Luto prolongado: o que é e como lidar

O luto pode persistir para além do tempo considerado “normal”. Saiba como identificar e enfrentar o luto prolongado, declarado recentemente como um distúrbio mental.
Artigo atualizado a 01-07-2024

Vivido pela grande maioria das pessoas em determinada altura da vida, o luto é um processo natural e adaptativo face a uma perda significativa (normalmente a morte de um ente querido). Esta resposta é frequentemente acompanhada de sentimentos de tristeza profunda, negação, raiva ou culpa.

Apesar de o luto se manifestar de forma diferente de pessoa para pessoa, na maioria dos casos, tende a culminar com a aceitação da perda e a reorganização pessoal e social. No entanto, fatores pessoais, familiares e sociais podem dificultar o processo de luto normal, desencadeando reações severas e incapacitantes por um longo período, com graves repercussões físicas e mentais. A este fenómeno dá-se o nome de luto prolongado.

Neste artigo, partilhamos algumas informações úteis para enfrentar o luto prolongado da melhor forma.

O que é o luto prolongado?

O luto prolongado (anteriormente denominado também de “complicado”) tem vindo a ser estudado há várias décadas. Foram as conclusões decorrentes destas investigações que possibilitaram, em 2022, o reconhecimento do luto prolongado como um distúrbio mental associado ao stress, tanto na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial de Saúde (OMS), como na última atualização do DSM-5, manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais, da Associação Americana de Psiquiatria (APA, sigla em inglês), utilizado em todo o mundo.

 

 

Como é que as entidades descrevem este distúrbio mental?

A OMS define o luto prolongado como uma perturbação em que, na sequência da morte de um “parceiro, progenitor, filho ou outra pessoa próxima”, existe uma “persistente e penetrante resposta de luto”, caracterizada por “dor emocional intensa”, que pode envolver um conjunto de sentimentos, como raiva, negação, tristeza, culpa, incapacidade para expressar pensamentos positivos ou de envolver-se em atividades sociais.

Por sua vez, a APA destaca o caráter incapacitante do distúrbio: o luto prolongado afeta o desempenho das tarefas normais do dia a dia, assim como a capacidade de envolvimento do indivíduo em atividades sociais, de forma mais agravada face ao luto normal, potenciando o isolamento e a solidão.

Mas, para o luto prolongado ser considerado um distúrbio, não basta provocar sofrimento. Como o nome indica, a grande diferença entre o luto prolongado e o luto considerado “normal” é a duração. A OMS estabelece que o luto prolongado tem de “persistir durante um período de tempo atípico”. Esse período, descreve ainda, deverá exceder “claramente as normas sociais, culturais ou religiosas expectáveis para os indivíduos de uma cultura e contexto”.

Como é efetuado o diagnóstico?

Para o diagnóstico clínico de distúrbio prolongado, é necessário que se verifiquem alguns requisitos específicos. Assim, como referido atrás, o luto tem de prolongar-se no tempo, ultrapassando o limite temporal estabelecido pela OMS de, no mínimo, seis meses. No caso da APA, esse período é de seis meses para crianças e adolescentes e de um ano para adultos. No entanto, o contexto social, cultural e religioso pode prolongar estes prazos.

Além do requisito temporal, segundo a APA, é ainda necessário que, pelo menos, no mês anterior ao diagnóstico de luto prolongado, o indivíduo tenha manifestado quase todos os dias três dos seguintes sintomas:

  • Perturbação de identidade (sentir como se parte de si tivesse morrido);
  • Forte sentimento de descrença em relação à morte da pessoa;
  • Evitar ser recordado de que a pessoa está morta;
  • Dor emocional intensa (como raiva, amargura, tristeza) ligada à morte da pessoa;
  • Dificuldade de reintegração (como problemas relacionados com relações com amigos, explorar interesses ou o planeamento para o futuro);
  • Dormência emocional (ausência ou redução acentuada da experiência emocional);
  • Sentir que a vida não faz sentido;
  • Solidão intensa (sentir-se sozinho ou separado dos outros);
  • O luto dura mais tempo do que seria esperado com base nas normas sociais, culturais ou religiosas.

Quais são os grupos de risco?

Além de ser mais prevalente em mulheres, também os indivíduos mais velhos e pessoas com histórico de depressão e de transtorno bipolar têm maior risco de desenvolver distúrbio do luto prolongado.

De acordo com a APA, cuidadores, sobretudo os que estavam a cuidar de um parceiro ou que sofreram depressão antes da perda, apresentam também um risco aumentado.

A investigação científica concluiu, ainda, que, quanto mais repentina a morte e traumática a sua circunstância, maior o risco de desenvolver este distúrbio.

Como se manifesta o luto prolongado nas crianças?

As crianças apresentam mais dificuldades em vivenciar o luto. Tal deve-se ao facto de ainda não terem mecanismos cerebrais completamente desenvolvidos que permitam processar o luto de forma consciente. Nestes casos, o luto manifesta-se de forma comportamental, por exemplo, nas brincadeiras ou noutras atividade envolvendo temas de separação ou morte. Podem ainda observar-se os seguintes comportamentos:

  • Esperar pelo regresso da pessoa que morreu;
  • Vontade de visitar o local onde viu a pessoa que morreu pela última vez;
  • Medo de que outras pessoas possam morrer;
  • Ansiedade de separação provocada pela preocupação face à segurança e ao bem-estar dos seus cuidadores;
  • Foco nas circunstâncias em que a pessoa morreu;
  • Pensamentos fantasiosos.

Em crianças mais pequenas, a tristeza profunda ou a dor emocional pode surgir de forma alternada com um humor aparentemente normal.

Irritabilidade, comportamentos de protesto e birras são alguns dos sinais apresentados por crianças. Os comportamentos associados à Perturbação Desafiante de Oposição – uma perturbação infantil psiquiátrica que se expressa através de sentimentos de raiva e irritabilidade, comportamentos desafiantes ou de caráter vingativo dirigido aos pais ou a outros elementos de autoridade – são também possíveis expressões do luto prolongado nos mais novos.

Qual a diferença entre o distúrbio do luto prolongado e a depressão?

Ainda que alguns dos sintomas do luto prolongado sejam semelhantes aos observados em quadros de depressão — como tristeza, isolamento social ou sentimentos de culpa — estas duas patologias mentais são distintas.

O distúrbio do luto prolongado é “focado na perda de um ente querido”, ainda que os pensamentos depressivos possam impactar várias frentes da vida, diz a OMS. Além disso, a patologia do luto prolongado acarreta um conjunto de sintomas que não fazem parte da depressão, como a dificuldade e raiva em aceitar a perda ou o sentir que também uma parte de si morreu.

Apesar das diferenças, as duas doenças podem ocorrer em simultâneo. Não é, aliás, raro que o luto prolongado ocorra em pessoas com outros diagnósticos de distúrbios mentais, como stress pós-traumático, ansiedade ou depressão.

Qual o tratamento do luto prolongado?

Apesar de doloroso, o processo de luto considerado normal não tende a exigir tratamento. O mesmo não se pode dizer no caso do luto prolongado.

De acordo com uma investigação publicada no National Library of Medicine, as pessoas com distúrbio do luto prolongado têm um risco aumentado de sofrer consequências adversas de saúde, devendo ser diagnosticadas e avaliadas quanto ao risco de suicídio e de outras patologias associadas a este tipo de luto (como depressão e stress pós-traumático) e consideradas para tratamento.

Abordagens terapêuticas

A terapia cognitivo-comportamental tem-se demonstrado “eficaz na redução dos sintomas” do transtorno, indica a APA. Os grupos de apoio, refere a mesma associação, também demonstraram ser vantajosos no tratamento do problema, já que “constituem uma fonte útil de ligação e de apoio social”, eficaz no combate dos sentimentos de solidão e do isolamento, contextos que potenciam o agravamento do distúrbio do luto prolongado.

Além disso, foi criado um método de psicoterapia específico para tratar este distúrbio: a terapia do luto prolongado. Trata-se de uma abordagem desenhada especificamente para tratar este problema de saúde, cientificamente testado e desenvolvido por Kahterine Shear, psiquiatra e investigadora responsável pela criação de um centro dedicado ao desenvolvimento de tratamentos do luto prolongado, na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

A terapia do luto prolongado apresenta semelhanças em relação às técnicas utilizadas nos tratamentos da depressão e do transtorno de stress pós-traumático (TSPT). Nestas sessões, o indivíduo tem a oportunidade de explorar reações e sintomas ligados ao luto prolongado, à adaptação à perda e redefinição de objetivos de vida; processar pensamentos e emoções; desenvolver habilidades para lidar; e reduzir os sentimentos de culpa e responsabilidade.

A Mayo Clinic destaca que pode ser preciso a realização de outras terapias, em simultâneo, dependendo das patologias apresentadas pela pessoa. A medicação utilizada para tratar a depressão não mostrou efeitos relevantes no tratamento de pessoas que sofrem de distúrbio do luto prolongado, o que reforça a ideia de que esta patologia é diferente da depressão. Investigações indicam, inclusive, que as regiões do cérebro afetadas são distintas.

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