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Como ser freelancer a tempo inteiro?

Ser freelancer exige resiliência, paciência e muita capacidade de gestão financeira. Saiba como é possível equilibrar a carteira mesmo quando o orçamento é irregular.

Muitos profissionais veem o trabalho de freelance como o El Dorado do mercado laboral. Mas esta ideia está longe de ser uma realidade, pelo menos em Portugal.

Contras

Incerteza financeira

Se há tempo para a família, os clientes ou encomendas não abundam. Se há clientes e encomendas, pode não haver tempo para a família. Apesar do crescimento da Gig Economy – economia flexível que procura freelancers para funções qualificadas – o trabalho sem patrões ou colegas fixos continua a ser um desafio financeiro para milhares de profissionais portugueses.

Gestão da liquidez

A gestão entre recebimentos voláteis e contas fixas é possivelmente um dos maiores desafios que enfrenta um freelancer a tempo inteiro. Um cenário que o empurra para um universo mais complexo que o do trabalhador por conta própria. Mais cedo ou mais tarde, o caráter solitário desta escolha levará os profissionais a acumularem competências de secretaria, direção financeira, contabilidade, angariação de clientes ou cobrança de dívidas.

A intermitência dos trabalhos e pagamentos, a incerteza do rendimento, o aumento de intermediários e um regime fiscal pesado e longe de oferecer níveis de proteção social comuns a outro tipo de trabalhadores são apenas algumas das dificuldades sentidas pelos freelancers. É aqui que entra outra competência imprescindível: a de psicólogo, essencial para gerir a sua própria ansiedade.

“Muitas vezes é mais uma questão de estar sujeito ao que aparece, sem grande poder de escolha. Até porque não chovem ofertas de trabalho a toda a hora na minha área e neste mercado”, confessa Miguel Aragão, 41 anos e quatro como copywriter de publicidade em regime freelance.

Angariação de trabalhos

Um dos principais desafios é a angariação de trabalhos – são estes que lhes garantirão um rendimento semanal ou mensal indispensável para fazerem face às despesas regulares.

E se um freelancer em início de carreira tenderá a aceitar todos os trabalhos que lhe surgem, a experiência será fundamental para separar o trigo do joio.

Existem várias aplicações e sites dedicados a freelancers a nível global ou local, ainda que alguns impliquem custos para se estar registado. Sites como Upwork, Veedeeo.Guru ou Zaask permitem-lhe criar um perfil e promover os seus serviços e áreas de especialização. Se procura entrar na Gig Economy, este é um bom ponto de partida para ganhar novos clientes ou projetos esporádicos. No caso do Upwork, contudo, não é certo que o site o aceite: o seu perfil será avaliado e só depois conhecerá o veredicto. Apesar de parecer uma desvantagem, esta acaba por ser uma excelente forma de saber se tem um perfil forte. Ao ser validado pela Upwork, poderá usá-lo noutros sites. Por fim, e caso queira oferecer serviços a clientes internacionais, será importante ter uma conta PayPal ou Revolut.

Gestão de horários

Uma carreira, vários mitos Existem diversos mitos associados aos freelancers. Um deles é a facilidade de gerir horários ou de os adaptar à vida pessoal. “Organizar o trabalho em torno da vida familiar, para um trabalhador freelancer, também não é fácil”, esclarece Miguel Aragão. O dia a dia assenta num equilíbrio difícil e precário: se os horários são leves, não existe uma encomenda digna desse nome e, logo, nenhum pagamento à vista. Existindo essa encomenda, os horários alargam-se.

Prós

Mais tempo para a família

Mas nem tudo são más notícias. Se existir um equilíbrio no fluxo de trabalhos e recebimentos, possibilitando ao profissional o poder de escolha sobre a que horas o pode concretizar, o trabalho freelance é uma vantagem. “Temos mais tempo para a vida familiar, quanto mais não seja nos intervalos dos trabalhos”, garante Miguel Aragão.

Menos distrações

O freelancer garante outra vantagem dos trabalhos pontuais: o foco. Estar numa equipa e integrado numa estrutura pode, muitas vezes, ser um contra. Mais distrações, mais interrupções, mais “conversa de escritório”. Um freelancer vive desligado da realidade de quem o contrata, para o bem e para o mal. “Acabamos por estar sempre mais focados no trabalho, porque não temos a bagagem da empresa em questão e a carga, positiva ou negativa, que lhe está associada.” Isto acontece mesmo quando as encomendas implicam passar uma temporada na empresa – sejam três dias, sejam três meses.

Qualquer que seja a área de atividade, parece inevitável que a Gig Economy veio para ficar. Segundo um estudo publicado pela Upwork no final de 2018, 51% dos freelancers norte-americanos não se veem a voltar para um trabalho tradicional. Um estudo global da consultora Delloite, por outro lado, revelou que 63% dos profissionais encara a possibilidade de se tornar freelancer. Apesar dos contras desta decisão, os prós começam a ganhar terreno e até as empresas acompanham de perto esta tendência. Conseguirá a nossa carteira sobreviver à incerteza desta revolução?

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