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6 dicas para viajar com uma autocaravana

Há cada vez mais autocaravanas nas estradas portuguesas e quem experimenta não quer outra coisa. Falámos com três casais praticantes do autocaravanismo que nos revelaram as suas dicas para uma viagem “com a casa atrás”.

autocaravana

Em 2013, a família Maia fez uma viagem que mudaria a sua vida: uma roadtrip pela Holanda de autocaravana, uma “velhinha” Riviera Fiat Ducato, alugada, com mais de 20 anos e com a qual percorreu 1 500 quilómetros. “Éramos quatro e nunca tínhamos feito autocaravanismo. A Carolina tinha cinco anos e o André dois, mas foi incrível”, conta Ângela Fonseca, de 39 anos. “Para nós existe uma vida antes e depois desta viagem. A partir dessa data ficou claro que um dia haveríamos de ter a nossa própria ‘casa sobre rodas’.” Três anos mais tarde, compraram a Micas e quando, um ano mais tarde, a família aumentou e trocaram-na pela Milú, na qual viajam, regularmente, para vários destinos nacionais e internacionais.

Todos os anos, milhares de autocaravanas como a Milú percorrem as estradas portuguesas à procura de bom tempo, momentos de lazer em comunhão com a natureza e a liberdade para decidir, hora após hora, o próximo destino.

Para Rita e Miguel Martins, de 36 e 40 anos e com dois filhos de dois e cinco anos, a compra da autocaravana foi bastante planeada. Após vários anos a poupar com este objetivo, adquiriram a autocaravana no início de 2018 e, sem qualquer experiência prévia, fizeram planos para a sua primeira grande viagem: de Lisboa até à Suécia. “Foram mais de 7 mil quilómetros em três semanas. Correu muito melhor do que alguma vez imaginámos, porque uma viagem tão grande com duas crianças pequenas tem tudo para correr mal”, revela Rita Martins.

Dar a volta ao mundo

David e Marília Estrela, de 70 e 60 anos, já andam nestas lides há mais de uma década. Compraram a primeira autocaravana em 2007, um ano após se terem aposentado, com o objetivo de correr o mundo. “Já tínhamos viajado muito mas queríamos visitar os países de forma mais profunda, com tempo”, conta David Estrela.

Os dois anos seguintes foram passados a conhecer a viatura, entre “pequenas viagens” pela Europa e Marrocos. Até que, em 2010, embarcaram na sua primeira grande aventura: ligar Portugal à China, passando pelo Cáucaso e pela Ásia Central. Ao longo de cinco meses, percorreram quase 26 000 quilómetros e passaram por 17 países, entre os quais Geórgia, Azerbeijão, Irão, Turquemenistão, Uzbequistão, Quirguizstão e Cazaquistão. Seguiram-se outras grandes viagens: até ao Cambodja, Cabo Norte (Noruega) e Japão. Em 2015, começaram a ‘mãe de todas as viagens’: ligar a Patagónia ao Alasca, ou seja, percorrer as Américas de uma ponta à outra. Foram dois anos a viajar, 78 000 quilómetros e 22 países percorridos.

Três experiências bastante diferentes, mas com uma paixão comum: viajar de autocaravana. Fique a conhecer as suas dicas para fazer umas férias tranquilas com a casa às costas.

Viajar de autocaravana:

1. Conhecer a autocaravana

Embora as autocaravanas tenham (quase) todas as comodidades, existem particularidades que é importante conhecer. A água, o gás e a eletricidade são limitados e, periodicamente, é necessário parar numa área de serviço para abastecer o depósito de água potável e descarregar o reservatório das águas sujas, assim como as águas sanitárias.

Atualmente, a maioria das autocaravanas está equipada com painéis fotovoltaicos, baterias para armazenar a energia e inversores, que transformam a energia em corrente alterna. Desta forma, pode ter acesso a eletricidade mesmo quando a auto- caravana está estacionada.

2. Delinear o percurso

Podem ser férias de muita aventura, mas requer preparação. “Não somos muito organizados, mas tivemos que ser. Quando fizemos a nossa viagem, delineámos um itinerário que acabou por nos servir de referência. Nem sempre o cumprimos e houve alturas em que mudámos de rota, mas atingimos os nossos objetivos sempre na altura certa”, contou Rita Martins.

Para Ângela Fonseca, a viagem começa logo na preparação. “Eu adoro planear viagens, procurar aquela aldeiazinha desconhecida, o restaurante típico, o parque natural que os miúdos vão adorar, por isso habitualmente definimos um itinerário, mas que é flexível. E é muito comum mudarmos de planos”.

Lembre-se: Ter um GPS é útil, mas em determinados locais não há internet, por isso, transportar mapas físicos pode trazer muitos benefícios.

3. Investigar os caminhos

No caso de David e Marília Estrela, a preparação das suas viagens é feita “meticulosamente”. Nada pode ser deixado ao acaso. As viagens são muito estudadas, os itinerários bem definidos e fazem planos ‘A’, ‘B’ e ‘C’, contou David, exemplificando: “durante a viagem que fizemos às Américas, havia distâncias de 400 a 500 quilómetros em que não havia uma bomba de gasolina ou estação de serviço. Já sabíamos, antes de partir nesse percurso, que tínhamos de ter uma reserva (água e gasolina), para acautelar”.

Esta investigação é particularmente relevante quando se tratam de viagens a destinos pouco explorados e onde Portugal tem pouca expressão. “Em alguns países quase ninguém sabe onde é Portugal e não temos embaixadas”. Ajuda ler relatos de pessoas que fizeram viagens idênticas, que pode encontrar em blogues, nacionais e internacionais.

Por exemplo, no blogue “Os Estrelas na Rota da Seda”, David Estrela relata minuciosamente as suas viagens de autocaravana, com conselhos e dicas de todos os países por onde passaram.

4. Planear as refeições

“Como temos filhos pequenos, as nossas refeições são feitas quase sempre na autocaravana. Quando fomos à Suécia, levámos alguns mantimentos de Portugal e algumas ideias de refeições simples para cozinhar. O resto fomos comprando pelo caminho, em supermercados e mercados”, contou Rita Martins.

Viajar com a “casa às costas” tem destas vantagens: a cozinha está sempre à mão e a qualquer momento é possível parar para cozinhar e comer. Ou então, escolher um restaurante típico para conhecer a gastronomia local. Porém, se quer poupar dinheiro e tiver essa organização, o menu das refeições é uma ajuda.

5. Saber onde pernoitar e fazer despejos

“Quando pretendemos ficar mais dias ou ter acesso a outras comodidades optamos por ficar em parques de campismo. Em estadias mais curtas ou de passagem ficamos em áreas de serviço para autocaravanas ou estacionamentos que permitam a pernoita”, explica Ângela Fonseca.

Em viagens grandes, torna-se mais importante planear antecipadamente onde pernoitar. Para ajudar a este planeamento, pode recorrer a aplicações, como a Park4Night. Através desta aplicação francesa pode encontrar um local para passar noite, que pode ser um parque de autocaravanas pago ou um estacionamento gratuito que permita a pernoita. Seleciona o sitio escolhido, sincroniza com o GPS do smartphone e é encaminhado para o local. Pode também saber, ao longo do seu percurso, onde realizar os despejos e encher o depósito da água.

6. Ter consciência que imprevistos acontecem

Um problema mecânico, um pneu furado ou um imprevisto com a polícia, são algumas das histórias mais comuns de autocaravanistas. Ângela Fonseca recorda-se de uma vez que ficaram num parque de autocaravanas em Peso da Régua, “mesmo junto ao rio, com uma paisagem fantástica e que prometia uma noite de sono profundo”. Mas não. Pouco depois de se deitarem foram acordados por uma batida tão intensa que até as louças trepidavam. “Descobrimos que era um festival de trance psicadélico e que não iria terminar tão cedo. Às 03h00 da manhã estávamos nós de pijama a sair com a autocaravana para outro parque”, conta Ângela.

Para David Estrela, as histórias multiplicam-se. O viajante recordou inúmeros episódios que já lhe aconteceram ao longo das suas viagens: “Na Colômbia ficámos parados durante quase 10 dias, por causa de um bloqueamento. O mesmo voltou a acontecer no Perú, mas foram só dois dias. Tivemos outras situações mais graves. Fomos detidos no Turquemenistão por tirarmos fotografias e fomos ameaçados de morte pela polícia no Cazaquistão. Tudo acabou bem, mas apanhámos grandes sustos”.

Em Portugal, é legal pernoitar em qualquer lugar?

Existem três hipóteses para a pernoita: parques de campismo, parques de autocaravanas ou pernoitar num estacionamento publico, respeitando as regras do Código da Estrada. Esta última hipótese deve ser bem equacionada, pois nem sempre é bem vista. No entanto, segundo esclarecimentos da Associação Autocaravanista de Portugal (CPA), a “pernoita não é uma atividade proibida”. Segundo a associação, em Portugal não existe legislação específica relativamente à paragem e estacionamento de autocaravanas. “Desde que os veículos se encontrem estacionados em lugar público, em conformidade com a lei, as pessoas podem pernoitar no seu interior – acordadas ou a dormir – sem que as autoridades públicas as possam impedir ou importunar por esse efeito”, diz a CPA.

Em caso de estacionamento em via pública apenas é permitido estacionar a autocaravana e pernoitar. Abrir o toldo ou colocar a mesa no exterior é ocupação da via pública.

 

Nota: Este artigo foi originalmente publicado na edição 28 da revista Montepio. Clique aqui para descarregar a revista.

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