Como identificar e lidar com a infidelidade financeira?

Numa relação, falar sobre dinheiro é muitas vezes tabu. Mas a grande questão é quando o tema se torna um segredo. Esconder um cartão de crédito, uma dívida ou gastos excessivos são alguns exemplos de situações frequentes de infidelidade financeira. Neste artigo, ajudamo-lo a evitar traições no campo das finanças.
Artigo atualizado a 29-06-2021

Uma boa relação assenta na confiança. No entanto, há situações em que pode ser comprometida por um comportamento pouco transparente ou uma gestão financeira que prejudica a vida doméstica. Uma coisa é certa: falar de dinheiro faz parte da vida de casal. Evitar falar de finanças é uma das falhas apontadas pelos especialistas como propulsoras de um ciclo vicioso que termina em secretismo e, por vezes, surpresas desagradáveis.

O que é a infidelidade financeira?

Quando duas pessoas dão o passo de viver juntas, a partilha estende-se a campos além das tarefas da casa. As finanças do casal entram na rotina diária, tocando, muitas vezes, em grandes planos a dois, como a compra de habitação, automóvel ou na viagem de sonho. Mas, é na intimidade que muitas vezes crescem mundos paralelos. A infidelidade financeira acontece quando, numa relação, alguém esconde de outra pessoa a sua prática em relação ao dinheiro. Por vezes, há decisões unilaterais que afetam o projeto familiar. Possuir um cartão de crédito secreto, ocultar dívidas ou gastar dinheiro de forma excessiva, e às escondidas, são três dos exemplos mais comuns deste quadro.

Por que mentem as pessoas sobre o dinheiro?

Defrontar-se com uma dívida ou com uma situação de incumprimento de pagamento é uma “experiência muito humana, que pode acontecer a qualquer um. Não é exclusiva de classes mais baixas ou de pessoas iletradas”, refere João Raposo, administrador da empresa de consultoria financeira Reorganiza. Segundo o especialista, a vergonha é muitas vezes um motor dos casos de infidelidade financeira, até por questões culturais que fazem do tema do dinheiro um tabu para os portugueses.

A falta de literacia financeira está na base da má gestão das finanças em família, defende a psicóloga clínica Catarina Mexia. “Desde pequenos que não sabemos o valor do dinheiro, não temos literacia financeira no nosso país”, explica. Essa falta de conhecimentos é transportada para a vida a dois, fazendo com que a maioria dos casais aplique uma “gestão de merceeiro” e que não tenha a prática de “fazer um orçamento familiar”. Muita desta falta de planeamento e comunicação acontece, acredita a terapeuta de casal, porque na nossa sociedade o dinheiro é um tema tabu. “Até mais do que o sexo.”

O problema não é exclusivo de Portugal. Em 2019, um estudo concluiu que 41% dos norte-americanos escondiam contas, dívidas ou hábitos de consumo do seu companheiro. E são os millennials, franja da população nascida entre 1980 e o final dos anos 1990, os mais ativos nesta postura. Os assuntos relacionados com dinheiro são, aliás, uma das principais causas de divórcio em todo o mundo.

Quanto mais tempo passar, pior

Há uma razão para que o dinheiro seja tabu, ou quase, nas nossas vidas. Ele está ligado a algumas das nossas “maiores alegrias e frustrações”, acredita João Raposo. “É absolutamente relevante debatermos estas questões desde o início.”  O especialista dá conta da sua experiência: “Não é raro acompanhar pessoas que me vêm pedir apoio, mas que dizem: ‘Eu tenho esta situação, mas a minha mulher, ou o meu marido, não pode saber’”. Normalmente, a pessoa apenas pede ajuda quando já se sente “apertada” e não numa ótica de prevenção. “Penso que tem a ver com o facto de muitas pessoas acharem que têm de ser auto-suficientes, que têm de resolver as situações sozinhas. Mas se em muitas situações da vida dizemos que o tempo cura tudo, nas questões financeiras, acontece exatamente o contrário. O tempo só faz piorar”, alerta João Raposo.

Em vez de procurar desculpas, a atitude mais acertada é apostar na transparência e na boa comunicação. Se, desde o início, ambos os elementos do casal conhecerem as dívidas existentes, o património de cada um, quanto ganham, quais os objetivos de vida e quanto pensam gastar, as probabilidades de infidelidade financeira caem para perto do zero.

Antes de assumir uma união de facto ou um casamento, é importante definir como o dinheiro e o restante património será detido e gerido. Se tal não acontecer antes do início da relação, não o fazer depois é um erro que muitos casais cometem, afirma Catarina Mexia. “Há três das caraterísticas comuns nos casos de infidelidade financeira: disparidade de rendimentos entre os elementos do casal, situações de dependência financeira ou desequilíbrios no património anterior à relação”, afirma a terapeuta. Quem ganha mais, quem contribui para o quê e quem esconde o quê são questões que podem gerar tensão e diminuir a vontade de debater o assunto no quotidiano.

Tenho de contar tudo ao meu parceiro?

É incorreto deixar que um dos elementos do casal gaste o seu dinheiro em pequenos prazeres sem contar ao outro? “A autonomia financeira é importantíssima”, responde a psicóloga clínica. Numa relação saudável, a transparência é praticada de forma que a pessoa não precisa de mostrar tudo o que gasta nem de pedir licença para gastar. Há um conhecimento tácito sobre os hábitos de consumo de cada indivíduo e sobre as suas responsabilidades enquanto contribuinte do plano familiar.

Por outro lado, o facto de alguém querer esconder um gasto excessivo, ou ter uma conta bancária secreta, pode ter na base diferentes motivações, como explica Catarina Mexia. “Podemos estar a falar de uma situação de patologia, como perturbações de ansiedade ou de personalidade, ou situações em que o casal, com o tempo, sente cada vez mais as suas vidas espartilhadas.”

4 dicas para ser fiel ao dinheiro do casal

João Raposo e Catarina Mexia partilham alguns conselhos para promover uma relação saudável nos casais, quando o dinheiro entra na equação.

  • Planeie bem

Divida a gestão do dinheiro em três grupos: os gastos essenciais, que incluem as despesas com habitação, comida, escola ou saúde; as despesas que resultam de obrigações contratuais, como cartões de crédito ou a mensalidade do ginásio; e os chamados gastos superficiais, que se centram no lazer. Tudo isto deve ser claro, partilhado e passível de discussão como qualquer outro tema em casa.

  • Assuma um plano adequado ao perfil de cada um

Não existe uma receita infalível para a gestão do dinheiro, admite João Raposo. Ainda que seja mais comum surgirem “vidas paralelas” nos casais com contas separadas, partilhar as questões de dinheiro não quer dizer que as pessoas tenham de ter contas conjuntas. “Isso depende muito do perfil de cada um e da própria relação.”

  • Aligeire o tema “dinheiro”

Uma das formas para introduzir o assunto de forma saudável na família é incluir os filhos na conversa. “Falar sobre a gestão do dinheiro para as férias, começar por pequenas coisas como se naquela semana há orçamento para gelados” é uma boa forma de trabalhar os temas financeiros em casa. Em suma, “é preciso criar-se um ambiente ligeiro para falar de dinheiro”.

  • Considere o lado emocional dos gastos

Se notar algum comportamento fora do habitual do seu companheiro no plano das finanças, tente interpretá-lo. Segundo Catarina Mexia, é fundamental “tentar compreender, em casal, qual o contexto emocional e de necessidades não satisfeitas” que pode levar a compras por impulso, por exemplo.

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