Passo a passo: como calcular o IRS de 2020 (a declarar em 2021)

Soma, subtração, divisão e multiplicação. O processo de apuramento do IRS implica fazer todas estas operações e várias vezes. Saiba como calcular o IRS e fique a saber antecipadamente se vai pagar imposto adicional ou receber reembolso este ano.
Artigo atualizado a 15-02-2021
Como calcular o IRS sem (muitas) complicações?

Saber como calcular o IRS é importante para poder planificar as finanças pessoais. Por exemplo, em caso de reembolso, pode destinar-se esse dinheiro para pagar despesas extraordinárias, como o seguro do carro ou os livros escolares dos filhos. Já em situação de imposto adicional a pagar, podem fazer-se algumas poupanças para acautelar esse pagamento. Veja, com a ajuda de um exemplo, como calcular o IRS em 2020, referente aos rendimentos de 2019.

Exemplo

Imagine-se o caso de uma família composta por um casal, ambos trabalhadores dependentes, e dois filhos com mais de três anos de idade, residente no continente.

Elementos para calcular o IRS

Cônjuge 1

Salário mensal bruto: 2 500 euros (35 000 euros anuais)
Retenção mensal na fonte de IRS (taxa de 24,4%): 610 euros (8 540 euros anuais)
Contribuição mensal para a Segurança Social: 275 euros (3 850 euros anuais)
Despesas gerais familiares: 7 000 euros
Despesas de saúde: 100 euros

Cônjuge 2

Salário mensal bruto: 1 300 euros (18 200 euros anuais)
Retenção mensal na fonte de IRS (taxa de 13,1%): 170 euros (2 380 euros anuais)
Contribuição mensal para a Segurança Social: 143 euros (2 002 euros anuais)
Despesas gerais familiares: 5 000 euros
Despesas de saúde: 900 euros

Filhos

Despesas de saúde: 200 euros
Despesas de educação: 6 500 euros

Como calcular o IRS  (tributação conjunta)

1.º passo: calcular o rendimento anual bruto do casal

Para se determinar o rendimento anual bruto do casal, somam-se os rendimentos brutos anuais de ambos os cônjuges.

35 000 euros + 18 200 euros = 53 200 euros

2.º passo: calcular o rendimento coletável do casal

O rendimento coletável do casal calcula-se subtraindo ao rendimento bruto apurado no passo anterior as deduções específicas aplicáveis, ou seja, as que correspondem aos rendimentos do trabalho dependente (categoria A). No caso em análise, cada cônjuge tem direito a um abatimento automático de 4 104 euros, o que totaliza um desconto de 8 208 euros.

53 200 euros – (4 104 euros + 4 104 euros) = 44 992 euros

3.º passo: dividir o rendimento coletável do casal por dois

Como o casal pretende optar pela tributação conjunta é necessário dividir o rendimento coletável pelo quociente familiar, isto é, por dois. Caso preferisse ser tributado em separado, este passo era desnecessário.

44 992 euros : 2 = 22 496 euros

4.º passo: encontrar o escalão e a taxa de IRS

Para saber qual é o escalão e a respetiva taxa de IRS, basta verificar na tabela das taxas gerais de IRS (ver abaixo) a que intervalo corresponde o rendimento apurado no passo anterior (22 496 euros).

EscalãoRendimento sujeito a impostoTaxa normal Taxa média
1.º Até 7 112€14,5%4,500%
2.º De mais de 7 112€ até 10 732€23%17,367%
3.º De mais de 10 732€ até 20 322€28,5%22,621%
4.ºDe mais de 20 322€ até 25 075€35%24,967%
5.ºDe mais de 25 075€ até 36 967€37%28,838%
6.ºDe mais de 36 967€ até 80 882€45%37,613%
7.ºSuperior a 80 882€48%

O rendimento de 22 496 euros enquadra-se no 4.º escalão (de mais de 20 322 euros até 25 075 euros), ao qual corresponde uma taxa normal de IRS de 35%.

5.º passo: calcular a coleta

A coleta – ou seja, o imposto a pagar ao Estado sem quaisquer descontos – pode ser calculada de três formas, como mostramos em seguida. Em qualquer dos casos, o IRS recai sobre o rendimento coletável dividido por dois (no caso da tributação conjunta). Por outras palavras, é sobre o rendimento coletável dividido por dois que se aplicam as taxas de IRS.

Método 1

Distribui-se o rendimento coletável dividido por dois pelos vários escalões até ao escalão em que ficou enquadrado (ver passo anterior) e aplicam-se as taxas normais correspondentes, com base na tabela das taxas gerais de IRS. Depois, somam-se as várias parcelas e multiplica-se o resultado pelo quociente familiar, ou seja, por dois.

  • Distribuição do rendimento coletável dividido por dois

Os 22 496 euros são distribuídos da seguinte forma:

1.º escalão

Vai até 7 112 euros. Por isso, é este o valor que é encaixado neste escalão. Ficam a sobrar 15 384 euros (22 496 euros – 7 112 euros).

2.º escalão

Vai desde mais de 7 112 euros até 10 732 euros. Aqui,  só cabem 3 620 euros (10 7732 euros – 7 112 euros). Faltam encaixar 11 764 euros (15 384 euros – 3 620 euros).

3.º escalão

Vai desde mais de 10 732 euros até 20 322 euros. Ou seja, é possível colocar 9 590 euros (20 322 euros – 10 732 euros). Mesmo assim, ainda restam 2 174 euros para perfazer os 22 496 euros.

4.º escalão

Vai desde mais de 20 322 euros até 25 075 euros. Cabem, portanto, 4 753 euros (25 075 euros – 20 322 euros). Mas só é necessário inserir 2 174 euros.

  • Aplicação das taxas

Multiplica-se o rendimento coletável dividido por dois que coube em cada escalão pela taxa normal correspondente.

1.º escalão

7 112 euros x 14,5% = 1 031,24 euros

2.º escalão

3 620 euros x 23% = 832,6 euros

3.º escalão

9 590 euros x 28,5% = 2 733,15 euros

4.º escalão

2 174 euros x 35% = 760,9 euros

  • Soma dos valores dos escalões

De seguida, somam-se os valores obtidos para cada escalão.

1 031,24 euros + 832,6 euros + 2 733,15 euros + 760,9 euros = 5 357,89 euros

  • Aplicação do quociente familiar

Finalmente, multiplica-se o resultado anterior pelo quociente familiar, ou seja, por dois.

5 357 euros x 2 = 10 714 euros

  • Valor da coleta

A coleta totaliza 10 714 euros.

Método 2

O rendimento coletável dividido por dois é distribuído em duas parcelas. Uma, igual ao valor correspondente ao limite superior do penúltimo escalão, face ao escalão em que se ficou enquadrado, à qual se aplica a taxa média desse escalão. Outra, equivalente ao valor remanescente, à qual se aplica a taxa normal do escalão em que se ficou posicionado.

  • Distribuição do rendimento coletável dividido por dois

Na primeira parcela cabem assim 20 322 euros. Os restantes 2 174 euros ficam na segunda parcela.

  • Aplicação das taxas

À primeira parcela aplica-se a taxa média correspondente ao 3.º escalão e à segunda a taxa normal respeitante ao 4.º escalão.

Primeira parcela

20 322 euros x 22,621% = 4 597,03 euros

Segunda parcela

2 174 euros x 35% = 760,9 euros

  • Soma das parcelas

Somam-se as duas parcelas.

4 583,24 euros + 782,25 euros = 5 357,93 euros

  • Aplicação do quociente familiar

Multiplica-se o resultado anterior pelo quociente familiar.

5 357 euros x 2 = 10 714 euros

  • Valor da coleta

A coleta totaliza 10 714 euros.

Método 3

A coleta pode ainda ser calculada através da chamada tabela prática de IRS (ver abaixo), que é construída a partir da tabela das taxas gerais do IRS. Normalmente, é disponibilizada pelas consultoras. Este método é o que envolve menos contas. Insere-se a totalidade do rendimento coletável dividido por dois no escalão em que se ficou posicionado e aplica-se a taxa normal correspondente. Por fim, subtrai-se a respetiva parcela a abater.

EscalãoRendimento sujeito a impostoTaxa normal Parcela a abater
1.ºAté 7 112€14,5%0,00€
2.ºDe mais de 7 112€ até 10 732€23%604,54€
3.ºDe mais de 10 732€ até 20 322€28,5%1 194,80€
4.ºDe mais de 20 322€ até 25 075€35%2 515,63€
5.ºDe mais de 25 075€ até 36 967€37%3 017,27€
6.ºDe mais de 36 967€ até 80 882€45%5 974,54€
7.ºSuperior a 80 882€48%8 401,21€

  • Distribuição do rendimento coletável dividido por dois

Inserem-se os 22 496 euros no 4.º escalão.

Aplicação das taxas

Multiplica-se o rendimento coletável dividido por dois pela taxa normal do 4.º escalão.

22 496 euros x 35% = 7 873,6 euros

  • Dedução da parcela a abater

Ao valor resultante da aplicação da taxa desconta-se a parcela a abater correspondente.

7 873,6 euros – 2 515,63 euros = 5 357,97 euros

  • Aplicação do quociente familiar

Multiplica-se o resultado anterior pelo quociente familiar, ou seja, por dois.

5 357 euros x 2 = 10 714 euros

  • Valor da coleta

A coleta totaliza 10 714 euros.

 

6.º passo: calcular as deduções à coleta

Ao valor da coleta calculado no passo anterior são descontadas as deduções à coleta aplicáveis. No caso em análise são as seguintes:

  • 1 200 euros (dedução fixa por dependente com mais de três anos de idade: 600 euros)
  • 500 euros (dedução de despesas gerais familiares: 35% dos gastos até 250 euros por cada cônjuge)
  • 180 euros (dedução de saúde: 15% dos encargos até 1 000 euros por agregado familiar)
  • 800 euros (dedução de educação: 30% dos custos até 800 euros por agregado familiar)

1 200 euros + 500 euros + 180 euros + 800 euros = 2 680 euros

As deduções à coleta atingem 2 680 euros.

Note-se que a soma das deduções à coleta de despesas de saúde, educação, imóveis, pensão de alimentos, lares, exigência de fatura e de benefícios fiscais não pode ultrapassar um determinado limite, que varia em função do rendimento coletável, ou do rendimento coletável dividido por dois (na tributação conjunta). No caso do casal em análise, esse limite é de 2 185 euros.

Conheça todas as despesas que pode deduzir ao IRS em 2020

7.º passo: calcular a coleta líquida

A coleta líquida obtém-se subtraindo à coleta as deduções aplicáveis.

10 714 euros – 2 680 euros = 8 034 euros

Este é efetivamente o imposto devido pelo casal relativo aos rendimentos obtidos em 2019.

8.º passo: acerto de contas

Resta ainda saber se, em 2020, há IRS adicional a pagar ou a receber de volta, face ao que foi adiantado ao Estado ao longo do ano anterior por via da retenção mensal na fonte. Para isso, somam-se os valores retidos mensalmente pelos cônjuges em 2019. Se o resultado for superior à coleta líquida, significa que foi adiantado mais imposto do que o devido. Nesse caso, este ano, é devolvido o que foi pago a mais. Se, pelo contrário, o resultado for inferior, quer dizer que o imposto antecipado em 2019 foi insuficiente, pelo que, em 2020, deve ser pago o imposto em falta.

A retenção mensal na fonte do casal em 2019 atingiu 10 920 euros (8 540 euros + 2 380 euros). Como o valor é superior à coleta líquida (8 034 euros), há lugar a reembolso. O casal tem assim a receber 2 886 euros (10 920 euros – 8 034 euros)

Agora que já sabe como calcular o IRS, faça as contas ao seu imposto. Bons cálculos!

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