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Está preparado para viver até aos 100 anos?

Viver até aos 100 anos implica vencer desafios: na forma como nos organizamos, convivemos com os nossos familiares, trabalhamos, preparamos a reforma ou até como habitamos. Conheça as mudanças que aí vêm.

A inevitabilidade da longevidade

Atualmente, existem mais de dois milhões de portugueses com idades acima dos 65. Em 1970 eram 873 mil e representavam 9,6% da população. Em 2017, correspondiam a 21,5%. O que aconteceu no último meio século para a sociedade portuguesa viver até mais tarde?

Aconteceram avanços civilizacionais: melhoria dos cuidados de saúde, a diminuição da mortalidade infantil, as vacinas e os antibióticos transformaram o nosso mundo, fazendo com que cada vez mais pessoas vivam até mais tarde. Segundo os dados da Pordata, uma criança que tenha nascido em 2016 em Portugal viverá até aos 80,8 anos. São mais 17 anos que as nascidas em 1960.

O The 2018 Ageing Report, relatório da Comissão Europeia, estima que os homens portugueses nascidos em 2070 viverão até aos 85,9 anos e as mulheres chegarão aos 90,4 anos. Números impressionantes mas, mesmo assim, longe do recorde da pessoa mais velha do mundo, pertencente a Jeanne Calment. A francesa, nascida em Arles, morreu em 1997 com 122 anos e 164 dias. Será este o novo normal? Um artigo da revista Nature publicado em 2017 estima que a duração de vida natural do ser humano seja de 115 anos. As suas conclusões, contudo, foram alvo de um aceso debate, com médicos e estatísticos a considerarem não haver argumentos válidos para traçar um limite.

As cidades e as habitações do futuro

Para Maria João Valente Rosa, demógrafa da Pordata, “a grande alteração face ao passado não é tanto o aumento da longevidade. Mas a quantidade de pessoas que chega aos 80, 90 e 100 anos”. A OMS estima que, até 2050, o número de pessoas com mais de 85 anos vai aumentar 351% e o clube dos centenários sofrer um aumento de 1004% face aos números de 2015.

Estas alterações terão consequências na forma como nos organizamos, como convivemos com os nossos familiares ou até como habitamos. No final de 2017, a Architectural Digest, uma das principais revistas de arquitetura do mundo, fez um especial sobre as habitações do futuro, desenhadas para as pessoas mais velhas. E mostrou que serão bem diferentes das casas a que estamos habituados. Bem iluminadas, até nos ângulos mortos, terão puxadores em vez de maçanetas, janelas fáceis de abrir e chão de cortiça, borracha ou linóleo para evitar as quedas. Haverá sempre uma cadeira nas cozinhas e casas de banho e apoios que suportem o peso de um corpo adulto, espalhados pelas várias divisões.

Nas cidades, os passeios largos, bem pavimentados e desimpedidos, com bancos de descanso ao longo do caminho, serão comuns. Em Manchester, já existem lojas com selo age-friendly que disponibilizam uma cadeira, um copo de água e a casa de banho aos clientes mais velhos.

Prepararmo-nos para o envelhecimento da sociedade significa termos as ruas, as casas e, sobretudo, as unidades de saúde repletas de idosos?

Envelhecer sete anos mais tarde

“Se as circunstâncias se alteraram, a maneira como olhamos para essas circunstâncias também deve ser revista”, considera Maria João Valente Rosa, sugerindo que se aplique o conceito de idade prospetiva à sociedade portuguesa. Em vez de medirmos as idades pelo número de anos que já passaram desde o nascimento, medimos a idade em função dos anos que faltam viver. Feitas as contas, chegamos à conclusão que os portugueses com 65 anos hoje viverão mais sete anos do que os portugueses que tinham 65 anos em 1960. Ou seja, envelhecerão sete anos mais tarde.

Este raciocínio dá origem a alguns resultados surpreendentes. Adicionando sete anos aos escalões etários tradicionais, um português só entrará na idade ativa aos 22 anos – e não aos 15, como atualmente. Aceitamos de bom-grado esta ideia. Os jovens estudam e vivem até mais tarde em casa dos pais e já não entram no mercado de trabalho aos 16 anos. Da mesma forma, o escalão etário mais velho só começará aos 72. A sua vida ativa, se assim o desejar, poderá prolongar-se por mais anos do que estava a contar.

A força física vs o conhecimento

“O nosso modelo societário é herdeiro da Revolução Industrial, muito baseado na força física. E esses atributos perdem-se com a idade. Agora vivemos numa sociedade que privilegia o conhecimento e o conhecimento não tem idade, mas pensamos que estamos no tempo em que uma pessoa começa a trabalhar aos 15 anos e já não consegue continuar após os 65”, considera Maria João Valente Rosa.

Um outro estudo elaborado pela McKinsey, em 2017, mostra que, até 2030, 60% dos trabalhos, sobretudo os que implicam o uso da força, podem deixar de ter intervenção humana. Isto significa que entre 400 e 800 milhões de postos de trabalho seriam substituídos pela automação.

Uma nova realidade profissional

Pensar na vida profissional numa perspetiva linear, em que se aprende a fazer uma coisa e se chega à reforma a fazer a mesma coisa, já não faz sentido. A McKinsey adianta que entre 75 e 375 milhões de pessoas terão de aprender novas competências para se manterem no mercado de trabalho.

Para a consultora, a ideia de que as máquinas substituirão as pessoas é falsa. Surgirão novas oportunidades em áreas como as tecnologias de informação, educação, saúde, cuidados domésticos e trabalhos criativos. É conhecida a expressão espúria que “65% das profissões do futuro ainda não foram inventadas”. Nenhum suporte estatístico ou científico a apoia mas, apesar disso, traduz uma ideia válida: o mercado de trabalho evolui a uma velocidade muito mais rápida que no passado. O desafio? Conseguir acompanhar esta velocidade.

Vamos viver com qualidade?

Já sabe que vai viver até mais tarde, mas vai ter qualidade de vida até mais tarde? Os dados do Eurostat trazem más notícias. Os homens portugueses vivem, em média, sete anos saudáveis depois de fazerem 65 anos. As mulheres ficam-se pelos 5,4 anos. Um valor distante da média da União Europeia, que é de 9,4 anos.

Existe uma explicação: quanto menor for a escolaridade e o rendimento, menor será o número de anos saudáveis após os 65. Três quartos dos portugueses com mais de 65 anos têm o primeiro ciclo de escolaridade. A pensão de velhice média em Portugal, em 2016, era de 5 131 euros anuais, o equivalente a 427 euros mensais. Em relação ao primeiro fator, há uma batalha que está a ser ganha: 83% dos portugueses entre os 18 e os 24 anos concluíram o ensino secundário. Falta vencer a guerra das condições económicas.

Saúde e Segurança Social sustentáveis

José Almeida questiona-se sobre como será a vida das pessoas que têm doenças degenerativas como a da sua mulher e não têm capacidade financeira para lidar com elas. “Situações como a da Isabel arrastam-se durante anos. Enquanto sociedade, não estamos preparados para cuidar dos mais velhos.” Se o aumento da longevidade das pessoas é uma coisa boa, a pressão que este novo paradigma coloca sobre o sistema de saúde e de pensões é muito grande. “Temos de decidir se queremos manter o Estado Social.

O objetivo do SNS e do Sistema de Segurança Social é cobrir riscos sociais. E isto é um ganho civilizacional enorme que não pode ser desperdiçado. Por isso, temos de encontrar soluções para que todo este sistema, que está em risco, funcione e se mantenha sustentável”. O alerta é de Maria Teresa Garcia, economista e professora no ISEG – Universidade de Lisboa.

Segundo o The 2018 Ageing Report, a idade média da reforma em 2070 será de 66,4 anos. “O atual sistema de repartição já provou ser o mais resiliente. Parte de um pacto intergeracional que se manteve ao longo de décadas está sujeito a um risco demográfico, mas este risco não apareceu ontem. A primeira Lei de Bases da Segurança Social data de 1984. E os problemas de hoje já eram falados na altura. Sabíamos que os excedentes criados seriam necessários no futuro para equilibrar o sistema. Mas foram usados para outros fins”, afirma Teresa Garcia.

A solução? Taxa do lixo

Como se ultrapassa, então, este cenário? Se estiver nos 30, 40 ou 50 anos já sabe que vai viver mais tempo. Por isso, tem de preparar o seu futuro. Isso também implica assegurar complementos de reforma que anulem eventuais perdas de rendimento. E pensar onde e de que forma quererá viver as últimas décadas da sua vida.

“Se a fonte do financiamento tradicional – a remuneração do trabalho – não é suficiente, temos de encontrar fontes alternativas, pensar fora da caixa. A poluição é um problema tremendo e tem reflexos na vida das gerações futuras. Assim, poderíamos pensar numa taxa do lixo para a Segurança Social. Quando compramos um produto, ele tem um custo ambiental e o consumidor-poluidor deveria ser chamado a pagá-lo. Esses pagamentos poderiam contribuir para a sustentabilidade do sistema de Segurança Social”, exemplifica Teresa Garcia.

Agora não tem desculpa: o aviso está feito. O mais certo é conseguir bater a marca dos 90 anos e, possivelmente, dos 100 anos. Está preparado para isso ? E estará a nossa sociedade preparada?

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