórios”, explica Sónia Luz, da direção da Associação Akredita em Ti.

 

Um projeto matrioska

A ideia para “O Meu Bairro Decide” nasceu de um projeto já existente: o Quarteira Decide, financiado pela incubadora social Civic Europe, já muito experiente em Orçamentos Participativos e com uma metodologia própria. O objetivo é, segundo explica a responsável, fundir estas duas iniciativas, por forma a reforçar a complementaridade, a partilha e a articulação de recursos, tornando as ações mais sustentáveis.

“Vamos aproveitar a metodologia, a experiência e a formação para mobilizar os jovens a implementar os projetos nos seus bairros”. Esta fusão significa também a junção das verbas. O Quarteira Decide já tem 3 500 euros de financiamento o que, juntando aos 1 500 euros do Prémio Voluntariado Jovem, vai dar um total de 5 000 euros. “Isto vai tornar a implementação do projeto mais fácil”, explica.

 

“O Meu Bairro Decide”: o que é e como irá funcionar

O projeto vencedor da 10ª edição do Prémio Voluntariado Jovem tem como objetivo dar aos moradores dos bairros municipais da Quarteira, no Algarve, caracterizados pela diversidade étnica e cultural, um orçamento próprio. Este orçamento serve o propósito de desenvolver as suas comunidades e pressupõe a intervenção dos seus habitantes, que devem apresentar propostas de melhorias, debatê-las, eleger um projeto para implementar e decidir, em conjunto com os jovens voluntários, como o orçamento deve ser distribuído.

O objetivo é dar um uso mais positivo ao bairro e que os moradores percebam que têm voz e podem dar opinião. “Há várias carências que já identificámos: falta um espaço seguro para as crianças brincarem, hortas comunitárias, um espaço desportivo, porque o que tinham foi-lhes retirado, o que deixou a população revoltada, pois não se sentiram ouvidos. Agora vai acontecer exatamente o contrário, vamos ouvi-los, organizar, eleger um projeto vencedor e implementá-lo”.

Numa primeira fase, os jovens voluntários terão formação para a implementação do projeto. É a estes jovens que cabe a tarefa de mobilizar e sensibilizar a população para participarem, assim como de fazer campanha pelos projetos. Posteriormente haverá um ato eleitoral, para o qual todos os moradores serão convocados, para decidirem qual dos projetos será implementado.  “O objetivo é que as ideias venham dos moradores, mas também vamos precisar da sua ajuda na implementação”, prossegue Sónia Luz.

A implementação do projeto vencedor irá necessitar do apoio da Câmara Municipal de Loulé para a cedência de território, mas também de mão-de-obra da população.

Todos ficam a ganhar

“Este não é um projeto meramente assistencialista”, afirma a responsável da Associação Akredita em Ti. Os moradores saem a ganhar porque desenvolvem competências cívicas e sentem-se ouvidos. Por outro lado, os jovens voluntários, também eles habitantes destes bairros, recebem formação e competências para o futuro, que serão úteis para a sua inclusão profissional.

Por este motivo, a Associação Akredita em Ti decidiu concorrer com o projeto “O Meu Bairro Decide”. “Nunca se começa um projeto desanimado, mas estávamos confiantes que íamos ganhar [o Prémio Voluntariado Jovem]. Víamos neste projeto uma grande possibilidade de enriquecimento pessoal e social, nas várias competências democráticas, e que tanta falta faz nestas comunidades”.

Os jovens voluntários, com idades entre os 16 e 18 anos, são oriundos dos bairros municipais, “têm perfil e potencial, mas não têm experiência nenhuma”. A sua grande mais valia é a facilidade de comunicação, por serem oriundos destes territórios. “Falam a mesma língua dos moradores e são vistos como pertença, o que é muito importante nestes contextos. Apesar da Akredita em Ti já ter uma relação de proximidade com estas comunidades, o facto destes jovens serem das comunidades abre muitas portas”.

O Centro Social do Soutelo, com o projeto: “Pegadas do Passado”, e a Marca – Associação Desenvolvimento Local, com o projeto “Voluntariado à Janela”, foram finalistas ex-aequo da 10.ª edição deste prémio

O júri foi composto pelo Centro Português de Fundações, da Confederação Portuguesa de Voluntariado, da Associação Portuguesa para a Diversidade e Inclusão, do GRACE, da Associação Montepio e da Fundação Montepio.

 

Sobre a Associação Akredita em Ti

A Akredita Em Ti é uma Associação Juvenil, sem fins lucrativos, constituída em 2012 e que trabalha com crianças e jovens de bairros municipais da Quarteira, com o objetivo de promover a inclusão social, a formação e capacitação, a participação cívica, e o desenvolvimento pessoal, social e cognitivo.

Conta com uma sede com cerca de 200 metros quadrados no maior bairro de habitação social da Quarteira, o Bairro Municipal da Abelheira, onde realiza atividades com as crianças e jovens dessa comunidade. Existe ainda um segundo espaço, noutro bairro, mas que “não tem as condições necessárias”. “Não tem casa de banho, nem água potável, mas é um espaço onde conseguimos trabalhar principalmente com meninas de etnia cigana, para lhes poder promover o acesso à educação e desenvolver ações de desenvolvimento psicossocial”, conclui Sónia Luz.

 

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